— Nada... — disse a garota de voz doce e gentil, com uma expressão de apreensão seguida de um longo suspiro.
Aquela jovem esguia, estirada nas areias de uma praia deserta que não conhecia, já estava com os olhos abertos há pouco mais de três horas e ainda não conseguia mover seus braços e pernas. Conseguia apenas virar a cabeça um pouco para a esquerda e confirmar que a maré subia mais e mais, enquanto sua respiração começava a ficar mais ofegante a cada onda que alcançava seus pés.
— Certo... vamos aos poucos... vamos continuar com os exercícios de respiração e tentar mexer os dedos... — repetia para si, desde que acordou.
Teve um certo avanço, visto que o polegar e o indicador já conseguiam desenhar um pequeno círculo na areia.
— Merda! Preciso conseguir rápido!
Entretanto, o círculo desenhado na areia se apagou quando a maré alcançou sua cintura pela primeira vez. Seu braço ainda não subia acima de sua barriga. Ao menos, ela já conseguia sentir as queimaduras do sol em suas pernas brancas, agora avermelhadas. Apenas pedaços de pano amarrados, meio improvisados — sabe-se lá por quem — cobriam suas partes íntimas. Por mais que não aliviasse a tensão do momento, ela percebia que o sol já não seria uma preocupação. O céu limpo de antes já dava lugar às nuvens escuras que vinham do horizonte.
“Boiar até a civilização não parece uma opção muito viável” — pensou a jovem, com uma certa melancolia irônica, seu mecanismo de fuga preferido nas últimas horas.
Seus longos cabelos pretos já ondulavam em sincronia com a água. Quando a chuva começou, a maré já cobria quase todo seu corpo, exceto a cabeça. As próximas ondas a levariam a um destino incerto, na melhor das hipóteses — e a um destino certo, na pior.
Quando teve de segurar a respiração pela primeira vez, seu corpo se mexeu. Não apenas por esforço próprio, pois contou com o empurrão do mar, mas foi o suficiente para acessar músculos ainda não alcançados.
Seu corpo já estava sendo levado quando conseguiu bater os braços em direção à superfície. As pernas, ainda que com dificuldade, começavam a remar em sintonia. A adrenalina da situação deve ter ajudado, finalmente. A chuva apertava e o vento soprava; a força recém-conquistada não duraria para sempre, e as fortes ondas não perdoariam o esforço de contrariá-las.
A garota se manteve na superfície, remando com os pés até sua última força, apenas por tempo suficiente para um último pensamento:
“Não sei se isso é um sonho, um pesadelo ou uma realidade. Se ainda não acordei, é porque ainda posso viver mais. Se ainda tenho alguma lucidez neste sonho, é porque eu queria poder viver um pouco mais. Se ainda posso desejar algo, é que algo ou alguém me salve. Mesmo que seja um desses pássaros fugindo da chuva ou um desses peixes no fundo do mar.”
Suas últimas visões antes de perder a consciência, ainda lutando para se manter próxima da superfície, foi o bater de asas de um pássaro que mergulhou na água e uma criatura marinha se aproximando por baixo de si, como vultos no canto de seus olhos castanhos.
♦| ▼ Δ ▼ |♦
— OI! JÁ ACORDOU? OI! — gritava aquele papagaio verde e chato.
“Papagaio?!”
Quando o sol da manhã seguinte atingiu seu olhar, a garota já não estava em uma praia deserta. Estava perto de uma fogueira, na entrada de uma caverna, deitada em uma toalha.
Recuperara os movimentos em seus — até então — últimos suspiros e agora podia limpar o embaçado em seus olhos. Notou que estava vestida com uma camisa branca surrada e uma calça preta que não sabia de onde vieram. O papagaio aumentou o barulho, até que fez a jovem quebrar o silêncio.
— Foi você que me salvou? — perguntou, confusa.
O papagaio verde fez como se escondesse a face com a asa e deu uma risada de moleque engenhoso.
— Fui eu. Você deveria agradecer ao grande Psitta — disse, em 3ª pessoa e apontando para si mesmo com a asa.
Aquele não era um papagaio normal. Não apenas pela audácia, mas pela fisionomia. Parece mais com um bicho de pelúcia digitalizado, um pouco mais “cheinho” do que uma ave comum. Dois palmos de altura, cabeça grande demais pro corpo, bico curto e olhos enormes, quase todo desenhado e nenhum peso. Um serzinho desses tentando falar com empáfia poderia gerar uma única reação na jovem moça à sua frente.
— Que fofinho! Quem é o seu dono? Você fala muito bem, sabia? — A jovem apenas pegou Psitta como se fosse uma pelúcia qualquer e começou a fazer carinho.
