Suspenso a dois metros do chão, Kaelen debatia-se inutilmente, os pés chacoalhando no vazio enquanto o ar arrancado de seus pulmões se recusava a voltar.
Cael e Valen assistiam a tudo em absoluto estado de choque. A garganta de Cael secou. O desejo de gritar, de pedir para Zephyr parar ou alegar que teve ajuda do garoto veio à tona, mas o fato dele ser um simples agricultor e sem treinamento pesou, e o medo de represália subiu como um nó até seu peito.
No entanto, o olhar do Mago Chefe de Vento era de uma frieza tão cortante que o ar ao redor parecia congelar.
A hierarquia da Academia não era apenas uma estrutura militar; era uma lei de sobrevivência. Na presença de dois Magos Chefes, questionar a ação de um superior era uma insubordinação punível com a própria vida. A arrogância aristocrática e a autoridade absoluta que Draven e Zephyr emanavam esmagaram qualquer fagulha de coragem nos jovens recrutas.
Engolindo o próprio orgulho e a vergonha, Cael desviou os olhos. Ele encarou as próprias botas cobertas de fuligem, incapaz de sustentar o olhar do Mago Chefe ou de encarar a agonia de Kaelen. Ao seu lado, Valen cerrou os dentes com tanta força que o maxilar estalou, baixando a cabeça e fixando a visão na terra batida e ensanguentada. Ninguém se moveu. Ninguém disse uma palavra.
Zephyr manteve a mão erguida por mais alguns segundos, observando com um tédio refinado os movimentos frenéticos de Kaelen ficarem cada vez mais fracos. Quando os braços do garoto finalmente penderam sem forças e a visão dele se apagou por completo na escuridão da inconsciência, o Mago Chefe recolheu os dedos com um gesto displicente.
A esfera de vácuo desfez-se instantaneamente.
O corpo inerte de Kaelen despencou de choque contra a terra dura e cinzenta, caindo como um fardo inútil aos pés das autoridades arcanas.
Draven virou levemente o rosto, seus olhos de brasa fixando-se sobre os dois recrutas imóveis. A poeira nem sequer havia baixado onde Kaelen estava desacordado, com a face colada na terra cinzenta.
— Vocês conhecem este verme? — perguntou Draven. A voz soou calma, porém carregada de um peso que parecia comprimir os ombros de Cael e Valen.
Valen deu um meio passo à frente, mantendo o olhar baixo, incapaz de encarar a figura intimidadora do Mago Chefe de Fogo.
— N-não pessoalmente, Mago Chefe — gaguejou Valen, limpando a garganta para recuperar o tom militar. — Ele era apenas um camponês que estava no perímetro quando a horda avançou. Ele lutou contra os goblins... e matou alguns deles.
Valen engoliu em seco, omitindo deliberadamente o fato de que Kaelen havia intervindo e salvo suas vidas no momento em que a mana de ambos esgotou. Admitir que precisaram do resgate de um garoto sem treinamento perante a elite da Academia equivaleria a assinar a própria ruína acadêmica.
Zephyr recolheu os braços para dentro das mangas de seu manto verde e prateado, dando dois passos lentos em direção ao corpo caído de Kaelen. Ele observou o garoto por um segundo, com um sorriso de canto de boca que transparecia uma curiosidade quase doentia.
— Fascinante — comentou Zephyr, suavemente. — O modo como ele se projetou pelo ar com aquela adaga... Atacar um Mago Chefe é um crime punível com a própria vida, um ato de insensatez que mesmo guerreiros veteranos raramente teriam a audácia de tentar. Ele tinha uma coragem suicida, ou era simplesmente ignorante demais para entender o abismo entre nós.
Zephyr inclinou levemente a cabeça, contemplando a adaga jogada na terra.
— No entanto, aquele salto não foi mero impulso físico. Houve uma canalização instintiva de mana de vento. Uma faísca crua, mas inegável. Se eu não tivesse prendido este garoto no ar com o Anel de Vácuo, ele teria avançado mais dois passos... e você o teria incinerado até as cinzas, não é, Draven?
Draven não respondeu de imediato. Seus olhos de brasa encararam o garoto desacordado por um breve instante. Ele percebera, sim, aquela ínfima assinatura mágica ao ver o salto do camponês, mas para um Mago Chefe de Fogo, dar voz a isso seria dar importância a um inseto.
— Fagulhas insignificantes continuam sendo lixo, Zephyr — resmungou Draven, desviando o olhar com absoluto desdém. — Ele teve sorte de você ter intervindo primeiro.
No fundo, Cael e Valen compreenderam a terrível ironia da situação: o sufocamento brutal de Zephyr, que quase tirou a vida de Kaelen, fora a única coisa que impediu Draven de reduzir o garoto a pó instantaneamente. A curiosidade de Zephyr pela faísca de mana de Kaelen fora o seu único e cruel salvo-conduto.
Cael, sentindo a pressão do ar diminuir ligeiramente com o tom entretido de Zephyr, interveio para encerrar o assunto antes que a atenção dos superiores se tornasse perigosa.
— Aparentemente, ele era um morador desta vila — disse Cael, mantendo a voz mais firme que pôde. — Pelo que presenciamos, o chefe da vila... o velho que foi reduzido a cinzas... parecia ser alguém de extrema importância para o garoto. Isso deve ter desencadeado esse ato de loucura.
