O Despertar
Isolados da realidade e existência convencionais, jazem os Primordiais, seres da aurora da criação, que transcendem a compreensão e lógica, capazes de moldar e distorcerem a realidade sem esforço, como quem molda montes de terra igual uma criança, seres que habitam isolados da realidade, pois caso tocassem outro plano, o universo colapsaria sob o peso de sua presença. Mas houve um instante em que quatro deles colidiram, e duas ondas de choque de seu embate ecoaram para além do véu da existência. Galáxias se apagaram, estrelas se despedaçaram em cinzas, planetas colapsaram, leis e conceitos antes imutáveis se contorceram sob o impacto. O impacto não foi imediato, ele não destruiu tudo de uma vez. Ele se espalhou, silencioso, imperceptível, infiltrando-se nas engrenagens do destino, alterando caminhos, cruzando linhas que jamais deveriam se encontrar, mundos inteiros foram tocados por essa distorção, ainda que nunca viessem a compreender sua origem.
Um desses mundos era Tiryak.
Um reino onde a magia não era um milagre raro, mas uma verdade viva. Onde o impossível poderia se tornar real, e caminhar lado a lado aos mortais, e a realidade aceitava ser dobrada. Feras ancestrais habitavam florestas e bosques, criaturas aladas cortavam os céus, montanhas respiravam Éter.
Em Tiryak, o extraordinário não causava espanto.
Ele fazia parte da ordem natural das coisas.
Foi nesse mundo, moldado pelo fantástico e silenciosamente tocado pelo eco dos Primordiais, que o destino começou a se desviar.
Gabriel, vivia em Tiryak, ele era uma criança de 8 anos, extrovertida, com cabelos curtos e escuros, olhos castanhos e um olhar determinado. Vindo de uma linhagem de videntes, a casa de Althar, sua linhagem era considerada sagrada e temida, suas visões contrariavam a vontade de reis, igrejas e impérios, suas previsões se tornaram malditas com o tempo, por sempre serem verdadeiras e perigosas, o que os fez serem caçados e tendo seus destinos selados pelas autoridades.
“As visões dos Altharions são heresia viva.” eles foram caçados, muitos queimados, mortos, e suas palavras transformadas em tabu, outros tiveram suas línguas cortadas, silenciados com feitiços, suas previsões eram completamente certeiras devido uma ligação direta com o destino, eles vislumbravam o futuro definitivo, mas nunca sobre os seus próprios.
Os pais de Gabriel conseguiram fugir a tempo, mas seu pai, Kalchas, foi atingido, o que o fez se tornar um aleijado, e sua mãe Astradamas, que na época de sua caça estava grávida de Gabriel, se mudaram para um reino distante, onde vivem até hoje, Aethernys, sua família vivia na parte pobre do reino, seu pai não podia se locomover sem ajuda. Um dia Gabriel teve a sua primeira visão, onde o rei nomeava um novo herói, mas não conseguiu ver quem era o herói, ele a manteve em segredo, devido ao passado de sua família.
6 anos após sua primeira visão, seu vilarejo foi invadida e atacada por orcs, o grupo de heróis que agiam como o pilar do reino estavam ausentes no momento, devido a uma missão, e um dos orcs foi diretamente para o beco em que Gabriel morava, ao notar o ataque, sua mãe fechou e trancou todas as portas e janelas, mas o orc os ferejou, afinal todos os outros fugiram e os que restaram foram assassinados.
O orc invadiu sua casa, vendo os três juntos, Kalchas que estava na cama abraçando a mãe de Gabriel junto a ele, o orc caminhou lentamente em suas direções, até que Gabriel se soltou e avançou em direção ao orc, que o chutou para debaixo da cama onde estava seu pai, o fazendo colidir com uma velha caixa de madeira com entalhes dourados que estava semiaberta, ao a abrir, Gabriel encontrou e pegou uma antiga espada que seu pai havia recebido como agradecimento de um antigo nobre no passado e usou para enfrentar o orc, que havia pegado sua mãe pelo pescoço, o atacando e cortando suas costas superficialmente.