— EI!! RESPEITE O GRANDE PSITTAaaaa...!! — Sua forma ficava amassada no forte abraço forte da moça.
Os carinhos na pelúcia nova cessaram quando ouviu barulho vindo da costa. Algo ou alguém havia saído da água. A jovem só pôde ver com o canto dos olhos o perigo aparecendo, e logo se mexeu. Ainda com Psitta nos braços, a jovem se escondeu atrás de uma pedra próxima, para poder avaliar a situação. Quando observou o que era... um susto. Do mar, saía uma nova figura, mais amedrontadora.
Uma criatura meio humana, meio peixe, do tamanho de um homem. Os dentes grandes e afiados que até saem da boca agarravam uma lula. A criatura buscava algo com seus olhos de peixe, mas parecia não encontrar. Começou a se arrastar com seus grandes e esguios braços pela areia da praia, rumo à fogueira na entrada de uma caverna, que até pouco tempo aquecia a garota assustada atrás da pedra. O fogo iluminava as escamas em tom azul metálico que cobriam toda sua parte de baixo até a cauda, os lados de sua cintura e parte de seus braços. Deixou a lula capturada de lado e deitou-se de bruços perto do fogo; seu cabelo de algas começou a secar naqueles cinco minutos em que aguardava alguém, calma. Cinco minutos que duraram horas para a garota, agarrada ao papagaio e tentando ao máximo fechar seu bico para que ele não denunciasse sua presença. Ela esperava qualquer momento de vacilação para escapar dali.
Quando se sentiu segura, ainda agachada, começou a andar em passos lentos rumo ao lado contrário da fogueira.
“Alguma vegetação e as grandes palmeiras próximas vão servir para ajudar a me esconder enquanto fujo” — pensou ela.
Em seus braços, Psitta já estava quase explodindo por tentar falar e ser impedido.
Após uns vinte passos, ela já estava se tranquilizando. “O pior já passou”, pensou novamente... De repente, a vegetação se moveu e um barulho de passos seguidos indicou algo grande se aproximando rápido. Por reflexo, a jovem se escondeu atrás de uma árvore. O silêncio tomou conta dos segundos seguintes. Sentada, com as costas encostadas na madeira, ela fechou os olhos e contou até dez, prendendo a respiração para evitar o barulho. Psitta já estava mudando de cor para vermelho.
“Não devia ter aberto os olhos após dez segundos.” — pensou depois.
Acima de sua cabeça, pendurada no tronco da palmeira em que se apoiava, estava uma figura bizarra: uma mão do tamanho de um gorila, se agarrando ao tronco com seu polegar, indicador, médio e anelar, restando apenas o mindinho, que segurava o corpo de um animal semelhante a um javali. Não há rosto, não há olhos visíveis, só a pele meio acinzentada e uma palma grossa. Apenas uma mão gigante e sem o corpo, que se encerra no início do pulso. A reação era óbvia:
— AAAAAAAAAAAAAA!!! — gritou a garota, em profundo espanto.
— AAAAAAAAAAAAAA!!! — gritou Psitta em sincronia, assustado com o grito da menina — ESPERA!!! NÃO É O QUE VOCÊ TÁ PENSANDO!! ME DEIXA FALAR!
Não adiantou. A jovem já estava há uns 15 metros de distância.
Sem olhar para trás, ela correu na areia da praia. De um lado, uma colina que não parecia ser escalável, como se fosse a parede íngreme de uma montanha ou vulcão. Do outro lado, um mar sem fim. Não via caminho por ali, mas também não via como parar de correr. Sua visão começou a ficar tunelada, como se escurecesse os arredores e apenas o ponto de foco continuasse com cores.
“Preciso escapar desse pesadelo”
Mesmo concentrada em algo que a ajudasse a sumir dali, era difícil enxergar contra o sol da manhã, que começava a se erguer no céu sobre a colina.
Como em um encontro do destino, saindo de uma clareira nas árvores acima da colina, surgia uma nova figura. Desta vez, não era aterrorizante.
Ela pulou lá de cima e apenas sua silhueta aparecia, formando a imagem centralizada de uma heroína destemida que não vê perigo em um simples salto de fé, envolta pela coroa solar.
“Uma pessoa!” — pensou, em alívio, a garota.
— PSITTA! — gritou a figura, com uma voz forte.
No mesmo instante, uma forte rajada de vento passou ao lado da jovem assustada, que não pôde ver mais do que o vulto de uma ave de grande porte indo a caminho de sua heroína momentânea.
