Sete de Junho de 2090.
A humanidade contida naquele canto esmagado da terra permanecia estilhaçada, assombrada pelo fantasma cinzento de uma guerra nuclear devastadora que varrera o planeta em 2062. Onde outrora existiam leis, instituições e a ilusão da ordem, agora reinavam a violência crua e a criminalidade desenfreada. O produto amargo, seco e decadente daqueles que, por mera ironia ou hábito arraigado, ainda insistiam em se chamar de humanos.
Das cinzas fumegantes daquela ruína global emergiu o Tribunal. Uma facção extremista, de braço forte e retórica impecável, que tomaria o controle absoluto da Inglaterra sob a justificativa moral de evitar um segundo fim do mundo. Erguera-se assim um regime tirânico, alheio a qualquer ética ou compaixão, ancorado na premissa brutal de que a única forma de garantir a preservação da espécie era extirpar, pela raiz, a liberdade de cada cidadão.
Entre os escombros enferrujados da velha civilização e a sombra constante dessa tirania, restava a indagação moral que poucos ousavam fazer em voz alta: até onde algo pode se dizer humano?
CAPÍTULO 1: UM NOVO PONTO DE VISTA
Arthur contava apenas dezenove anos, mas já trazia o mapa das ruas mais perigosas cravado na pele e na postura. Se conseguira sobreviver à miséria absoluta que o cercava desde o dia em que nasceu, fora graças a um dom técnico apurado e quase instintivo: dominava a solda, a lógica da programação e os segredos da eletricidade como quem manuseia peças em um tabuleiro de xadrez. Sem qualquer acesso à educação formal, tornara-se um mecânico autodidata respeitado no submundo, terminando integrado a um grupo criminoso local onde sua função principal era a fabricação, modificação e manutenção de armamentos artesanais.
Naquele dia específico, contudo, a encomenda recebida saíra completamente do padrão habitual. Os chefes do bando exigiram dele a construção de armas pesadas, de calibre superior, o que o forçara a buscar insumos e peças de alta resistência fora de seu raio usual de varredura.
O jovem invadiu os destroços silenciosos de uma antiga fábrica, abandonada desde os idos de 2073, quando os últimos motores industriais da região pifaram de vez. O ar no interior do galpão era denso, impregnado pelo cheiro forte de fuligem, óleo queimado e mofo acumulado ao longo de décadas. Enquanto revirava carcaças de aço dobrado, tubulações corroídas e cabos ressecados pelo tempo, murmurou para si mesmo em tom de frustração:
— Tralha, tralha e mais tralha. Nada que realmente se aproveite para o que preciso...
Detendo as mãos calejadas sobre uma pilha de destroços no fundo do galpão, algo sob o entulho acumulado prendeu sua atenção. Uma garra metálica maciça sobressaía-se da estrutura rasgada de um caixote de madeira compensada.
Arthur aproximou-se devagar, limpou a poeira espessa e afastou as tábuas quebradas, revelando um chassis imponente de aproximadamente dois metros de altura. Um robô completo, esquecido pelo mundo.
O jovem ajoelhou-se ao lado da carcaça de metal escuro, examinando os conectores expostos com o olhar atento de quem procura um sinal de vida. A esperança de qualquer reativação era mínima, quase nula. Tratava-se de uma unidade visivelmente antiquada, com linhas de produção estimadas entre as décadas de 2040 e 2050 — a era da engenharia "limpa", muito anterior ao colapso total da infraestrutura global.
Ainda assim, tomado por uma curiosidade quase infantil, sacou da mochila uma bateria portátil de alta amperagem que carregava para emergências. Improvisou cabos de ligação direta, conectando os fios descascados às garras e aos terminais principais do robô. A descarga elétrica gerou um estalo seco que ressoou pelo galpão vazio. O corpo pesado de metal chacoalhou em um solavanco, emitindo um zumbido grave de engrenagens despertando, antes que as ópticas frontais da máquina piscassem em um tom âmbar fosco.
Contra todas as probabilidades lógicas, a unidade respondeu.
— Mark-187 ao seu dispor — executou o protocolo automático de fábrica, a voz sintetizada soando grave, ríspida e profundamente metálica. O robô inclinou o chassi com um rangido pesado, varrendo o ambiente com seus sensores até focar a figura franzina do jovem mecânico. — Identificação não reconhecida nos arquivos locais. Favor apresentar seu crachá de autorização de nível operacional.
Duas garras cegas de aço oxidado avançaram mecanicamente na direção de Arthur, aguardando a validação do documento inexistente.
— Que crachá o quê, amigo? Não está vendo ao seu redor que isso aqui é só uma estrutura em ruínas? — Arthur deu um passo para trás, surpreso com o movimento, e ajustou o casaco puído no corpo.
— Confirmar status do setor... — A cabeça quadrada da máquina pendeu levemente para o lado, engrenagens internas estalando enquanto tentava processar o ambiente. — Poderia especificar a data e o ano correntes para recalibragem do sistema?
