Dezoito primaveras haviam se passado desde que o nome Brether deixara de ser pronunciado em voz alta nas cidado-fortes de Kaal. Um nome que já havia pertencido aos Lordes de toda a cidado-forte de Gambona, e a exímios cavaleiros estimados da história de Kaal. Agora esse nome só era murmurado, e pouco, na Vila dos Corvos. Um pequeno domínio livre que erguia-se no extremo leste de Gambona. Era de devido acesso caso o desejo de sair para outras cidado-fortes de Kaal, tendo sua via principal, a conhecida Estrada das Águas Alegres.
Gambona tem o domínio a Casa Humnostead. Cujo brasão, quatro árvores verdes abaixo de uma coroa de espinhos marrom, tremulava sobre celeiros e postos de coleta.
Antes, ali fora domínio dos Brether. O brasão da mina sob a lua flamejante marcava cada estandarte, cada carroça carregada de carvão, cada forno que respirava por brasa. As minas ainda fumegavam ao longe, mas, a fumaça já não lhes pertencia.
Gregan Brether caminhava pela estrada de lama molhada com um saco de grãos apoiado nos ombros. Alto para seus dezessete anos, ombros contidos e os braços definidos pelo trabalho, tinha a pele negra como carvão polido e os olhos castanhos. Variavam conforme a luz, às vezes claros como mel queimado, às vezes escuros como madeira molhada. O cabelo crespo, sempre bem aparado, denunciava sua tanto linhagem quanto o sobrenome, eram características que todo Brether ao longo dos anos sempre carregou.
Na Vila dos Corvos, Gregan sempre fora bem tratado e nunca o oprimiram com lembranças sobre Crun Brether.
Gregan nasceu depois do exílio. Talvez por isso não nutria ódio pelos Mooncraster, família que senta-se no trono Kaal há mais de duzentos anos, mas, não os reverenciava cegamente. O brasão da lua cheia dourada coroada, simbolizava-os, como também simboliza o próprio reino de Kaal.
Lhe pareciam distante, como algo que existia além das colinas, além das minas, além do que seus olhos alcançavam. Para Gregan o mundo era menor. Menor porque se limitava à vila, às minas fumegantes no horizonte e à pequena casa de madeira onde vivia com a mãe.
A guerra fora recém-anunciada contra o império de Asaba. Não alterara muito a rotina da vila, apenas aumentara o fluxo de carroças, o número de soldados que marchavam pela estrada das águas alegres e paravam nos pequenos bordéis recém abertos e o preço do carvão.
As guerras eram sanguinárias, travadas com espadas, arcos, maças, martelos ou machados, lanças ou alabardas. As técnicas das grandes casas, inclusive a dos Brether, pouco serviam. Eram comentadas como excentricidades da nobreza.
Naquele dia Gregan observava do lado de fora do cerco de madeira que delimitava para o rio alegre uma coluna de soldados, estavam marchando em direção da Vila dos Corvos. Os estandartes da lua dourada que abanavam ao vento e os homens enfileirados chegariam em mais um dia de caminhada. Gregan tinha a vontade de servir ao exército. Pouco tinha o que fazer na vila, carregava sacos de grãos e carvão, plantava, colhia e pescava, vendia os tricotes e escudos de madeira velha feitos por sua mãe, e, quase nunca treinava a espada com sir Sarell Haragon, Um idoso morador da vila e leal servente da antiga guarda de seu pai. Pouco o apetecia essa vida. Gostava da espada, sentia-se livre ao brandi-la. Sonhava em disputar a vida em combates. Não sentia falta da vida que não teve como nobre, sentia mais êxtase em ser um cavaleiro, as canções que sempre ouvira na vila sobre sir Sarnell Haragon, o faziam cada vez mais querer uma nova vida.
Entregou os sacos de grão para o cavalariço e rumou para casa. Morava com sua mãe na parte baixa da vila, era um casebre de madeira, pouco cheirosa, embora sua mãe sempre fizera questão de comprar incensos adocicados para perfumar, porém duas outras casas ao lado, estava um chiqueiro que abriga porcos obesos que mais tarde sempre eram levados pelos mercadores que visitavam.
