A raposa recém-nomeada Rubi ficou descansando no peito de Fabi. Em poucos minutos, sua pata machucada já havia se recuperado. Apesar de não entender os mecanismos de um vínculo, a jovem pôde perceber o potencial dessa habilidade. O sentimento dentro de si não deixava dúvidas: um vínculo havia sido estabelecido com aquela raposinha.
Ainda com seu braço imobilizado, embaixo de um monte de pedras, a saída dali parecia mais distante a cada momento.
“Será que ela vai me abandonar aqui? Ela nem olhou pra trás quando eu caí.”
Não poderia deixar de pensar se Helen estava procurando. Os barulhos distantes ficavam mais distantes; os tremores que os acompanhavam também.
“Ela deve estar lutando pra sobreviver... não posso cobrar tanto dela.”
Foram três dias de algo incompreensível... Para não se perder em pensamentos ruins, Fabi olhou para Rubi.
“Será que ela vai pensar que eu sou uma heroína pra ela, no futuro?”
Rubi mexeu a cabeça e cruzou o olhar com Fabi. Levantou-se e caminhou por cima dela para se aproximar. Como se sentisse a tristeza de sua nova amiga, encostou e roçou sua testa na dela. Aquele rubi brilhou um pouco mais forte e marcou uma fraca luz vermelha no local de contato com Fabi.
— Você não consegue ver aqui, né? Eu te ajudo — disse a raposinha.
Quando olhou para frente, Fabi conseguiu ter uma visão bem mais clara do interior daquele buraco. No entanto, ela via a si mesma, deitada. Ela via o que Rubi enxergava naquele momento.
Não era como uma visão normal; parecia não ter cores. Quando Rubi olhou para cima, a luz já não tinha mais um brilho alaranjado. Apenas uma cor diferente de tons alvinegros podia ser vista, e estava em sua testa. A mancha que Rubi botou ali se mantinha emanando uma luz vermelha, em um tom mais vivo e forte, como um carmesim.
Finalmente pôde identificar o montante em cima de seu braço. Não era maior que a altura da raposinha, mas ela não conseguiria retirar algumas pedras por si só.
— Posso te ajudar? — perguntou a raposa.
Fabi assentiu com a cabeça, levando seu braço esquerdo para a ajuda. Era um pouco estranho movimentar seu braço sem estar olhando “em primeira pessoa”, então ela tomou um tempo até se adaptar. Apenas a visão de Rubi tinha sido compartilhada; os outros sentidos ainda estavam em seu corpo.
Com o auxílio de Rubi, que começou a retirar as pedras pequenas com a boca, uma por uma, Fabi sentiu que poderia movimentar-se um pouco, novamente. O suficiente para erguer a pedra maior que esmagava seu braço e puxá-lo dali, sentindo muita dor no caminho. A visão de seu braço, ao fim da tarefa, não era melhor do que o imaginado. Estava estraçalhado, como ela pressentiu. Já com seus olhos de volta a si, encostou-se na parede da câmara.
Com algumas lágrimas de dor e o carinho de Rubi, os próximos minutos foram dedicados à inércia. Parada, apoiada na parede abaixo do buraco, Fabi aguardava a dor se estabilizar, enquanto ela pensava no que poderia fazer. Prestando atenção ao buraco onde estava, percebeu sua própria sorte. A poucos centímetros de onde se deitava, outro montante de pedras havia caído perto de onde estava sua cabeça.
Rubi a encarava nesse meio tempo, com olhar de preocupação. Quando notou o olhar da raposa, Fabi voltou à ação.
— Rubi... você pode me ajudar mais um pouco?
— Sim!! — A raposa levantou-se do colo de Fabi e começou a abanar o rabo.
— Vamos tentar sair desse buraco...
Quando a jovem se levantou, com a raposinha em seu braço esquerdo como um bebê, olhou para cima e viu que aquela luz no teto estava projetando mais sombras...
