Era uma sexta-feira à noite, por volta das oito e meia, quando Elizabeth caminhava com as amigas pelas ruas iluminadas do centro. Shorts curtos, tops, casacos antigos — roupas que pareciam sobreviver desde a adolescência. Riam alto, soltas, como se nada pudesse alcançá-las. Elizabeth, ou Eliza, como era chamada, ouviu seu nome.
A voz vinha da rua à esquerda. Ela se afastou das amigas e seguiu o chamado até uma casa de portão de correr aberto. A rua de repente ficou escura; apenas uma casa estava com as luzes ligadas e, na varanda, cadeiras vazias e garrafas espalhadas pelo chão indicavam que alguém estivesse ali há poucos minutos, aproveitando a sexta.
Um arrepio percorreu seu corpo. O coração acelerou, dividido entre o medo e uma familiaridade desconcertante. A voz era suave, parecida com a da avó, confortável demais, como se tocasse algo profundo em sua mente.
Eliza entrou. A casa estava toda aberta, e o vento fazia as portas baterem. Ao entrar, as luzes se apagaram. Ela seguiu para os fundos: uma árvore se agitava com a ventania que anunciava a chuva.
Cercada por prédios, a casa parecia deslocada, errada. Havia uma corda presa ao muro, estendida até a janela do terceiro andar do edifício atrás. Eliza segurou a corda, tentou ver se conseguiria subir, mas o medo de cair — ou de algo pior — a fez soltar. Quando se virou, alguém estava a poucos metros.
O rapaz usava uma máscara plástica de idoso e uma blusa preta com capuz, sem mangas. Por um instante absurdo, Eliza pensou no velho do Monopoly. Ele correu em sua direção e saltou. Os dois foram para o chão.
Ela se debateu, mas tudo escureceu. O mascarado se levantou, apontou uma arma para a própria cabeça e disparou. O som ecoou pela casa vazia. Pombos levantaram voo. Atrás dele, surgiu algo como um fantasma: traços de um ser idoso em um corpo forte e elegante, vestido como se tivesse saído de um desfile, usando até uma cartola preta.
Com sua mão, atravessou pela cabeça dela e puxou uma energia que brilhava, parecia ser alma dela. A criatura a absorveu e por um instante, brilhou sem intensidade, como se a alma de Eliza fosse fraca.
Em seguida, a criatura se dissolveu no corpo do rapaz. O homem mascarado se levantou, pouco a pouco, como se nada tivesse acontecido e ficou de pé novamente, encarando Eliza, deitada sobre a grama úmida e suja, voltava o vento frio que anunciava a chuva.