Após acordar, o homem no qual recentemente havia caído de uma altura considerável, estava em um tipo de masmorra.
Ainda meio inconsciente ele olha para os lados observando aquele local pouco iluminado, mas que parecia limpo.
Então uma voz doce de uma mulher pode ser ouvida com um leve eco criado pela extensa estrutura.
Mulher: “Olá, Senhor Zahn.”
Zane Zahn, o homem que passava por este inferno agora de frente a alguém que sabia seu nome, sentia algo ruim, mas não sabia o que.
Em seguida, Zane se levanta ainda meio atordoado e pergunta de forma direta.
Zane: Como sabe meu nome?
A mulher, que, apenas se aproximava mais e mais de Zane, ri calmamente.
No instante que a mesma sai da escuridão, é revelada sua aparência, uma garota de estatura média, pele pálida, possuia uma foice que era maior que a própria dona, e por fim, olhos pretos e arredondados.
Suas vestimentas eram apenas trapos pretos que se arrastavam no chão, parecia carregar uma intensidade a mais apenas por conta de sua roupa e sua arma que transmitiam um ar pesado.
Zane então olha em volta mais uma vez e percebe que tem algo faltando.
Zane: “Quem é você e onde está meu filho?...”
Ele pergunta com um tom de preocupação a mais, e olha nos olhos daquela mulher que já estava perto dele.
A mulher apenas o encara de volta por alguns segundos com uma cara séria, mas muda rapidamente para uma leve risada, que deixa Zane apenas mais irritado.
Mulher: “Me chamo Morella, é um prazer, Senhor Zahn”
Ele se aproxima e agarra a gola alta de Morella, a puxando pra cima e tirando os pés dela do chão.
Zane: “Onde está meu filho!”
Seu tom era uma mistura entre uma irritação e ameaça, estava tenso demais pra se conter em meio a essa situação.
Morella suspira, decepcionada com a exigência de uma resposta direta, então decide abrir o jogo.
Morella: “Ele está bem...”
No momento que ela vai falar onde o garoto estava, ela acaba hesitando, mas logo se recupera com mais um suspiro.
Já Zane parecia sem paciência e resmunga baixinho com essa demora.
Morella: “Está em um dos quartos da masmorra, dormindo calmamente.”
Zane: “Onde fica esse quarto?”
Ela olha pros lados, parecendo que estava com medo de alguém estivesse ali, observando tudo.
Morella: “Vem.”
Ela diz já segurando a mão de Zane e o puxando para o caminho do quarto.
A medida de que chegavam perto do quarto, as luzes se intensificavam, como se aquela área fosse a principal.
Eles chegam no local onde ficava o quarto, os dois parados de frente para a porta fechada.
Zane: “Eu quero que você abra.”
Ele disse num tom seco e direto.
Morella: “Não confia em mim, Senhor Zahn?”
Ela pergunta com um tom de deboche, já sabia que Zane não confiaria facilmente em uma pessoa tão misteriosa.
Ela desliza seus dedos hesitantes, pela maçaneta da porta, que logo é girada e puxada, revelando que o filho de Zane estava de fato dentro daquele quarto.
Ele corre rapidamente direção ao seu filho assim que o vê, com medo de que ele estivesse machucado por conta da queda ou até pior mas, de repente ele para.
Seu corpo sente um arrepio horrível, era como a sensação de ser observado do além da escuridão de um corredor.
Essa sensação só se intensifica mais ainda quando Morella começa a rir de forma insana, aquela risada que antes era um deboche, virou um sentimento de sádico de diversão.
Zane tenta falar algo, mas não consegue.
Morella então ainda rindo tenta se acalmar pra poder falar.
Morella: “Você caiu direitinho!”
Ela exclama com uma felicidade macabra, deixando Zane cada vez mais e mais desconfortável.
Morella: “É tão burro que nem ao menos forçou a minha entrada antes da sua, tão burro que nem ao menos sabe o que Morella significa!”
Ela volta a rir, dessa vez mais insana do que antes, não ria desta maneira havia séculos, ou melhor, milênios.
Zane tenta falar, mas nada sai de sua boca, mesmo assim, sentia que Morella era capaz de ler seus pensamentos.
Morella: “Mas não é óbvio?... O meu nome significa...”
-- Morte...
