Os Gêmeos
Alastor ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão, como se pesasse se aquilo merecia ser dito.
— …Ah, que se dane. — Suspirou por fim. — Sim, eu era assim, mas isso foi antes de conhecer a Kaelis. — Ele desviou o olhar. — Ela falou com você, não falou? Sobre nos conhecer-mos.
— Falou… — Gabriel respondeu baixo. — Ela contou o dela, e o do Riven.
— O meu não é como o dela. — Alastor ergueu os olhos para o teto. — Não tem castelos bonitos nem finais honrosos, só sangue, vingança, ódio, rancor e desgraça.
Gabriel engoliu em seco, mas assentiu.
— Eu e Amara nascemos em uma família de assassinos, eles se escondiam atrás da fachada de médicos… — Ele soltou um riso curto, sem humor. — …mas curar nunca foi o objetivo, éramos uma família de aristocratas assassinos, usando as habilidades e conhecimentos médicos como disfarces profissionais, estudar, e compreender o corpo humano, junto a suas fraquezas, desde pequenos, fomos moldados para matar, era uma tradição, uma regra, um destino que nos foi imposto.
A voz dele diminuiu.
— Amara nunca conseguiu seguir isso, ela tinha um coração bom demais. — Ele hesitou por um instante. — Por isso… ela era punida, torturada, e eu nunca soube disso, mesmo nas raras ocasiões em que nos víamos, quando brincávamos, eu nunca reparei, ela sempre apresentava um sorriso puro e inocente.
Gabriel sentiu o estômago afundar.
— Enquanto ela sofria, eu era considerado um prodígio, cresci nas sombras, vivi nelas, e a Umbracinese despertou como algo natural. — Ele fechou a mão devagar. — Amara era o oposto, luz, bondade pura, ela despertou a Luminocinese, mas o corpo dela não aguentou, as constantes punições e envenenamento a quebraram, e seu corpo adoeceu se tornando frágil.
O silêncio se estendeu.
— Quando fizemos dezesseis anos, fui escolhido para assumir a chefia da família. Nosso pai já estava morto. — Alastor respirou fundo. — Mas eu ainda tinha algo que eles desprezavam, humanidade, e isso só existia por causa dela.
Ele virou o rosto, seu maxilar estava tenso.
— E como resposta…
— Decidiram matar ela. — Gabriel completou, quase num sussurro.
Alastor assentiu com a cabeça.
— Naquele dia, eu tinha uma missão, assassinar um rei, não era Uther, era de outro reino. — Ele fez uma pausa curta. — No caminho, senti que algo estava errado e decidi voltar.
Os dedos dele se fecharam em punho.
— Meu tio estava comigo como testemunha da missão e tentou me impedir, me chamou de fraco e me atacou, e quando eu entendi sobre o que se tratava. —Sua voz permaneceu firme. —Eu o matei, arrancando seu coração com as minhas mãos, o deixando apodrecer naquele local.
Gabriel prendeu a respiração.
— Quando cheguei em casa… — Alastor hesitou, uma vez mais. — …eu vi Amara.
O silêncio agora estava pesado.
— Ela estava no chão, cercada por aqueles que um dia eu chamei de família, coberta por sangue, lágrimas, hematomas. — A voz dele ficou mais baixa. — E ali… eu deixei de ser humano.
Ele ergueu o olhar, frio.
— Não houve hesitação, discussão, luta. Apenas um massacre unilateral, eu exterminei todos naquela casa.
Uma pausa.
— Depois, deixei uma carta. Para quem fosse estúpido o bastante para voltar ou se vingar.
Aos que restarem, ou ninguém, talvez…
Esta família me ensinou a matar. Me moldou em lâmina, como se eu nunca tivesse nascido com coração.
Mas vocês erraram em pensar que eu seria cego como os demais…
Erraram ao tocar nela. Vocês criaram um monstro.
E esse monstro escolheu proteger, não obedecer.
Cada golpe que dei esta noite foi uma resposta.
Um nome riscado, um grito silenciado, uma cicatriz lavada.
Amara viverá.
Mesmo que eu precise carregar o rancor e ódio, e o peso de ter matado, minha própria família dentro de mim para isso.
Não chamem isso de traição.
Eu fui fiel à única coisa verdadeira que encontrei em meio a esse inferno, de ferro e sangue.
O amor de uma irmã que ainda sabia sorrir.
Que o silêncio desta casa seja eterno.
Que as sombras contem a história.
Eu não voltarei.
E aos que tentarem se vingar, venham.
