Cael limpou o suor da testa com o dorso da luva de couro chamuscada, olhando fixamente para o céu onde a carruagem acabara de sumir. A adrenalina do combate finalmente cedia, dando lugar a um aperto incômodo no peito.
— Qual você acha que vai ser a nossa nota? — a voz de Cael saiu mais baixa do que o normal, sem a arrogância habitual. — O Mago Chefe Draven nem olhou nos nossos olhos antes de subir.
Valen, ao seu lado, inspecionava o cajado de vento com mãos levemente trêmulas.
— Nós derrubamos vinte deles, Cael... vinte. Em qualquer simulação da Academia, isso seria uma aprovação perfeita.
— Mas isso não foi uma simulação — Cael interrompeu, balançando a cabeça e soltando um riso seco, sem humor. — Olhe ao redor, Valen. Se não fosse pela chegada dos Chefes no final, pelo chefe da vila ter puxado a atenção dos goblins pra um duelo... e pela intervenção insana desse garoto... nós não estaríamos vivos pra ver nota nenhuma. Foram variáveis demais. Nós simplesmente perdemos o controle.
Um arrepio percorreu a espinha de Valen. Ele sabia que Cael estava certo. Mas, ao olhar para o centro da praça, seu olhar não se prendeu às marcas de queimadura na terra ou aos corpos das criaturas. Seu olhar parou na figura imóvel de Kaelen, jogado na poeira, ensanguentado após a demonstração fria de poder de Draven.
— Ele partiu pra cima de um Mago Chefe... — murmurou Valen, num misto de choque e fascínio involuntário. — Sem mana, sem manto, sem armadura. Ele simplesmente avançou.
— Um louco — esbravejou Cael, embora a hesitação em sua fala traísse suas palavras. — O Mago Chefe Zephyr disse com todas as letras: se ele desse mais dois passos, o fogo do Mago Chefe Draven teria reduzido ele a cinzas instantaneamente.
— Não é só isso, Cael — Valen deu dois passos à frente, olhando para a própria mão trêmula com um misto de vergonha e choque. — Antes dos Chefes chegarem... quando aqueles cinco goblins encurralaram a gente. Eu falhei. Eu entrei em pânico e não consegui concentrar uma única gota de mana. Fiquei paralisado.
Cael cerrou os dentes, engolindo a seco ao lembrar do desespero de recuar sem defesa.
— Só que o garoto... — Valen continuou, a voz quase sumindo enquanto apontava para Kaelen no chão. — Ele se moveu no segundo em que nós falhamos. Eu vi, Cael. Ele cortou o primeiro, se esquivou do machado do segundo e então... ele deu um salto triplo sobre a multidão para ficar na nossa frente.
— Ele é rápido, nós já sabemos disso — resmungou Cael, tentando disfarçar o incômodo.
— Não foi só velocidade, Cael! — Valen o interrompeu, encarando o companheiro com os olhos arregalados. — Para dar um salto daqueles a partir do solo batido, sem impulso prévio, seria necessária uma aceleração por pressão de ar. E a adaga dele... o ar ao redor daquela lâmina estava vibrando antes do corte. Eu sou um Mago de Vento, eu sinto o elemento. Como é que um plebeu sem magia consegue criar aceleração de ar nos pés e vibrar uma lâmina como se fosse um veterano da nossa escola? Quantos magos você já viu encantando a própria lâmina e se lançando no combate direto? Magos mantêm a posição na retaguarda, Cael. Não faz o menor sentido abandonar o suporte para ir para a linha de frente. Ninguém treina isso na Academia... Nem sei se algo assim é ensinado.
Kaelen piscou, sentindo a terra colada em seu rosto.
A cabeça latejava e o corpo inteiro parecia feito de chumbo. Aos poucos, o som abafado das vozes de Cael e Valen começou a fazer sentido, mas Kaelen não se importava com o que os recrutas diziam.
Onde... — tentou dizer Kaelen.
As vozes de Cael e Valen chegavam ecoadas, abafadas. Palavras como "retaguarda", "pressão de ar" e "sem magia" flutuavam sem sentido pela sua mente entorpecida.
Conforme a tontura cedia em ondas dolorosas, a realidade voltou com a violência de um golpe.