A revelação choca Zane, e em um surto de raiva repentino, ele parte pra cima de Morella, prestes a socar ela.
Zane: “Sua bruxa maldita!”
Após gritar contra Morella, Zane dá o seu golpe, mas Morella apenas desvia e contra ataca, cortando seu braço direito fora em uma fração de segundos.
Zane não entende o que estava acontecendo em sua frente, sua mente ainda estava processando o que Morella havia feito com seu braço.
Morella percebe a expressão confusa de Zane e começa a rir alto, vendo que ele estava parado na mesma posição, como se apenas parte de sua mente tivesse processado aquilo, a parte que o deixava ainda mais perdido.
Zane começa a mover seu corpo e em seguida move sua mão esquerda em direção onde deveria estar seu braço direito.
Zane: “...Huh?...”
Ao olhar para o chão, vê seu braço e uma poça de sangue, e então a ficha começa a cair.
Já Morella que estava rindo até então, para, ao ver que Zane estava entendendo as coisas, mantém um sorriso, esperando uma resposta mais clara.
Zane cai de joelhos no chão, gemendo de dor.
Zane: “Meu braço, meu braço, meu braço, meu braço!”
Ele começa a chorar, enquanto Morella apenas observava com prazer.
Morella muda de expressão, parecendo irritada com algo agora e se aproxima de Zane.
Morella: “Senhor Zahn, cale a boca de uma vez.”
Zane continuava chorando e gemendo de dor, nem conseguia prestar atenção em outra coisa no momento.
Morella então arranca seu próprio dedo, e em seguida cura Zane, fazendo seu braço voltar, e ele se recupera da dor física e mental.
Zane: “...”
O peito de Zane começa a doer, sua respiração mais pesada do que antes, trazia provas de uma condição severa.
De repente uma voz inocente, porém com um leve receio o chama de trás.
???: “Papai?...“
Os olhos de Zane se arregalaram ao ouvir a voz que ouvia, ele se vira para trás e então lá estava, seu filho, Abel.
Abel: “O que tá acontecendo, papai?”
Pode se ouvir a voz amedrontada de Abel, ele estava prestes a chorar de medo, mas Zane se aproxima em um único impulso, agarrando seu filho com um abraço apertado.
Os seus olhos se enchem de lágrimas, estava aflito com o fato de que Abel poderia estar morto depois da queda, mas agora tinha certeza que não.
Zane: “Que bom que está bem, obrigado, obrigado por estar vivo!”
O seu peito finalmente dá um aperto a mais, fazendo suas lágrimas cairem em grande quantidade.
Já Morella, que apenas observava de fundo, parecia se divertir, mas não era com a felicidade deles.
Morella: “Isso é tão adorável...”
Zane engole o choro com toda a raiva que sentia naquele momento, seus pelos se arrepiaram pelo corpo todo, mas era pura coragem.
Zane encara Morella sem desviar o olhar por um único milésimo e se levanta, ficando frente a frente com Morella.
Zane: “Filho, fica o mais longe possível.”
Abel obedece seu pai e vai pro canto do quarto correndo, apenas observando de longe.
Morella dá um sorriso sinistro, que faz Zane dar um passo para trás instintivamente.
Morella: “Eu adoraria cortar você em pedaços, Senhor Zahn, mas, infelizmente este papel é de outra pessoa no momento.”
Zane: “O que você quer dizer com isso?...”
A pergunta de Zane tinha sido feita com uma cautela a mais, temendo uma possível surpresa no qual não estava preparado para enfrentar.
Cada gota de suor escorrendo em seu rosto, o fazia perder mais a sua coragem de pouco tempo atrás.
Morella: “Eu vou explicar meus poderes.”
Zane: “Poderes?”
Mesmo após vivenciar coisas terríveis, como, fugir de monstros semelhantes a anjos e ter seu braço cortado e em seguida regenerado, ainda não tinha total fé no fato de poderes existirem, como em filmes ou em quadrinhos.
Morella: “O meu poder funciona com contratos e sacrifícios. Toda vez que eu quebrar um contrato perco uma das minhas 7 chances dadas no meu nascimento. Resumindo, se eu matar alguém antes da hora ou depois, acabo perdendo essa chance, e isso também vale pra feridas, das mais suaves até as mais graves.”
Zane: “Então quando você me cortou e depois me regenerou, você quebrou um contrato?...”