— Sete de junho de 2090 — respondeu Arthur, desconfiado.
A máquina estaticou por completo. O zumbido de seu processador interno intensificou-se por longos e angustiantes segundos enquanto cruzava registros antigos do relógio interno com a informação recente dada pelo rapaz.
— Período total de inatividade registrado: quarenta e oito anos, dois meses e vinte e nove dias — declarou o robô, baixando os braços de aço. — Solicito atualização imediata de dados sobre o cenário geopolítico e social atual.
— Como você acha que o mundo está depois de meio século? — perguntou Arthur, cruzando os braços sobre o peito.
— Conforme os modelos prospectivos da minha época de fabricação: alto desenvolvimento tecnológico, pacificação global consolidada e vasto avanço científico compartilhado — respondeu a máquina, emitindo um tom sintetizado que simulava um entusiasmo pré-programado.
Arthur soltou uma risada curta, seca e desprovida de qualquer humor, encarando os olhos brilhantes do robô antes de balançar a cabeça em sinal de negação.
— O mundo colapsou completamente, Mark. Não sobrou nada além de ruínas cinzentas, crime desenfreado nas ruas e uma ditadura de extremistas no topo controlando tudo o que restou. Então... Mark-187, certo? O cenário atual é uma distopia absoluta e desorganizada.
A luz óptica da máquina vacilou por um segundo, caindo de intensidade.
— Lamento profundamente ter solicitado esses dados.
Mark-187 articulou as pernas pesadas, fazendo o chão de concreto rachado tremer ligeiramente enquanto se colocava de pé, ajustando sua altura ao teto baixo do galpão. Caminhou com passos lentos e ritmados até a saída emperrada e aguardou. Arthur, entendendo o gesto, forçou a chapa de ferro retorcida da porta para o lado, permitindo que a máquina finalmente encarasse o horizonte exterior.
Sensores ópticos varreram a paisagem desolada de edifícios destruídos, fumaça distante e um céu perpetuamente poluído.
— Os parâmetros visuais confirmam plenamente a degradação do ambiente — atestou o robô com sua voz monocórdica.
Passaram a caminhar lado a lado pela extensão árida da terra de ninguém, o espaço sem lei entre os setores abandonados. Conforme avançavam lentamente entre os montes de entulho, a máquina resgatava arquivos antigos de sua memória dormente. Relatou, com certo saudosismo algorítmico, que, segundo seus bancos de dados históricos, as árvores costumavam apresentar uma coloração verde viva e densa, um detalhe visual que soou quase como fático e lendário para os ouvidos de Arthur.
— O Tribunal opera como um regime autoritário cego e implacável — explicou o jovem, ajustando a alça pesada de sua bolsa de ferramentas no ombro. — Para quem nasce fora da cúpula de ferro deles, a vida resume-se a isso aqui: violência diária, miséria e o pior que a natureza humana tem a oferecer. Mas se você tiver a sorte de nascer do lado de dentro... você tem direito à educação, trabalho, saúde e segurança. Nós somos simplesmente a escória para eles. "Baratas", é como nos chamam nos discursos oficiais, já que nunca estaremos ligados à estrutura deles.
Arthur parou de andar por um instante, virando-se para observar a imponência rígida de aço do robô ao seu lado.
— Teoricamente, só existiria um jeito de mudar o rumo dessa história, embora sempre tenha parecido algo absolutamente impossível... Derrubar o Tribunal de vez. Mas vendo você agora, e considerando tudo o que podemos mapear juntos com a sua tecnologia e a minha engenharia... talvez essa conta comece a fechar de verdade.
— E você acredita mesmo que conseguiria mudar todo um sistema tirânico usando apenas uma máquina obsoleta de meio século atrás como ele?
Uma voz, abafada por um filtro denso e estranho, ecoou repentinamente vinda de cima deles.
Arthur sobressaltou-se, levando a mão ao cabo da faca na cintura, e ergueu o rosto rapidamente. No topo de um poste de iluminação pública retorcido pela guerra, desenhava-se a silhueta sombria e imponente que era constantemente mencionada nos boatos aterrorizados das zonas periféricas.
A figura trajava um casaco bege de pele pesada e puída sobre um capuz perfeitamente ajustado, calças volumosas reforçadas e botas de combate desgastadas. O rosto estava totalmente oculto por uma máscara rígida de cor amarela com a estampa macabra de uma caveira, da qual sobressaíam apenas duas mechas longas de cabelo ruivo. Presa às costas por faixas de tecido grosso e encardido, carregava uma lâmina longa e reta com pequenos cantos curvos.
Ali, observando-os de cima com atenção gélida, estava o mercenário mais perigoso daquela região periférica. O assassino implacável da areia. A grande figura a quem todos os sobreviventes chamavam apenas de Sandman.