O vento da Antártica parecia ter morrido, sufocado pela pressão esmagadora que emanava de Fausto. Ele não era mais um mago errante, nem o conselheiro melancólico, ele era a personificação de uma era de ferro e sangue que o mundo havia esquecido. Seu semblante estava endurecido, os olhos pulsando com uma luz fria que parecia pesar toneladas sobre o peito de quem o encarasse.
— Vocês buscam a minha morte? — A voz de Fausto não era alta, mas ressoava por dentro dos ossos de Arga e Ur Nungal. — Vocês realmente buscam o fim de Fausto, o Rei do Nada? Do Antigo Defensor de Malgor e carrasco final? Eu sou a luz lapidada nas trevas, o erro elevado ao absoluto. Nephilim, deuses, lendas e mitos, eu os matei quando seus nomes ainda faziam as estrelas tremerem
Fausto deu o primeiro passo. O gelo sob seus pés não apenas rachou, ele se pulverizou, e um abalo sísmico percorreu a geleira, desequilibrando os soldados de Lilith.
Arga, sentindo o suor congelar em sua nuca, pressionou a lâmina contra o pescoço de Gilgamesh com mãos trêmulas.
— Não se mova! Eu juro, eu corto a garganta dele aqui mesmo!
Fausto não parou. Ele continuou caminhando, a aura ao seu redor distorcendo o espaço como o calor sobre o asfalto. Ele fixou o olhar em Arga, uma conexão ocular tão intensa que o traidor sentiu sua própria alma gelar, como se estivesse sendo julgado por um tribunal eterno.
— Você acha que cortando a cabeça de Gilgamesh vai me deter? — Fausto deu um sorriso desprovido de qualquer humor. — Muito pelo contrário. A morte dele encerra minha restrição. Se você o matar, Arga, eu não pegarei mais leve. Sua morte será tão agonizante que o inferno parecerá misericórdia.
— AVANCEM! — gritou Lilith do alto de seu pedestal de gelo, sua voz carregada de uma urgência que traía seu nervosismo. — MATEM-NO AGORA!
Uma horda de Nephilim menores e soldados de elite de Babilônia investiu contra Fausto. O primeiro, um bruto de três metros com braços de pedra, lançou um soco direto. Fausto não desviou. Ele simplesmente ergueu a mão esquerda e segurou o punho colossal. O som do impacto foi como o de um canhão, mas o braço de Fausto não recuou um milímetro.
Com um movimento fluido, Fausto girou o pulso, quebrando o braço do oponente como se fosse um graveto seco, e o jogou contra o solo com tanta força que o corpo do soldado atravessou a camada de gelo, sumindo nas profundezas do oceano abaixo. Sem olhar para trás, ele estendeu a mão e, como se estivesse jogando um brinquedo fora, arremessou o cadáver contra três Nephilim que se aproximavam, derrubando-os como pinos de boliche.
Ele parou por um segundo. Seu olhar encontrou um grupo de arqueiros arcanos. Fausto não moveu um dedo, ele apenas expandiu sua vontade. No instante seguinte, o ar ao redor dos arqueiros entrou em combustão espontânea. Seus corpos explodiram em uma chuva de sangue e fumaça, manchando o gelo de carmesim.
Mais soldados avançaram, desesperados. Fausto movia-se com uma economia de movimentos assustadora. Um chute lateral partiu um guerreiro ao meio, as vísceras congelando antes de tocarem o chão. Um soco de curta distância desintegrou o peitoral de armadura de outro, atravessando seu tórax.
— O plano de Lilith é óbvio — pensou Fausto, enquanto desviava de uma lança e quebrava o pescoço do atacante com um golpe de palma. — Ela quer me desgastar. Cada vida que eu tiro aqui é uma gota de energia que eu gasto. Gilgamesh é a âncora que me mantém preso a este tabuleiro. Enquanto ele for um refém, não posso usar o Doom, nem invocar meus familiares, nem fugir através da viagem dimensional devido a barreira
Ele agarrou a cabeça de um Nephilim que tentou mordê-lo e a esmagou com os dedos, o som de osso estilhaçando ecoando no silêncio entre os gritos.
— Ela me quer exausto para o golpe final — concluiu ele, seus olhos violetas agora fixos em Ur Nungal, que assistia à carnificina com um misto de horror e fascínio. — Mas ela esqueceu de uma coisa, um leão encurralado continua sendo um leão!
Fausto permaneceu imóvel no centro de uma pilha de cadáveres, o vapor quente do sangue erguendo-se de suas mãos nuas como um presságio. O chão ao seu redor já não era um campo de batalha, mas um altar de morte.
Ainda assim, aquilo não passava de um prelúdio.
Os portais rasgaram a realidade mais uma vez, cuspindo guerreiros sem fim até que, enfim, trouxeram um desafio verdadeiro.
Quatro figuras ancestrais, remanescentes de uma era apagada pelo Dilúvio, manifestaram-se entre as fendas do espaço eram Birsa, Zoar, Semeber, Sinabe…e Bera. A presença deles fez o mundo estremecer, como se o própria mundo recusasse seu retorno.
Atrás dos reis antigos, legiões inteiras marchavam, seus estandartes profanos tremulando enquanto o passado retornava para reclamar o presente