O Berserker
Ao o comparar a si mesmo na sua infância, Aeron contou a Gabriel sobre sua origem.
— Fui escravo desde criança, arrancado dos meus pais cedo demais para entender o que estava sendo perdido, não tenho lembrança alguma deles, só me recordo das correntes fechando nos meus pulsos e da sensação de que o mundo tinha encolhido até virar trabalho, dor e silêncio, e assim eu cresci assim, sem nome, sem escolha, apenas ferro, sangue e obediência.
Gabriel franziu o cenho, mas não o interrompeu.
— Trabalhei forçado a vida inteira, até decidirem que eu poderia render mais morto… ou matando, capturaram uma nova fera, algo enorme, brutal, e precisavam de um lutador jovem e forte para gerar lucro, e eu fui o escolhido, todos apostaram contra mim, quando entrei na arena, a criatura tinha três vezes o meu tamanho, cada golpe dela arrancava carne como se fosse barro, cada queda fazia a areia grudar no meu sangue, eu fui ferido inúmeras vezes, mas não caí, a dor não me quebrou, ela me despertou, foi ali que o Excidium surgiu, prematuro e com o puro instinto de sobrevivência, igual a você, mas o meu não teve heroísmo.
Gabriel o olhava com compaixão
— Quando a besta morreu aos meus pés, o silêncio foi absoluto, depois, vieram os gritos, naquele dia, deixei de ser apenas um escravo, e me tornei um campeão.
— O Berserker… — Gabriel murmurou, reconhecendo o título.
Aeron assentiu.
Meu corpo virou um amontoado de cicatrizes, meu passado, um vazio, eu não lembrava do rosto dos meus pais, só conhecia a arena, o trabalho, o sangue, vivi assim até ser resgatado por Kaelis, Riven e Lilith, ela usou Éter Mental em mim, e então eu me lembrei, de tudo, do rosto dos meus pais, das vozes deles, do meu lar, mas a quilo não me trouxe conforto, me cegou de ódio, ataquei meu antigo dono no mesmo instante, o matei com minhas próprias mãos, os capangas tentaram fugir, mas Lilith os capturou antes que pudessem ir longe, enquanto isso, eu libertava os outros escravos, um a um, quebrando as jaulas e correntes que nunca deveriam ter existido, e depois eles me levaram até minha antiga casa.
Um silêncio tomou conta do pátio, sendo quebrado apenas pelo som de alguns grilos.
— Ela estava vazia, e na porta apenas dois túmulos, o de meus pais, ali, diante da terra que os cobria, eu entendi que sobreviver não era suficiente, ser livre também não, enquanto aquele tipo de mundo existisse, outras crianças seriam arrancadas e outros nomes apagados, foi ali que decidi seguir Kaelis, não por gratidão, mas para impedir que outra criança tivesse o mesmo destino que eu. — Aeron explicou.
Gabriel tentou conter suas lágrimas, mas não conseguiu, abraçando Aeron.
— Cara eu sinto muito, eu sabia que você era um cara forte, incrível, mas não sabia que tinha um passado assim.
Aeron retribuiu o abraço de Gabriel em silêncio, enquanto lágrimas também escorriam por seu rosto, quando terminaram, Gabriel retornou para dentro do castelo, se encontrando com Riven.
— Me encontre no mesmo lugar de antes, e leve sua espada. — Disse Riven, em um tom sério e frio, saindo logo após.
Gabriel foi até seu quarto pegar sua espada, sem entender direito, mas achou que finalmente foi reconhecido por Riven, e que agora ele iria o treinar e foi atrás dele, nos três túmulos escondidos dentro do bosque, mas ao pisar dentro do bosque, sentiu uma pressão sufocante, assassina, que emanava de Riven.
— Que aura esmagadora é essa? É até sufocante, esse é o Riven? — Gabriel se perguntou bastante nervoso, mas se lembrando dos conselhos de Alastor, e se controlando.
Entrando mais fundo no bosque, chegando nos túmulos onde encontrou Riven anteriormente, sentindo sua cabeça ser decapitada no mesmo instante, mas desviando no último segundo graças a sua Afinidade, recebendo apenas um corte superficial em seu pescoço.
— Mas que merda é essa? — Gabriel perguntou nervoso, estancando o sangramento com a mão e apontando a espada para Riven.
— Diga a Kaelis que vai se retirar do grupo, faça isso e poderá se manter inteiro, se recuse e eu não irei me segurar no próximo ataque. — Riven respondeu friamente, emanando um perigo sufocante.
Gabriel relaxou seu corpo, abaixando sua espada, esvaziou sua mente e respondeu.
— Não!.
Riven o atacou no mesmo instante, mas Gabriel sentiu o fluxo de Éter, ampliando todos os seus sentidos, e tudo o que aprendeu em um mês de treino.
