As duas cataram as coisas cedo pela manhã, a fim de partir para a jornada que as levaria até Hefais. Helen tomava um banho de mar antes de ir, junto de Fabi, que já não se suportava mais. Algo nela a fazia pensar que passar mais de um dia sem banho era impensável, dois dias, então, seria quase um crime. De vez em quando, fitava o corpo de Helen e confabulava consigo mesma...
“Uma pele tão branca, mesmo estando embaixo do sol há tanto tempo. Ela deve se proteger com o casaco o tempo todo...”
“Essas cicatrizes não devem ser recentes, são de anos e anos de luta”
“E essas tatuagens? Um peixe estilizado... um punho em riste...”
“Um corpo muito jovem e definido, apesar da idade que ela deve ter. Foram quantos? Uns trinta anos foi o que Psitta disse ter tido em vida, antes... então são pelo menos trinta anos que ela tem, mas contando que ela não começou isso quando criança, dá pra dizer que são uns quarenta anos, no mínimo. Enfim... imagino que não seria muito respeitoso perguntar pra minha salvadora a sua idade...”
— Ei! Vai ficar nessa por muito tempo? Helen já está ficando corada com seus olhares.
Na fitada mais longa, a jovem se perdeu em seu próprio pensamento e foi interrompida por Psitta, que chegou voando em seus ombros. Por óbvio, Fabi se envergonhou e mergulhou a cabeça embaixo d’água no momento seguinte. O pássaro voou para os ombros de Helen.
— Desculpa. Tava pensando em outra coisa.
— Não quero nem saber no que era... — o papagaio faz sinal de negação com a cabeça e lança um olhar de desconfiança. — Vamos logo, temos que chegar no caminho do Vulcão Costa antes do almoço.
♦| ▼ Δ ▼ |♦
Elas já estavam se vestindo quando Fabi vê e se lembra de tirar mais uma dúvida com Helen:
— Essa mochila de onde você tira tudo... como ela funciona?
Era aquela mochila... A de Helen era preta e branca, combinava com seu casaco, com um visor na frente, que acendia de vez em quando. Neris disse ontem que odiava ficar lá e Fabi tinha entendido que, na forma de eidolon, ela ficava apertada em uma mochila tão pequena. Mas, mesmo assim, não tinha como a sereia de pano, Pugno e Hesta caberem ali. Fabi desistiu de entender e guardou a dúvida para outro momento oportuno. De certa forma, pôde entender nesta oportunidade:
— Como assim? São apenas Mochilas de Aventura. Enquanto tem energia, podem guardar quase tudo que seja até a nossa altura.
Helen continua guardando as tralhas do acampamento na mochila enquanto responde. Tudo que se coloca ali parece se desintegrar para caber. Há um pequeno visor na frente, que indica sua energia restante, aparentemente.
— Antes que eu me esqueça... — Helen pega alguns pacotinhos de plástico da mochila e lança para Fabi, do outro lado da fogueira apagada — Toma!
— O que é isso?
— Pedaços de carne da Rainha Viúva de ontem. Quando te der fome, coma um deles. São bons, por isso guardei.
Enquanto encara os pacotes em sua mão, pensa se vai ter vontade de comer isso após a visão no pesadelo de mais cedo.
“Tá... é só carne de aranha... eu até comi ontem antes do pesadelo... não sei se é só coisa da minha cabeça... Não sei se vou comer, mas já que Helen me deu, é bom guardar, mesmo assim”
— Está pronta? Estamos indo. O caminho é longo, a pé. — Helen tira Fabi de seu pensamento.
— Sim. Vamos!
Fabi se apressa com suas coisas. Não tem muitas coisas além da roupa do corpo e essa carne embrulhada em plástico, afinal.
O papagaio falastrão contara em sua conversa com Fabi que o vulcão que estavam faz parte da Cordilheira de Tífon, uma cadeia de montanhas que se estendia por milhares de quilômetros de oeste ao centro do continente de Ode. A Cidade da Forja acabou se aproveitando desse vulcão inativo para estabelecer sítios de escavação de minérios.
— Só tem um probleminha... você pode entrar em Hefais? — questionou Psitta, como se recordasse de algo enquanto elas começavam a caminhada.
Fabi não entendeu a pergunta, mas percebeu que não era direcionada a ela.
