Igreja de Adamas
Gabriel despertou, mas para sua surpresa ele não estava em Aethernys, ele estava em mais uma visão, mas essa era bem diferente da primeira, era mais caótica.
— Estou no meio do nada. — Gabriel murmurou para si mesmo olhando ao seu redor. — Não tem céu, não tem chão, só... um véu negro. — Sem horizonte, sem limite, tudo ao seu redor se desfazia como se jamais tivesse existido, um frio indescritível tocou sua alma, a sensação de que até sua própria existência seria apagada em um instante, até que, dentro daquele abismo, surgiu algo.
— O que é aquilo? Não é humano. — Afirmou Gabriel, sua silhueta era incerta, um ser que não se curvava diante da escuridão, e quando a fenda da realidade se abriu em sua presença, o caos recuou.
A criatura voltou seu olhar para Gabriel, sem dizer uma única palavra, mas ele compreendeu.
— Vai ter uma luta... uma luta definitiva. — Afirmou Gabriel, com um olhar sério e determinado, e dela dependeria tudo, se a existência persistiria ou seria apagada para sempre.
A visão se despedaçou, e Gabriel despertou, ofegante, com a certeza gravada em seu coração de que aquilo não era apenas um sonho, após alguns dias em repouso, depois de ter exterminado sozinho um ninho de orcs, Gabriel recebeu alta, indo de encontro a sua mãe, para perguntar sobre sua visão, ignorando o passado de sua família, indo até o salão de banquetes, encontrando seu pai acompanhado por alguns nobres, que o bajulavam por ter criado um garoto tão forte e corajoso.
— Parabéns por seu garoto Kalchas. — Disse um dos nobres, dando tapinhas nas costas de seu pai.
— Um garoto forte de fato, mas um tanto imprudente. — Retrucou outro nobre.
— Agradeço os... elogios, realmente ele foi um pouco imprudente, mas eu sou grato por ele ter voltado para nós com vida. — Seu pai respondeu, levando a mão ao peito, avistando Gabriel de longe. — Gabriel, bom dia meu filho, como está se sentindo?
— Bom dia pai. — Respondeu Gabriel, comprimentando para os nobres. — Estou me sentindo bem, o senhor viu a mamãe? Preciso falar com ela. — Perguntou Gabriel com um tom sério.
— Ela deve estar no pátio tomando um sol, por que meu filho? — Perguntou Kalchas, sentindo que algo o preocupava.
Gabriel não o respondeu, mas seu pai tinha uma noção do que poderia ser.
— “Uma visão... ele deve ter despertado, e pelo seu tom, não deve ter sido algo bom.”
Caminhando de encontro até sua mãe que estava no pátio do castelo, se encontrando com Kaelis e Lilith no caminho.
— Oh, Gabriel, bom dia, já se sente melhor? — Kaelis perguntou sorrindo.
— Sim, desculpe, mas estou com um pouco de pressa agora. — Respondeu Gabriel, apertando os passos.
O corpo de Gabriel ficou paralisado por um instante.
— Meu corpo não se mexe. — Murmurou Gabriel, tentando se mover.
— Você despertou... certo Gabriel? — Perguntou Lilith. — Aquela explosão de Éter, que eu senti, foi um despertar, de alguma habilidade adormecida, provavelmente de sua família. — Lilith deduziu. — Além de claro, ter usado o Ensis.
Kaelis se espantou após ouvir Lilith.
— Isso é verdade Gabriel? — Kaelis perguntou incrédula.
— Sim... para falar a verdade eu nem sei direito como, mas eu manifestei o Ensis.
— Seu Éter, Afinidade, ela despertou seu potencial latente quando você extraiu o máximo dela em uma situação de perigo, em um momento crítico de vida ou morte. — Explicou Lilith. — Mas você deve tomar cuidado ao manifestá-lo Gabriel, ela pode desbloquear seu potencial naquele instante, mas as consequências do pós... o rebote vai começar a ser impiedoso.
Kaelis apenas escutou tudo em silêncio, junto a Gabriel, que continuou seu caminho.
— Venham comigo por favor. — Pediu Gabriel.
Chegando ao pátio e se encontrando com sua mãe.
— Gabriel, filho que bom te ver bem. — Afirmou sua mãe dando um sorriso quente e caloroso, enquanto Gabriel corria para lhe dar um abraço.
— Mãe... eu tive uma...
— Eu sei, você teve uma visão, certo querido? — Afirmou sua mãe.
