Lucien acorda com uma pontada latejante na têmpora. O sofá afunda sob o seu peso.

“Eu não deveria ter bebido tanto.”
Com dificuldade, se levanta, sentindo o corpo pesar como se ainda estivesse carregando a noite anterior. Após anos de esforço, havia finalmente fechado um contrato grande. Suas obras seriam expostas em uma galeria renomada, vendidas por um preço que antes ele nem ousava sonhar. Comemorou com os amigos, é claro. Bebeu demais. Riu demais. E agora… estava pagando por isso.
Enquanto engolia um café requentado com o gosto amargo que gruda na língua, seus olhos se arrastaram até o relógio na parede. E então percebeu: estava atrasado.
Devia estar a caminho da reunião com seu empresário e o representante da galeria. Iria apresentar as obras escolhidas, explicar a complexidade por trás de cada uma. Nada que pudesse ser feito de ressaca, muito menos atrasado.
Sem pensar duas vezes, correu para se trocar. Quase caiu tentando vestir a calça enquanto andava pelo corredor. No desespero, estendeu a mão tateando a bancada à procura do celular de trabalho, os seus dedos encontram algo redondo. Não é o celular. Mas ele o enfia no bolso assim mesmo.
Não tinha tempo para pensar.
Apesar de ter se esforçado ao máximo, Lucien chegou vinte minutos atrasado. O representante o esperava com impaciência visível, tamborilando os dedos na mesa. O empresário tentava ganhar tempo com uma conversa desconexa, quase desesperada.
Sem fôlego, Lucien entrou na sala de reunião. O cabelo rebelde, a respiração pesada.
— Me desculpem… pela demora… meu carro deu problema no caminho — disse, ainda ofegante.
Cumprimentou o empresário, que respondeu com um olhar de reprovação. A mentira era óbvia, e o cheiro de álcool ainda impregnava em sua pele. Não teve tempo nem cabeça para disfarçar.
Quando o representante estendeu a mão, Lucien a apertou com mais um pedido de desculpas.
Ligou o aparelho que projetava as imagens das obras. A apresentação começou, seguindo o roteiro de sempre… até que uma imagem o travou. Uma das primeiras. Não era nem de longe uma das mais famosas, mas por algum motivo estava lá, encarando-o.
A sala sumiu. O som das vozes, os ruídos da rua, tudo ficou distante.
Ele olhava para a tela. Aquela pintura… quando havia feito aquilo? O que estava sentindo? O que queria dizer?
Por um instante, não soube mais quem era.
Havia se perdido em meio aos flashes, às entrevistas, às festas com gente que não lembrava o nome. Repetia frases bonitas em coletivas de imprensa, mas fazia tempo que não sentia nada ao pintar. Agora, diante daquela obra antiga, percebeu o quanto de si havia se esvaído.
Lembrava de acreditar que, se colocasse sentimentos verdadeiros em uma obra, alguém mesmo que não entendesse sentiria algo. Mas ali, parado, encarando a tela, percebeu que nem ele conseguia mais entender o que sentia na época. Só sabia que havia algo ali. Algo forte. Algo que escapava.
Seus punhos se cerraram sem perceber. A sala ainda estava em silêncio esperando o resto da apresentação, mas sua voz não saia, e agora o representante o analisava, mas com uma calma estranha.
O empresário, percebendo o desconforto crescente, interveio com um sorriso forçado.
— Certo, acho que já vimos o suficiente. Podemos escolher agora quais obras irão para a galeria.
O representante ficou em silêncio por alguns segundos, pensativo. Então, apontou para a imagem projetada e disse:
— Quero aquela ali.
A sala foi tomada por um silêncio seco e pelas dúvidas não ditas. Sem aguentar se segurar por mais um minuto sequer, o artista pergunta incrédulo.
— Você… vai querer essa obra?
— Claro — respondeu o representante, com naturalidade. — E também quero esta… essa aqui… ah, e mais essas duas. — Ele apontava para as imagens em uma folha à sua frente. — Se houver bom retorno, podemos conversar sobre outras no futuro.
O empresário, que até então se calava, saltou da cadeira como se precisasse salvar a situação.
— Espere um pouco! Essa obra não tem reconhecimento nenhum. Seria ruim tanto para a reputação da galeria quanto para o nosso artista. Ele está no auge. Temos outras opções que vão render bem mais. Posso garantir o sucesso com esta aqui, por exemplo…
O representante não respondeu de imediato. Apenas franziu a testa, como se tivesse mordido algo amargo demais. Mas antes que dissesse qualquer coisa, Lucien se adiantou.
— Eu também sou contra expor aquela obra.
O representante voltou o olhar para ele.
— Por que essa obra não deveria ser exposta? Lucien — O representante perguntou em um tom suave, quase gentil.
Lucien hesitou. A resposta óbvia escapou por entre os dentes.
— Porque se for escolhida… ela não será vendida.
— Você sabe qual é o lema da nossa galeria?
Lucien, hesita.
— Procuramos além do óbvio, além do visto, buscamos o que também não é visto. — Lucien diz com um tom de dúvida, mas com uma certa confiança.
— Perfeito. Foi isso que fez a nossa galeria ser o que é hoje: encontrar valor onde quase ninguém vê. — O representante se inclinou levemente para frente. — Se você conseguir me explicar o verdadeiro significado dessa obra, e me der motivos plausíveis, além da fama e do dinheiro, de um porquê ela não deveria estar nessa exposição… então tudo bem. Substituímos por uma de sua escolha.
Ele estendeu um cartão com um número rabiscado à mão.
— Me ligue quando souber.
Levantou-se, ajeitou a lapela do blazer, e saiu sem mais uma palavra.
O empresário soltou o ar com força, como quem volta à superfície depois de muito tempo submerso.
— Lucien! Você prestou atenção? Ele parece ter gostado de você. Te deu o número pessoal. Agora aproveita, finge que vai conversar sobre aquela obra e convence o cara a colocar sua mais famosa no lugar. Entendeu?
— Entendi… Vai ser uma boa oportunidade.
Mas, enquanto respondia, Lucien encarava o vazio. As palavras saíram por reflexo. Sua mente, no entanto, ainda estava diante daquela tela antiga, que agora parecia encarar de volta.
— Vamos ficar ricos! Nem vou te dar bronca pelo desastre de hoje. Só vai para casa descansar… minha estrela.
Lucien, com muita coisa para absorver e pensar, leva a mão ao bolso onde deveria estar o celular. Mas, ao tocar algo redondo e metálico, estranho. Seus dedos puxam o objeto: um relógio de bolso. Frio como o metal de um corrimão no inverno, e leve demais, leve como uma pena.
Ele franze o cenho. Nunca teve um relógio assim. Como poderia ter parado ali?
Aproxima-o do rosto, analisando os detalhes com curiosidade. Os ponteiros estão imóveis, cravados na meia-noite. Aquilo parecia mais um enigma do que um acessório, leve demais para conter engrenagens, silencioso demais para marcar o tempo.
Ainda assim, o que mais o incomoda não era o objeto, mas a pergunta que latejava junto da dor de cabeça:
“Isso é real mesmo?” Lucien pensa, aperta o relógio, quase esperando que ele sumisse de seus dedos, como num sonho que se desmancha ao despertar.
Com a mente enevoada e a dor de cabeça persistente, decide que já era o suficiente por hoje. Um banho quente, comida de verdade e talvez, só talvez, as respostas viessem depois.