♦| ▼ Δ ▼ |♦
— Aquilo ali brilha sozinho — sussurra Fabi, olhando para a mancha de luz alaranjada no teto. — Não é tocha, nem fogueira. Não tá pulsando como fogo. Parece mais como a luz do sol, era mais forte quando eu caí e agora está enfraquecendo.
Rubi ergue as orelhas triangulares, o cristal na testa reagindo de leve à claridade distante, mas não diz nada. Não há nada que ela possa dizer sobre luz que já não esteja escrito no próprio corpo dela.
É então que as sombras começam a se mover.
Duas formas cruzam a fresta lá em cima, longas e recurvas, uma delas terminando em ponta dupla, a outra achatada e larga como uma lâmina. Fabi franze a testa. Não são mãos. Não são galhos.
— São — ela procura a palavra certa — ferramentas!?
E, no instante em que a intenção por trás daquelas sombras toca algo dentro dela, do jeito que só Daimons tocam, Fabi entende: não está vendo objetos. Está ouvindo alguém.
— Olha só como ele brilha — a sombra em forma de picareta parece dizer, embora "dizer" seja uma palavra emprestada para o que realmente acontece. — E eu aqui, fosca, sem nada que me distinga dos irmãos. Se eu levasse um pedaço comigo, talvez brilhasse também.
A segunda sombra, a da pá, hesita antes de responder — Fabi sente a hesitação antes mesmo de captar as palavras:
— Esse cristal não é enfeite. Fui eu que cavei este túnel, palmo por palmo, pra que ele fosse a luz para esse túnel.
— Um pedaço não é o cristal inteiro. Só uma lasca. Uma lasquinha não vai fazer falta a ninguém.
Fabi sente Rubi enrijecer ao lado dela. A filhote de Rapúrpura também está ouvindo.
— Elas vão tirar um pedaço do cristal — murmura Fabi. — Do que está bem em cima de nós.
Pá cede. Uma terceira sombra surge, mais fina que as outras duas, terminando numa ponta única e cruel
— Ponteiro! — essa terceira sombra, reta e pontuda, foi chamada para fazer o que nenhuma das outras duas teria força ou precisão para fazer. — Só uma lasca — repete Picareta, e Fabi já reconhece, no timbre daquela intenção, algo parecido com fome. — Encoste de leve. Belisca o canto.
Mas Ponteiro não sabe beliscar. Só sabe rachar.
O estalo chega até a câmara antes mesmo da sombra se mexer — um som seco, profundo, que percorre a rocha como um susto. E a luz no teto, que até então era um facho firme e amarelado, se despedaça em fiapos, se espalha, enfraquece.
Fabi sente o ar mudar. Não é o ar que muda — é a luz que falta.
— Não — ela sussurra, olhando para a claridade que se esvai. — Não, não, não agora—
Sem pensar, sem calcular se seria ouvida, se seria entendida, ela grita para cima, para a rocha, para a fresta que escurece:
— Ajuda! A luz — a luz está sumindo, eu preciso dela, por favor, alguém me escuta?!
Lá em cima, algo se move de um jeito diferente das outras sombras. Menor. Mais devagar. É Pá — Fabi reconhece o formato achatado, agora imóvel, como se estivesse ouvindo algo que não sabe processar direito.
Pá ouve, e o que chega até Pá não é "uma garota presa pedindo socorro". É só isto: o buraco está reclamando. O buraco quer luz.
Simples assim, para uma mente que nunca precisou ser mais complexa que isso.
— O Buraco está com fome de luz — diz Pá, e há algo quase terno na forma como ela repete a frase, como se fosse óbvia.
Pá se mexe para mais perto do cristal, como se para observar algo.
— Tem luz pra baixo, o cristal não quebrou inteiro.
Pá se volta para o Buraco.
— Eu cavei este túnel para ele. Se ele está com fome, eu cavo mais fundo.
A picareta protesta, mas Fabi já não ouve com clareza o resto da conversa — o som da pá começa a se sobrepor a tudo, um golpe atrás do outro, rítmico, decidido, cada vez mais perto.