— Vamos descobrir quando chegarmos... — respondeu Helen, apreensiva. O rosto na gola de seu casaco mostrou uma expressão triste.
— Tá tudo bem? Tem algo que eu deveria saber? — perguntou Fabi, também apreensiva com a resposta de Helen.
— É que... digamos que Helen tem alguns problemas para socializar e isso leva a alguns mal-entendidos complicados. — disse Psitta, após voar para o ombro direito de Helen.
Fabi apenas assentiu com a cabeça. Aquela pessoa realmente parecia um pouco inacessível, inalcançável. Na noite anterior, em volta da fogueira, a jovem falou mais com os daimons do que com a quieta mulher, que ficava encarando o horizonte na maior parte do tempo.
Assim o grupo partiu. As duas humanas e o papagaio que ora voava, ora se sentava no ombro de alguma delas. Os outros se recolheram onde Fabi ainda não sabia, e nem havia perguntado.
♦| ▼ Δ ▼ |♦
Após uma caminhada de quatro horas no caminho que circunda o vulcão, finalmente viram o primeiro sinal de uma civilização. Não tão civilizado, no entanto, pois era uma cabana soterrada por um deslizamento. Pelo que disseram aqueles que ainda tinham as memórias, esse era um posto de recarga.
— Recarga de quê?
— A Mochila precisa de energia para funcionar. Hesta, saia. Precisamos procurar alguma bateria aqui. — O lagarto com carapaça de bulbo se materializou, saindo como uma nuvem de dados da mochila após o chamado de Helen. — Hesta, use Cavar.
Fabi apenas observou e compreendeu. Ainda não entendia o motivo das reclamações de Neris na noite anterior, mas o funcionamento da mochila acontecia diante de seus olhos.
O lagarto começou a escavar aquele amontoado de pedregulhos que desabou sobre a cabana, sumiu em um buraco e só retornou após uns três minutos, com um dispositivo na boca.
Helen pegou o dispositivo, que mais parecia um celular, e fez carinho na cabeça de Hesta. Com a mão do carinho ainda ocupada, a outra mão foi responsável por apertar a tecla na lateral do aparelho.
— Tem pouco, mas já funciona.
Em poucos movimentos, Helen tirou a mochila das costas, desconectou o visor da mochila e trocou pelo “novo”.
— Deve durar até amanhã — complementou.
Fabi olhava em volta com suspeição. Psitta voltava de um voo à frente apenas para confirmar o que ela acabara de notar: caminho estava impedido por uma série de deslizamentos dali para frente. Por algum motivo, não havia uma alma viva no caminho, também.
— Você não acha estranho? Esse caminho já foi mais movimentado, não faz sentido o abandonarem por nada. Aquela praia, apesar de desabitada, era frequentada — ponderou Psitta, ainda em sua forma daimon.
— Com certeza, mas nós podemos descobrir a causa disso depois. Precisamos atravessar essa montanha até o fim da tarde. — Enquanto falava, Helen foi até a grade que demarcava o caminho e olhou para baixo. Apenas pedras e o mar podem ser vistos, não é possível dar meia volta e atravessar por ali
— Não podemos fazer a Hesta cavar pelo caminho todo e gastar toda sua energia. Se não me engano, há uma entrada para o atalho interno do Costa aqui por perto. Você viu?
— É logo a frente, em outro posto próximo e abandonado, também soterrado.
E assim o grupo continuou a caminhada até o tal posto, que nem mesmo era reconhecível, totalmente destruído e tomado por pedras. Uma entrada decorada em madeira de carvalho e com a placa “Câmaras do Vulcão Costa – Entrada Sudoeste” ficava ao lado, demarcada por algumas fitas e com algumas placas de aviso. Não era uma entrada bem cuidada, visto que apresentava rachaduras aparentes, mas o interior parecia intacto.
O que mais incomodava não era nem o perigo de desabamento, alertado por uma das placas, mas sim aquele cartaz meio rasgado na parede externa, em meio a vários outros, a dois passos da frente da entrada, que parecia servir como um mural de avisos. No cartaz, podia-se ver retalhos de um retrato falado, os quais Fabi olhou de relance antes do grupo entrar na caverna. Não perguntou nada para não alarmar Helen. No que se podia distinguir daquele cartaz, estava desenhada uma pessoa de cabelo espetado e um característico casaco de gola circular, que escondia metade de seu rosto e mostrava uma face do teatro bordada em preto; essa imagem estava logo acima da palavra “Procurado”.