As memórias do combate não se organizaram em ordem; vieram como estalos brutais. A invasão dos goblins. O caos na praça. A chegada majestosa e indiferente da carruagem dos Magos Chefes. E então... o clarão.
Kaelen piscou devagar, apoiando os dedos trêmulos no solo batido para tentar se erguer.
Garth. — Pensou Kaelen.
O nome ecoou em sua mente como um alarme. A imagem final rasgou sua consciência: a postura erguida do veterano, o confronto desigual, e a frieza implacável de Draven ao canalizar as chamas. Não houve tempo, não houve despedida. Apenas um clarão incandescente que reduziu o homem que liderava a vila a uma nuvem de cinzas dispersas pelo vento.
Um arrepio frio, cortante, atravessou a espinha de Kaelen — não pelo medo da morte, mas pela dor impotente de testemunhar o apagamento de alguém que todos respeitavam, tratado pelos nobres como mero dano colateral.
A respiração de Kaelen desregulou. Ele pressionou a mão contra o peito, tentando conter o tremor das mãos enquanto os olhos prateados, ainda turvos pelo impacto, buscavam o ponto exato onde Garth esteve de pé. Não havia mais nada.
Valen foi em direção ao garoto, com o olhar fixo no estado deplorável em que Kaelen se encontrava. A poeira cobria as queimaduras em seus braços e o sangue seco escorria do canto de sua boca.
— Ei... — chamou Valen, a voz soando incerta, desprovida de qualquer tom de superioridade. — Você... está bem?
Kaelen não respondeu. Nem sequer piscou.
Ele continuou ajoelhado na terra, com os dedos cravados no solo, o olhar fixo e vago na mancha escura de carbono onde Garth estivera segundos atrás. O vento fraco da tarde passou pela praça, levando consigo os últimos vestígios das cinzas do veterano, espalhando-as pela terra.
Valen abriu a boca para falar novamente, mas as palavras travaram na garganta. Ele olhou para Cael, que permanecia estático a poucos metros, de braços cruzados, encarando a cena com a mandíbula contraída. Nenhum dos dois recrutas sabia o que fazer. Na Academia, ensinaram a eles como canalizar feitiços, como manter a forma em formação e como obedecer à hierarquia — mas ninguém os ensinou como encarar a dor crua de um sobrevivente.
Kaelen forçou os joelhos contra o chão e se ergueu devagar. O corpo tremia pelo esforço, mas a postura continuava rígida.
Ele não encarou os magos. Para Kaelen, eles eram invisíveis.
Ignorando a presença dos recrutas, Kaelen deu o primeiro passo em direção ao canto da praça, onde sua outra adaga havia caído durante o caos do combate.
Cada movimento era uma batalha contra a dor que martelava seu peito, mas seus olhos não se desviavam do brilho fosco do aço caído na poeira. Ajoelhou-se devagar e apanhou a arma.
Não era uma peça nobre. Não tinha runas cravadas na lâmina, nem ornamentos de ouro no cabo como as armas dos magos. Era uma adaga simples, de ferro batido, mas pesava em suas mãos com a força de uma vida inteira de memórias.
Aquela adaga fora um presente de Garth no seu aniversário de oito anos.
Kaelen se lembrou de quando era apenas um garoto de pés descalços, observando Garth treinar na alvorada. Ele via o veterano empunhar a espada longa com uma facilidade impressionante e desejava, mais do que tudo, ser forte como sua maior referência. Na época, Kaelen tentara erguer a espada de Garth, mas o peso do aço era demais para os braços pequenos de uma criança — muito menos uma espada de duas mãos.
Garth apenas rira, afagando sua cabeça, e dias depois lhe entregara o par de adagas adaptadas ao seu tamanho: — O tamanho da lâmina não molda o guerreiro, garoto. O que importa é o tempo que você leva para alcançar o pescoço do inimigo.
Desde aquele dia, sempre que tinha tempo livre entre os afazeres da vila, Kaelen praticava incansavelmente. Ele nunca se considerou um mestre ou um especialista refinado, mas a repetição diária transformara o uso das adagas em um prolongamento do seu próprio corpo. Sabia usar a velocidade e a precisão como ninguém naquela vila.
Agora, segurando o cabo gasto de couro, Kaelen fechou os dedos com força até os nós dos dedos ficarem brancos. Garth se fora, mas a lâmina que ele lhe dera ainda estava ali.