Entre o que Fabi não conseguia escutar, estavam as reclamações sobre os próprios pedaços de cristal que a picareta segura — pequenos e opacos, já rachando sozinhos ao menor toque. Não brilham. Nunca vão brilhar como o cristal brilhava inteiro. Mas isso já não importa para Fabi. O que importa é o som da pá, cavando, cavando, cavando — até que uma rachadura se abre na parede da câmara, e por ela entra, finalmente, um facho de luz limpo, firme, vindo de baixo do cristal — da metade que Ponteiro não alcançou.
Rubi ergue o focinho para a luz nova como quem reconhece um velho amigo.
— Páryk! — exclama a raposinha.
♦| ▼ Δ ▼ |♦
A fenda aberta pela criatura chegava até um pouco acima da cintura de Fabi e revelava um túnel íngreme que desembocava na passagem de cima, onde as ações se desenrolavam até pouco tempo atrás. Agora, ela tinha visual do que eram as “ferramentas” que falavam há pouco.
Batendo não mais do que a altura de sua cintura até o peito, ela podia observar uma certa semelhança com um caranguejo-eremita:
“A carapaça é um capacete de proteção, com algo que parece um olho ocupando o local da lanterna desse capacete, pois o vejo piscando. Dois pares de patas, que saem debaixo do capacete, são picaretas com pontas longas e recurvas que fincam um pouco no chão a cada passo. Aquelas que seriam as duas garras da frente, no entanto, se diferenciam em tamanho. Ambas têm a forma de pá, que abrem em seu meio como uma pinça. Uma é maior que a outra, algo que provavelmente se relaciona à presença de um membro dominan—”
— Fabiiii! Ele quer saber o que você é e se você não é inimiga? O que você é? — perguntou a inocente Rubi, interrompendo a “varredura completa” que Fabi fazia.
— Sou... amiga, acho? Você conhece... isso? — respondeu Fabi, ainda um pouco dispersa.
— É ele que me protege desde que eu acordei aqui! O nome dele é... Páryk. Eu que dei esse nome, igual você fez comigo antes — disse Rubi, abanando o rabo e sorrindo.
No entanto, o que capturou sua atenção naquele momento foi a fonte de luz naquele túnel.
— Então, o que é isso? — disse Fabi, apontando para o cristal cor-de-mel, que reluzia em laranja.
A criatura à sua frente não respondeu, apenas virou para a direção que ela apontou, e então se voltou para Rubi, murmurando alguma coisa que a jovem não compreendeu.
Diante da não-resposta do... daimon... ferramentas de mineração... Fabi resolveu parar e entender a situação.
— Legal... ele não me entende direito, né? — questionou Fabi, direcionando a pergunta para Rubi.
Após alguns cochichos com Páryk, a raposa respondeu:
— Ele entende um pouco, ele disse.
— Que bom... então, se eu disser que quero ver esse cristal, ele deixa? Preciso que ele saia da frente.
O caranguejo-ferramenta abriu caminho para a dupla passar. Como a fenda escavada era pequena, pouco maior do que Páryk em seu diâmetro, além de um tanto íngreme, Fabi teria dificuldade de subir com um só braço.
Rubi notou que sua amiga está pensando e ficou um pouco inquieta, abanando o rabo, como vem sendo o costume. Com alguns segundos de pensamento, Fabi retornou com a solução.
— Você vai ver por mim, Rubi. Consegue fazer aquilo de novo?
— Sim!!
Após tocar o rubi em sua testa e deixar de enxergar com os próprios olhos, pediu que Rubi subisse para perto do cristal. Engatinhando com algum cuidado pelo estreito túnel, a raposa ergueu a cabeça assim que encontrou espaço. A passagem na qual a história das sombras se desenrolou era apenas mais um túnel, escuro para onde pudesse ver, exceto pela luz emanada pela pedra preciosa à sua frente.