“Quem é Helen?” — O pensamento que continuava pairando sobre sua cabeça ganhava mais uma camada.
Até então, apesar de mais fechada, Helen foi bastante gentil consigo. A jovem não conseguia pensar que ela pudesse fazê-la algum mal. Seus daimons também à enalteciam sempre que perguntados algo sobre sua amiga. A conversa com Psitta no dia anterior não deixava dúvidas; ela era uma pessoa bondosa.
Fabi não se sentia confortável em questioná-la sobre isso agora. Enquanto andavam, a apreensão a consumia com o tempero do silêncio. Nem mesmo a ave tagarela falava.
— Há uns dez anos, eu estive aqui, nessa mesma caverna. Estava fazendo o que já fazia desde sempre. Buscava o que sempre busquei. Algum adversário forte o suficiente.
Como se pudesse ler o que a Fabi pensava, Helen começou a se explicar.
— Os daimons me falaram que aqui, no fundo desses túneis, habitava um Mítico da classe Terra.
Fabi olhou para o chão enquanto Helen falava. Não por desatenção, mas porque o solo começou a tremer.
Fabi olhou para trás. A entrada que estava a pouco mais de vinte passos, e agora, parecia estar a cem metros.
Fabi olhou, tensa, para Helen, que não esboçou tensão alguma, apenas continuou falando.
— Eu derrotei esse daimon, mas me custou muito... um de meus amigos morreu naquele dia.
Fabi olhou para trás e viu que uma parede se mexeu e fechou a entrada.
Fabi olhou para frente e para os lados, e as paredes pareciam se mexer a todo momento.
— Posso ter passado um pouco dos limites na retaliação.
Fabi olhou para os lados e viu Pugno, Neris, Psitta e Hesta se manifestarem em suas formas originais. A jovem recuou dois passos, com medo, mas escutou atentamente as palavras de Helen.
— Há um problema que eu não considerei na época, e parece ter ocorrido aqui: quando você acaba com o topo de uma cadeia alimentar, outros assumem esse lugar, e nada impede que eles sejam piores que os anteriores.
Fabi olhou para frente e viu uma das paredes se colocar na frente de Helen e seus daimons.
— PUGNO! Soco Supersônico. — Com um forte estrondo no ar que ressoou pelos túneis à frente, a parede que se movia foi destruída com a rápida investida daquela mão gigante.
Fabi olhou para frente viu outra parede. No instante seguinte, essa outra parede já se colocava entre ela e o grupo de Helen, sem que eles percebessem. O chão que antes tremia, agora não era mais sentido.
Fabi olhou para o lado e viu as paredes se mexendo... ou pior... agora, era ela caindo.
Fabi fechou os olhos. Quando abriu, não viu mais nem um traço de Helen e seus daimons.
Fabi olhou para frente, caída no chão e de barriga para cima. Só viu uma luz refletida no teto de sabe-se lá onde estava e algumas sombras irreconhecíveis projetadas por aquela luz.
Após tanto olhar para fora nesses últimos segundos, Fabi finalmente olhou para dentro de si mesma e pensou:
“Eu só queria dar um passo e saber para onde estou andando.”
♦| ▼ Δ ▼ |♦
— Lá vamos nós de novo... — disse Fabi, em um desabafo seguido de um longo suspiro.
A jovem acordou na penumbra, apenas com a pálida reflexão daquela luz alaranjada no teto do local onde caiu. A boa notícia era que nessa estreita câmara subterrânea, pela distância da luz, a altura da queda não foi mais de três metros, algo possível de se escalar sem tanta dificuldade. A má notícia estava em seu braço direito, esmagado pelos escombros que caíram junto.
Com as costas no chão, sentindo muita dor ao tentar se mover, Fabi estava à espera de que alguém a salvasse, novamente. Um sentimento de amargor e impotência a tomava, por conta da situação parecida que se repetia tão logo. Se havia uma boa notícia, era a de que os tremores cessaram. Só eram sentidos de longe, e de vez em quando.
