O vácuo deixado pela partida de Lugh durou apenas um suspiro. Diante de Fausto, Gogenar flutuava, a túnica espectral ondulando em uma brisa de energia pura. Não havia mais palavras de ódio, era apenas o reconhecimento silencioso de que a maior lição de suas vidas seria escrita em sangue e éter.
A batalha começou sem gestos. Fausto apenas desejou, e o mundo obedeceu.
— Ignis Gehenna! — bradou Fausto.
Esferas de fogo negro, densas como estrelas em colapso, brotaram do nada e avançaram como meteoros. O calor era tão intenso que o gelo da Antártica abaixo deles sublimou instantaneamente, criando um abismo de névoa. Gogenar, porém, não piscou. Seus dedos dançaram no ar, traçando geometrias perfeitas.
— Cocytus Absolute! — respondeu o espectro.
O ar cristalizou-se. Glaciares de gelo arcano, infundidos com o conceito do zero absoluto, ergueram-se para interceptar as chamas. O choque entre o calor primordial e o frio eterno gerou uma explosão de vapor que rasgou as nuvens, criando um vácuo de pressão que poderia esmagar cidades.
Fausto, percebendo que Gogenar estava antecipando cada feitiço clássico, sorriu com uma melancolia feroz.
— Você sempre foi um aluno excelente, Gogen. Mas eu nunca gostei de seguir o livro não e mesmo?.
Fausto rompeu a barreira de vapor. Ele não disparou mais magia, ele a vestiu. Sua Aura violácea condensou-se ao redor de seus punhos e pernas, transformando-o em um projétil de energia bruta. Ele encurtou a distância em um microssegundo.
Gogenar surpreendeu ao não recuar. O Rei da Magia converteu seus círculos mágicos em escudos de pulso e lâminas de prana, entrando em um duelo corpo a corpo que desafiava a física. Chutes que rachavam o espaço e socos que faziam o tempo oscilar foram trocados. Gogenar lutava com a precisão de um gênio que estudara cada fibra do combate, mas Fausto... Fausto lutava com a intuição de quem criara a própria fibra e se adaptava ao existir.
Se Gogenar era o gênio de um milhão de anos, Fausto era o ponto fora da curva da história universal. Com um movimento que mesclava artes marciais abissais e transmutação instantânea, Fausto atravessou a guarda de Gogenar, atingindo seu plexo e descarregando uma pulsação de energia que desintegrou os circuitos mágicos do espectro.
Gogenar caiu lentamente, sua forma etérea tornando-se transparente. Fausto aproximou-se e tocou sua testa.
— Descanse, meu amigo. O seu deus finalmente retornou
A alma de Gogenar foi colhida, desfazendo-se em luz azul que foi absorvida pelo peito de Fausto. O silêncio voltou à Antártica, pesado e frio.
Fausto virou-se, seus olhos opacos brilhando com uma fúria fria. Ele apontou o dedo para a irmã, que observava tudo de cima de um rochedo de gelo.
— Lilith. Acabou o teatro. Agora, somos só você, eu e o sangue da nossa linhagem que está prestes a ser derramado nesse gelo.
Lilith soltou uma risada melodiosa, mas seus olhos não sorriam.
— Você sempre foi impaciente, Fausto. Mas esqueceu que eu sempre tenho contra medidas?
Antes que Fausto pudesse avançar, o gelo à sua esquerda explodiu. Das sombras e da fumaça, surgiram Arga e Ur Nungal. Arga, embora ainda com marcas de queimaduras solares, exibia um sorriso vitorioso. Entre eles, arrastado pelas correntes de Til-Anunnaki e com a lâmina de Arga pressionada contra sua garganta, estava Gilgamesh.
O Rei de Uruk estava em um estado deplorável. O veneno da dúvida lançado por Arga sobre sua paternidade o fizera baixar a guarda por um segundo fatal, o suficiente para ser subjugado por dois adversários de sangue Nephilim.
— Dê mais um passo, Rei Profano de Malgor — sibilou Arga, pressionando o aço contra o pescoço de Gilgamesh, fazendo brotar um fio de sangue dourado. — E o escolhido da Espada Flamejante do Éden morre aqui
Fausto estancou. O poder que ele estava acumulando para enfrentar Lilith estagnou em suas veias, causando-lhe uma irritação sem iqual. Gilgamesh olhou para Fausto, não havia medo da morte em seus olhos, apenas uma fúria contida e a sombra de uma pergunta que ainda o assombrava.
Ur Nungal mantinha o escudo Dur-Uruk posicionado para proteger o trio. Eles usavam o Rei de Uruk como um escudo vivo.
— Que escolha patética você tem agora, irmão — provocou Lilith, descendo do rochedo e caminhando lentamente em direção ao impasse. — Você realmente achou que não sabíamos o verdadeiro motivo do seu interesse por Gilgamesh? A Espada do Éden é a única arma capaz de atravessar a Túnica de Adão. Forjada pelo próprio Altíssimo, ela só pode ser empunhada por um descendente de Noé que trilhe o caminho da luz… não é mesmo? Por isso você estava tão desesperado para impedir que Gilgamesh caísse na escuridão.
O espaço então se rasgou.
Inúmeras fendas se abriram no vazio, como feridas na própria realidade. Delas emergiram legiões incontáveis de Nephilim, seus corpos envoltos em glória profana, ajoelhando-se diante de Lilith enquanto tomavam o campo de batalha.
— Hoje será lembrado como o dia da vitória da Babilônia! — proclamou ela. — Com a queda de Fausto, o Rei Profano das terras de Malgor, o Carrasco dos Ímpios, a luz forjada nas trevas… quando colhermos sua alma, arrancaremos dela a localização do esconderijo de Noé e da Arca