Chegou a casa, descalçou as botas em lamaçadas e abriu a porta. Viu sua mãe Iollena Brether revisitando o escudo com o brasão de sua casa. Era não tão alta e estava com seus quarenta e oito anos, sua pele era morena como castanha e seus olhos negros como ônix, seu cabelo negro ser aparentava bem cuidado, vestia-se com vestido lã e usava pele de lobo cinzento por cima. Iollena se casou com o pai de Gregan de forma que não fora bem vista, Crun estava prometido a filha do meio da casa Manuser, grande vassala da Gambona. Porém ele conheceu Iollena que não tinha uma grande casa e era apenas uma plebeia, quebrando o acordo casando-se com ela quando ele tinha quatorze anos e ela doze, um ano antes de seu casamento prometido.
— Cheguei mãe — colocava as oito moedas de bronze e uma de prata conseguidas na mesa. —, o que tem para o jantar? — perguntou indo beijar-lhe a testa da mãe.
— Pato, meu filho. Mergulhei-o no mel esquentado como gosta. — respondeu em quanto limpava o escudo.
— As tropas dos Humnostead marcham vindo para a vila, vi muitos homens. — disse colocando o pato que cheirava muito bem no prato.
Iollena já havia percebido o rumo que a conversa levaria. — Ah, meu filho. Por que deseja tanto segurar uma espada. Mais uma vez Kaal irá atacar Asaba, como sempre faz, e sempre morrem inocentes que marcham por pessoas que nem seus nomes sabem. Não se lembra das histórias de Sir Sarnell?
O rapaz come o pato melado ao mel, aprecia. — Óbvio que me lembro mãe, e por isso desejo servir. Lembro-me bem de quando me contou que ficou três dias sem beber uma gota d'água, perdido com meia dúzia pelo deserto de Pan'shei, e mesmo assim achou e capturou o Muna'Kushan Bal-Fokar. Eu quero viver coisas como essa e não uma vida como criador de porcos ou carpinteiro. Vou reerguer o nome de nossa família.
Iollena encolheu os ombros e levou a mão ao coração. — Faz igual seu pai — Gregan ergueu o cenho, sua mãe nunca falava sobre, nem mesmo tocava o nome de seu falecido marido. —, obstina-se em causas perdidas. Não vê o bom que tem e prefere perder tudo por idiotices. — O rosto do rapaz que ele pensara ser, tornou-se de menino. Um menino indefeso e inseguro. Sua mãe nunca lhe contara nada sobre o que fez com que uma das maiores casas de toda Kaal derramasse em desgraça. Tentara por vezes perguntar a Sir Sarnell, o mesmo nunca o respondia, dizia: "isto não é algo que precise de saber" ou só trocava o assunto. Por esses motivos Gregan deixara de perguntar, mas, nunca de pensar ou imaginar.
Boqueou o pato fingindo indiferença. — Por que diz isso? Nunca dissera-me sobre meu pai e agora me compara a ele. — Gregan nunca conheceu seu pai, mas não sentia apresso por ele, via-o como um imbecil, que fez seu filho e esposa passarem suas vidas como miseráveis. — Diga-me, o que levou a ele fazer de nós exilados, e talvez assim eu sinta que o ame e pense ser igual.
A mãe recolheu os olhos, tocando com delicadeza o escudo. Deslizava o indicador e médio por toda a antiga madeira. Olhou com os olhos fundos para o filho. — Seu pai nunca foi um grande cavaleiro, a espada em suas mãos eram ineficientes, eu brandia melhor, sempre preferiu os livros. Seu tio diferentemente era um prodígio com a espada, foi nomeado cavaleiro pelo próprio rei Cássius III quando ainda tinha a sua idade. Com a morte de seu avô Thormard, seu tio passou a comandar os exércitos da Gambona, e seu pai se tornou-se o senhor da Gambona. Seu tio era incrível em campo de batalha, liderava como ninguém nos campos. Ficou conhecido por toda Kaal e até fora dela como, Brallon, o general de carvão. Era tanta sua fama que o próprio rei Cássius o ungiu como senhor das guerras de Kaal. — Gregan olhava para a mãe desentendido, nunca soube que tivera um tio, além de não acreditar que sua mãe finalmente algo lhe contava sobre o pai dele. Iollena continuou. — Não lembro-me bem do motivo, mas seu tio marchou para as terras gélidas de Sidartt. Não a conhece, creio, mas Sidartt fica ao extremo leste do mundo, é o reino mais longe de nós. Seu tio de lá nunca mais voltou. Desde então seu pai, nunca mais foi o mesmo.
