Vicktor Haya caminhava a passos lentos rumo ao seu destino final: os portões da grandiosa E.P.F.H. — a prestigiada Escola para Futuros Heróis.
Olhando de fora, qualquer jovem da sua idade estaria radiante. Afinal, aquele era o divisor de águas entre ser uma pessoa comum e se tornar uma lenda do mundo moderno. Mas, no caso de Vicktor, a expressão em seu rosto era tudo, menos de felicidade.
— Droga… Não acredito que vou ficar preso naquele prédio por um ano inteiro.
Um suspiro pesado escapou entre seus dentes. No entanto, em questão de segundos, o descontentamento deu lugar a um leve sorriso irônico no canto dos lábios.
— Bom… se bem que, no dia em que eu cansar dessa palhaçada e quiser fugir, dou o meu jeito.
Ainda caminhando sem a menor pressa, Vicktor apenas fechou levemente os dedos de uma das mãos. Um pequeno estalo ressoou no ar, seguido por uma faísca solitária de raio que dançou veloz por entre as pontas de seus dedos antes de sumir.
Conforme avançava, o cenário ao redor ficava cada vez mais caótico.
Por todos os lados, era possível ver novos alunos se despedindo de suas famílias. Alguns abraçavam os pais em lágrimas, comovidos com a separação. Vicktor apenas revirou os olhos diante da cena dramática.
Ele definitivamente não conseguia se imaginar chorando por ficar longe do próprio pai. Na verdade, pensando bem… a única chance de chorar em uma situação dessas seria de pura felicidade.
Ajeitando a postura, ele finalmente atravessou os imponentes portões da escola. No entanto, a calmaria durou pouco.
BUMP!
Um garoto de cabelo vermelho espetado esbarrou com força no seu ombro ao passar feito um furacão.
— Sai do meio, idiota! — vociferou o garoto ruivo, sem sequer olhar para trás enquanto ostentava uma cara fechada e marrenta.
Vicktor apenas deu um suspiro e decidiu ignorar. Mas o estressado não parou por ali. Metros à frente, o mesmo garoto acabou colidindo direto com uma aluna que caminhava calmamente.
— Pelo visto esses seus óculos são inúteis. Deveria trocar! — reclamou ele, ríspido.
A garota caiu sentada no chão e tateou desesperadamente ao redor, totalmente desorientada sem a sua visão perfeita.
— Não, não, não… Cadê eles?!
Vicktor deu alguns passos à frente, abaixou-se e recolheu os óculos discretos do chão. Sem pressa, aproximou-se da garota e, com delicadeza, ajeitou a armação de volta no rosto dela.
— Você está bem? — perguntou ele, mantendo o tom calmo de sempre.
Com a visão recuperada, a garota piscou algumas vezes e encarou o garoto diante de si. Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Ela hesitou por um segundo, mas aceitou a ajuda e ficou de pé.
— S-Sim, estou bem… Me desculpa! Eu deveria estar prestando mais atenção por onde andava — disse ela, timidamente ajeitando os óculos no nariz com a ponta dos dedos, ainda um pouco corada.
Vicktor apenas soltou um leve resmungo e deu de ombros.
— Não liga para isso. Mas, se quer um conselho… não engula esse tipo de atitude de cabeça baixa. Se fizer isso, só vai sofrer por aqui. Todo mundo nesta escola é praticamente seu concorrente, não seu colega.
costas sem hesitar e seguiu o fluxo de alunos para dentro do prédio principal. No entanto, o eco de passos suaves logo atrás dele fez com que uma gota fria de suor escorresse por sua nuca.
Ele olhou de canto de olho. A garota de óculos o seguia a uma distância curta.
— Droga… Ela não vai achar que eu sou o "salvador" dela, vai? Meu único objetivo aqui era passar totalmente ileso de fazer amigos ou criar qualquer tipo de laço.
Tentando ignorar a presença incômoda, Vicktor seguiu direto para o grande painel digital no saguão, onde as listas dos alunos estavam expostas. Correndo os olhos rapidamente pelos nomes, ele encontrou o seu: Turma B.
— Que legal! Nós caímos na mesma sala! — comemorou uma voz alegre logo ao seu lado. A garota de óculos vibrava com um sorrisinho, olhando para a tela. — E a minha irmã também!
Vicktor piscou, virando o rosto devagar para ela.
— Você tem irmã?
— Nossa, acabei de me tocar de que nem me apresentei! — disse ela, dando uma risadinha tímida. — Sou a Lari. E a minha irmã é a Aur—
STRUM!
O som limpo e vibrante de uma corda de guitarra ecoou bem atrás deles, interrompendo a fala de Lari no mesmo instante.