— “Eu não entendo o por que disso agora, mas eu consigo ver, consigo sentir as intenções dos ataques dele, não são para me matar, só incapacitar”. — Gabriel conseguia manter um embate contra Riven a princípio.
Com a sua afinidade, Gabriel percebeu o seu fundamento, ela aprimora sua força e sentidos em situação infortunas ou adversas, chegando ao ponto de quase cortar Riven, o fazendo recuar por um instante.
— Já provou o que queria? — Não tem sentido continuar com isso. — Declarou Gabriel.
— Você acha que eles estão te ensinando? Se importam com você? — Riven perguntou com desdém. — Eles estão apenas brincando com você. — Riven afirmou, mudando sua postura. — Regnun Sentire. — Gerando um campo translúcido ao redor de ambos. — Isso, é o que o mundo lá fora te aguarda criança. — Disse Riven atacando Gabriel.
Gabriel conseguia sentir a intenção de seus ataques, ele tentava os bloquear, mas no mesmo instante era contra-atacado.
— O quê? Eu senti um corte frontal, não um chute. — Gabriel murmurou tossindo.
— Eu vi sua defesa falha, e te ataquei de uma forma em que esse projeto de Sentire não fosse capaz de reagir, dentro do Regnun, eu controlo a batalha, agora se levante, iremos dançar ao compasso do seu próximo movimento e da sua inevitável derrota.
Gabriel se posicionava novamente, secando o suor de seu rosto, e disparava logo em seguida em direção a Riven, que se mantinha em guarda.
— É inútil. — Afirmou Riven. — Mirando cortar o braço de Gabriel, que desviou por pouco, recebendo apenas um corte superficial.
— “Mas o quê? Ele desviou?”
Gabriel emanava uma aura magenta ao seu redor, ele havia ativado seu Éter de Afinidade por vontade própria pela primeira vez.
— Tenta controlar os meus passos agora seu cretino. — Gabriel o provocou, contra-atacando.
Riven ficou em silêncio, revestindo sua espada com Éter e Thyr para interagir com o Éter de Gabriel.
— Ensis. — Conjurou Riven, fazendo a área ao redor de sua lâmina distorcer levemente, emanando uma aura rubra, cortando o ar em direção a Gabriel, que desviou por reflexo.
— “Isso foi um ataque?” Gabriel se surpreendeu, mas antes que pudesse reagir, seu braço foi atingido, a silhueta de um corte surgiu, incapacitando-o de usar seu braço.
— Uma lâmina capaz de cortar carne, ossos e conceitos, você nunca mais será capaz de usar esse braço novamente. — Riven afirmou, indo para cima de Gabriel novamente, que se via encurralado.
— “Droga, ele é superior em tudo, até conseguiu um jeito de anular meu Éter, e agora eu não consigo mais usar meu braço”. Gabriel se esquivava por pouco das investidas de Riven, com marcas de corte aparecendo por seu corpo, mesmo sem ter sido acertado diretamente.
— Diga a Kaelis que você vai sair do grupo, último aviso. — Riven o ameaçou.
Gabriel mesmo de joelhos e tendo seu braço incapacitado, não recuou.
— Não! — Gabriel respondeu.
Riven balançou sua espada mirando cortar o outro braço de Gabriel, mas dessa vez com a lâmina, Gabriel ativou seu Éter ao máximo, desviando no último instante novamente, golpeando Riven no ombro, que ficou parado.
— Bulwark Sanctus. — Proferiu Riven, fazendo um escudo surgir em seu ombro, devolvendo o corte com o dobro da força em direção a Gabriel, partindo seu ombro.
— AAAAAAAAHHH! — Gabriel gritou de dor.
— Eu o avisei. — Disse Riven, se virando e indo embora.
O Éter de Gabriel chegou ao seu máximo, o fazendo ativar o Excidium novamente, inconscientemente ele investiu em direção a Riven, que se virou, percebendo que o próximo ataque viria em direção a sua cabeça, com a intenção de matar, se agachando quando Gabriel se aproximou, mas era um blefe, Gabriel despertou o Rift graças a seu Éter ter o levado ao limite, indo para as costas de Riven, que tentou golpear, mas sua espada foi deformada, transpassando pelo corpo de Gabriel sem o cortar, Riven saltou para trás, mas Gabriel encurtou o espaço entre eles, o que o permitiu golpear Riven, causando um corte profundo entre suas costelas e peito, aumentando o impacto do golpe com o Impetum.
— SEU... MERDINHA. — Riven rugiu, saltando para trás, cuspindo sangue. — Excidium!.
A ferida de Riven fechou temporariamente, e graças ao Excidium seus reflexos e físicos foram para outro nível, Gabriel não conseguia mais competir, sendo golpeado diversas vezes, prestes a receber o golpe final de Riven, que visava cortar sua cabeça, devido a insanidade momentânea do Excidium.