Eu os reunirei aos juntamente aos demais, em uma pilha de cadáveres!
– Alastor
Quando terminou, Alastor demorou a continuar.
— Depois disso, fugi com Amara, vivi como bandido fiz qualquer coisa para mantê-la viva. — Seus ombros cairam. — Até conhecer Lilith, eu tentei roubá-la numa taberna, achei que seria fácil.
Um canto de ironia passou pelo rosto dele.
— Não foi, Riven me pegou, e quando fui interrogado, Kaelis nos acolheu.
Gabriel que estava imóvel pela primeira vez esboçou uma reação de ânimo.
— Lilith tentou ajudar Amara, foi quando descobrimos a verdade. — A voz de Alastor endureceu. — Ela estava amaldiçoada, e depois do massacre… o rancor dos mortos se voltou contra ela, estavam a matando lentamente, cada célula, lentamente, e sempre que usava Éter, a dor piorava.
Gabriel sentiu o peito apertar novamente.
— Eu me adaptei ao grupo, mas infelizmente Amara não, ela agia como suporte, mas ela piorou, e eu me afastei do grupo para cuidar dela.
O olhar dele escureceu.
— Um dia, ela teve pesadelos com a antiga casa, e sem me avisar, ela voltou até lá sozinha, eu nunca contei a ela o que aconteceu naquele dia.
Alastor fechou os olhos por um instante.
— Quando chegou, ela encontrou ruínas, cinzas, o cheiro dos corpos queimados e de sangue ainda preso às paredes, ou o que restarão delas. — A voz ficou rouca. — Ela caminhou pelos corredores onde era torturada, cada cicatriz ardia.
Gabriel sentiu um nó na garganta.
— No salão principal… ela encontrou minha carta, presa a uma coluna, junto a minha adaga. — Ele engoliu seco. — Ela leu tudo, e caiu de joelhos.
Um silêncio tomou conta por um breve momento.
— E ela chorou, não chorou por eles, chorou por mim.
Alastor respirou fundo, como se aquilo ainda doesse.
— Antes de sair, um remanescente apareceu, querendo vingança. — Ele cerrou os dentes. — Mesmo frágil, Amara lutou e o incinerou.
A voz dele falhou.
— Quando cheguei… era tarde, ela estava pálida, caída em meio aos corpos, eu a segurei, mas ela estava morrendo nos meus braços.
Alastor apertou as mãos, tremendo levemente.
— Foi a primeira vez que senti medo. — Admitiu. — Medo de perder a única coisa boa que tive nessa vida.
Ele ergueu o olhar, sério.
— Ali, naquele desespero, despertei algo que não existe em registro algum, uma variação corrompida do Thyr Vita, o Thyr Umbra Vitae. — Um Vita que não usa vida, usa a morte. — Ele respirou fundo. — A maldição dela se alimentava do rancor dos mortos, então eu usei isso contra eles, usei a morte de quem a feriu para libertá-la e funcionou.
Alastor desviou o olhar.
— Amara foi curada. — Ele fechou os olhos por um segundo. — E eu perdi minha Umbracinese no processo.
O silêncio caiu entre os dois.
— Mas eu não me arrependo. — A voz dele era baixa, firme. — Nem por um instante eu me arrependo desse sacrifício.
— Espera... você perdeu o seu Éter? — Gabriel perguntou.
— Sim, quando fui ver Lilith outro dia, eu pedi a ela para me confirmar, e pedi também para que ela mantivesse isso em segredo, ao curar Amara, minhas sombras foram extinguidas, e para falar a verdade eu nem me importo tanto. — Ele cerrou os punhos, olhando fixamente para eles. — Só dela estar viva e bem, eu já estou feliz. — Alastor respondeu sorrindo.
Quando saíram do quarto, Aeron estava os esperando do lado de fora.
— Garoto, seu último desafio de hoje, seu corpo deve estar aquecido, e seria um desperdício se você encerrasse por hoje. — Afirmou Aeron.
— Sim, seria mesmo. — Gabriel o respondeu, enquanto o acompanhava até o pátio.
— Hoje serão quinhentas repetições de cada! — Aeron declarou.
— SIM! — Gabriel assentiu, começando a dar quinhentas voltas pelo pátio.
Ao anoitecer, Gabriel concluiu seu treino.
— Garoto, você me surpreendeu, você evoluiu tanto em tão pouco tempo, fez essa série monstruosa e mal está ofegante, sabe, você me lembra de mim quando mais novo. — Aeron o comparou a ele mesmo quando mais jovem.