— Gabriel! — Sua mãe gritou.
— Gabriel, pegue sua mãe e fuja. — Seu pai pediu, apertando suas pernas, com um olhar de impotente.
O orc jogou sua mãe em cima de um armário, a deixando inconsciente e se voltou para Gabriel, o olhando enfurecidamente, enquanto ria com desprezo, por ver ele se tremendo, uma postura totalmente amadora. Mas Gabriel o atraiu para fora de sua casa, vendo tudo ao redor em chamas, com dezenas de cadáveres e sangues espalhados, um grupo de orcs o notaram, e começaram a caminhar em sua direção, mas quando viram quem era seu adversário, o líder deles, todos recuaram, e ficaram apenas assistindo, um orc de, aproximadamente 2 metros, grandes presas inferiores, e um enorme cutelo como arma, o orc menosprezava Gabriel, por ser um adolecente de 14 anos, que estava nitidamente nervoso por ser a primeira vez empunhando uma espada, o orc brincou com ele, balançando seu cutelo em direção a Gabriel, que era empurrado diversas vezes enquanto bloqueava os seus “ataques”.
— GABRIEL! — Seu pai gritava desesperado, enquanto sua mãe permanecia inconsciente.
Kalchas tentou se levantar, mas caiu no chão, se rastejando até Gabriel preocupado, o orc notou que ele pretendia interferir, e destruiu a entrada de sua casa, o impedindo de ir até Gabriel, que estava caído no chão, o orc gargalhava.
— BWAHUAHAHUWA!
— GABRIEL! — Seu pai gritava desesperado.
O orc pegou Gabriel pelos cabelos, rindo de sua cara, mas Gabriel o golpeou no olho com uma pedra que havia pego no chão, tirando uma de suas visões, o orc o soltou, e Gabriel aproveitou esse instante para tentar cortar sua cabeça, mas foi chutado para cima, Gabriel vomitou sangue, o orc pela primeira vez segurou seu cutelo com a intenção de matar, Gabriel tentou bloquear o ataque com sua espada, mas teve seu braço espada e peito partidos pelo seu golpe. Caindo no chão quase sem vida, o orc se virou indo lentamente em direção a sua casa, para tirar a vida de seus pais.
— “Então eu vou morrer aqui? E meu pai... minha mãe? Alguém, por favor, salve eles, ajude eles, por favor” —A visão de Gabriel escurecia, seus últimos pensamentos que vinham, era sobre a segurança de seus pais, enquanto sua visão ficava turva e seus olhos se fechavam.
— NÃO! — Gabriel gritou, abrindo os olhos, emanando uma aura de cor magenta e despertando inconsciente e incompleto algo desconhecido para ele, o Thyr e o Éter.
Seus ferimentos se fecharam por um breve momento, a dor havia desaparecido, seus sentidos se tornaram mais aguçados, Gabriel subiu por algumas caixas que estavam na rua, pulando em cima do orc que se virou com o seu grito, Gabriel usou o resto de sua espada quebrada para enfiar na cabeça do orc, que se debateu contra a parede para o tirar de cima dele, e sem muito esforço arrancando a espada, e mesmo sendo esmagado contra a parede, e cuspindo sangue, Gabriel ergueu sua mão, que emanava uma aura rubra, e a enfiou na ferida causada pela sua lâmina quebrada, perfurando o cérebro do líder dos orcs.
— Eu não vou morrer aqui! E não vou deixar que machuque meus pais! — Gabriel exclamou, afundando seu braço dentro da cabeça do orc, o matando logo após.
O orc desabou, e Gabriel caiu de suas costas, no chão, sua vista começou a escurecer, mas antes percebeu os orcs restantes correndo em sua direção, após seu líder ter sido morto, antes de desmaiar, todos os orcs pararam de se mover, suas cabeças caíram ao chão, e uma silhueta apareceu em sua frente, mas Gabriel desmaiou antes de conseguir olhar para cima e ver quem era. Acordando dias depois do ocorrido em um lugar desconhecido por ele.
