
Há oito anos, Aurora tinha apenas 12 anos.
Ela se lembrava de ter perdido o controle de seus poderes e de ter sido acalmada por sua mãe, que correu ao ver o sofrimento da filha. Lágrimas de gelo caíam dos olhos de Aurora.
Depois que Aurora se acalmou, percebeu que havia machucado gravemente sua mãe. Aurora via sangue em suas mãos, o sangue de sua mãe, que tentava acalmá-la.
Logo em seguida, sua mãe foi tratada rapidamente, mas Aurora nunca se esqueceu daquela sensação.
Aurora ficou chocada com o que seus poderes eram capazes de fazer. Ela olhava para as próprias mãos, que não paravam de tremer, mas, diferente de antes, não tinha sua mãe para acalmá-la.
Com o tempo, passou a se ver como um monstro e se isolou em seu quarto por um longo período, até que sua mãe finalmente melhorou e a chamou.
"Você me chamou, mãe?"
Aurora não falava com a mãe desde o incidente que havia causado. 'Eu sou um monstro', pensava. O medo ainda a dominava, e ela lutava para não chorar sempre que se lembrava do que tinha feito.
Sua mãe estava pálida e muito magra, mas ainda havia vida em seus olhos. No entanto, devido aos ferimentos graves, ela não sabia quanto tempo lhe restava.
Aurora sentou-se ao lado da cama de sua mãe.
Ela não conseguia encará-la.
O ódio que sentia por si mesma a consumia por quase ter matado a própria mãe.
"A culpa não é sua."
Aurora ouviu as palavras da mãe e ergueu o olhar. Ela sorria. Seus olhos não demonstravam medo nem raiva, apenas amor.
"Você tem um poder incrível. Quero que saiba que nunca a considerei um monstro. Eu sei que seus poderes são difíceis de controlar, mas também sei, minha filha, que quando você aprender a dominá-los, fará coisas incríveis. Só não deixe suas emoções tomarem conta, pois tudo o que é belo pode se tornar feio."
Aurora olhou para sua mãe com lágrimas nos olhos.
"Prometa-me que não usará seus poderes para machucar os outros ou por motivos egoístas."
Aurora começou a chorar.
"Eu prometo, mãe. Vou controlar meus poderes e farei deste reino o melhor entre os quatro reinos. A senhora e meu pai terão orgulho de mim."
Aurora abraçou a mãe enquanto chorava em seu colo.
A rainha de Arvandor começou a passar a mão pelos cabelos da filha; a cor dos fios de Aurora era a mesma de sua mãe.
Isadora era uma mulher linda, de longos cabelos prateados e olhos azuis. Também era meiga e gentil, e acreditava na filha mais do que em qualquer coisa. Para ela, Aurora ainda era apenas uma criança que precisava receber todo o amor do mundo, e que um dia retribuiria esse amor por completo.
Ela sabia que a filha se tornaria alguém muito importante; sentia isso enquanto abraçava Aurora, que chorava em seus braços. Mas, diferente de antes, aquelas não eram lágrimas de gelo, eram lágrimas de tristeza.
Depois de algum tempo, Aurora passou a treinar sozinha. Os únicos que a ajudavam eram seus guardas, que cuidavam dela desde pequena.
Dias depois, sua mãe faleceu.
Aurora ficou devastada com a perda da mãe.
Seu único pai a culpava. Ele havia mudado e passou a tratá-la como um monstro; o pai amoroso que Aurora conhecia havia morrido.
"É por sua causa que minha mulher morreu. Você é um monstro."
Tudo o que Aurora sentira antes voltou com muito mais força. Agora, sem a sua mãe para acalmá-la e com o próprio pai a odiando, a dor era insuportável.
Ela começou a se isolar das pessoas e a se odiar a cada dia mais, até que um de seus guardas decidiu falar com ela.
Eram os guardas que lhe levavam comida, pois as empregadas tinham medo dela.
"Até quando você vai ficar aqui, princesa?"
Eduardo, um de seus guardas, perguntou.
