Capítulo 3
Estatísticas de Personagem
A floresta ao redor do rio estava mergulhada em silêncio, exceto pelo leve murmúrio da água e pelo brilho intermitente das telas de status flutuando diante de Antônio.
Ele, agora em um corpo feminino que ainda não reconhecia totalmente, estava sentado na margem, com a nuca latejando onde a marca de escravidão havia sido quebrada. A luz dourada do Toque da Cura ainda faiscava em suas mãos, dissipando-se lentamente.
A maga na pedra — uma rocha entalhada com letras estranhas, que não combinava com o ambiente — parecia vibrar com uma mistura de espanto e deboche.
— Ah, não acredito que estou vendo isso com meus próprios olhos — zombou a maga, sua voz ecoando como se viesse de dentro da pedra, carregada de sarcasmo que pingava como veneno. — Já passei os olhos pelas suas estatísticas antes, mas agora, com calma… garota, você é uma verdadeira bagunça! Vamos por partes, porque você claramente não faz ideia do que está acontecendo. E olha que eu vivo presa numa pedra há sabe-se lá quanto tempo, mas até eu sei quando o sistema está rindo da cara das deusas.
Antônio ergueu o olhar, confuso. Acabara de contar sua história: a vida como mendigo no Brasil, vagando por ruas frias, enfrentando olhares de desprezo, fome e violência; a invocação pelas três deusas — Macha, Nemain e Babidj; a transformação forçada em mulher; os anos intermináveis minerando cristais brilhantes na pedreira de Eryndor, onde cada toque apagava sua luz e lhe rendia espancamentos.
Sua voz, ainda doce e estranha aos próprios ouvidos mesmo depois de tantos anos sendo dono dela, tremia ao relembrar tudo aquilo, mas ele se forçava a manter a compostura.
A maga bufou, fazendo a água ao redor da pedra ondular como se estivesse revirando os olhos invisíveis.
— Vamos começar pela sua classe: Curandeira Amaldiçoada, Rank F. É o nível mais baixo de invocado, o tipo que elas querem pisar em cima como baratas. Mas sua habilidade de classe é rara: você pode criar habilidades antagônicas às suas próprias. Veja: você tem Toque da Cura, que restaura 20% da saúde de um alvo — fofo, né? —, mas o sistema, por algum motivo deliciosamente caótico, gerou Toque da Ruína, que causa 20% de dano. É como se o mundo soubesse que você não é só uma curandeirazinha boazinha; há destruição em você, uma dualidade que aquelas três vacas celestiais nem sequer viram. E tem mais: essa vantagem, Aviso de Erro, indica que suas habilidades podem se modificar de formas imprevisíveis. O sistema está confuso com você, e isso é hilário. Ele começou a codificar suas maldições como habilidades e criou contrapartidas antagônicas a elas.
Antônio tocou o ar à frente, onde as telas flutuavam, e viu seus números: Força 1, Destreza 2, Resistência 3. Valores baixos, como esperado de alguém que nunca foi forte fisicamente — apenas resistente o suficiente para sobreviver.
Mas então vieram Magia 10 e Espírito 8, e ele franziu a testa, intrigado.
— Esses números… — a maga continuou, com uma risada seca que ecoou na pedra como um tapa na cara. — Magia 10 e Espírito 8 em nível 1? Isso é absurdo, garota. E eu que pensei que as deusas eram espertas… elas nem conferiram suas estatísticas. Deixa eu te explicar de onde isso vem, antes que você pense que é sorte.
Sua Magia está tão alta porque você passou anos minerando aqueles cristais de mana na pedreira — ah, que trabalho nobre elas te deram, né? Cada cristal que você tocava, mesmo apagando sua luz e te rendendo chutes grátis dos guardas, transferia traços de mana para você. Eles achavam que você estava destruindo tudo, mas você estava absorvendo como uma parasita. Sua habilidade passiva, Absorção de Mana, acelerou isso. Ela funciona o tempo todo, sugando mana do ambiente. Foi por isso que você liberou tanta energia quando a maldição se dissipou.
Antônio sentiu um formigamento sutil na pele, como se a própria floresta estivesse sendo puxada para dentro dele naquele momento. Olhou para as mãos, ainda marcadas pelo trabalho árduo na pedreira, e tentou imaginar toda essa energia dentro de si. Era difícil acreditar.