O que a perseguia, de perto, era um novo monstro — uma serpente gigante — que tentava um bote derradeiro para devorar aquela silhueta que saltava aos olhos de nossa jovem. Sua boca se esticava por toda a envergadura de um ser humano.
No próximo instante... foi o tempo da cobra fechar a boca e aquela figura sumir da visão da jovem, parada como estátua nos intermináveis instantes que sucederam a mordida.
“Não... não... não..., esse pesadelo não acaba...” — pensou, paralisada em um desespero que fez o curto silêncio durar muito.
A serpente gigante em cima da colina, então, ficou igualmente paralisada, por uma razão até então desconhecida. Antes da jovem olhar para cima, aquela voz forte e decidida quebrou o silêncio e ecoou por toda a praia.
— PUGNO! Me dê uma mão! — Então, aquela pessoa descia do mais alto no céu com toda a velocidade, e com um punho direito gigante armado e exclamava, como se anunciasse um golpe final. — SOCO SUPERSÔNICO!
O soco desferido com o auxílio da gravidade teve velocidade ao ponto de criar um estrondo no ar e uma força tamanha ao ponto de destruir a beirada da colina em que estava a cobra, causando um deslizamento de terra no local. A poeira subiu e junto da terra, deslizava a heroína, plena, como se surfasse em uma suave onda. Antes de alcançar o chão e ser esmagada pelas pedras, ela saltou, e a ave que há pouco passava como um raio, agora vinha planando lentamente, em um movimento de agarrá-la pelos punhos.
Após um pouso tranquilo, finalmente a jovem voltou a pensar com calma. Estava antes maravilhada com o esplendor da cena de uma ave, em sua visão, mitológica, maior que uma águia e de penugem verde-escura e de brilho metálico; escoltando aquela pessoa, em sua visão, heroica, com um casaco branco esvoaçante que ia desde seus joelhos até acima de seu pescoço, com uma gola circular que escondia metade de sua face, até a ponta do nariz.
— Q-quem é você? — Perguntou a jovem, ainda maravilhada.
Sem resposta. Aquela pessoa nem deve ter percebido a pergunta; estava concentrada em outra coisa ao lado. Seu casaco branco era fechado do queixo ao peito por um zíper preto que dividia a peça ao meio. Aquela gola alta e rígida se erguia até cobrir metade do rosto — ali, bordada em preto, vivia uma face de teatro sorridente. Não podia ver sua face por completo, mas seus olhos eram gentis.
— Ei! Respeite minha amiga. Isso é jeito de falar com quem te salvou da morte? Ela é meio tímida, se apresente você antes. — Quem respondeu era... aquele papagaio. Após um redemoinho verde, ele prontamente voltou à sua forma pequena e subiu no ombro direito daquela pessoa.
— Mas eu... não sei me—
Um estrondo vindo da vegetação abaixo da colina. Algo grande vinha derrubando as árvores no caminho. Todos olharam em direção à poeira levantada pelo movimento, com atenção.
Quando aquela serpente se revelou novamente, com a face já meio amassada pelo soco anterior e sangue escorrendo, não houve nem tempo para sustos.
— Agora você não me esssscapa! — gritou a cobra gigante, com uma voz estridente e língua sibilante.
Preparada para uma vingança, a serpente avançou na direção daquela com o papagaio no ombro, que, sem hesitação alguma, exclamou.
— Neris! Garras de Metal!
Aquela serpente de treze metros de comprimento foi fatiada em quatro pedaços no momento seguinte. Um corte que cruzou o ar por vários metros antes de alcançá-la e ficou marcado na areia e nas pedras no caminho. O próprio vento que o acompanhou foi forte o bastante para esvoaçar os cabelos da jovem assustada.
“Isso veio de onde estávamos... da fogueira...” — Ao olhar para trás, a visão daquela sereia medonha veio à tona, novamente.
— Foi mal pela bagunça... hehe — murmurou a sereia de antes, com uma risada envergonhada e coçando a cabeça com sua garra direita.
“Sua voz é agradável” — pensou a jovem, naquele momento.
A figura da sereia desapareceu em um redemoinho azul, e se tornou menor, quase como a boneca de uma sereia, mas de pano. Assim como o papagaio de antes, ela parecia mais com um desenho digitalizado do que um boneco de pano normal.
Quando a situação parecia se acalmar, o surto de adrenalina na cabeça da jovem não permitiu a calma:
“O que tá acontecendo aqui? Esses monstros falam? O que tá acontecendo?! E aquela cobra? Essa sereia? Aquela mão gigante? Esses bichinhos de pelúcia que falam? Essa pessoa na minha frente? Ainda estou no meio de um sonho lúcido? Qual é o meu nome? Quem sou eu?!” — Junto a tantas informações que não estavam cabendo na cabeça daquela jovem que não sabia de nada, novos pensamentos surgiam.
