Segundos se passaram na queda livre. Certamente elas não esperavam que durassem segundos, mas não queriam abrir os olhos para averiguar a situação. Não alcançaram o chão, felizmente.
Em meio à queda, veio o resgate. Voando com asas próprias, sua heroína aparecia novamente, pegando-a pelo colo sem esforço. Depois que Fabi abriu os olhos e viu o rosto de Helen, sentiu-se profundamente aliviada. Helen, no entanto, nem mesmo disse uma palavra de conforto. Apenas olhou para longe e encarou a situação em que estava. Fabi acompanhou esse olhar e finalmente tomou dimensão do problema. Uma imensa câmara subterrânea havia se formado ali, embaixo de onde ela estava.
Não havia tempo de se questionar o motivo, pois os daimons de Helen lutavam bravamente em cima de uma única passarela suspensa, feita da mesma pedra que as paredes, que cruzava de lado a lado essa câmara.
De longe, Fabi não reconhecia os inimigos que estavam sendo combatidos, mas a sensação de que eles estavam camuflados no terreno era óbvia.
— Preciso voltar rápido. Vou te deixar em um lugar seguro — disse Helen, em um tom de seriedade.
O local seguro era, curiosamente, uma protuberância nas paredes dessa câmara que emitia uma fraca luz alaranjada... outro cristal como aquele que iluminava o túnel de Páryk. Vários deles estavam encrustados naquelas paredes, quase como se demarcassem o espaço.
— O CRISTAL! — exclamou Fabi, recordando-se do problema.
Olhando em volta, avistou o buraco de onde veio. Pendurado às paredes da caverna por grandes teias de aranha, estava aquele grande cristal brilhante e parcialmente rachado. Tendia a cair em breve, visto que as teias se esticavam lentamente e não tardariam a ceder. Pensou em pedir ajuda para Helen e logo viu que seria impossível.
Aquela passarela estava movimentada demais...
♦| ▼ Δ ▼ |♦
Nas duas pontas da passarela, havia grandes portas ornadas com pedras brilhantes. Uma delas, presumivelmente, foi a passagem que Helen tomou para chegar aqui, pois estava entreaberta. A outra, cravejada de diamantes, estava fechada. No centro da passarela, uma plataforma no formato de círculo acomodava em seu centro, mais um daqueles cristais cintilantes. Em volta do cristal, estavam o grupo de Helen e seus daimons, enfrentando vários inimigos, “de costas para a parede” e com um espaço estreito para agir. Embaixo, uma escuridão sem fim, que alertava sobre a profundidade dessa câmara. No todo, o cenário assustava pela magnitude da estrutura dentro de um vulcão inativo.
Não havia equilíbrio em números entre aliados e inimigos. Todo o equilíbrio ficava por parte do grupo de Helen, que precisava se atentar para não cair na escuridão sem fundo desta câmara.
No centro:
Helen em sua transformação de Harpia, fundida a Psitta, com o brilho metálico das penas verdes tornando-a euma figura distinguível no campo de batalha. Era algo que Fabi havia conversado com o papagaio no dia anterior, mas vê-la com os próprios olhos é impressionante. Seus braços se tornavam asas, seus pés viravam garras afiadíssimas. Uma matadora aérea.
Neris em sua forma primal, a de sereia cheia de dentes e garras afiadas. Diferente do que Fabi imaginava, a sereia conseguia se virar muito bem em terra firme... ou melhor, voando. Aqui, ela mostrava asas pretas que se fundiam ao breu do abismo embaixo de seus pés e só eram vistas pela silhueta que formavam quando atravessavam o campo de visão. No entanto, ambas as voadoras não conseguiam atacar os adversários.
Pugno estava retraído em sua forma de Eidolon, sendo apenas uma mãozinha andando na cabeça de Hesta. O lagarto-lamparina se limitava a erguer paredões de pedra para se defender de ataques e empurrar os inimigos abismo abaixo. O fogo em seu bulbo/carapaça estava pouco intenso e Fabi não sabia se o motivo era estratégico ou falta de energia.
Os inimigos, por sua vez, pareciam se esconder no chão das passarelas...