Gregan encarou-a, via que faltava algo, mas ela não continuou e ele não pediu uma continuação. Manteve-se calado enquanto no tempo que terminava a refeição. Com o cair da noite finalmente voltou a falar com a mãe, mas foi para despedir-se. Pegou um bastão que estava encostado, era de carvão tratado, tinha entalhes de metal com a mina sob a lua flamejante e em suas pontas carregava fitilhas vermelhas e negras. Beijou a testa da mãe e saiu.
Caminhava com o bastão preso as costas e uma tocha que iluminava a rua de lama molhada, a cada passo o barulho de espirro da terra era feito, observava bem o seu redor e nunca deixara passar nada. Passou por um grande toco de carvalho, fitou dois homens que caminhavam para fora de uma pequena casa de madeira, e mais a frente viu sir Sarnell Haragon, não tinha mais de setenta e cinco anos, os cabelos ralos que apenas cercavam a lateral já não carregavam cor predominante, eram grisalhos como neve, assim como os pentelhos no rosto que chamava de barba. Carregava cicatrizes aparentes em seu rosto que mostravam sua experiência, havia participado de campanhas antigas que acompanhavam até mesmo o avô de Gregan e o pai de seu avô. Sentava-se sobre um poço de pedras, cruzava as mão sobre o pomo da espada.
— Jovem Gregan — chamou o idoso de voz rouca.
Gregan caminhou em passos largos até o idoso. — sir Sarnell.
sir Sanell pôs se em pé, carregava uma postura que não compatível com a idade. — Vejo que carrega o bastão de carvona. O que faz com ele? Aprendeu a dança?
— Treinei por meses e finalmente acho que dominei. — respondeu apenas uma das perguntas.
sir Sarnell o fitou. — E o que faz com ele?
Gregan envergou-se baixando o olhar. — O novo bordel que foi aberto. O dono disse que me pagaria por um espetáculo. — sir Sarnell arregalou a pupila e suas veias pulsaram, era um homem honrado e nunca faltara um segundo com ela. Tomou o bastão das costas de Gregan.
— O que pensa! — esbravejou sir Sarnell Haragon. — Desonra sua família, seu brasão e seus ancestrais. Usar o que resta de precioso em sua família para receber moedas, envergonha a todos que um dia serviram sua casa, inclusive a mim.
— Meu pai desonrou-nos primeiro. — murmurou baixinho de forma que o sir apenas ouvisse os chiados.
— O que disse. Diga!
— Meu pai nos desonrou primeiro!
sir Sarnell Haragon preparava-se para socar o garoto, mas, percebeu que ele chorava e tremulava com o rosto baixo. — Você nunca me disse, que tinha um tio. — soluçava e esfregava o nariz e olhos. — Me contou diversas histórias de cavaleiros lendários, mas nunca sobre meu tio. — O velho homem recuou a mão. Gregan ergueu a cabeça soluçando, nunca havia visto aquele rosto em Sir Sarnell, era uma mistura de saudade com tristeza. — Minha mãe contou-me, mas não o suficiente. Diga-me, por favor sir. Diga-me o por que de meu pai fazer de nós exilados.
O velho sir cambaleou e sentou-se de volta no poço. — Seu tio realmente fora um grande cavaleiro, um dos melhores que toda Kaal já viu desde que se ergueu. — disse á Gregan, pensou bem e decidiu revelar ao garoto sobre o tio. — Seu tio Brallon tornou-se senhor das guerras do reino de Kaal, no reinado do rei Cássius Mooncraster III. O rei tinha seis crias, três homens e três mulheres. O reino de Kaal passava por extensos ataques do império de Asaba, o rei ouviu que os guerreiros bárbaros das terras gélidas de Sidartt estavam ajudando nos ataques. Então decidiu que iria casar sua filha mais velha Lynsanes Mooncraster com o filho mais velho do bárbaro Hōrgn de uma colônia de Sidartt, o Hōrgn Brønrthę Thōktaęk. Enviou seu tio e meia dúzia para escoltar Lynsanes, eles entregaram-a e de lá voltaram, os ataques pararam. Durante um ano Kaal ficou em paz. Lynsanes enviava cartas a seu pai todas as semanas, mas neste novo ano em questão ela vacilou as cartas uma semana, e na seguinte, e na seguinte. Ela parou com as cartas e então rei Cássius enviou seu tio com um contingente de dez mil espadas para Sidartt, mas de lá nunca mais voltou, isso foi a vinte anos. — porém nada falou sobre o pai, irritando-o com lágrimas nos olhos.