Entre os problemas, as sombras. Naquela luz projetada por uma fonte que ela nem sabia qual era, as sombras e vultos assustavam mais do que um braço quebrado. Ora um escorpião com dois ferrões, ora uma aranha como aquela que tinha visto Helen derrotar no dia anterior. Ora uma forma disforme andando em dois braços e nenhuma perna, ora um grupo de ratos de dentes serrilhados. Fora os constantes voos e barulhos que pareciam vir de morcegos, todos com ruídos que se tornavam aterrorizantes ao ecoar e reverberar pelos túneis acima. Figuras grandes, amedrontadoras, desconhecidas.
O medo do desconhecido não é novidade para ninguém, mas, a partir do ponto em que tudo é desconhecido, toda novidade pode dar medo. Neste mundo novo, foram poucos os momentos em que o medo não se apossou de Fabi. Sua paralisia não era apenas de dor, afinal.
“Mas eu não posso continuar assim”
E ela continuou assim por mais algum tempo antes de poder mudar. Por vezes, esperamos uma oportunidade de mudar e não a agarramos. E então, vem uma surpresa que te obriga a mudar, por bem ou por mal.
Para o azar de Fabi, a surpresa foi de encontro a sua barriga, caindo lá do alto, assim como ela. Para a sua sorte, naquele momento, a surpresa não era um escorpião de dois ferrões, nem uma aranha cabeluda, nem uma esfera de dois braços, nem um rato com dente de serra.
Após um tremor que começou distante e foi se aproximando, aquela figurinha espantou a sombra da aranha que estava de guarda há uns minutos em frente à entrada da câmara estreita, chocou-se contra a parede oposta da entrada e caiu. Antes de alcançar o chão, havia um colchão humano chamado Fabi, que só teve tempo para o reflexo de cobrir o rosto com o único braço que sobrou. A pancada a fez soltar um urro de dor, que no fim nem era tão ligado ao choque, e sim ao movimento forçado do braço soterrado.
“A paralisia voltou” — pensava Fabi, enquanto aquilo que caiu em cima dela também não se mexia.
O medo faz coisas... faz ações serem tomadas. Algumas criaturas, quando diante do perigo inescapável, atacam ferozmente. Outras, na mesma situação, se fingem de mortas. Este parecia ser o caso de Fabi. Quem sabe não fosse o caso da criatura em cima dela, também?
Se passaram alguns minutos. Poeira e detritos acumulados já haviam entupido seu nariz — as fungadas denunciariam sua vida pelo barulho. Logo, a boca aberta era a forma de respirar. Sua respiração era a mais silenciosa e espaçada que conseguia. Chegou a se afogar uma vez com a poeira, mas se segurou ao máximo para não tossir ou fazer barulho.
“Esse bicho não tá se mexendo... e se?” — Apesar de Fabi não agir, pensou esse mesmo pensamento por algumas vezes durante os minutos que se sucederam.
Quando começou a criar coragem, foi com cuidado. Abriu os olhos e, lentamente, trouxe o queixo para próximo do peito, encolhendo o pescoço. Todo o movimento vagaroso não adiantou muito: a penumbra em que estavam não era clara o suficiente para enxergar algo no fundo do buraco. Retornou a cabeça à posição original, também devagar. Se a visão não era suficiente, precisaria ser outro sentido. O olfato estava fora de cogitação.
“Vou ter que tocar nele... parece peludo... ainda está quente.” — A primeira impressão acalmava um pouco.
Ela já havia percebido que era um daimon pequeno. Lembrava um cachorro ou gato.
“Aqui é a cabeça... um focinho... está respirando, meio ofegante... se ainda não me mordeu, deve estar desacordado ou sem forças. Pensando bem, bateu forte na parede antes de cair em mim.” — Enquanto passava a mão pela criatura, reconhecia cada parte.
Chegando perto de uma das patas, ouviu um pequeno choro e a respiração ofegante aumentou em volume. Voltou à cabeça, onde tinha sentido outra textura estranha. Parecia bem mais sólida que o resto.
“Uma pedra? Será que ficou cravada na pancada? Não sinto sangue aqui.”
Nesse momento, sem muito o que fazer, sentiu alento em apenas fazer carinho naquela criatura que nem mesmo podia ver. De certa forma, estavam na mesma situação ali. De repente, aquela palavra apareceu em sua cabeça e não saiu mais.