— Ouvi meu nome — disse uma garota surgindo do nada, ostentando um longo cabelo preto com mechas azul-brilhantes nas pontas e uma postura descolada. — Você falou de mim, não foi? Senti de longe.
Aurora deu um passo à frente e cruzou os braços, avaliando Vicktor de cima a baixo com um olhar desconfiado. Era como se estivesse passando um raio-X completo para entender quem diabos era aquele garoto conversando tão intimamente com a sua doce e inocente irmã gêmea.
Vicktor nem piscou diante do olhar intimidador da garota. Em vez disso, apenas deslizou as mãos para dentro dos bolsos da calça e deu um relance para o instrumento nas costas dela.
— Guitarra maneira — comentou ele, com a voz serena. — O que eu preciso fazer para entrar na banda?
Aurora ergueu uma sobrancelha e um sorriso debochado, quase sarcástico, surgiu em seus lábios.
— Hmph, então temos um piadista por aqui? É bom tomar cuidado, garoto. Eu posso fritar os seus miolos com ondas sonoras em questão de segundos.
Em vez de se encolher, o canto da boca de Vicktor se curvou em um sorriso provocante.
— Adoraria ver você tentar.
A atmosfera entre os dois congelou por um segundo, quase soltando faíscas invisíveis no ar. Lari, percebendo o perigo iminente, abanou as mãos em pânico entre os dois.
— Ei, ei! Calma, calma, gente! — interveio Lari, visivelmente nervosa. — A gente precisa ir para a sala agora! Aurora, ele me ajudou quando aquele garoto de cabelo vermelho me empurrou. Ele é legal!
Aurora encarou a irmã por um momento, soltou um suspiro derrotado e guardou a palheta que já segurava entre os dedos no bolso da jaqueta.
— É o que vamos ver… — murmurou ela, sem tirar os olhos de Vicktor. Em seguida, virou-se de costas: — Vamos, Lari.
Ao cruzar a porta da sala de aula, Vicktor parou por um segundo, surpreso.
Não era uma sala comum, mas sim um auditório gigantesco, projetado para acomodar facilmente mais de cem alunos. Vendo aquela multidão conversando alto, o cérebro de Vicktor processou a situação em um piscar de olhos. Ele precisava garantir o melhor lugar antes que qualquer pessoa puxasse assunto.
Em uma fração de segundo, uma leve faísca cortou o ar e, usando sua velocidade sobre-humana, ele cruzou a sala num borrão.
Fwoosh!
Antes que qualquer um notasse, Vicktor já estava confortavelmente sentado na última cadeira da última fileira, no canto mais isolado do lugar.
— Ufa… Aqui sim vou ter paz — murmurou ele, encostando a cabeça com um suspiro de alívio.
No entanto, uma sensação incômoda arrepiou sua espinha. Ele sentiu um olhar terrivelmente frio vindo da carteira ao lado. Ao se virar devagar, deu de cara com a mesma garota de mechas azuis.
— Droga… Você de novo, garota?
Aurora virou o rosto com desdém, ajustando a alça da guitarra.
— Eu que deveria dizer isso. É você que claramente está perseguindo a mim e à minha irmã.
Antes que Vicktor pudesse rebater a acusação absurda, o barulho da porta principal se abrindo fez o falatório da sala diminuir. O garoto de cabelo vermelho espetado que havia causado a confusão mais cedo entrou no auditório, ostentando a mesma cara fechada e o braço metálico reluzente.
Aurora cutucou a mesa de Vicktor com o cotovelo, a expressão subitamente séria.
— Ei… Foi aquele cara ali que empurrou a Lari.
Vicktor, que estava de olhos fechados tentando ignorá-la, abriu apenas um dos olhos para observar a entrada do novato.
— É, foi ele sim. Mas por quê?
Aurora resmungou e estralou a língua, claramente contrariada.
— Droga… Tinha que ser justo ele? O nome dele é Kiraku. Ele é do Clã do Metal.
Um estalo de lembrança passou pela mente de Vicktor.
— O clã do herói Kenji?
Aurora acenou com a cabeça em confirmação.
— Ele é o terceiro filho da família principal. Por isso essa arrogância toda.
Vicktor voltou a fechar os olhos por um segundo, inclinando a cabeça para trás. Um leve sorriso de canto surgiu em seu rosto enquanto ele murmurava para si mesmo:
— Metal, é?… Interessante.
Após todos os alunos encontrarem seus lugares, o silêncio tomou conta do auditório quando a porta da frente se abriu com um estrondo.
Um homem alto, de cabelos brancos espetados e olhar afiado, caminhou até o centro do palco. Ele nem precisava se apresentar: a aura intimidadora e as cicatrizes visíveis deixavam claro que se tratava do professor de combate.