— Por quê? Por que nem você e nem minha mãe, por que nunca falam do meu pai?
O velho sir irritou-se. — Seu pai conspirou. Conspirou contra o reino. — gritou. — É isso que quer ouvir?
Gregan já imaginava, poucas coisas fariam uma nobre casa, donos de cidado-forte e maiores comerciantes de carvão do mundo receberem o exílio, mas o jovem não contentava-se apenas com isso queria mais, saber mais. — Quem era meu pai? — perguntou.
— Um tolo! Um tolo que pôs tudo a perder. — sir Sarnell Haragon manteve a voz rígida. — Estragou sua vida e a vida de sua mãe. Tudo pela ambição, que disfarçou.
Para Gregan aquilo não fazia sentido e ele queria mais. — O que ele disfarçou, diga-me.
— Disfarçou o amor que tinha pelo irmão. Nos fez acreditar nesta farsa que contava. — os berros fizeram o velho sir tossir. Continuou mais calmo. — Seu pai meu garoto não é alguém que deve se espelhar jamais. Nem mesmo sua mãe conheceu esta víbora que trajava-se de homem de verdade. Não peço para que não manche o nome de Crun Brether, mas, que não manche o nome dos bons e dignos homens que o antecederam.
Gregan baixou a cabeça irritado, as palavras de sir Sarnell Haragon o fizeram ter uma decisão e expressou-a para o velho sir. — Com o levantar da alvorada as tropas Humnostead que marcham para cá chegaram. Me juntarei a eles, e partirei para a guerra. — ajoelhou-se. — Nomeie-me cavaleiro com sua espada sir, por favor. Reerguerei o nome dos Brether.
Sarnell Haragon não o treinara sempre, mas o ensinou a arte básica. Gregan não sabia distinguir se, não foi treinado por sir Sarnell pelo velho o achar incapaz ou pelo velho sempre querer o proteger. Via nos olhos do velho sir angústia. Gregan também não queria partir, mas sentia necessidade de ser alguém.
— Alabarda. Era a arma que seu tio mais gostava, montava-se em Randor seu belo garanhão, negro como a noite. Quando ele chegava em campo de batalha com Randor, sua armadura escura com a mina sobre a lua flamejante dourada e sua enorme alabarda negra e dourada todos sabiam que o general de carvão havia chegado. Orgulhe-o. — disse o sir indo as lágrimas, sabia que Gregan não merecia, o garoto nunca fora escudeiro de nenhum cavaleiro, nem mesmo tinha tido um treinamento completo, mas a idade parecia ter amolecido até mesmo um homem honrado como sir Sarnell Haragon. Pôs a ponta da lâmina na cabeça de Gregan começando a recitar. — Nem na noite, na alvorada ou na madrugada será indigno da honra. Protegerá os mais fracos e necessitados. Combaterá os mal intencionados. Trará a paz para os inocentes. Honrará o reino e aos deuses por toda a vida. — tocou o ombro esquerdo do garoto. — Eu sir Sarnell da casa Haragon de Gambona, honro-o com a nomenclatura. Nomeio-o sir Gregan da casa Brether de Gambona. — e por fim tocou o ombro esquerdo de Gregan com a ponta. Levantou-o e fez com que segurasse a espada.
— Eu Gregan da casa Brether. Protegerei os mais fracos e necessitados. Combaterei os mal intencionados. Trarei a paz para os inocentes. Honrarei o reino e aos deuses por toda a minha vida. Honrarei por meu nome e nomenclatura. — recitou segurando o punho da espada e os olhos fixados ao velho sir.
Com o término da nomenclatura, Gregan agora não seria conhecido como um plebeu ou exilado no exército, mas como sir. E isso o animava. Olhou para o velho sir Sarnell cabisbaixo, óbvio, acabou de quebrar com sua honra nomeando-me cavaleiro, pensou, mas mesmo assim não conseguia esconder sua felicidade. — Honrarei-o sir Sarnell, é o meu maior motivo de ser cavaleiro. — disse para o velho, queria vê-lo honrado de ter o nomeado, mas sir Sarnell não demonstrou nada.
Levantou o rosto com um sorriso amarelo para seu discípulo, se é que poderia chama-lo assim. — Sei que honrara jovem Gregan. — devolveu para ele o bastão que havia tomado. — Nunca mais pense em utilizar deste privilégio que deus dera para sua família, em fins banais. A dança da brasa é o que resta dos Brether. E você, Gregan, é o que faz este nome ainda vivo.
