A Curandeira amaldiçoada

Capítulo 1
Após o espancamento...
— O Sr. Antônio da Silva! — gritou uma enfermeira de meia-idade, com olhos fundos e voz arrogante.
Um senhor de idade avançada se levantou em meio às dezenas de pessoas que esperavam para serem atendidas naquele hospital. Seu andar era errático devido ao espancamento que sofrera por não querer obedecer ao guarda que lhe pediu que deixasse o banco onde dormia e fosse embora — para outro lugar ou até que desaparecesse; o guarda não se importava. Só não queria ser repreendido pela chefia. Deixar a cidade em ordem era seu dever, e uma das ordens era não deixar que mendigos se acumulassem pelos cantos do centro da cidade.
Havia perdido um dente ou dois na confusão, quebrara o braço, no mínimo, e o inchaço e o sangue em seu rosto atrapalhavam-lhe a visão. Antônio não era seu nome verdadeiro, mas ele não se importava; isso já fazia mais de 40 anos.
Achou que a dor diminuiria depois de ser chamado pela enfermeira, mas era só para medir a pressão; o atendimento viria apenas depois. Ele riu por dentro, e o ato o fez gemer de dor, o que o fez rir ainda mais.
Que situação lastimável, hein? Que país desgraçado, pensava ele no caminho de volta ao seu assento, que já havia sido tomado por uma menininha. Ela lhe mostrou a língua. Ele ignorou-a e deu um sorriso com os dentes faltando, o que assustou a menina.
Ele então sentou-se em um canto da sala, já que não havia mais cadeiras disponíveis, mas, dezenove minutos depois, o segurança lhe pediu que se sentasse no chão lá fora, pois outras pessoas estavam reclamando do seu mau cheiro.
Amanhã, se tudo corresse bem, ele tomaria banho em um albergue de alguma cidade vizinha, pensou o homem antes de se dirigir à porta. O segurança o empurrou para que se apressasse, mas ele acabou tropeçando e caindo logo após a saída.
O guarda que o levara até o hospital e o que o havia espancado estavam conversando com uma enfermeira que fumava um cigarro fedorento. Começaram a xingar alguma coisa, mas Antônio não entendia nada; aliás, ele decidiu não entender. Apenas se sentou, encostado numa parede.
O frio da noite fazia as dores piorarem.
Um som estridente correu por seus ouvidos, um que nunca ouvira daquela forma; era um som metálico, quase inumano. Se fosse comparar, era quase como os gritos que uma vez havia soltado quando encontrou o corpo delas, sem vida e ensanguentado, ao chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho — eram gritos de raiva e de fúria.
Olhou ao redor com os olhos semicerrados devido ao inchaço e notou que os outros também ouviram. O guarda municipal espancador começou a perguntar o que era isso; o outro estava olhando para o céu, procurando de onde vinha o barulho; e a mulher deixou o cigarro cair. Tudo ficou branco antes do cigarro tocar o chão.
A parede sumiu sem que Antônio percebesse, e ele caiu de costas, sem forças para segurar o corpo. Tudo ao redor era branco e iluminado; o som dos gritos era insuportável, entrando na mente em vez dos ouvidos, trazendo dor e falta de ar. Os gritos dos quatro se juntavam como uma sinfonia agonizante.
Não se sabe quanto tempo passou, mas, assim que os quatro rolaram de dor até ficarem de joelhos, o som sumiu. Um a um, eles foram desaparecendo até restar somente Antônio, e o lugar era tão iluminado que parecia não ter fim.
Antônio pensou em Deus pela primeira vez em muitos anos, porém a dor e os gritos de há pouco faziam mais sentido para algo demoníaco como o diabo.
— Ora, ora, vejamos o que temos aqui! — Uma voz de mulher velha, que parecia estar falando por um alto-falante, cortou o ar; o som parecia vir da luz.
Antônio se esforçou para se levantar, apoiou-se na perna boa e conseguiu, pouco a pouco, pôr-se de pé. Tentava abrir os olhos, mas não conseguia; a luz era muito forte. Conseguia ver pouca coisa, mas, quando viu, não acreditava no que via.