Em cada um dos lados da passarela estreita, algumas figuras se mostravam, de vez em quando, na superfície. Eram esferas com braços, as mesmas que Fabi viu em seu momento contemplativo com as sombras no buraco. Ela não podia ver com clareza, mas as esferas tinham faces humanas estáticas, cada uma diferente da outra e mais dramática que a outra. Ainda estava conectando os pontos, ao observar que uma dessas criaturas entrava no chão e podia movê-lo ao fazer isso, compreendendo que foi uma dessas que a derrubou, junto de Rubi; e que eram essas as criaturas que estavam causando toda essa confusão dentro do vulcão.
Da visão de cima, de Fabi, eram inúmeras criaturas andando como formigas pelo caminho, que cercavam os daimons no centro ao mesmo tempo em que outros tentavam acertar os dois que voavam, com projéteis de pedra que não ganhavam altura ou velocidade o suficiente para acertar a Harpia e Neris. Ambas se moviam como verdadeiros ases manobrando no meio do ar.
“Eles parecem estar com dificuldades... assim não vai dar pra ajudar a pegar o cristal...” — pensou Fabi... pensava em mais mil coisas, no momento.
“Como eu posso chegar lá?”
“Se eu gritar para Helen ajudar, ela vai me ouvir?”
“Com esse braço quebrado eu não vou conseguir ajudar de jeito nenhum”
“A pessoa dentro do cristal já deve estar morta, por que eu quero tanto me esforçar por isso?”
Entretanto, o que foi exclamado entre os mil pensamentos foi o mais simples, ao olhar para a raposa em seu colo...
— Você é roxa?! Se eu soubesse não daria o nome de uma pedra vermelha — disse Fabi, como se estivesse atônita com a revelação da penugem de Rubi.
— EI! Eu gosto de Rubi — respondeu a raposinha irritada.
— Gosto também, só queria quebrar a tensão... — respondeu Fabi, acariciando as costas da raposa em seu colo. — Mas eu esperava uma raposa normal.
— E mais! Eu nem sei o que é rox—
A raposa parou por um instante, andou para fora do colo de Fabi e encarou a parede atrás da protuberância onde estavam para identificar algo que se aproximava. Não tardou muito até escutar umas batidas por perto. Duas batidas depois, um pequeno buraco se abriu e dele, pôde ver a causa.
— Páryk!! Picáryk!! São vocês? Como chegaram aqui? — questionou a raposa.
— Pedra-luz bonita baixo caminho cavei ontem. Pedra-sangue eu vi longe mesmo caminho cavei ontem.
Ouvindo essas frases não tão compreensíveis, Fabi apenas imaginou que seria um caminho que os caranguejos-ferramenta já conheciam. Era essa a chance que ela esperava, então logo pediu para que os dois abrissem caminho para que pudessem “salvar” a pessoa no cristal. Outras questões e pensamentos ficaram para depois.
Sem pestanejar, entrou na fenda que Picáryk abriu e voltou ao túnel. Agora, com ajuda de Rubi e dos caranguejos, poderia se mover por lá sem muito medo. Assim ela pensou, mas logo se assustaria novamente.
Correram juntos pelos túneis por algum tempo. Os cristais iluminavam o caminho em algumas partes; o rubi de Rubi era como uma luz de emergência quando estava tudo escuro.
“Talvez, por estarem todos focados em enfrentar Helen, aqueles monstrinhos não estão vindo me atacar” — pensou a jovem.
Não demorou muito até retornarem para a passagem onde estava o cristal. Um pouco da luz ainda vinha de onde estava o cristal. Parecia ter sido quebrado em dois pedaços, talvez, motivado pela rachadura de antes.
Porém, o buraco estava com uma guarda feroz e, provavelmente, a responsável pelas teias que seguravam o cristal por alguns fios até então. Uma aranha preta, parecida com uma armadeira, com suas patas da frente apontadas para cima, em sinal de alerta. Era quase do tamanho dos caranguejos-ferramenta.
Fabi parou, com medo, enquanto os daimons continuaram indo em direção à aranha.
— Rubi!! Cuidado!! Ela pode atacar!
Quando Fabi pediu, Rubi parou e olhou para trás.
— Por quê? Ela tem oito rubis iguais ao meu, ela deve ser do bem — disse a inocente raposa.