Gregan voltara para casa reflexivo, nunca tinha se preocupado com questões formais que envolviam sua família, mas, naquela noite percebera, era o lorde da casa Brether. Mesmo com sua casa tendo sido exilada, perdido posses e títulos, Gregan era o único que carregava a responsabilidade da dança das brasas, que perdurou por mais de quatro milênios na casa Brether.
Iollena contava para Gregan que um cosmo-meteoro púrpura rodeou por toda a terra por nove dias e dez noites. Apenas ele iluminava, sem o brilho estridente do sol aos dias, sem a clara lua pálida as noites. Rodeou das terras do calor escaldante de Asaba, para as terras do dragão de Moag, mais ao longe passava pelos médios Sarnão e mais longe ainda pela gélida Sidartt. Nos últimos dias rasteava de forma que os Asabão pensavam poder toca-lo com os dedos, assim como pensavam ser a volta de seu deus Muu'h em vida. Em Moag pensavam ser o dragão destinado a unificação. Os Sarnões acreditavam ser uma punição de deus sobre os hereges bárbaros de Sidartt e os bárbaros pensavam ser o sinal de machados para tomar as terras Sarnãs. Mas ele passou e, passou até repousar em uma enorme explosão que tremera toda a terra, levantou as marés que fizeram Moag separa-se das quentes terras de Asaba. As terras Sarnãs foram inundadas pelas marés leste e oeste que a cercavam, muita chuva chegou a seus inférteis solos, fazendo com que passassem a viver do bom plantio.
Ele foi encontrado pouco depois por escravos que viviam na antiga fronteira escravagista de Moag e Asaba, a antiga Nil'sha para os Asabão e Xuan Losa para os Moaguí. Diversos dos senhores e seus escravos foram mortos e apenas cinco escravos sobreviveram, chegaram a tocar o cosmo-meteoro e para eles foi concebida as dádivas. Com o passar dos anos aquela terra separou-se e fundiu-se com terras já habitadas, mas nunca conhecidas. Graças ao oscilante oceano, conectou-se última vez com terras do império Asabão. Com o passar de séculos os descendentes dos escravos tornaram-se um com os Shinongenos, povo que originava das terras que foram acopladas e assim formaram-se as grandes casas e Kaal foi nomeado.
Gregan acordara com o som dos cascos dos cavalos pisando ao chão lameado ao longe, faltava poucos minutos de cavalgada para chegarem vila dos corvos. Pouco tinha feito após chegar em casa na noite que passou, banhou-se, comeu as sobras dos pato ao mel e deitou-se. Não havia falado com a mãe sobre nada que tinha acontecido mesmo a vendo e conversando antes do sono.
Nervoso e ansioso estava para alistar-se, mas, antes nervoso estava para contar a sua mãe. Aproximou-se dela. Iollena tricotava lã branca e negra, sentada em uma cadeira de madeira ao lado da lareira de cinzas quentes da noite que passou.
— Bom dia, mãe. — cumprimentou-a com a voz de sono.
— Bom dia, meu filho. Estou costurando mais uma remessa para sair a venda hoje. Irei junto ao mercador Dunkley para lavroura rosa, quer ir com a gente?
Gregan foi pego por um choque consciente. Pegou uma cadeira e sentou-se em frente a mãe a fitando.
— O que foi Gregan? — perguntou a mãe assustada parando de tricotar.
Gregan pegou a mão direita da mãe, percebeu o quão calejada estava. — Alistarei-me. Ontem no horário do lobo sir Sarnell nomeou-me cavaleiro, mãe. Agora sou um sir. — viu o choro tomando sua mãe. — Levantarei-nos. Nunca mais você terá de trabalhar e retomarei Gambona a domínio Brether.
Iollena respirou fundo. — Você não sabe lutar com espada — disse serena. — Não desejo que meu filho morra e seja esquecido. — aumentou o tom. — Acha que quero ter meu único filho morto em guerra? Seu idiota!
— Não usarei uma espada, minha mãe, talvez no começo. Mas pretendo usar de uma alabarda assim como meu tio.
Gargalhou nervosa para o filho. — Seu tio... Gregan, seu tio treinou com os melhores armistas de toda Kaal, aprendeu a usar uma alabarda com um armista Moaguí. Me diz como o faria. Mal treinou com sir Sarnell.
— Estou decidido, mãe e assim farei. Deixarei o bastão de carvona com a senhora. — Largou a mão da mãe e levantou-se cabisbaixo.