Enquanto o professor caminhava, Vicktor tateou a própria mochila e sentiu uma leve onda de frio na espinha. Ele tinha acabado de se dar conta de um pequeno detalhe: não tinha trazido nenhum livro e nem sequer pegou a grade de horários da aula.
Do seu lado, Aurora parecia ter lido seus pensamentos. Ela soltou uma risadinha debochada e sussurrou para a irmã:
— Presta atenção, Lari... Pelo visto, tem gente que nem sabe o que veio fazer aqui.
Vicktor ignorou a provocação e voltou a atenção para o palco. O professor não perdeu tempo com boas-vindas calorosas. Foi curto e grosso:
— Muito bem. Como podem ver, temos mais de cem alunos nesta sala. Mas o que vocês não sabem é que apenas trinta permanecerão na Turma 1-B.
Um murmúrio de espanto percorreu o auditório, mas o professor continuou sem hesitar:
— Vocês vão lutar. Os trinta melhores avaliados por mim continuarão na turma. Os outros? Bem… boa sorte no ano que vem. Dividiremos a sala em dois torneios simultâneos: um feminino e um masculino. Os campeões de cada categoria serão nomeados os líderes da turma. Olhem para o telão! A primeira rodada já foi definida. Quem alcançar a quarta rodada estará garantido na turma pelo resto do ano.
Antes mesmo que os alunos pudessem processar o choque da notícia, o grande painel digital no topo da sala piscou, exibindo a chave de confrontos.
Vicktor correu os olhos rapidamente pela tela:
Lari vs. Mosle
Aurora vs. Lily (que imediatamente olhou para Aurora com um sorriso de puro deboche)
E, finalmente, o seu próprio nome piscou no painel:
Vicktor Haya vs. Kauara
Vicktor olhou de canto de olho para procurar seu oponente. A poucos metros dali, um garoto robusto o encarava com um sorriso convencido, posicionado logo ao lado de Kiraku, o ruivo do Clã do Metal.
Apertando a ponte do nariz com a ponta dos dedos, Vicktor soltou um longo suspiro e pensou sozinho:
— Droga… Maldita escola de heróis.
Naquela mesma noite, do outro lado da cidade, longe dos holofotes e do glamour da academia de heróis, a iluminação pública falhava, lançando sombras compridas sobre as ruas desertas.
Uma garota corria desesperada, com passos desordenados, até entrar sem saída em um beco escuro. Logo atrás, um homem de uniforme colado e capa entreaberta a perseguia sem pressa, encurralando-a contra a parede de tijolos.
— Vamos lá, não complica! Eu acabei de te salvar daquele assaltante de meia-pataca. Eu sou um herói registrado! Exijo o meu devido pagamento.
A garota, encolhida no chão e tremendo de medo, abraçou as próprias pernas.
— Por favor… Eu não tenho nada! Por favor, me deixa ir…
O homem estralou os dedos, com um sorriso debochado e desprovido de qualquer empatia.
— Maldita… Vocês, humanos sem poderes, acham mesmo que nós, heróis, devemos algo a vocês?
— Você fala demais para alguém tão insignificante.
A voz fria e abafada ecoou das sombras logo atrás do homem. Ele se virou sobressaltado, dando de cara com uma figura misteriosa totalmente coberta por panos e capuz pretos.
— Quem é você, seu idiota?! — vociferou o suposto herói, estufando o peito. — Eu sou o herói Número 234 do ranking desta cidade! Eu faço o que eu quiser por aqui!
A figura encapuzada não se intimidou. Devagar, ergueu uma das mãos, revelando uma seringa com um líquido denso e brilhante sob a luz do luar.
— Vocês, ditos "heróis", vivem vidas roubadas… E eu vim tomar cada uma delas de volta. Para a minha amada.
Antes que o homem pudesse reagir ou ativar qualquer habilidade, a figura se moveu como um fantasma. Em um rápido e cirúrgico movimento, cravou a seringa direto no pescoço do herói.
O homem arregalou os olhos, sufocou por um segundo e desabou inconsciente no asfalto frio.
A garota, paralisada pelo choque, desabou no chão, incapaz de emitir um único som. A figura em capuz virou o rosto suavemente na direção dela.
— Vá à delegacia — ordenou a voz fria, sem ameaça, mas com uma autoridade aterradora. — Diga a todos o que você viu aqui. Diga que nenhum herói está a salvo comigo nesta cidade… Porque eu sou o fim da linha para eles.
Um forte trovão ecoou no céu e um relâmpago cortou a escuridão. Quando a luz da descarga elétrica se apagou, a figura já havia desaparecido sem deixar rastros.