Capítulo 8
O primeiro grande desafio
A estrutura se abriu sozinha assim que Yonara se aproximou, as paredes de pedra se arrastando, poeira caindo em seus olhos, e o chão tremendo.
Yonara se sentia em um filme do Indiana Jones.
Uma névoa leve embaçava a visão da sala, mas ainda era possível ver três figuras humanoides.
— São trolls, tenho certeza! Disse Eyrwen, alertando sua aprendiz.
Yonara atacou à distância, usando a Aura da Ruína, mas a magia se dissipou na névoa.
— Se fosse possível atacar de fora da sala, não se chamaria sala do chefe da dungeon, não é? Eu já não tinha te falado disso antes?
— Ué, eu tinha de tentar, nunca entrei em uma sala dessas antes!
— Pois bem, não dá para atacar até a porta se fechar!
— Tá bom, tá bom!
Yonara entrou na sala já meio sem graça, pela bronca sofrida.
A porta se fechou atrás com um imenso estrondo. Tochas se acenderam ao redor da sala em chamas azuis reluzentes. Yonara apertou o cajado, que se iluminou com suas runas inflamadas em vermelho-sangue.
Três trolls estavam imóveis na sala, como se fossem robôs esperando alguma ordem. Mais de três metros, pele acinzentada, cicatrizes protuberantes e músculos de pedra viva e raízes.
Olhos amarelos brilhando malícia e, nas mãos, clavas gigantes manchadas de sangue seco.
— Lembra do que falei sobre trolls? sussurrou Eyrwen, prestes a pular do ombro de Yonara.
A aprendiz pensou por um momento e respondeu.
— Hum… Resistentes a debuffs, regeneração absurda. A pior combinação possível para se enfrentar.
— Isso mesmo, boa sorte, garota!
A pedra rolou até perto da porta fechada. Fizera tudo o que podia até ali. Agora tudo dependia de como sua aprendiz agiria no combate.
Yonara engoliu em seco, apertou mais uma vez o cajado e pensou consigo mesma se todos os níveis e a experiência obtida eram suficientes.
— Vamos ver se é suficiente! sussurrou antes de fazer o primeiro movimento.
O primeiro movimento foi uma Aura da Ruína no troll da esquerda e, como o monstro era lento, repetiu a magia cinco vezes.
A explosão roxa atingiu o monstro diversas vezes e sua vida zerou. O troll cambaleou e largou a clava, que caiu com clangor metálico barulhento.
O troll gritou de susto por quase ter morrido. A cara de pânico tomou o semblante calmo que tinha até então.
Os outros dois rugiram e partiram para cima de Yonara, seus passos provocando pequenos terremotos.
Ela deduziu que a regeneração do troll o fizera resistir à morte instantânea, fazendo-a perder a vantagem do primeiro ataque.
A maga ativou diversas magias de buffs em si mesma: leveza, rapidez e aumento de força.
O primeiro golpe veio de cima. Yonara conseguiu esquivar por pouco, saltando com grande leveza devido à magia. O golpe acertou o chão, levantando uma grande nuvem de poeira.
O segundo golpe passou de raspão, arrancando-lhe sangue do rosto. Se tivesse acertado, Yonara não estaria mais viva.
Ela rolou no chão após pousar do salto e chegou a um canto da sala. Aproveitando a visão aberta, usou mais uma vez a Aura da Ruína diversas vezes, até os inimigos se aproximarem.
Os dois trolls perderam o equilíbrio, caindo cambaleantes. Yonara teve de pular para não ser pega no tombo deles. Suas barras de vida ficaram amarelas, mas não desceram mais que isso. Ainda assim, perceberam que ela era perigosa.
Ela fez debuffs voarem em direção aos monstros, mesmo sabendo da pouca eficácia.
Aumento de peso, queimadura, lentidão e, é claro, seu combo de piora de condição. A maioria não funcionou ou teve o poder bem diminuído, então os monstros continuaram avançando sobre ela.
Assim, foram conseguindo cercá-la pouco a pouco. Infelizmente, o debuff de aumento de peso só os ajudou. Os golpes, agora mais pesados por conta da magia, faziam o chão quebrar, atrapalhando a maga em suas esquivas.
Cercada, ela quase foi atingida na cabeça por um ataque de baixo para cima. O tacape passou rasante sobre sua cabeça, arrancando-lhe o chapéu e o rasgando. Um segundo ataque a acertou em cheio no torso, jogando-a metros adiante, voando pela sala.
