O interior do táxi cheirava a pinheirinho de plástico barato e desespero econômico. Li Weizin não parecia se importar. Ele estava mergulhado na tela de seu smartphone, os olhos correndo freneticamente por uma página de Novel enquanto o veículo sacolejava pelas estradas precárias da zona rural.
— Inacreditável! — Li exclamou, jogando o corpo para trás no banco de couro sintético. — Como esperado do centésimo protagonista genérico coreano que eu leio! O cara acabou de solar uma Raid de rank SSS no meio de Tóquio usando apenas uma colher de plástico e o poder do "eu sou frio e calculista". Cadê a desconstrução? Cadê o arco de redenção? Cadê o desenvolvimento psicológico que não seja baseado em traumas de bullying no ensino médio? Que tipo de vida escolar de merda os coreanos terem para tudo girar sobre isso?
Ele bufou, ajustando os óculos (que ele usava apenas para parecer um intelectual quando estava lendo).
— Tem gente que realmente consome essa escrita fraca e genérica? Onde está a construção de mundo? Isso me soa extremamente raso. É um insulto à arte de uma narrativa!
O taxista, um homem que parecia ter sido esculpido em um bloco de granito e que já tinha aguentado três horas de reclamações sobre "clichês literários", apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Moleque, cale a boca! — O motorista rosnou, olhando pelo retrovisor com um ódio que poderia derreter aço. — As pessoas não leem esse tipo de merda por profundidade ou filosofia existencialista. Elas só querem ver lutas boas, explosões e masculinidade pura de quem resolve as coisas no soco, como em Dragon Ball! É entretenimento, não um simpósio de Oxford!
Li Weizin parou por um segundo, o dedo indicador pairando sobre a tela. Ele ponderou a resposta, fez uma reflexão mental e guardou o celular.
— Sabe de uma coisa? — Li sorriu de forma radiante, quase angelical. — Nisso você está absolutamente certo. Akira Toriyama era um verdadeiro gênio da simplicidade. Às vezes, o que o mundo precisa é apenas de um macaco alienígena gritando por cinco episódios para mudar a cor do cabelo. Eu respeito isso.
Antes que o taxista pudesse relaxar, o motor soltou um som de agonia metálica — algo entre um guincho de porco e uma explosão de panela de pressão. Uma fumaça densa e acinzentada começou a sair pelo capô. O carro deu três soluços e morreu no meio de uma ladeira cercada por floresta densa.
— Minha nossa! — gritou o taxista, batendo no painel.
— "Minha nossa", digo eu! — Li Weizin abriu a porta com um chute teatral. — Poxa vida, hein? Lá se foi minha carona gourmet. Terei que ir a pé? No meio do mato? Que merda, hein, universo? O roteirista desse capítulo está claramente tentando me forçar a acelerar o passo para salvar esse maldito moleque!
O taxista saiu, xingando em três dialetos diferentes enquanto abria o capô. Li Weizin suspirou, olhou para o topo da colina e depois para o GPS no celular.
— Bem, o dever chama. E o dever tem a voz de um velho rabugento que vai me fazer limpar o pavilhão com uma escova de dentes se eu me atrasar.
Sem nenhum aviso, Li Weizin flexionou os joelhos. O chão sob seus pés rachou levemente. Com um impulso que desafiava as leis da gravidade (e do bom senso), ele disparou para o alto como um foguete humano, deixando o taxista boquiaberto no meio da fumaça do motor.
— E um pássaro? E um avião? E o Super Homem!? Não e a porra do pirralho que não pagou a merda da corrida! Volte aqui seu merda!
[.]
Abaixo da colina, estacionados em frente à casa de Xuan Zhao, os soldados rasos da Tríade provaram que, mesmo no crime organizado, ninguém é de ferro.
Como Shěn Hào e seus discípulos prodígios já haviam entrado para fazer o "trabalho sujo", os capangas decidiram que ficar em pé guardando carros era entediante demais. Em menos de vinte minutos, eles haviam montado uma churrasqueira portátil tirada do porta-malas de uma van.
— Full House! — gritou um dos homens, jogando as cartas sobre uma caixa de munição que servia de mesa de poker. — Ganhei de novo, seus lixos! Passem os yuans!