Sem poder distinguir cores com a visão da raposa, o cristal apenas brilhava tão forte quanto qualquer lâmpada de luz branca. O que despertou a curiosidade de Fabi, no entanto, não era o brilho.
Assim como insetos são atraídos ao ver a luz, humanos são atraídos ao ver seus semelhantes. Assim, formam grupos, vínculos e afeto. Logo, a imagem que se via dentro do cristal era bastante reconhecível para Fabi, embora não fosse tanto para outras criaturas dessa caverna...
“É uma pessoa ali no meio? Será que... tá viva? A luz atrapalha a visão...” — observou Fabi, com alguma dificuldade, ainda se acostumando à visão de Rubi.
Não sabia se aqueles eram tremores ou suas pernas bambas com a figura que se desenhava logo à frente, mas o chão tremeu. Também não tinha como ver a si mesma para confirmar, no momento.
O cristal estava um pouco opaco pela sua metade fraturada logo acima, mas a visão era distinguível. Uma pessoa estava presa naquele cristal. Naquele instante, Fabi não pensou no perigo ou na dor ao tentar subir aquele túnel. Não pensou nem se essa pessoa estava viva. Queria apenas confirmar que via outra pessoa ali. Com dificuldades, mas conseguia praticamente escalar, aproveitando alguns poucos sulcos que Páryk havia deixado em sua escavação. Não via direito o caminho, então, Rubi foi ser seus olhos, observando o caminho pela saída do túnel cavado.
Ainda era um pouco confuso, mas pegou rápido o controle de seus movimentos com essa visão em terceira pessoa. Tentava ao máximo não mexer o braço machucado, mantendo-o próximo à sua barriga enquanto engatinhava.
Do lado de fora, Páryk tentava avisar Rubi de algo. Fabi, que estava mais focada em subir do que escutar, ignorou a conversa. Não deveria.
Com suas pinças no formato de pá apontadas e agitadas na direção do buraco, o caranguejo-ferramenta gritava, ao seu modo:
— O Cara-Treme!!! O Cara-Treme!!! — Enquanto apontava, o tremor de terra aumentava, como se algo se aproximasse. — Faz puxar rápido grande quatro-pernas!
Rubi não sabia o que fazer... tirou os olhos do caminho no meio da tensão e dificultou a pressa de Fabi. Para desfazer o compartilhamento de visão, precisava tocar novamente a testa da amiga com sua pedra.
— Rubi!! Tá tudo bem aí? — questionou Fabi, que já pressentia algo de errado nesse momento.
Tudo ficou escuro. Não foi Rubi fechando os olhos, mas o túnel se fechando sozinho. A visão de Fabi voltou, mas naquele escuro, era irrelevante.
Páryk correu para abrir novamente uma fenda para que a luz passasse e ela subisse, mas não ajudou tanto. A luz apenas revelou um novo perigo para Fabi. À sua frente, a centímetros de onde engatinhava, um rosto apareceu. Era quase como um rosto humano, mas faltava expressão, era estático e esculpido na pedra.
Fabi não gritou na hora, já viu várias coisas que a deram medo nesses dias e sua reação continuou a mesma das outras oportunidades... parou de se mexer. Talvez nem fosse muito prudente se movimentar com aquilo à sua frente. Rubi se desesperou e correu para salvá-la, mas nada podia fazer. A face esculpida em pedra apenas desapareceu e o tremor voltou.
Já com Rubi colada em seu braço, Fabi não poderia pensar em nada além de:
“Essa coisa vai me levar”
Dito e feito. O último tremor pareceu ter rachado tudo à sua volta. Abraçadas começaram a cair. Não viam o fundo para onde estavam caindo, apenas fecharam os olhos e se abraçaram, como se não tivessem se conhecido por acaso há poucas horas, vítimas de outras quedas.
“Nossa vida é feita de quedas. Em nossa morte, é quando aprendemos a voar e deixamos de sentir o frio do chão que nos rodeia. Sinceramente? Gostava mais quando eu podia botar os pés no chão”