— Videntes, achei que estavam extintos, vocês são os Altharions?. — Perguntou Lilith.
— Por favor, mantenham isso em segredo, existem aqueles que ainda nos odeiam, e nos desejam mortos. — Pediu Astradamas, abraçando firme Gabriel.
— Não possuo a menor intenção de expor vocês, eu sei o que é ser caçada por ter... dons, que os outros não entendem. — Respondeu Lilith.
Após alguns minutos, Gabriel explicou às três sobre sua visão, sobre tudo ser consumido, a sensação de sua existência prestes a ser apagada e a presença do ser misterioso que se erguia contra o vazio, sua mãe o escutava em silêncio, o semblante gentil se tornando gradualmente mais sério o segurando pelos ombros.
— Então… chegou até você. — Murmurou — O fardo dos Altharions.
— O que quer dizer, mãe? — Gabriel perguntou, sentindo um peso em seu peito.
— No passado, todos os videntes de Althar tiveram essa mesma visão simultaneamente, de um vazio, que consumia tudo, por sempre estarmos certos sobre nossas visões, temiam que estávamos querendo causar o caos no mundo, querendo semear a desordem, o que nos fez chegarmos à beira da extinção, e ela chegou até você também. — Explicou sua mãe, esclarecendo o verdadeiro motivo por trás de terem vivido se escondendo, quase sempre fugindo.
Lilith franziu a testa, absorvendo cada palavra.
— Isso explica porque tantos acreditavam que os Altharions estavam extintos… e também a causa por trás.
Astradamas assentiu, o aperto em Gabriel se tornando ainda mais protetor.
— O que você viu não pode ser ignorado, filho, mas também não deve ser compartilhado levianamente, nem todos suportam a ideia de saber o que espreita além da realidade.
Kaelis, até então silenciosa, respirou fundo e cruzou os braços, olhando para Gabriel com uma intensidade quase severa.
— Você está crescendo rápido demais, Gabriel. Mais rápido do que o destino talvez tivesse planejado, se pretende trilhar o caminho de herói, terá que aprender a carregar tanto sua espada quanto suas visões sem vacilar. — Ela se virou para Astradamas e depois para Lilith. — Eu cuidarei para que ele esteja pronto quando a hora chegar.
Gabriel baixou o olhar por um instante, digerindo a mistura de orgulho, medo e responsabilidade que via refletida nos rostos ao redor.
— Não... não vai ser eu quem vai o enfrentar. — Respondeu Gabriel. — Era aquela silhueta, aquele ser estranho, que olhou para mim, como quem pedisse por algo, esperasse por algo. — Afirmou Gabriel, enquanto sua mãe se levantava, dando um beijo em sua testa se despedindo dele.
— Eu sei que você fará a escolha certa meu filho. — Se retirando junto a Lilith, deixando Gabriel a sós com Kaelis.
Gabriel ainda estava processando as palavras da mãe quando Kaelis deu um passo à frente.
— Se o que sua mãe disse é verdade… então você é uma peça-chave, Gabriel.
Ele ergueu os olhos, surpreso.
— Uma peça-chave? Eu… não sei nem se consigo entender direito o que vi.
Kaelis apoiou a mão em seu ombro, firme.
— Justamente por isso precisa estar preparado, não para hoje, não para amanhã… mas para o momento em que aquilo que você viu se erguer diante de nós.
Lilith olhou surpresa para Kaelis a olhando de longe.
— Vai assumir esse risco, Kaelis? Você nunca treinou alguém antes, ainda mais um jovem.
— Primeiro você deve controlar seu Éter e seu Thyr, você está evoluindo em uma velocidade assombrosa, e também prejudicial a você mesmo. — Afirmou Kaelis.
Gabriel assentiu, concordando em ser seu aprendiz, começando então a treinar junto a Kaelis de agora em diante. Ao longe, em um continente completamente limpo de monstros e outras criaturas, três anciões discutiam.
— Então é certo, temos que possuir esse poder. — Afirmou um deles.
— E quem irá fazer essa conquista para nós? — Perguntou o segundo.
— Rafael e Mary. — Respondeu o terceiro.
— A sim, Rafael, então esse garoto será nossa arma mais poderosa desde “O Grande”. — Afirmou o segundo.
Adamas, a igreja que rege a ordem no mundo, e dita a verdade conforme sua vontade, ficaram sabendo do incidente envolvendo Gabriel, e foram até o reino de Aethernys, para o terem em sua posse, aos arredores do reino, uma ilustre carruagem se aproximava.