Eram duas fileiras horizontais de quatro olhos, que realmente brilhavam como um rubi. Seus pedipalpos também eram vermelhos, seu corpo cheio de pelos e o formato do corpo não deixavam dúvidas... era da mesma espécie que o Hegemon que Helen derrotou no dia anterior.
— São olhos, idiota — respondeu Fabi, seca.
— Ei! Precisava?... — questionou Rubi, devido à brutalidade verbal de sua amiga. Suas orelhas, antes apontadas para o alto, se abaixaram.
— Oito-pernas bem. Hoje segura pedra-luz Páryk não segura ontem. Oito-pernas ajuda. Oito-pernas ferramenta alto igual Páryk. — disse Páryk.
Seja lá o que ele disse com isso, não parecia estar falando de algum inimigo. Também conseguia se aproximar bastante sem parecer que ela iria atacar, algo que tranquilizou Fabi. Com isso, ela começou a se aproximar.
— Vou chegar mais perto, tudo bem, Dona Aranha? — disse, tentando acalmá-la e se acalmar, Fabi.
Sem resposta, mas a aranha já havia abaixado as pernas da frente; não estava mais em posição de alerta.
— Você consegue me entender?
Ainda sem resposta. Os daimons à volta pareciam não entender a dificuldade de comunicação entre ambas, pois se entendiam com a aranha. Elas estavam próximas o suficiente para que Fabi enxergasse o cristal e as teias que o seguravam de cima. Enquanto desviava brevemente o olhar para o cristal e para a batalha que acontecia de fundo em seu ponto de vista, Fabi tentou se comunicar novamente:
— Acho que precisamos de sua ajuda, Don—
Sem aviso, a aranha pulou e se grudou em Fabi, com quelíceras apontadas e pedipalpos agarrados no pescoço da jovem, que, por sua vez, soltou um grito ecoando por todo o sistema de túneis daquele vulcão.
♦| ▼ Δ ▼ |♦
Fabi continuava deitada. Foram dez segundos de apreensão. Rubi, Páryk e Picáryk estavam ao seu lado.
— Levante-se logo! — disse aquela voz grossa.
“O que vai acontecer agora?”
— Você já deve conseguir compreender-me.
“Será que o veneno não é daqueles de doer?”
— Rápido! Precisamos resolver o problema com o cristal.
“Espera... não tá doendo tanto...”
— Vou mordê-la novamente.
— Só mais cinco minutos... — respondeu Fabi, cobrindo os olhos da luz com o braço.
— Você nem está dormindo.
Quando abriu os olhos, tomou um susto.
A aranha estava imóvel, pendurada no teto com sua teia, logo acima de Fabi, que permanecia deitada e com sua única “mão boa” no local da mordida.
— AAAAAaaaaaaaaaa! — Outro grito de Fabi que ecoou, mas foi diminuindo à medida que percebeu que a situação não era de perigo.
— Finalmente conseguiu entender-me — disse a aranha de voz grossa.
Fabi conferia seu pescoço. Realmente não sentia nada de dor vindo dali, apenas cócegas.
— Não havia veneno em minha mordida; foi apenas uma forma de quebrar a barreira de contato. Não se preocupe.
— Foi você que grudou as teias no cristal, né? Consegue fazer mais disso? O cristal já tá pra cair.
— Não... como está, meu pisar nas teias já causará seu rompimento. O cristal está condenado a cair. Precisamos da ajuda de seus colegas.
— E você pode ajudar na luta?
— Não... eu nasci ontem, não sou forte o suficiente para enfrentar essas pedras.
Contemplativas na batalha que se desenrolava na plataforma, Fabi e a aranha encaravam o vazio.
— De inútil basta Fabi. Ajude de algum jeito — interveio Rubi.
— Ei! Precisava?... — Fabi apenas olhou feio para a raposinha.
“Levou pro coração o ‘idiota’ de antes, é?” — pensou.
— Não sou inútil. Diferente de você... bebê chorona. Acha que não vi como caiu no buraco antes? Dessa alturazinha e se quebrou todo? — respondeu a aranha, provocando e afinando um pouco sua voz grossa.
“Continuo numa fábula... que loucura...” — pensou Fabi.
Não deixou de pensar no problema durante a discussão entre os dois, no entanto. Observando como a batalha se desenrolava, começou a notar padrões.