“Vínculo”
Afinal de contas, o que era esse tal vínculo que Helen tinha com seus daimons e que a deixava tão poderosa? Era como amizade? Fabi ainda não tinha como saber até tentar. Com esse pensamento, ela tentou.
— E aí? Você consegue entender o que eu falo? — disse Fabi, com uma voz tenra.
Sem resposta imediata. Ela apenas continuou passando a mão na cabeça da criatura. Segundos se passaram em silêncio, até ouvir.
— V-você me entende? — disse aquela voz fina, infantil e com algum resquício de medo.
Era um filhote, como ela já suspeitava, pelo tamanho.
— Sim — respondeu Fabi, com um sorriso no rosto. — Você tem nome?
— Não.
— Bem... podemos resolver isso depois. Pode me chamar de Fabi. Você tá machucada? Tá sentindo alguma dor além da pata?
— Não... mas tô com fome.
— Espera um pouco... — Do bolso da calça, Fabi tirou um pedaço de carne embrulhado em plástico, fruto da aranha de ontem. — Consegue comer isso aqui?
Após um focinho gelado percorrer sua mão cheirando a comida, Fabi sentiu os dentes e uma língua pegando os pedaços pouco a pouco.
— Não sei se vai ser o suficiente pra matar sua fome, mas acho que já ajuda.
— Sim. — Sua voz ofegante dava espaço a um pouco de mastigação, nesse momento.
— Não sei como você veio parar aqui... mas parece que a gente tá combinando, né? Também tô com o braço machucado.
— Eu não sei... eu tava só fugindo das pedras com braço e de repente caí.
“Pedras com braço? Pode ser o daimon que apareceu na sombra...”
— Elas dão medo né?
— Sim.
— Parece meio perigoso esse lugar. Um filhotinho igual você não deveria andar sozinho por aí — disse a Tia Fabi...
— Eu não tava sozinho... eu só me perdi do meu amigo quando eles atacaram...
Poucos segundos se passaram enquanto Fabi encontrava palavras.
— Você tava com medo?
— Sim.
Após mais alguns instantes em silêncio, Fabi continua.
— Você ainda tá com medo?
— Sim.
— É? Eu também...
Com um sorriso disfarçado no rosto, Fabi começou a se abrir. Ela conta como veio parar aqui — ou melhor, como não sabe como veio parar aqui. Conta a aventura dos últimos dois dias. Conta sobre Helen com sua imagem heroica. Conta sobre os monstros que ela viu. Conta sobre o medo que sentiu em apenas dois dias... Conta com algumas lágrimas nos olhos, que não permitem mais disfarçar o sorriso. A mão que fazia carinho no filhote, no entanto, não parou por nenhum momento. Sentiu que o medo tomaria conta de ambos novamente, se o soltasse.
— E-eu... não sei como vim parar aqui também... só acordei aqui sem saber de nada. Não lembro da minha mãe. Não sou parecida com os meus amigos aqui. Eles também não sabem.
“Finalmente... a filhote se abriu, mesmo que pouco” — pensou Fabi.
— Então também somos parecidas nisso, né? A gente nasceu ontem e já foi jogado nesse mundo — disse Fabi, voltando a brincar um pouco.
Elas continuaram nessa conexão por mais alguns minutos, agora sem palavras. As lágrimas de antes já haviam secado quando o silêncio se quebrou mais uma vez.
— Ei... Posso te subir pra mais perto do meu rosto? Quero te enxergar.
— S-sim. — Um resquício de medo continuava na voz, mas o filhote resolveu confiar.
O pouco da luz que chegava até aquele fundo de buraco só era suficiente para enxergar mal até um palmo dos olhos. Foi até ali que Fabi puxou o filhote, com o máximo de cuidado para não tocar em seu machucado, pegando pelo seu cangote. Com as duas cabeças próximas, foi possível identificar a aparência de uma pequena raposa. Em sua testa, um fraco brilho vermelho vinha daquela pedra antes percebida com a mão.
— Posso te chamar de Rubi?
— Sim! — respondeu a raposinha.
Fabi nem conseguia ver direito, mas podia sentir que o “Sim!” veio com um sorriso, um rabinho abanando na escuridão e um brilho crescente naquele cristal vermelho.
“O caminho nem sempre está à sua frente. Às vezes, está no sorriso mais próximo.”