— Isso está roubado, o baralho está marcado! — reclamou outro, enquanto virava um espetinho de carne de porco que exalava um cheiro delicioso de gordura e fumaça. — E passa a cerveja, o Mestre Shěn vai demorar. Aquele velho Zhao era osso duro de roer, o mestre deve estar se divertindo lá embaixo.
— É, a vida é boa — suspirou um terceiro, recostado em uma van preta de luxo. — Dinheiro fácil, churrasco grátis e a gente só precisa dar uns tiros se alguém aparecer. Mas quem seria burro o suficiente para...
BUM!
O teto da van preta colapsou como se um meteoro tivesse caído do espaço. O som de metal sendo esmagado e vidros estilhaçando silenciou instantaneamente a rodada de poker. O churrasqueiro deixou o espetinho cair na terra.
No centro do metal retorcido, onde antes ficava o teto da van, estava Li Weizin. Ele estava agachado, limpando um pouco de poeira do ombro da jaqueta, parecendo visivelmente irritado.
— Merda... o cálculo da parábola foi péssimo — Li resmungou para si mesmo. — Eu disse que devia ter prestado mais atenção nas aulas de física. Minha entrada heróica foi estragada por uma van de baixa qualidade.
Ele saltou dos destroços, caindo suavemente no chão diante de vinte homens armados que ainda tentavam processar a cena.
— Tríade? — Li Weizin olhou ao redor, notando o churrasco e as cartas. — Que seja! Preparem-se! Vamos acabar logo com isso porque eu tenho um episódio de Dagon Ball Super saindo em meia hora e a internet aqui é uma porcaria!
Os homens da Tríade se entreolharam. O churrasqueiro pegou uma espátula. O jogador de poker segurou o baralho. Ninguém sacou uma arma.
— Tá maluco, moleque? — o líder dos capangas disse, limpando o suor da testa. — Você literalmente caiu do céu! Você destruiu uma van blindada com a bunda! Você acha que somos burros?
Li Weizin piscou, confuso.
— Ué... vocês não vão me atacar? Eu fiz uma pose, disse uma frase de efeito... é assim que as coisas funcionam.
— Escuta aqui, "protagonista" — o capanga continuou, apontando para o churrasco. — Nós trabalhamos para ganhar dinheiro fácil e ter uma vida longa e prazerosa. A gente ganha por hora, não por perigo. Por que diabos iríamos lutar contra alguém que claramente tem "nome no título da obra" como você? A gente preza pelo nosso CPF, rapaz.
Li parou por um momento. Ele olhou para o espetinho no chão, depois para a van destruída, e por fim para os homens que pareciam genuinamente desinteressados em morrer naquele dia.
— Uau... — Li Weizin guardou as mãos nos bolsos. — Vocês têm um ponto muito válido. Na verdade, é a coisa mais sensata que eu ouvi hoje. A pragmática do figurante é fascinante. Então... eu posso ir?
— Claro! Fique à vontade — o churrasqueiro fez um gesto para o caminho da casa. — O nosso mestre marcial e os discípulos dele já entraram em busca do garoto. Eles estão lá embaixo no túnel agora. Se você for rápido, talvez pegue o final da luta.
Li Weizin deu um joinha, mas logo sua expressão mudou para uma preocupação cômica.
— Espera, obrigado pela informação, mas... o garoto já está morto? Eu espero que não, porque se ele morrer antes de eu chegar, aquele velho rabugento vai me encher o saco por toda a eternidade. E olha que ele já é insuportável, imagina agora ele me dando sermão sobre responsabilidadez!
— O garoto? Sei lá — o capanga deu de ombros, voltando a distribuir as cartas. — Mas o Mestre Shěn Hào não é conhecido por deixar testemunhas. Se eu fosse você, eu corria.
— Valeu, pessoal! Bom churrasco! — Li Weizin acenou e, com um movimento que parecia um borrão, desapareceu em direção à entrada da casa.
Um dos homens da Tríade olhou para a van destruída.
— A gente vai reportar isso?
— O quê? A van? — O líder suspirou. — Não. Vamos dizer que foi um raio. É mais fácil de explicar para o RH do que "a bunda de um artista marcial caiu do céu e destruiu a Van ". Agora me dá esse espetinho, o susto me deu fome.