Morella: “Não, e é ai que entra a parte do sacrifício, caso eu sacrifique algo do meu corpo em troca de uma ação fora de ordem, eu recebo a permissão de uma única tentativa...”
Morella: “...E hoje já foram duas.”
Ela sorri mais uma vez, e então as luzes do quarto se apagam.
Morte: “Boa sorte, Zane Zahn.”
Ela ri e desaparece nas sombras.
Todo esse teatro faz Zane se arrepiar, mas a coragem de antes era o medo de agora, e mais uma vez seu instinto de sobrevivência o alertando, então ele se vira pra chamar o filho dele e fugir dali.
Zane: “Filho, vamos sair da-”
Zane é recebido por um soco de um monstro totalmente deformado, que acabou jogando ele para fora do quarto, onde estava um breu total.
Quando tenta ver melhor, percebe algo que o destruiria.
Monstro: “So...corro...”
O monstro avança, tentando esmagar Zane contra a parede com seus punhos que agora eram enormes, mas Zane desvia.
Ele correu na única direção que podia, pois todas as outras estavam fechadas por um tipo de barreira.
Zane: “Sua bruxa maldita!”
O grito ecoa por toda a masmorra.
Zane: “eu vou te matar, eu vou matar, vai desejar nunca ter me visto!”
Essa sede de sangue vinda no fundo do seu âmago, era o que dava forças pra que ele não pudesse morrer naquele momento.
Ainda correndo, ele vê de longe uma sala aberta, que parecia ter tochas acesas.
Zane: “É a minha chance!”
Ele acelera o ritmo e então chega na sala, se agarrando em uma das paredes pra poder virar para a direita sem ter que desacelerar a corrida.
Em seguida ele pega uma tocha e aponta em direção ao corredor onde estava seu filho transformado.
Morte: “Ou é o que você acha, acertei?”
Ela diz aparecendo atrás de Zane, sem nenhuma apresentação direta.
Zane sente um arrepio percorrer na sua espinha, mas não se move.
Morte: “Eu matei seu filho.”
Zane entra em estado de choque ao ouvir isso, seu corpo começa a perder as forças.
Zane não pode simplesmente desistir, toda a vida de seu filho sendo em puro caos, a perda de sua esposa no início da dominação feita pelos monstros, tudo aquilo pesava como um pilar que sustentava o mundo inteiro.
Queria morrer ali mesmo, mas não podia, ele tinha que agir, ele tem que agir, ele vai agir.
Zane: “Morra!”
Ele se vira e enfia a parte pontuda da tocha no peito da morte e em seguida se afasta alguns passos dela.
Morte: “É isso...”
O sangue começou a correr para fora de sua boca.
Ela estalou, substituindo seu lugar com Abel, que não estava mais transformado.
Abel: “Papai, isso dói...”
Ele então cai morto no chão, sem gritar nem chorar por conta da dor.
Zane, que já estava quebrado, quebra de novo, e de novo.
No mesmo instante Zane é perfurado pelas costas com uma espada.
Morella: “Eu sinto muito por isso, Senhor Zahn.”
Zane: “Sente... mesmo?...”
Zane começa a perder as forças, sente suas pernas fraquejarem, seu peito batendo cada vez mais devagar, e um ar pesado, difícil de respirar.
Assim como seu filho, Abel, Zane apenas cai no chão, com o diferencial de que ainda estava vivo.
O sangue de Zane começa a se espalhar pelo chão, sente a vida escapando de seu corpo.
Morella estava sorrindo observando a cena.
Morella: “Te matar foi um grave erro, mas eu nem sei de fato se você chegaria a me obedecer algum dia mesmo-”
Zane: Eu... sacrifico a alma... de meu filho...”
Zane recita palavras com dificuldade severa.
Morella: “O que?...”
Zane: “Desperte... o poder da humanidade...”
. . .
Morte: “Seu verme inútil!”
Ela invoca sua foice e tenta cortar Zane, mas é impedida por uma força desconhecida.
???: “Descanse agora, pequena.”
Morte, desaparece, contra sua vontade, e Zane morre após fazer algo que mudaria tudo.
Já no outro lado do mundo, um garoto de baixa estatura, louro, cabelo curto, raspado de um lado, e olhos atrasados, acorda assustado no meio da noite, seu nome é Michael.