— Onde... eu estou? — Gabriel perguntou desnorteado e um pouco tonto, olhando a sua volta.
Vendo um lugar mais chique, com macas, estantes bonitas, e percebendo que estava com a cabeça e peito enfaixados, junto a seu braço.
— Então você finalmente acordou. — Afirmou uma voz feminina, com o tom firme.
Ao virar para o lado e ver de onde a voz viria, se deparou com Kaelis, uma forte mulher de cabelos vermelhos na altura do ombro, pequenas cicatrizes em seu corpo, e um olhar firme e olhos dourados, A Heroína do reino de Aethernys, que estava acompanhada de seu grupo de heróis, Lilith, uma mulher de cabelos brancos e pele morena, usando um enorme chapéu pontudo, um manto negro, e olhos roxos, uma maga com a alcunha de A Encarnação do Éter Arcano, Aeron, um homem alto, musculoso, de armadura, cabelos grisalhos e curto, e uma cicatriz em seu olho direito, o tanque com o título de O Berserker, e os gêmeos Alastor um rapaz alto, de cabelo preto e pontas brancas, um olhar apático, conhecido como A Ruina, e sua irmã Amara uma jovem alta, com longos cabelos loiro com as pontas brancas, olhos caídos, e um sorriso doce, a curandeira do grupo, com alcunha de A Luz da Salvação, que rivalizava em mana com Lilith.
— Ei garoto, foi muito arriscado o que você fez sabia. — Aeron o repreendeu, caminhando até ele dando um tapinha em suas costas.
— Matar o líder dos orcs sozinho, e com as mãos vazias, não é para qualquer um sabia. — Afirmou Lilith.
Seus pais entraram no quarto quando souberam de seu despertar, sua mãe correu para o abraçar, e ele se surpreendeu vendo seu pai andar pela primeira vez, correndo também em sua direção.
— Gabriel! — Disse seu pai preocupado.
— Filhoo! — Exclamou sua mãe aliviada ao ver Gabriel desperto e vivo.
— Espera, pai! Como o senhor está andando? — Perguntou Gabriel surpreso.
Lilith deu um passo à frente.
— Ele está usando uma espécie de exoesqueleto, uma prótese acoplada a sua coluna e pernas, que é alimentada por um orbe contendo a minha mana, eu me ofereci a fazer isso por ele, após Kaelis os resgatar, aliás, sou Lilith. — Explicou Lilith.
— Muito obrigado por isso… Lilith. — Gabriel agradeceu sentado na cama se inclinando levemente, devido ao peito dolorido.
— Filho, como você está, você está bem? — Perguntou sua mãe, conferindo Gabriel.
— Sim mãe, eu estou bem. — Respondeu Gabriel.
Ao fundo, Aeron, Kaelis e Alastor discutiam.
— O que me diz Alastor? Você também sente, não sente? — Perguntou Kaelis.
— Sim, definitivamente ele emana Thyr. — Afirmou Alastor.
— Nessa idade, com apenas 14 anos despertando isso, deve ter sido muita força de vontade. — Deduziu Aeron.
Kaelis chamou os pais de Gabriel para conversarem, após alguns instantes, a conversa mudou o clima.
— Não, claro que não! —Kalchas disse em um tom exaltado. — Ele quase morreu lutando contra aquele monstro, eu não vou permitir isso.
— Eu entendo sua preocupação, mas ele despertou habilidades que apenas pessoas determinadas e treinadas poderiam manifestar, habilidades raras e especiais que ele pode usar para proteger outras pessoas. — Respondeu Kaelis, tentando o confortar.
— Querido... — Respondeu Astradamas, se aproximando. — Eu permito.
Kalchas a olhou confuso, mas ela apenas balançou a cabeça com um olhar sério, o fazendo entender que o futuro de Gabriel estava seguro, concordando logo após, mesmo relutante, logo após Kaelis caminhou até Gabriel.