Aurora mantinha uma expressão vazia; já não tinha mais vontade de nada.
Ela era odiada por todos. O próprio pai a queria morta. Estava quebrada e vazia, sem forças para se levantar e sem ninguém para ajudá-la.
Aquilo era algo que ela já não conseguia suportar.
"O que você quer que eu faça?" perguntou Aurora, com um olhar vazio e sem vida. A voz mal saía; ela estava fraca, não fisicamente, mas mentalmente.
"Você prometeu à sua mãe que iria orgulhá-la", respondeu Eduardo.
Aurora começou a se irritar ao ouvir o nome de sua mãe.
Eduardo percebeu a mudança no humor de Aurora e continuou a conversa, tentando acalmar a princesa.
"Eu entendo que a dor pela perda de sua mãe é imensa, mas ela acreditava em você e em seu potencial. Você precisa honrar a promessa que fez a ela e mostrar a todos que não é um monstro. Você é uma princesa forte e corajosa, e tem o poder de mudar o mundo ao seu redor."
Aurora olhou para Eduardo com um misto de surpresa e tristeza.
Ela nunca havia parado para pensar no quanto a mãe acreditava nela e em seu potencial. Mesmo depois de tudo o que havia acontecido, sua mãe ainda tinha fé nela, acreditava que Aurora poderia fazer algo grandioso, tornar-se uma pessoa melhor.
"Eu não sei se sou forte o suficiente para fazer isso, Eduardo", disse ela, com a voz baixa e trêmula.
Suas mãos voltaram a tremer.
Eduardo colocou a mão no ombro de Aurora e disse:"Não se preocupe. Eu estarei aqui para ajudá-la em tudo o que precisar."
Aurora se acalmou e concordou com o que ele disse. Em seguida, Eduardo chamou outros guardas para levarem a princesa para passear pelo reino, que ela não via há muito tempo.
Ela viu crianças correndo pelas ruas e percebeu que muitas coisas haviam mudado desde a última vez que saiu do palácio. O reino estava mais movimentado, e as pessoas sorriam ao vê-la.
"Você é a princesa Aurora?"
perguntou uma mulher que saiu de uma biblioteca e a havia reconhecido.
Aurora se assustou com a pergunta e pensou em fugir, pois acreditava que as pessoas começariam a se afastar dela e a chamá-la de monstro.
'Vai acontecer de novo', pensou.
No entanto, ela ficou impressionada e confusa com o que aconteceu a seguir.
"Você está bem, sua alteza? Faz um tempo que não a vejo. É uma pena o que aconteceu com a rainha."
Aurora começou a perceber que aquela mulher não a culpava pelo que havia acontecido.
E que a única pessoa que a culpava era ela mesma.
Outras pessoas se aproximaram de Aurora e a cumprimentaram, demonstrando preocupação. Conversaram com ela, riram com ela.
Aurora sentiu um peso sair de seus ombros e, pela primeira vez em muito tempo, começou a sorrir.
Muitas pessoas passaram a falar com a princesa, e ela decidiu que faria de tudo para melhorar o seu reino e orgulhar a mãe.
Ela passou a se esforçar cada vez mais, mas, quanto mais melhorava, mais o seu pai a tratava com frieza e desprezo.
Ainda assim, Aurora não desistiria. Ela jamais esqueceu o que a mãe lhe disse.
Enquanto se preparava para cravar a espada de gelo no peito de Zephyr, uma jovem mulher de olhos escuros como um corvo e cabelos pretos e curtos se aproximou e gritou:
"Pare!"
Zephyr reconheceu a voz e percebeu a presença da mulher atrás de Aurora.
Zephyr reconheceu a voz e notou a presença da mulher atrás de Aurora.
Atrás dela estava uma mulher vestida com um traje que lembrava uma armadura de couro, ricamente ornamentada com padrões de pergaminhos prateados que se estendiam do ventre até o decote profundo. O pescoço era envolto por uma gola preta de renda ou veludo, da qual pendia um colar de pedras escuras e pontiagudas. Mangas pretas cobriam os braços, acompanhadas de ombreiras e braçadeiras de metal prateado, além de cintos utilitários presos por diversas fivelas.