— Agora, seu Espírito… isso vem da sua vida passada — e olha que ironia deliciosa — disse a maga, com um tom de desprezo que se voltava diretamente para as deusas. — Você me contou como foi mendigo, um andarilho, enfrentando fome, frio, humilhação, e ainda assim continuou vivo. Cada dia que sobreviveu, cada vez que se levantou depois de ser chutado como lixo, aumentou sua força interior. Espírito 8 é o tipo de número que vejo em sacerdotes ou heróis experientes, não em uma curandeira de rank F. As deusas devem ter sentido isso quando te escolheram… Ah, como eu as odeio do fundo de meu coração!
A maga pausou, como se estivesse reunindo forças para cuspir o veneno acumulado.
— Na criação do mundo, os deuses originais — os de verdade, não aquelas farsantes — fizeram as terras, as águas e os céus. Um deles criou as regras, e assim o sistema surgiu. Através dele, os povos ganhavam poder para enfrentar os desafios deste mundo. Depois da criação, os deuses sumiram, deixando tudo em paz. Este mundo ficou sem deuses por muito tempo… até que as três deusas apareceram de repente. Nomearam este mundo de Morrigan e impuseram a supremacia humana em detrimento das outras raças. Isso criou guerras intermináveis. Até a chegada do Deus Demônio Balorath. Ah, Balorath… pelo menos ele tem coragem. Ao contrário das três, ele desceu ao mundo físico e criou um exército de demônios. Começou a dominar Morrigan, matando e escravizando tanto humanos quanto monstros.
Para combater os demônios, as deusas começaram a trazer heróis de outros mundos — descobriram que eles ganham habilidades únicas como compensação por serem arrancados de suas vidas. Isso já dura milhares de anos. A guerra continua ceifando vidas, destruindo cidades e reinos sem misericórdia. Este é o estado do mundo até agora: um caos eterno orquestrado por deusas que se acham salvadoras, mas só espalham miséria. Elas te invocaram para ser bucha de canhão nessa bagunça, garota, e ainda te amaldiçoaram por diversão. Patético, né?
Antônio engoliu em seco. Lembrou-se das noites dormindo em bancos, dos insultos dos guardas na Terra, da dor que o fazia rir para não chorar. Era estranho pensar que aquele sofrimento o tornara mais forte aqui, e agora saber que tudo fazia parte de uma guerra milenar criada por deusas caprichosas.
— Sobre suas vantagens… — a maga prosseguiu, com um tom ainda mais cortante. — A mais interessante é Tempo Mantido. Ela desacelera e até rebobina o envelhecimento. Isso está em conflito direto com a maldição de Babidj, Tempo Distorcido, que faz dias parecerem anos. As duas forças se anulam, criando um equilíbrio perfeito. Você é imortal, no sentido de que o tempo não vai te matar. Seu corpo permanece jovem, como você viu nos anos na pedreira. Mas uma espada, um monstro ou uma doença ainda podem acabar com você. Imortalidade não é invencibilidade, então não se empolgue. As deusas provavelmente queriam te ver murchar como uma uva velha, mas olha só: o sistema as enganou de novo.
Antônio tocou o rosto, sentindo a pele lisa que não condizia com os anos de sofrimento. Imortal? Pensou nos anos na pedreira, como o tempo parecera um borrão, mas seu corpo nunca envelhecera.
— Outra vantagem é Empatia Monstruosa, que te permite conversar com qualquer raça monstruosa inteligente — dragões, goblins sábios, espíritos —, ler e entender suas línguas e usar itens criados por monstros. Não funciona com feras burras ou criaturas das masmorras, que são puro instinto. E a Aura de Simpatia Monstruosa é a contraparte perfeita à maldição de Nemain, a Aura de Repulsa, que faz humanos sentirem aversão, dor de cabeça ou medo ao se aproximarem de você. Essa aura atrai monstros inteligentes, conquistando sua amizade com facilidade. Lembra do kelpie que te enganou? Ele era inteligente o suficiente para ser afetado, mas você não sabia como usar isso. Se souber, pode transformar monstros em aliados. Ah, imagine: você, rainha de uma horda de monstros, marchando contra as deusas. Eu pagaria para ver!