— Gabriel, pode parecer algo repentino, e você ainda está se recuperando, mas o que me diz de se tornar um aventureiro, bom, aprendiz, para ser mais exato, se juntando ao nosso grupo? — Kaelis perguntou estendendo sua mão a Gabriel.
Seus olhos se encheram de brilho.
— Si... Sim! — Gabriel concordou. — Mas... meu braço. — Gabriel murmurou em um tom triste o apertando.
Amara se aproximou até ele, estendendo as mãos, emanando uma luz dourada, fazendo as faixas do corpo de Gabriel se soltarem, suas feridas e cicatrizes se regenerarem, juntamente a um novo braço.
— Prontinho! — Disse Amara sorrindo.
— Alguma outra preocupação Gabriel? — Perguntou Kaelis sorrindo.
Gabriel permaneceu em silêncio por longos segundos, confuso, encarando seu braço.
— Não… nenhuma. — Respondeu Gabriel, balançando o braço novo surpreso.
— Ótimo, seus pais já me deram as permissões deles, e assim que você tiver alta e ter se recuperado por completo, iremos começar seu treinamento. — Afirmou Kaelis.
Ela e seu grupo se retirarem logo após, os pais de Gabriel se aproximaram novamente, Kalchas o abraçou forte, mesmo tendo sido tranquilizado por sua esposa antes, ele ainda se preocupava com o bem estar de seu filho.
— Filho, se torne um aventureiro, forte, tão forte que seja capaz de derrotar cem orcs daqueles. — Disse seu pai, com lágrimas nos olhos. — E por favor, não morra.
Gabriel retribuiu o abraço, o apertando firme, em silêncio.
— Filho, eu confio que você se tornará alguém espetacular, e que fará um grande bem a todos nós. — Afirmou sua mãe, dando um beijo em sua testa, saindo junto a seu pai logo em seguida, o deixando descansar.
Com o passar dos dias, Gabriel continuava em repouso, mas pela janela da ala hospitalar ele podia assistir ao treino de Kaelis e dos demais heróis, seus olhos se enchiam de brilho, e mesmo sem poder fazer muito, quando as enfermeiras saiam ele praticava, replicava os movimentos que via. Até o dia em que se recuperou totalmente e recebeu alta, seus pais foram os primeiro a o visitar.
— Gabriel, meu garoto. — Kalchas o abraçou firme. — Que alívio, te ver de pé, vivo. — As lágrimas escorriam por seu rosto.
Sua mãe apareceu atrás dele, caminhando até Gabriel e o abraçando logo após.
— Meu menino. — Ela o abraçou. — Nós ficamos tão preocupados com você. — Revelou Astradamas. — Mas e você? Está preparado para hoje?
Gabriel se lembrou do que Kaelis havia dito a ele anteriormente.
— É hoje… — Murmurou ele. — Mas. — Ele hesitou por um momento, antes eu queria passar um tempo com vocês, sabe… — Ele titubeou. — Eu senti como se fosse perder vocês aqueles dias, eu percebi como a vida é curta, frágil. — Ele apertava as mãos. — E nessa vida que eu estou para entrar, eu não sei ao certo o que pode acabar acontecendo comigo, então! — Ele ergueu o rosto. — Eu quero passar um tempo com vocês antes, agora que o papai pode andar, eu quero brincar com ele, igual eu via as outras crianças fazerem, eu quero criar laços, lembranças, memórias com vocês.
A mãe de Gabriel interveio.
— Ei ei ei garotinho. — Ela o interrompeu. — Pare de falar como se fosse morrer assim. — Ela pôs as mãos no seu ombro, e se agachou até sua altura. — Você vai se tornar um herói maravilhoso, que fará coisas maravilhosas para o mundo, você será radiante como o próprio Sol. — Afirmou ela. — Então pare com essa melancolia toda. — Ela se levantou.
Gabriel riu baixo, um riso de alívio, até ser surpreendido por seu pai, que o pegou desprevenido, o erguendo nos ombros.