— Gregan, de tudo tento, e mesmo assim é obstinado. Eu te amo meu filho. Por favor não me faça chorar como seu pai fez. — abraçou Gregan com os olhos parecendo uma cachoeira. Beijou-lhe a testa diversas vezes. Ajoelhou-se para orar pela proteção do filho para todos os deuses que conhecerá. Nascida de família que seguia os padrões shinogenos orou para os deuses do sol, da lua, do mar e das florestas. Orou para os cinco deuses adorados por Kaal, Venâ a mãe, Junô o pai, Sanû o filho guerreiro, Urenâ a filha curandeira e Netuê o filho animal. Orou para o deus dragão de Moag, para Muu'h dos asabão e por fim o deus dos sarnão. Deve ter passado por sua mente fazer sacrifícios para os deuses dos bárbaros, mas, não o fez.
Gregan correra rápido para chegar ao centro da vila antes que as tropas chegassem, levava apenas as roupas do corpo, o escudo com o brasão de sua casa e uma espada velha que ele havia comprado de um mercador por doze moedas de cobre e cinco de bronze. Repousou-se na casa de sir Sarnell, vira o escudo com o brasão Haragon, uma espada espetando uma maçã. Conversou por muito com o velho sir até ouvir os barulhos dos passos de cavalos e barulhos de cornetas.
— Povo da vila dos corvos, recebam, sir Kylow Humnostead e o exército de gambona. — anunciou o corneteiro.
Gregan esperava com sir Sarnell na porta da casa. Observaram os homens a cavalos, e com suas reluzentes armaduras, dez foram os cavaleiros que cavalgavam a frente com os estandartes das quatro árvores abaixo de uma coroa de espinhos dos Humnostead e a lua coroada dos Mooncraster. Atrás vinha ao lado do corneteiro, montado em seu corcel branco como a neve recém caída.
— Este é Kylow Humnostead. — disse sir Sarnell para Gregan.
Gregan observou bem sua armadura prata tão polida que o sol a reluzia, sobre os olmos derramava-se um manto verde menta suave com o brasão dos Humnostead, senhores da cidado-forte de Gambona. O elmo que só tinha o visor como janela, tinha dez espinhos que o rodeavam como uma coroa, estava sendo levemente tirado da cabeça expondo seus loiros cabelos bem cuidados. O homem segurando o elmo virou o rosto e fitou o escudo de Gregan. Seus olhos verdes da cor de seu manto eram belos, assim como o sorriso sarcástico que soltou.
— Ele é o segundo filho do lorde Loiman — continuou o velho sir. Logo atrás vinha montado em um palafrém cinzento, mais um com uma bela armadura e elmo de espinhos, o elmo deste estava arqueado, permitindo Gregan notar a semelhança dos olhos e cabelos. — E este é o terceiro filho, Lavrus. — disse o sir.
— Onde está o primeiro filho, não vejo mais ninguém tão chamativo? — perguntou Gregan fitando todos os cavalos e armaduras.
— Pode ser que sir Geweyn já esteja em Terral de Luar há espera de Kylow e seu exército. Lorde Loiman não tem mais idade para marcha para tão longe, muito menos para participar de campanhas. — disse Sir Sarnell. Não parava de passar homens montados a cavalo. A hoste deveria contar com no uns oito mil homens, mais de duzentos eram de cavalaria, e esse foram para a vila. Os de infantaria haviam montado acampamento na parte baixa leste da vila.
Gregan observou os escudos de cada cavaleiro montado, muitas das grandes casa da cidado-forte de Gambona estavam presentes. Quatro carregavam o escudo do chifre quebrado dos Lowster de Ventilação Ardente; cinco carregavam a abelha diagonal no verde-mel dos Booshem de Frutos Néctoso; mais quatro levavam os dois golfinhos saltitantes dos Gorf de Maresias Lindas; entre muitas outras casas; os Chern, Rhento, Blumbe, Sturm, Conchell...
— Como farei para alistar-me? — perguntou admirado Gregan. Nunca tinha visto nada igual, as armaduras ornamentadas, os garanhões e palafréns de raça pura, os elmos ornamentados de batalha, tudo era novo para ele.