Antônio pensou no kelpie, na voz doce que o atraíra para a água. Se pudesse ter falado com a criatura, talvez tivesse evitado o ataque. Uma faísca de curiosidade brilhou em sua mente.
— E as maldições… — a voz da maga ficou mais sombria, mas ainda carregada de desprezo. — Além do Tempo Distorcido, que já expliquei, tem a Incapacidade de Falar de Macha. Você não pode se comunicar com humanos, ler textos humanos ou usar itens mágicos feitos por eles. É um isolamento cruel, projetado para te manter sozinha. E a Aura de Repulsa de Nemain faz humanos te evitarem instintivamente. As deusas acham que controlam tudo, mas olha só: uma mendiga invocada está desfiando o tapete delas.
Antônio olhou para a tela, onde as notificações vermelhas, azuis e verdes piscavam. Sentiu uma mistura de raiva e esperança. Raiva pelas deusas que o jogaram nesse pesadelo. Esperança por saber que poderia lutar de volta.
— Então, o que faço agora? — perguntou ele, a voz firme apesar da exaustão. — Como uso isso para… sei lá, sobreviver? Ou me vingar?
A maga riu — um som que fez a pedra tremer como se estivesse gargalhando.
— Essa é a pergunta certa, garota. Com esses números, você pode ser mais do que uma mera escrava. Mas primeiro, preciso saber: você quer sobreviver e encontrar um lugar neste mundo… ou quer desafiar as deusas que te amaldiçoaram? Tudo tem um preço. E eu? Eu adoraria ver aquelas três caírem do pedestal. Escolha com sabedoria!
— A propósito, meu nome é Eyrwen, a maga artífice, criadora das armas mais poderosas deste mundo. Apesar de estar presa nesta situação deplorável agora, já fui uma das figuras mais importantes deste mundo. Mas chega de falar de mim! Qual é o seu nome? Vi que ainda não escolheu nenhum desde que veio para cá — seu nome de personagem ainda está em branco.
— Hã? Não sei… Ia ser estranho me chamar como eu era chamado em minha vida passada.
— Você é que sabe, mas seria realmente interessante saber como te chamar.
Antônio, desde que acordara neste mundo com este corpo, nunca o aceitara, assim como nunca encontrara força nele. Porém, as explicações de Eyrwen e as expectativas que se abriram depois de se libertar trouxeram uma nova perspectiva. Era como se realmente estivesse recomeçando.
Lembrou-se da tragédia que o fez perder sua família e sua fé em tudo. Começou a odiar a si mesmo a ponto de se punir por décadas. Achou que, se fosse recomeçar aqui, deveria fazer o melhor que pudesse.
Então escolheu o nome de uma pessoa que nunca conhecera: a menina, a mulher, e talvez, quem sabe, a mãe que nunca vira nascer — a filha fruto do amor por sua esposa e sua família.
Por um momento, fechou os olhos, vendo o rosto que nunca conhecera, a filha que deveria ter sido, fruto do amor que nunca brotara.
— Yonara! — disse ele, com a voz firme. — Meu nome é Yonara.
— Yonara? Que nome interessante! Era seu antigo nome antes de vir para este mundo?
— Não. Era o nome de uma pessoa maravilhosa que nunca conheci.
— Que jeito estranho de escolher um nome! — gargalhou a maga antiga. — Sério, Yonara? Escolheu o nome de alguém que nunca viu? Você é mais esquisita do que eu pensava, e olha que estou presa numa pedra!
— Decido sobreviver. E quem sabe me vingar das deusas se tiver oportunidade. Mas não vai valer de nada se eu morrer aqui.
— É assim que se fala, garota!
A tela de status de Yonara brilhou. Agora já com seu novo nome:
Estatísticas de Personagem
Nome: Yonara
Nível: 1
Classe: Curandeira Amaldiçoada Rank F (Aviso de erro)
Habilidade de Classe: Criar habilidades antagônicas às habilidades de sua própria classe.
Habilidade Única de Invocação: Absorção de Mana (passiva)
Atributos
Força: 1
Destreza: 2
Resistência: 3
Magia: 10
Espírito: 8 → 9 (por aceitar sua nova identidade)
Vantagens
Aviso de Erro: Habilidades modificadas.