Foi um imenso dano crítico: -75% de vida. A dor explodiu depois do choque. O sangue saía de todos os lugares do corpo. O braço com o qual tentou se levantar estava quebrado, e o osso se partiu com o esforço.
Yonara alcançou o cajado com o braço ainda utilizável e invocava diversas Auras da Cura em sequência. Sinais verdes de positivo subiam no ar. Pouco a pouco o braço voltou ao normal, com os ossos voltando ao lugar numa cena grotesca. Arranhões, cortes e perfurações sumiram. Suas roupas rasgadas eram um trapo.
Um troll a agarrou com uma mão. O aperto era muito forte e ela não tinha como se soltar, pois a mão do troll envolvia seu corpo inteiro.
— Aura da Ruína! gritou Yonara, enquanto lançava uma sequência de magia na mão do troll, que a largou e gritou como se tivesse se queimado.
Mais um dano de 100% da vida, mas mesmo assim o monstro ainda se levantou.
A batalha continuou. Yonara não conseguia matar nenhum deles e, felizmente, nenhum deles conseguia lhe dar um dano de 100%. Assim, mais de trinta minutos de puro caos se passaram sem nenhum lado se destacar.
Mas, em determinado momento, depois de uma esquiva difícil, Yonara se enroscou em um pano rasgado. Era seu chapéu, agora apenas um pedaço de pano pisoteado e sujo.
Ao pegá-lo na mão, algo quebrou dentro dela. Frustração, raiva, anseio. Nada se encaixava no que estava sentindo.
Os monstros voltaram para perseguí-la, mas Yonara não queria mais fugir. Decidiu usar tudo o que tinha, ou nada.
Suas pupilas castanhas viraram dourado intenso pela mana que ressoava em seu corpo, liberando sua grande quantidade de mana sem controle. O ar ao redor crepitava e uma aura mágica de diversas cores a rodeava.
Os trolls, sentindo a pressão, começaram a recuar. Yonara soltou um sorriso travesso e partiu para cima deles com tudo o que tinha.
O inferno caiu sobre os agora pobres monstros.
Aura da Ruína, Aura Incendiária, Aura Congelante, Aura Venenosa, Aura Petrificadora e etc.
Por mais que os debuffs fossem cancelados ou tivessem a eficácia diminuída, eram tantos em sequência que nem a grande resistência deles dava conta.
Resultado: o primeiro troll caiu com o dano acumulado de -150% de vida; o segundo foi congelado e petrificado, rachando sobre o próprio peso; e o terceiro foi envenenado até a regeneração parar de dar conta, desabando diante dos pés de Yonara.
Ela ficou tanto tempo com os braços levantados usando magias que eles estavam dormentes.
Após alguns segundos, uma musiquinha ridícula começou a tocar do nada na sala e o confete mais vagabundo que Yonara já vira caía por toda parte.
Uma tela de vitória abriu em frente à maga: +2 níveis. Moedas, garras e peles endurecidas.
Um barulho de pedra batendo no chão se aproximava de Yonara.
— Parabéns, garota. Você foi cruel, muito cruel, apavoradora na verdade! disse Eyrwen ao subir em seu ombro.
— Ficou com peninha dos monstros?
— Eles quase choraram, você não tem coração?
— Ah, pelo amor de…
Yonara ainda estava chateada por causa do chapéu de bruxa. Eyrwen ria com a reação de sua aprendiz enquanto saíam da sala.
As duas conversavam de forma distraída, já que não havia mais inimigos.
A porta de saída se abriu e, ao fim do corredor, uma luz suave revelava uma porta coberta de raízes antigas.
Porém, no meio do corredor, havia uma porta de madeira entreaberta. Era muito velha e inchada pela umidade, e um dos lados estava coberto por cogumelos. Uma leve fumaça saía dela, como uma aura maligna.
— Entra nessa porta, minha querida, estou intrigada. falou Eyrwen com uma voz tensa.
Yonara obedeceu e forçou a porta, que se despedaçou em diversos pedaços.
A câmara era semelhante à sala anterior, porém aqui havia diversos esqueletos espalhados no chão e, no fundo, um pequeno trono com um esqueleto segurando um cajado.
O esqueleto vestia uma roupa escura de mago e seu cajado ainda liberava uma energia negra pulsante. Na ponta, uma lanterna brilhava com uma luz opaca.
Eyrwen pulou do ombro de sua aprendiz sem dizer nada e bateu tão forte no chão que Yonara temeu que a pequena pedra rachasse.
A pedra rolou até o trono e parou diante do esqueleto. Após um longo momento de silêncio, disse:
— Então foi aqui que você acabou… meu querido Methius.