Três mulheres grandes demais para serem humanas estavam à sua frente.
A primeira, da esquerda para a direita, era uma velha de cabelos negros e olhos vermelhos. A pele branca e fina de uma senhora. Tanto os olhos quanto os cabelos pareciam se mover como fumaça, deixando um rastro sutil quando se moviam. Vestia uma roupa feita de penas pretas, que reluziam como se fossem de metal. Sua postura era arqueada para a frente, como uma senhora de muitos anos se esforçando para andar. Exalava um cheiro de fogueira recém-apagada.
A segunda, do meio, tinha a postura ereta e digna; Antônio diria até majestosa. Pele branca de uma moça nova, cabelos vermelhos como o pôr do sol e olhos verdes que exalavam uma força mística. Usava uma esvoaçante túnica negra que caía levemente sobre ela.
A terceira e última figura, à direita, era uma visão de puro caos. Pele branca como as outras duas, mas seus cabelos brancos desgrenhados e seus olhos, que mudavam de cor ao respirar, eram estranhos. Usava trapos feitos de panos de diversos tons de preto, quase todos muito rasgados. Era a que menos se parecia com uma humana.
Assim que bateu os olhos nelas, Antônio teve certeza de que estava lidando com o divino; não sabia se eram anjos ou outra coisa. As dores que ardiam em sua cabeça diziam que era a segunda opção.
A senhora da esquerda foi a primeira a falar; sua voz ressoava pela luz que cercava Antônio, o que quase o fez cair novamente com o susto. A voz dela vinha de todos os lugares ao mesmo tempo.
— Esse aí parece que vai morrer a qualquer momento. Melhor deixá-lo em sua melhor forma!
A velha grandalhona estalou os dedos, e o corpo de Antônio recebeu uma pancada, mas, em vez de dor, o que ele sentiu foi alívio. A pancada o derrubou. As dores na cabeça continuavam, mas seu corpo estava centenas de quilos mais leve; suas roupas se tornaram largas de repente. Ele puxou a calça jeans surrada para que não caísse e, ao tocar sua mão, percebeu que estava mais novo, muito mais novo; ao tocar seu rosto, ainda nem havia pelos.
— Vejamos o seu nível de personagem viajante!
A velha levantou as mãos, e uma tela semitransparente apareceu à frente de Antônio. Ele já vira coisas parecidas nas TVs em lojas chiques e propagandas nos bares; aquilo era aquela coisa de videogame que os piás gostam, pensou ele, enquanto se maravilhava com seu rejuvenescimento.
— Hã? Mais um de classe F. Que colheita deplorável, não é mesmo, Macha?
— Eu disse que deixar a invocação a cargo de Nemain iria dar nisso; ela sempre escolhe aleatoriamente — a mulher do meio reclamou, cruzando os braços, como uma menina birrenta.
— Apenas escolhi. Na próxima vez, vou deixar para você ou para Babidj escolher! — A velha puxou o ar para responder. — Eu escolheria os melhores, com certeza, mas esse aí não foi de todo ruim. Veja, ele é Curandeiro de rank F; pode muito bem ajudar no país sagrado como ajudante da igreja ou algo do tipo.
— O problema que eu vejo é a quantidade. Quantos homens temos? Se contar só desta vez, foram três homens e apenas uma mulher — isso só nesta invocação, e foram mais de vinte apenas hoje. E em todas, pegamos mais homens que mulheres — Macha concluiu sua reclamação, bufando. Seus olhos esmeraldas fixaram-se em Antônio, que apalpava seu corpo sem acreditar que aquilo era verdade; seus mais de sessenta anos haviam desaparecido como um sonho.
— Isso é um porre, nunca ouvi tantas reclamações. Então transforme esse aí em mulher; daí vai ficar dois e dois, não é mesmo? — Nemain devolveu a questão para Macha, que ficou em silêncio, ponderando por um momento.
— Sua solução é interessante, assim não precisamos ficar preocupadas com as quantidades, não é mesmo? Já vimos que isso não dá certo. Pois bem, humano, em vez de ser mandado para o país sagrado, você será mandado para o berço da humanidade, servirá ao mundo como cortesã e ajudará na manutenção do mundo.