“Esses daimons ‘entram’ no chão para atacar...”
“Eles parecem cavar um buraco com os braços para caber a cabeça... é assim que entram.”
“Eles tomam o controle do solo e erguem paredes de... mais ou menos um metro de raio do ponto de onde entram. Mas só conseguem erguer paredes da própria espessura, como se não fosse um poder em ‘três dimensões’...”
“Mesmo sendo muitos... mais de cinquenta... não conseguem nem cercar os daimons de Helen apertados desse jeito...”
“Não se aproximam do cristal no centro da passarela, só ficam cercando e desviando dela para alcançar Helen e seus daimons”
Quando olhou em volta da câmara, notou que vários desses daimons estavam se movendo pelas paredes. Alguns estavam se movendo “na forma de parede”, enquanto outros estavam em sua “forma livre”, mais rápidos em direção à plataforma. Todos evitavam os cristais encrustados nas paredes.
“Será que é a luz? Ou alguma coisa na composição dos crist—”
— HESTA! SUBA NO CRISTAL! Neris, dê cobertura! Pugno, venha até mim!
Interrompendo o pensamento de Fabi, Helen soltou um grito de ordem aos seus daimons. Em questão de dois instantes, sua figura desapareceu do campo de batalha e reapareceu na frente do buraco de onde Fabi e os outros acompanhavam tudo.
— Vou pegar isso daqui emprestado. — A Harpia apontou com a garra para o cristal pendurado pelas teias.
— O quê? — perguntou Fabi, mas não obteve resposta.
Vendo de perto, pôde perceber o tamanho dela, quase duas vezes o seu próprio na forma humana. A Harpia cortou as teias com suas garras e voou para baixo antes que o cristal caísse com velocidade. Agarrou com uma mão gigante que saía de suas costas... Pugno. Ele não estava em cima do cristal e nem perto de Hesta.
Fazendo mais força para voar, deu um voo rasante na plataforma, e todas aquelas criaturas no caminho se afastaram ou se jogaram para o abismo. Preferir a morte a chegar perto de algo significa muita coisa.
“Helen chegou na mesma conclusão que eu... Eles não podem tocar nesses cristais... se foram esses daimons que construíram essa câmara, é por isso que os cristais delimitam o perímetro.”
No entanto, a cena que viu em seguida deixou Fabi sem palavras...
O ataque dos daimons de pedra não havia acabado e Helen, já em sua forma humana, não hesitou nem por um segundo, desferindo um soco direto contra o cristal, fraturando-o em vários pedaços. Com sua mão grande carregando vários cacos do cristal, arremessou-os para cima e ordenou:
— Psitta! Rajada.
O forte bater de asas de Psitta se tornou uma rajada de vento que cruzou desde a plataforma em que estavam até a porta do outro lado da passarela, carregando a poeira de cristal consigo. Os vários daimons de pedra no caminho foram atingidos e instantaneamente perderam o movimento.
“Não!... Mas tinha... uma pessoa... aí dentro...”
De longe, Fabi não reagiu com palavras; guardou para si o sentimento.
“Talvez fosse o único jeito de sobreviver... certo? Não posso culpar ela...”
Tentava se consolar e entender a situação por parte de Helen.
“Alguns sacrifícios são necessários, não? Nem sabia se a pessoa estava viva...”
Com a situação controlada na plataforma, Helen voltou à sua forma de Harpia e voou até onde estavam Fabi e os outros daimons que a acompanhavam. Não foi tão rápida quanto da última vez; voou sem pressa.
Ao chegar, pairar no ar em frente a Fabi, e olhar para os daimons que a acompanhavam, questionou:
— Quem são esses? Cuidado com quem anda, podem ser perigosos... — Sua voz parecia fundida com a de Psitta, uma mistura muito desagradável aos ouvidos.
Olhando para o lado, viu Rubi encarar com cara de alerta e os dois caranguejos-ferramenta se encolherem. A aranha não estava mais ali, ao seu lado.
Não teve resposta pronta para a pergunta, apenas encarou, com medo, a Harpia
Os intermináveis três segundos seguintes foram observando a face sorridente desenhada no casaco de Helen, que se fundia àquela forma com asas.
“Por que aquela face parece estar sorrindo, logo agora?...”