— Antes, siga-me. — o velho sir puxou Gregan pelo braço para dentro de sua casa. — Guardei por muito, pensava em um dia te entregar, mas não imaginava ser tão cedo — puxou um baú de madeira antiga que repousava-se em baixo da cama. De vista era um baú normal, daqueles que eram guardadas as roupas. Quando o velho abriu-o Gregan pode ver o que o baú escondia. — Esta espada era usada por todos os lordes Brether ao longo dos anos. Chama-se carvoeira.
Gregan entendeu o nome quando a viu de perto. A lâmina era longa e de aço polido negro que engolia a luz que o tocava, assim como o carvão. No centro da guarda de aço polido prata estava incrustada uma pequena pedra de rubi de um vermelho tão profundo quanto os morangos de primavera. O punho de couro negro era fitado por metal vermelho e o pomo era circular como a lua prateada. Ao lado estava a bainha de couro negro como o anoitecer. Quando ele segurou-a percebeu o peso que os lordes Brether carregavam, não era feitas para grandes mãos, muito menos para pequenas.
— Seu pai não conseguia segura-la, na verdade nunca tentou. — contou o velho sir.
— Essa lâmina onde fora feita?
— Moag. As terras do dragão tem os melhores ferreiros do mundo. — explicou o velho sir.
— Agradeço por tudo que sempre tem feito por mim, desde quando eu era um bebê. Estará para sempre em meu coração sir. — abraçou-o.
— Falta-lhe armadura. Não tem? — preocupou-se o velho.
— Levarei moedas comigo. Pretendo pedir para serem feitas quando chegar em Terral de Luar. Devemos ficar por um tempo por lá até as campanhas iniciarem, rogo para ser tempo o suficiente.
— Quantas moedas tem? — perguntou a Gregan.
Gregan olhou os bolsos. — Quinze de bronze e nove de prata.
— Te darei mais cinco moedas de prata — entregou as moedas. — Com um bom negócio você consegue uma armadura descente. Desenharei uma para você.
— Agradeço mais uma vez.
— Acompanharei-o para falar com sir Kylow. Vamos!
Andavam pela lama, agora sitiada por muitos cavalos e cavaleiros a vila nunca esteve tão cheia de mercadores, frutas, pães, queijos, peixes, aço falso e muitos outras mercadorias. Os estabelecimentos estavam abarrotados e o bordel recém-aberto ficou disponível assim que chegou a hoste. As mulheres vindas da cidado-forte de Linacor chamavam as atenções para dentro. Viram o corcel branco de sir Kylow em um estábulo. Perguntaram ao cavalariço se ele sabia onde encontrar o homem, se fosse qualquer outro pedindo o cavalariço apenas viraria o rosto, mas, sendo sir Sarnell Haragon era diferente, o cavalariço apontou para a estalagem logo à frente. Dois homens alto guardavam a porta.
— Espere aqui! — disse o velho sir caminhando até os homens. Gregan não ouviu as palavras que foram trocadas, mas, viu o velho o chamar para entrarem.
Gregan carregava o escudo com o brasão dos Brether nas costas e a espada embainhada na cintura. Usava peitoral de couro velho e uns farrapos que cobriam a perna.
Entraram acompanhados de um guarda.
— Não vejo a hora de chegar nas terras das lua. O cheiro dessa vila me faz ter ânsia. — disse uma voz aguda, não era de um adulto.
— Não é o único, querido irmão. Minha vontade verdadeira é deitar-me com alguma mulher de seios grandes e cintura larga. E é isso que farei. — disse outra voz, essa era aveludada e grave, com certeza de alguém entre vinte e cinco ou vinte e nove anos.
O guarda reverenciou. sir Sarnell teve de empurrar as costas de Gregan, para faze-lo reverenciar também.
— Senhor. Este velho pediu para ter uma palavra com o senhor. — disse o guarda.
— É sir Sarnell — disse surpreso o mais jovem.
— Deixe-nos. — disse o de voz aveludada. O guarda reverenciou mais uma vez e partiu. — sir Sarnell Haragon, o carrasco de Pan'shei, posso saber o que traz a sua boa vinda? — olhou bem para Gregan.
— sir Kylow, venho pedir... — dizia o velho até ser cortado.
— Ah, pensei que tivesse vindo para beber conosco e conversar com seus suseranos.
— Crescemos muito desde que não o vimos pela última vez, sir. Agora já sou um homem feito e Kylow é o senhor dos exércitos de Gambona. — disse o mais jovem animado.