Apontando seus dedos a Antônio — que não ouviu o que foi dito, mas notou seu corpo se modificar como se ficasse entorpecido — ele começou a gritar em desespero. Seu peito definido ganhou seios, e sua virilha se modificou; sua pele se tornou macia. Seus gritos se tornaram finos, como a voz de uma jovem. Deitando-se em posição fetal, ele tentou de todas as maneiras acordar do pesadelo em que estava, mas nada adiantava. Pensou em morder a língua, mas, como sempre, achou que isso era fácil demais para alguém que deveria expiar seus pecados até o fim, e desistiu da ideia.
— Bom, está feito. Agora é só mandá-lo ao nosso belo mundo — disse Macha, toda orgulhosa de como resolveu a situação, como se a ideia fosse dela.
— Desculpe-me, minha irmã, mas isso não é o bastante. Vai se contentar apenas com uma mulher mediana assim? Já que é para modificarmos os seus corpos, então que ela seja digna dos deuses.
Nemain se aproximou de Antônio como um vulto, ergueu-o pelo pescoço e o balançou como um pano velho; rasgou suas roupas com a mão livre, jogando-o longe ao terminar o que havia feito.
As outras duas olharam chocadas e começaram a gargalhar. Nemain era a mais inconsequente das três, e suas atitudes eram inesperadas, como essa de tocar um mortal com as mãos nuas.
— Agora sim! Uma bela mulher para o nosso maravilhoso mundo.
— De fato, minha irmã, você soube criar uma mulher que, com certeza, aquecerá os corações dos homens.
Antônio não parou de gritar até então, por mais que sua voz não saísse de sua boca. Seus olhos gritavam. A raiva surgiu em seu coração; ele sempre acreditara em Deus, mas não esse deus que todos ligam a alguma religião, e sim um Deus onipotente que olha todos com amor e não com julgamentos. Então, ele decidiu que aquelas três não eram Deus, e sim demônios.
— Devolvam o meu corpo e me levem de volta! — gritou o homem recém-transmigrado, levantando-se em seu novo corpo, ainda se acostumando com o equilíbrio para ficar em pé, ainda mais depois que Nemain o jogara longe.
Babidj riu em descrença, com a mão na boca. Não conseguia acreditar em tamanha ousadia. Macha endureceu o rosto, que antes tinha um belo sorriso. E Nemain sorriu como se tivesse ganhado um presente, revelando seus dentes que pareciam dentes de tubarão.
— Não me escutaram? Devolvam o meu corpo! — gritou mais uma vez o pequeno humano. Antônio apalpou sua virilha e viu que não estava mais lá, e sua raiva aumentou ainda mais.
— Devolvam meu... meu... seu bando de demônios! — gritou pela última vez com todas as suas forças, um grito com uma voz doce dada pelas deusas ali presentes.
As três juntaram o ar nos pulmões ao mesmo tempo, mas, ao perceberem isso, pararam no meio. Macha ergueu a mão direita, pedindo a chance de começar a falar.
— Sua criatura insignificante, nós o trouxemos ao nosso mundo para que tenha a honra de lutar contra os demônios que, por pura teimosia, se negam a ser massacrados por nossas tropas. Eles são seres vis que só trazem o caos e toda forma de danação. São desses seres nojentos que você nos chamou. Então, que viva sozinho neste mundo, que não consiga falar ou entender seus iguais, que toda forma de ajuda seja infrutífera.
A janela de status que antes estava à frente de Babidj apareceu na frente de Antônio, revelando uma segunda janela intitulada "Maldições". Várias coisas estavam escritas para descrever o efeito, que Antônio ignorou, por estar em choque.
— Pois eu prefiro que ele nem chegue perto dos meus preciosos humanos — disse Nemain, mostrando grande ciúme em relação aos seres humanos. — Que os humanos se afastem de ti como as presas fogem do caçador, que tudo ao seu redor os afaste, e só aqueles que quiserem lhe fazer mal se aproximem.
Mais uma mensagem apareceu em sua tela de maldições.
Babidj foi a última a falar. Após ouvir as punições de suas irmãs, achou que elas foram muito leves com ele.
