A silhueta do avião cortava as nuvens como uma lâmina prateada atravessando algodão sujo.
Dentro da cabine abafada, sob a luz fria que tornava todos os rostos pálidos demais, Tiān Shù mantinha a testa encostada na janela.
Ele observava o mundo lá embaixo desmanchar-se em manchas de verde e cinza, enquanto o vidro vibrava contra seu crânio em forma de um sussurro incômodo que percorria seus ossos como um presságio.
Seu destino era Wuyuan. Um ponto minúsculo no mapa, mas um abismo de lembranças.
Tiān Shù, o neto adotivo de Xuan Zhao.
O cartão de embarque estava tão amassado entre seus dedos que as bordas começavam a ceder. Ele só percebeu a força que exercia quando a ponta dos dedos latejou. Soltou o papel devagar, soltando um suspiro trêmulo que embaçou o vidro.
— Vovô… — murmurou, a palavra soando estrangeira em sua própria boca.
Estudante de história e arqueologia, Tiān Shù passava os dias escavando o passado alheio, analisando ruínas e fragmentos de civilizações mortas. Ironicamente, agora voltava para casa para lidar com os seus próprios escombros.
A mensagem de texto ainda queimava na memória, seca e final.
Morte por um ataque cardíaco. Falecimento imediato. Sem despedidas. Sem últimas instruções. Apenas um ponto final brutal colocado por um destino apressado.
— Que tipo de neto eu sou?
O pensamento era um ácido que o corroía desde a noite anterior.
As lembranças de Xuan Zhao eram feitas de lacunas. Tiān Shù fora um órfão adotado por um homem que parecia feito de granito e raízes antigas.
Recordava-se mais de silêncios do que de diálogos, mais de gestos austeros do que de afetos declarados. O amor de Xuan Zhao era como a dualidade entre luz e trevas.
Ele nunca dizia, porém expressava através de gestos como uma tigela de sopa quente deixada na mesa, as roupas escolares passadas com rigor, o dinheiro das mensalidades entregue em envelopes pardos e limpos.
Nunca um "eu te amo". Sempre um "coma antes que esfrie".
Na arrogância da juventude, Tiān Shù confundira aquela reserva com indiferença.
Eu achava que ele não ligava… que idiota, pensou, sentindo os olhos arderem. Agora, a arqueologia de sua própria vida revelava que aqueles silêncios eram, na verdade, proteções.
O impacto das rodas contra a pista de pouso o arrancou do torpor. O corpo foi jogado para a frente, e ele teve a estranha sensação de que o presente o estava empurrando de volta ao passado à força. Ao desembarcar, o cheiro de querosene misturou-se ao ar úmido e pesado do interior.
O céu de Wuyuan estava carregado, um cinza fúnebre que parecia respeitar o luto da terra.
No ponto de táxi, um motorista de rosto sulcado pelo sol levantou a mão.
— Para onde, rapaz?
Tiān Shù hesitou. Dizer o endereço parecia tornar a morte oficial.
— Zona rural… perto do vilarejo Shuanghe. A antiga casa dos Zhao.
O motorista soltou um assobio baixo, avaliando o jovem de roupas urbanas e mochila de marca.
— Longe. Estrada de terra batida. Vai custar caro.
— Não importa — respondeu Tiān Shù, entrando no carro.
O táxi partiu, deixando a civilização para trás. Prédios deram lugar a vales, e o asfalto cedeu lugar ao cascalho. O som constante das pedras atingindo o chassi ecoava como um relógio quebrado, marcando o tempo que ele não tinha mais.
Ao fechar os olhos, flashes do passado o golpearam.
O estalo da lenha sendo rachada ao amanhecer. O cheiro de madeira velha e chá de jasmim. As mãos de Xuan Zhao imensas, calejadas e firmes cobrindo as suas para ensinar um nó de marinheiro.
— Um homem precisa saber usar as próprias mãos — a voz rouca do avô ecoou em sua mente.
— Mas dói, vovô…
— Dói agora. Depois você agradece.
Tiān Shù apertou a alça da mochila. Ele se lembrou de um inverno rigoroso, quando era pequeno demais para alcançar a mesa, e sentiu o peso fantasma do casaco grosso que o avô jogara sobre seus ombros sem dizer uma única palavra, apenas ajeitando a gola com uma delicadeza que ele só compreendia agora.
— Está voltando para visitar a família? — o motorista tentou quebrar o gelo.
Tiān Shù olhou para os campos de arroz que passavam como um borrão verde lá fora.
— Funeral.
O homem assentiu, o tom de voz mudando instantaneamente para um respeito solene.
— Sinto muito, jovem.
Aquelas três palavras doeram mais do que o silêncio do avião. Tiān Shù apenas inclinou a cabeça, escondendo o rosto na sombra da cabine. Ele percebeu que não estava voltando apenas para enterrar um homem, mas para enfrentar o vazio que deixara para trás...a cadeira de balanço voltada para as montanhas, os cômodos que agora guardaram apenas o cheiro de poeira e o eco de uma vida que ele nunca se deu ao trabalho de conhecer verdadeiramente.
Havia um medo crescendo em seu peito. Não o medo dos fantasmas, mas o medo de descobrir que Xuan Zhao era um estranho que ele amou tarde demais.