A porta da frente rangeu, um protesto metálico que ecoou alto demais no vazio da sala. Tiān Shù parou no umbral, hesitando. O ar ali dentro parecia estagnado, uma cápsula do tempo preservando o aroma residual de tabaco de cachimbo, sândalo e aquele cheiro de papel velho que era a própria essência de Xuan Zhao.
— Estou em casa, vovô — sussurrou ele.
A frase morreu no ar, sem eco, sem o som habitual do rádio de pilha ou o ruído da chaleira. O silêncio daquela casa não era apenas a ausência de som, era uma presença que o sufocava.
Ele caminhou lentamente, sentindo as tábuas de cedro gemer sob seus pés como se também estivessem chorando. Seus olhos pousaram na cadeira de balanço de carvalho escuro, voltada para a janela das montanhas. O encosto estava gasto e polido exatamente onde a cabeça de Xuan Zhao costumava repousar durante as tardes de vigília silenciosa.
— “O tempo é como o vento, Shù-er,” — a voz do avô ressoou em sua mente, vívida como se o velho estivesse sentado ali. — “Se você não aprender a sentar e observar as nuvens, nunca entenderá o que é a vida. O homem que corre o tempo todo só chega mais rápido ao túmulo.” —
— Eu nunca tive paciência para as suas nuvens, não é? — Tiān Shù murmurou, o nó na garganta tornando-se uma dor física.
Ele se aproximou da mesa de jantar. Uma única xícara de porcelana repousava ali, limpa e solitária. Ao lado, o pote de cerâmica com os pincéis de caligrafia que ele, quando criança, achava um desperdício de tempo. Tiān Shù tocou as cerdas de um deles, fechando os olhos.
— “A firmeza do caráter começa na ponta do pincel,” — o velho dizia, a mão enorme e quente cobrindo a mão pequena de Tiān Shù, guiando o traço de tinta preta no papel de arroz. — “Às vezes, Shù-er, um traço bem feito vale mais que mil batalhas. O pincel não admite hesitação. Se você tremer, a tinta denuncia sua alma.” —
— Você era como o mestre Yoda, vovô... mandava frases de efeito sem sentido que agora fazem um sentido maldito — Tiān Shù soltou o pincel, a mão tremendo levemente. — Por que você nunca disse as coisas de um jeito simples? Por que tudo tinha que ser uma bobagem filosófica?
Movido por uma inquietação que não sabia explicar, como um instinto, ele entrou no pequeno escritório. Era o santuário de Xuan Zhao. Os livros de história e filosofia estavam alinhados com uma precisão que beirava o obsessivo. Mas algo quebrou a simetria perfeita que o avô tanto zelava.
O quadro na parede principal, um pergaminho emoldurado com o ideograma Hé (Paz ou Harmonia), estava milimetricamente inclinado para a esquerda.
Tiān Shù parou. Seus olhos se estreitaram.
Não. Isso é impossível.
Xuan Zhao era um homem que pregava a ordem absoluta como reflexo do cosmos. Ele era capaz de notar um grão de poeira fora de lugar a três metros de distância. Ele jamais morreria deixando aquele quadro torto. Se fosse um ataque cardíaco súbito, o quadro não se moveria sozinho.
— Você não era descuidado, vovô. Você nunca foi... — Tiān Shù sentiu o coração martelar contra as costelas. — Se isso está torto, foi um sinal. Ou alguém esteve aqui procurando algo.
Um calafrio subiu por sua espinha, um aviso ancestral que ignorava a lógica. Ele se aproximou da moldura, mas não tentou endireitá-la. Em vez disso, tateou o espaço entre a madeira e a parede. Seus dedos tocaram algo que não deveria estar ali: uma protuberância metálica, fria e polida, escondida em uma fresta quase invisível na parede de madeira dura.
Ele hesitou. Naquele momento, ele sentiu que estava no limiar de dois mundos. Se pressionasse aquilo, a imagem que tinha do "vovô bibliotecário" poderia mudar para sempre.
— Que se dane... vamos ver o que você enterrou aqui.
Ele pressionou o dispositivo.
O som que se seguiu não foi o de madeira velha, mas o rangido rítmico de engrenagens pesadas, lubrificadas e sofisticadas. Um mecanismo de alta engenharia, oculto sob as entranhas de uma casa centenária. No centro da sala, sob o tapete gasto, o solo se dividiu com uma precisão cirúrgica.
Um sopro de ar frio, seco e com cheiro de óleo mineral subiu do vácuo. Uma escadaria em espiral, feita de um metal escuro e fosco, descia para uma escuridão absoluta.
— Mas que diabos...? — Tiān Shù recuou, a mente em curto-circuito. — Você cuidava de hortas, vovô... você lia poesia para as flores e reclamava do preço do arroz...
Ele olhou para o abismo sob seus pés. Aquilo não era o porão de um historiador. Era o bunker de um guerreiro.
— Que tipo de mundo você estava escondendo de mim? E quem diabos era você, afinal?
Engolindo seco, ele pegou uma lanterna. O feixe de luz cortou a escuridão, revelando paredes reforçadas e degraus que pareciam conduzir ao desconhecido. Tiān Shù deu o primeiro passo, sentindo que, ao descer aquela escada, o neto arrependido morreria, e algo novo começaria a despertar.