Zephyr percebeu imediatamente que ela era uma assassina de seu próprio grupo.
Seu nome era Lyra.
"O que você fez, Lyra?"
A assassina se aproximou de Zephyr e respondeu:"Eu te salvei, seu ingrato."
Ela suspirava enquanto continuava olhando para Aurora, que caía no chão, imóvel.
"Coloquei-a em uma hipnose. Agora ela deve estar tendo um pesadelo terrível."
Zephyr olhou para Aurora, caída à sua frente, e perguntou:"Em que ilusão você a colocou?"
Curioso para saber o que estava acontecendo com Aurora, Zephyr aguardava a resposta. Ele sabia que Lyra era poderosa e isso o deixava ainda mais inquieto.
Lyra olhou para Zephyr e sorriu.
"Em um pesadelo", disse ela, com um ar de superioridade.
Na mente de Aurora, ela acabou de matar Zephyr e começou a chorar.
"Me perdoe, mãe. Eu não pude cumprir a promessa que te fiz."
Aurora se ajoelhou em frente a Zephyr e começou a chorar.
"Está tudo bem, filha."
Ao ouvir aquela voz tão familiar, Aurora se virou e viu sua mãe, que estava morta.
Ela não conseguia entender o que estava acontecendo.
"Sou eu, minha filha, sua mãe, Isadora."
Ao vê-la, Aurora correu em sua direção e a abraçou, chorando. Mas, dessa vez, não eram lágrimas de tristeza, e sim de felicidade.
"É você mesma, mãe?" perguntou Aurora, com a voz chorosa. Um sorriso ainda estava em seu rosto.
"Sim, minha filha."
Isadora passou a mão pelos cabelos lisos e longos de Aurora, num gesto que parecia carinhoso. Em seguida, aproximou-se de seu pescoço e, de repente, começou a apertá-lo.
Aurora se espantou com o que estava acontecendo. Nos olhos de sua mãe já não havia amor nem carinho, apenas raiva e ódio.
"Eu morri, e a culpa é sua, seu monstro. Eu não deveria ter lhe dado à luz. Não consegui matá-la antes, mas agora consigo."
Aurora não conseguia compreender o que estava acontecendo, mas sabia que sua mãe não era assim.
Logo em seguida, tudo ficou escuro.
Quando a luz voltou, Aurora viu a mãe morta à sua frente, com estacas de gelo cravadas nas costas.
O sangue de Isadora escorria em sua direção, e as mãos de Aurora estavam sujas de sangue outra vez.
Bem à sua frente, estava seu pai, apontando o dedo indicador para ela.
Um homem com um olhar sem vida estava diante dela. Aurora finalmente entendeu: seu pai havia morrido há muito tempo e, em sua mente, a culpa era dela. Ela acreditava ter arrancado dele todo o amor que existia.
"Você matou minha esposa de novo."
Assustada, Aurora começou a correr, gritando, enquanto a voz grave do pai ecoava atrás dela.
"Não! Eu não matei ela de novo!"
Correndo sem rumo, Aurora acabou esbarrando em alguém e caiu no chão.
Quando olhou para cima, viu Eduardo e seus guardas à sua frente.
"Nós morremos por sua causa, seu monstro."
Aurora se levantou e começou a correr.
"Não! Eu não sou um monstro!"
Enquanto corria, Aurora viu Zephyr surgir à sua frente.
"Você deveria ter me deixado matá-la."
A voz fria saiu da boca do assassino.
Aurora olhou para o assassino e disse: "Então me mata. Eu não consigo mais viver com toda essa culpa."
Ela falou com os olhos azuis lacrimejantes.
Zephyr sorriu para ela e disse: "Você não deveria ter me matado. Agora, sofra no escuro."
Depois das palavras de Zephyr, todos desapareceram, e Aurora ficou sozinha na escuridão, em um vazio gelado, chorando.