— É bom saber, jovem Lavrus, da última vez que os vi você ainda devia ter três anos e apenas sabia pirracear e comer terra. E Kylow apenas queria saber sobre a prima de vocês, lembro-me que de tudo fazia para chamar sua atenção. — lembrou-os o velho, Gregan pode perceber o sorriso nostálgico que o velho tinha.
— Ótimas lembranças sir, agora diga-me o que o traz aqui? — lançou Kylow Humnostead.
O velho sir respirou fundo. — Venho pedir para que alistem este rapaz como parte do exército de Gambona.
— Vi ele mais cedo quando chegamos. Tenho quase certeza — recordou-se Lavrus.
— Também o vi. Posso saber quem é ele? — disse aproximando o olhar de Gregan.
— Este é sir Gregan Brether, senhor.
— Sir?
— Exatamente, foi meu escudeiro por muito tempo, aprendeu de tudo comigo e enfim o nome-ei.
Kylow aproximou-se a passos lentos. Tocou a espada embainhada, encarou o rubi da guarda. Rodopiou para atrás de Gregan, tocou o escudo com o brasão dos Brether. Tocou o braço e apertou, pareceu aprovar. Parou a frente e encarou por dentro dos olhos.
— Qual seria a garantia do garoto não se voltar contra nós em vingança pelo pai morto? — perguntou voltando para a cadeira que estava apoiado.
— Zero, senhor. Eu o doutrinei. É uma rapaz honrado, que almeja apenas a guerra para distrair-se das complicações rotineira que a vida traz. — explicou para Kylow.
Kylow sentou-se novamente. — Complicações rotineiras que a vida traz — repetiu as palavras do velho. — E quais seriam elas? Será que o nosso garoto Brether consegue nos dizer? — a todo momento Kylow Humnostead sempre fitava o garoto Brether.
Gregan endireitou-se a postura. Pôs a mão direita no pomo da espada. — Com todo respeito senhor, mas, não sou nenhum garoto. Devo ser mais velho que o seu irmão. Posso garanti-lo que não tenho ressentimentos pela morte de meu pai, não o conheci e o que ouço dele não me traz a falta de não o conhecer. Nessa vila eu seria apenas um inútil criador de porcos ou um mercante moribundo que é puxado por uma mula moribunda, não nasci para isso, assim como não nasci para ser lorde. Nasci para ser um guerreiro, acredito que fui concebido com as bençãos de Sanû e nunca conseguiria me adaptar a nada que não fosse a espada.
Lavrus impressionado olhou para Kylow, que continuava a fitar Gregan.
— sir Pontas — chamou Kylow.
Gregan assustou-se e viu que sir Sarnell também. O guarda chegou.
— Traga-me a melhor das putas que o bordel desse lugar tem a oferecer. — levantou-se indo em direção a escada que levava aos quartos. — Brether. Junte-se aos homens de infantaria. Partiremos no horário do galo de amanhã.
— Agradeço, sir. — disse empolgado Gregan, seu sorriso amarelo parecia-se com o sol.
— Quantas primaveras tem? — perguntou Lavrus.
— Dezessete, sir. — respondeu.
— Realmente é mais velho, eu ainda não fui nomeado sir — tinha um sorriso gracioso, assim como seus olhos verde-menta. —, vai ser bom ter você em nosso exército. É sempre bom mais um.
— Jovem Lavrus — chamou o velho sir. —, desculpe a minha curiosidade, mas onde se encontra seu irmão Geweyn?
O jovem suspirou. — Ah, Geweyn ficará em Montival de Ilírios. Nosso pai está muito velho e adoecido, se o pior acontecer, que os deuses o livrem, Geweyn irá o sucede-lo como lorde de Gambona. Kylow será que vai comandar nossos exércitos na campanha contra Asaba.
— Que os deuses o livrem do mal. Estamos de partida. — sir Sarnell e Gregan reverenciaram Lavrus e partiram da estalagem.
Naquela noite Gregan juntou-se a infantaria, muitos dos homens eram de casa menores de Gambona como, os Lonn; Tall; Enorth...outros eram plebeus que nunca tinham pego em espadas, a única vez que empunharam uma ferramenta contra ameaças eram os forcados, que usavam para espantar os lobos que ameaçavam pegar os gados e porcos. Muitos treinavam nas fogueiras, outros entravam em suas tendas com as prostitutas do bordel local. Gregan não conhecia ninguém na infantaria e, ainda tinha medo de aproximar-se dos homens e eles criarem intrigas com ele por conta de ser um Brether. Por isso teve em sua mente que ganharia o respeito de todos, pela espada.