Draven soltou um suspiro de puro tédio. Ele nem sequer se deu ao trabalho de olhar para o garoto desacordado na poeira. Para o Mago Chefe de Fogo, um camponês com uma fagulha acidental de mana continuava sendo exatamente o que sempre foi: lixo dispensável.
Draven encarou os dois recrutas com uma gélida desaprovação. O propósito da missão era claro e estritamente avaliativo: um teste prático de campo para mensurar o desempenho de Cael e Valen em uma situação real de combate.
A meta projetada para a nota máxima era simples: a aniquilação completa da ameaça de aproximadamente vinte goblins, sem baixas na equipe e com zero danos colaterais ao vilarejo. O objetivo de preservar a infraestrutura não decorria de qualquer compaixão pelos camponeses locais, mas sim da doutrina de contenção da Academia. Em um eventual cenário de invasão a capitais estratégicas do reino arcano, os danos à população e às estruturas precisavam ser absolutamente minimizados. Essa era a lição técnica que ambos deveriam ter demonstrado.
Em vez disso, os Magos Chefes encontraram destruição, uma pequena parte do vilarejo reduzido a cinzas, dois recrutas esgotados sem mana ao enfrentar um simples grupo de goblins - e isso sem saber que eles foram salvo pelo garoto desacordado chamado de verme ao chão.
— Esta avaliação foi um desastre absoluto — declarou Draven, a voz ressoando com uma autoridade esmagadora. — O protocolo previa contenção limpa e neutralização rápida. Vocês falharam em conter a ameaça, permitiram a destruição de parte do perímetro e incendiaram o outra parte do setor. Se isto fosse um distrito da capital, ambos já estariam enfrentando a execução por incompetência tática.
Cael e Valen mantiveram as cabeças baixas, assimilando o peso da reprovação sem ousar emitir uma única palavra de defesa.
— O relatório de vocês será entregue ao Conselho com nota mínima — continuou Draven, virando-se em direção à carruagem mágica. — A única razão pela qual não os rebaixo aqui é porque o Conselho exige a burocracia do fracasso documentada.
Zephyr soltou um riso contido, a voz suave desarmando o peso sufocante que Draven impunha sobre os jovens. Ele deu um passo à frente, ajustando as dobras do seu manto nobre.
— Ora, Draven, você sempre foi rigoroso demais com meros recrutas — comentou Zephyr, balançando a cabeça com uma falsa indulgência. — Se olharmos os fatos friamente, o relatório deles indica que neutralizaram mais de vinte goblins. Exatamente a cota exigida para o teste.
O Mago Chefe de Vento lançou um olhar rápido e apontou para um pequeno cenário destruído e alguns corpos de goblins queimados — o ponto exato onde os recrutas lançaram seu primeiro ataque —, voltando a atenção em seguida para a poeira e o suor acumulados nos rostos de Cael e Valen.
— Os danos colaterais na vila podem ser perfeitamente justificados pelo volume inesperado da horda — continuou Zephyr, alisando a luva de couro. — Um contingente maior do que o previsto prejudica qualquer preparação prévia de terreno. Se alguém merece receber a nota mínima ou arcar com a incompetência deste desastre, é o oficial responsável pela triagem e pelo relatório inicial da missão, que enviou dois garotos para um ninho muito maior do que o declarado.
Draven parou à beira dos degraus da carruagem. Seus olhos de brasa franziram levemente, mas ele não contestou o raciocínio do colega.
— Seja como for — resmungou Draven, subindo na condução sem olhar para trás. — O Conselho ainda assim receberá os detalhes.
Zephyr parou por um instante antes de subir os degraus, ajustando a gola de seu manto verde e prateado. Voltou-se para os dois recrutas sob uma camada de autoridade.
— Finalizem o relatório de campo com todos os pormenores — ordenou Zephyr, a voz projetando-se com clareza na noite silenciosa. — Detalhem os estragos adicionais no perímetro, a contagem de baixas civis e a estimativa exata de recursos que precisarão ser enviados pela administração da Academia para a contenção da crise. Avaliem se a região exigirá um destacamento fixo de proteção contra novas incursões e... — o Mago Chefe fez uma breve pausa, olhando ao redor com o olhar frio — ...se restou algum sobrevivente entre os locais com capacidade ou liderança suficiente para substituir o chefe da vila à altura.
Cael engoliu a saliva seca e curvou levemente a cabeça, mantendo a postura firme apesar do tremor nas mãos.
— Entendido, Mago Chefe. O documento estará pronto até data prevista.
— Excelente. Não toleraremos omissões na papelada — concluiu Zephyr, finalmente subindo os degraus da condução.
A porta selada por magia fechou-se com um clique abafado. As runas azuis cravadas na madeira nobre e ao redor das rodas brilharam em um pulso de luz arcana. Sem emitir qualquer ruído mecânico, a carruagem ergueu-se suavemente sobre o chão batido e disparou pelo céu escuro de Oakhaven, deixando apenas uma brisa fria e a esteira de poeira para trás.
Sozinhos na escuridão, Cael e Valen soltaram os ombros, o peso da tensão finalmente diminuindo. O olhar de Cael, no entanto, acabou voltando-se para o chão escuro a poucos metros de distância — onde Kaelen permanecia imóvel e desacordado sobre a poeira e as cinzas.