“Será que vim parar em um conto de terror, ou história para crianças? Uma fáb—"
— Meu nome é Helen, desculpe por não ter me apresentado antes... — apresentava-se, aquela mulher de cabelos curtos espetados e brancos como a lua, oferecendo um apertar de mãos para a jovem, não correspondido e prontamente recolhido.
— Imaginei que não teria derrotado a Titanoboa com um só golpe. Elas costumam ter Robustez — continuou, ao notar que interrompia o pensamento da jovem, mas com vergonha demais para parar de falar.
Enquanto falava, o zíper preto de seu casaco descia devagar, mesmo sem que ela o fizesse. A gola alta cedeu primeiro, afrouxando o aperto que escondia metade de seu rosto — e ali, aos poucos, a máscara bordada se abriu junto com o tecido, como se a expressão de teatro também estivesse sendo despida. De cima a baixo, surgiu o nariz reto, os lábios finos e um queixo firme. Quando o zíper enfim parou, o casaco branco se abriu por completo na altura da cintura, e o rosto de Helen — andrógeno, sereno — surgiu inteiro pela primeira vez.
A moça apenas a encarava, com o olhar perdido na íris acinzentada dos olhos de Helen. Eram praticamente da mesma altura e elas estavam próximas, então era um olhar bastante direto. Um pouco envergonhada pela encarada, Helen olha para o lado e fica em silêncio. Um silêncio estranho que só é quebrado por Psitta, ainda em seu ombro.
— Vamos levar ela de volta pra fogueira, acho que essa confusão é fome. Vamos fazer o almoço!
Helen deu de ombros. Tentou fazer um sinal com as mãos para chamar a atenção da jovem, fez com a mão de um lado ao outro na frente dos olhos... e nada. Os punhos do casaco, também em preto, contrastavam com o branco imaculado do tecido, e por baixo, calça e botas igualmente escuras completavam o resto de sua silhueta.
“Pifou?” — questionou-se, Helen.
Enquanto pensa, a garota sente seu coração se acalmar. Dentro daquela cabeça, entre os infinitos pensamentos, deixou seu coração sonhador falar:
“Se isso é um sonho, eu posso controlar. Se isso é um pesadelo, vai virar um sonho. Se eu não puder controlar, se não faz sentido... é só colocar sentido. Se for uma história de terror, eu vou vencer o vilão... Se for uma história para crianças... eu vou sair com a moral da história. Cabeça no lugar... sempre. Eu posso contar essa história. Primeiro, eu preciso de um nome forte e misterioso, para virar o mistério da história...”
— Fábula. Meu nome é Fábula — disse a jovem, decidida, após um forte suspiro.
— Que legal! Vou te chamar de Fabi — respondeu Psitta.
— Prazer em te conhecer, Fabi — disse Helen, com um sorriso sincero no rosto.
— Não! É Fábula!!! — insistiu Fabi.
— Então o nome dela é Fabi? — questionou a sereia Neris, que estava um pouco mais distante e não ouviu a insistência.
— Isso! — confirmou Psitta, sumariamente.
Fabi apenas olhou para baixo, vendo seu nome criado com tanto afinco, dilacerado. Desistiu rápido, pois já tinha passado por emoções demais nas últimas horas. Não era um nome tão ruim aos seus ouvidos, afinal, e nem era seu nome de verdade, provavelmente. Serviria, por ora.
“Não consegui nem controlar como eles vão me chamar... que começo desastroso...”
Ao menos uma mão demonstrou apoio, segurando em seu ombro esquerdo.
— Fá... bu... la... — com uma voz grossa e rouca, uma pequena mão acinzentada tentava falar seu nome.
— AH! — em um movimento assustado, como quem tenta tirar um inseto do ombro, deu um tapa naquela mão, que saiu voando para longe.
— É... pelo jeito, ela gosta mais de Fabi mesmo... — disse Psitta, debochando.
Fabi respondeu com um olhar de desafio, apenas.
— Espera... você entendeu o que o Pugno e a Neris falaram? — questionou Helen, surpresa. Os olhos da máscara de teatro em sua gola também se arregalam.
— Sim...? — respondeu, na dúvida, Fabi.
— PESSOAL! REUNIÃO NA FOGUEIRA! — ordenou Psitta, ecoando o que Helen parecia prestes a gritar.
“Uma Fábula sem a ‘moral da história’ não existe. Acho que a moral da história aqui é: Se um dia você se esquecer de quem é... crie.”