Tempo Mantido: Envelhecimento desacelerado e até rebobinado.
Empatia Monstruosa: Capacidade de falar com monstros (exceto criaturas de dungeons e não inteligentes), usar seus itens e entender sua escrita.
Aura de Simpatia Monstruosa: Aproxima monstros inteligentes, conquistando sua amizade facilmente.
Desvantagens
Tempo Distorcido (Babidj): Envelhecimento acelerado (dias equivalem a anos, passiva).
Incapacidade de Falar (Macha): Impede comunicação com humanos, ler textos humanos ou usar itens mágicos feitos por eles.
Aura de Repulsa (Nemain): Afasta humanos, causando aversão, dor de cabeça ou medo.
Habilidades
Toque da Cura: Cura 20% da saúde do alvo.
Toque da Ruína: Causa 20% de dano ao alvo.
— Então, deixa-me ver uma coisa! — disse Eyrwen.
Uma tela roxa apareceu em frente a Yonara, contendo habilidades aprendidas.
— Habilidades aprendidas? Essas não deveriam estar na tela verde? — perguntou Yonara.
— Ha, ha, muito perspicaz, garota! Mas essas são habilidades aprendidas forçadamente. As que são compatíveis com sua classe vão para a tela de personagem assim que atingem os requisitos necessários. Veja!
Tela – Habilidades Aprendidas
Uso de Picareta: Nível Mestre
Uso de Marreta: Nível Mestre
Quebra de Maldições: 1/10
— Suas habilidades com picareta e marreta são incompatíveis com sua classe, mas Quebra de Maldições é — assim que aprender essa habilidade, ela fará parte do seu personagem.
— Entendi. Então, o que preciso fazer? Já aprendi a quebrar maldições, não é?
— É claro que não, sua fofa! — zombou Eyrwen. — Você deve quebrar no mínimo mais nove maldições para aprender como se faz.
Yonara entendeu. Assim como aprendeu a manusear a picareta após quebrar muitas pedras, precisaria de muitas tentativas para dominar a quebra de maldições.
— Vou poder quebrar as maldições que as deusas me colocaram?
— Temo que seja impossível, querida. São maldições lançadas pelas próprias deusas. Creio que só elas podem tirá-las de você. Além disso, sua classe já as identificou como habilidades de alguma forma. Sabe-se lá o que aconteceria se você as apagasse.
Eyrwen não disse, mas estava animada para ver como o sistema de classe de Yonara se comportaria quando ela finalmente aprendesse Quebra de Maldições.
— Posso te ajudar a ficar mais forte o bastante para sair desta floresta, enfrentar inimigos e seguir em frente. Mas quero que me ajudes com algo.
Yonara sabia que a ajuda não viria de graça.
— O que seria?
— Quero que procures um artífice capaz de criar um corpo para mim.
— Um art… o quê? Eu nem sei o que é isso! Como poderei te ajudar com isso?
— Não te preocupes. Conheço um nome e, para minha conveniência, ele é imortal. Porém, vive do outro lado do continente. Vou precisar que fique bem forte para me levar até lá!
— Te levar? Mas você é uma pedra gigante! Como vou conseguir carregar-te por todo este caminho?
Eyrwen achou a pergunta de Yonara engraçada, mas tinha fundamento para qualquer leigo neste mundo. Essa resposta a fez sorrir, mesmo sem rosto para fazê-lo. Fazia tempo que alguém se aproximava dela, e mais raro ainda era alguém cogitar ajudá-la.
— Posso te acompanhar assim.
Uma pequena pedra se desprendeu da grande rocha que aprisionava Eyrwen. Rolou por cima da pedra e caiu na água. Yonara achou que algo dera errado, pois a pedra sumira ao cair. Mas, de repente, ela levitou — uma pedra oval do tamanho de um punho.
— Teste, testando, um, dois, três! Acho que está bom. — Então é desta maneira que seguirei viagem contigo.
Não havia motivos para Yonara não aceitar a barganha. Sabia quase nada deste mundo, e o favor parecia simples.
— Então tá fechado. Vou te levar aonde queres e encontrar essa tal pessoa.
— Perfeito! Então, vamos começar teu treinamento!