— Minhas irmãs são muito boazinhas. Infelizmente para você, não sou como elas. Que sua vida seja breve como o farfalhar das asas de meus corvos, que dias e horas sejam como anos em sua vida.
A terceira maldição brilhou em sua janela, que começou a piscar como se sofresse um bug. Não que Antônio tivesse alguma ideia do que fosse isso; ele sequer estava conseguindo absorver tudo o que estava ocorrendo.
— Mas o que? — resmungou Babidj, sem entender os problemas que o sistema estava enfrentando.
Macha endureceu o cenho mais uma vez e, ignorando os bugs, continuou:
— Vá, suma de nossas vistas, sua criatura inútil!
Macha ordenou, e o chão se abriu sob os pés de Antônio, que caiu, tentando se agarrar ao nada.
Dezenas de telas de erro se abriram ao redor dele, e ele sumiu em meio às estrelas.
— Macha, para onde o mandou? — perguntou Nemain.
— Para o país dos escravos, Eryndor.
— Boa, irmã — disse Nemain, rindo baixinho.
— Vai morrer como um escravo. Vou falar com o Deus da Morte mais tarde para que mande sua alma de volta para nós. Uma morte em sofrimento não será o bastante para se redimir por nos comparar àquele ser nojento — disse Babidj, caminhando para a saída.
— De fato, irmã, de fato!
Enquanto caía em direção ao mundo, várias janelas de erro de sistema e dados corrompidos abriram-se ao seu redor.
Na sala onde caiu, vários enviados dos deuses recém-chegados estavam na mesma situação de Antônio. Ninguém sabia o que estava acontecendo até que uma tropa de guardas invadiu a sala; a gritaria começou em meio à confusão que se iniciava. Eles derrubaram os que resistiam e colocaram coleiras que brilhavam ao se fecharem em seus pescoços.
As pessoas invocadas se moviam de um lado para outro como um cardume tentando se defender de um peixe grande.
Mas, por algum motivo, todos evitavam chegar perto de Antônio; era como se sentissem dor só de olhar para ele. Ele já estava acostumado com olhares de raiva, nojo e soberba, mas era a primeira vez que via um olhar de medo quando olhavam para ele.
Um soldado tentou puxá-lo para o canto onde estavam reunindo as mulheres, mas não conseguiu, tamanho era o seu desconforto ao se aproximar. O guarda xingou em uma língua estranha que mais parecia uma TV ou um rádio fora de estação; era quase um chiado.
Antônio não entendia ninguém — nem os guardas, nem as pessoas invocadas.
Com muita luta, tentaram colocar a coleira nele quando conseguiram derrubá-lo, mas ela não se fechava por algum motivo.
Sua tela de maldições brilhou quando tentaram isso, mas Antônio não conseguiu lê-la a tempo. Os guardas xingavam; Antônio percebia isso pela postura que tinham.
Horas depois de muita subjugação, Antônio ficou só na sala com os guardas lhe apontando espadas e lanças.
Uma fogueira foi acesa com muita lenha, e um senhor com orelhas grandes foi trazido para a sala; suas mãos estavam presas em correntes, e um ferro com uma ponta circular foi jogado na fogueira.
Antônio se mantinha em alerta, pronto para um soco ou algo do tipo. Porém, como ainda não estava totalmente ciente de seu corpo, estava completamente nu, o que deixava todos os soldados ao redor com feições horrendas — para não dizer nojentas.
O senhor começou a cantarolar alguma coisa que, surpreendentemente — apesar de ele não entender —, para Antônio a voz daquele senhor não lhe parecia um rádio quebrado, mas sim uma voz normal.
Seu olhar claramente dizia: "Perdão."
Os guardas o derrubaram e o colocaram de bruços; o metal, que já estava incandescente na brasa da fogueira, foi retirado.
Uma luz começou a brilhar no metal, obedecendo às palavras do senhor de orelhas pontudas, e o metal queimou a carne de Antônio, que gritava de dor novamente.
A dor e o calafrio causados pela queimadura o fizeram desmaiar, mas, antes de perder os sentidos, pediu uma última vez para acordar daquele pesadelo.