— Hmph… então este lugar miserável é o tal reino de Aethernys? O fedor desses animais chega a me embrulhar o estômago mesmo à distância… repugnante pensar que essas criaturas respiram o mesmo ar que nós, e ainda ousam carregar em suas veias um sangue da mesma cor que o nosso. — Declarou uma voz feminina, carregada de desprezo.
— Contenha-se, Mary. — Advertiu uma voz mais velha, carregada de frieza. — Por mais que sejam apenas vermes insignificantes diante de nós, não podemos esquecer, é indispensável que este novo aprendiz de Herói esteja sob nossa posse.
Chegando nos portões do reino, os guardas abriram os portões para eles após verem o símbolo da igreja, um olho, dentro de um círculo perfeito, similar a um sol, com duas asas apontadas para cima, e uma espada que o atravessava no meio.
— Abre logo, são a da Igreja de Adamas. — Afirmou um guarda, apressando para que outro abrisse o portão com mais agilidade.
— Esses porcos insignificantes… ousam nos fazer esperar? Que atrevimento vil. — Afirmou Mary com desdém.
Após entrarem no reino de Aethernys, Mary olhou fixamente nos olhos de ambos os guardas que a fizeram esperar, de dentro da carruagem, uma sombra de uma asa surgiu, seus olhos emanaram uma luminosidade vermelha, fazendo com que os dois guardas agonizassem em dor no mesmo instante.
— Já chega Mary! — Ordenou o velho que o acompanhava. — Os gritos destes infelizes ferem meus ouvidos.
Entrando no reino após Mary desfazer o que havia lançado sobre os guardas, a carruagem avançava lentamente em direção ao castelo. Pelas ruas, os moradores se curvavam, oravam e os adoravam como se fossem emissários divinos, muitos choravam de devoção, Mary, recostada no interior da carruagem, observava com desdém.
— Como latem alto esses cães… agora compreendo a razão da sua aflição anterior. — disse ela, emanando um brilho dourado por seus olhos.
Em instantes, o brilho amarelado dominou os olhares da multidão, e as adorações cessaram, um silêncio tomou o ar, enquanto os cidadãos, de rostos vazios e sem vida, dispersavam-se.
Foi apenas quando Lilith ergueu a mão e dissipou o transe.
— Então era você… indução de morte contra inocentes? — Acusou Lilith, surgindo por entre a multidão dispersa. — Se rebaixou tanto a ponto de se tornar a cadelinha da Igreja apenas para se sentir superior a mim? Você sempre foi assim, Mary… invejosa. mas nunca passará de uma vadia que almeja um trono que não pode alcançar.
A carruagem parou. Mary se levantou, e com um gesto lento e elegante, saiu para fora. Sua aparência era juvenil, quase angelical, cabelos loiros ondulados que brilhavam como ouro sob o sol, pele pálida, olhos azuis cristalinos, seu longo vestido branco contrastava com uma estranha asa em suas costas, que com suas plumagens se bifurcando ao meio em direção ao quadril, como um adorno celestial e, ao mesmo tempo, ameaçador, seu olhar angelical e calmo agora fora substituída por puro ódio.
— Filha do Mal… eu irei queimá-la viva. — Declarou Mary, em um tom de ameaça, emanando um brilho negro de seus olhos.
Antes que qualquer ataque fosse lançado, uma voz grave cortou o ar.
— BASTA. — Ordenou o homem mais velho que acompanhava Mary.
Lilith estreitou os olhos com repulsa, o reconhecendo de imediato.
— Droga… esse velho também está aqui. — Murmurou. — Lilith. — Rafael.
Descendo sutilmente da carruagem, um senhor de longos cabelos grisalhos e barba igualmente farta, seus olhos cinzentos exalavam frieza e desprezo.
— Parem já com estas infantilidades. — Declarou Rafael — Já que está aqui, Lilith, nos conduza ao castelo, desejamos falar com o rei… e com o garoto, o tal Gabriel, aquele que ousou exterminar centenas de orcs sozinho.
As palavras não foram um pedido, eram uma ordem, carregadas do mesmo tom com que um mestre falaria a um servo, Lilith se virou e os acompanhou até o castelo, onde o rei já os esperava de portas abertas, junto a Kaelis, os demais heróis e Gabriel, em uma mesa farta, para um banquete.