-- Alvin...
Michael acorda após 3 horas sem consciência.
Sentia a cabeça doendo por conta do impacto causado ao colidir com a árvore. Ele tenta se levantar, mas falha e cai de cara na areia, deixando uma pequena quantidade entrar na sua boca
Michael: “Pfft! Argh!”
Ele cospe a areia que tinha entrado, e levanta a parte de cima do corpo ficando ajoelhado.
Michael: “Huh... Chuva?”
Michael não havia percebido antes, mas a chuva estava forte, cada gota gelada agora reparada caia em seu corpo com uma delicadeza a parte. Ele olha em volta, Areia, Mar, Restos de um anjo e sangue. O garoto sente seu estômago embrulhar e revirar-se, aquele líquido ácido subindo por sua garganta.
Michael: “Ugh... Hurk... Huuk!... Blargh!”
Soltava tudo de dentro de si, aquele líquido amarelado queimando sua garganta. Ofegante, usou seu próprio braço para limpar os restos que sobravam entre os lábios.
Michael: “Cof... Cof... Ugh... Que saco...”
Michael: “Hurk... Ah, não, de novo não... Glup!”
Num instante ele engole a outra rajada de vômito que viria em seguida.
Michael: “Ah... que nojo...”
Suspira chateado consigo mesmo e então tenta levantar de novo, mas dessa vez apoiando o corpo na árvore.
Michael: “Isso... isso...”
Ele consegue se manter de pé, mas suas pernas ainda estavam fracas. Michael tenta andar e quase cai em seguida, mas se recupera ao se agarrar na árvore.
Michael: “Tsk! Que droga! Cof... Cof...”
Ele olha pra cima, de onde vinha a chuva.
Michael: “Acho que se eu ficar aqui vou acabar pegando um resfriado, eu só preciso achar o... Alvin...”
. . .
Michael: ”Droga!...”
Sua voz trêmula dizia tudo que poderia ser dito. O garoto volta o caminho todo sozinho, averiguando cada centímetro da floresta que dividia a praia da base, com medo de ser atacado, afinal estava tudo um breu.
Michael: “E se eu cair e morrer aqui? heh...”
Sua mente, uma bagunça, a culpa pesava cada um de seus passos, que pareciam rachar o chão, mesmo que fisicamente falando, eram apenas passos de alguém cansado.
Michael: “Por que ele?...”
Continuava a andar se perguntando, desde que percebeu a morte de seu amigo, só se perguntava o porquê.
Michael: “Devia ter sido eu!...”
Suas palavras ecoavam pela floresta inteira, mas não se importava se fosse escutado por algum anjo ou qualquer outro predador.
Michael: “Devia ter sido eu!”
Então o grito vem, a frustração o fazia tremer o corpo inteiro, queria morrer e poder trazer seu amigo de volta, mas já era tarde.
Michael: “. . .”
Ele para por um instante, como se quisesse se recuperar do esforço usado em seu grito, mas em seguida volta seu rumo. Já encontrando a base, apenas entrou na água sem averiguar se haviam vigias nas torres ou em cima dos muros, só queria se trancar no seu quarto e gritar até suas cordas vocais falharem. Ao sair de dentro do túnel que dava acesso a casa, levou uma coronhada que o derrubou na mesma hora, mas não tirou a consciência do mesmo.
Michael: “Ai! Merda!”
Na hora que Michael vai se levantar pra revidar, recebe uma segunda coronhada do guarda que havia o acertado antes, então finalmente perde a consciência.
No dia seguinte, acorda amarrado em uma sala escura, apenas com uma bermuda. Uma luz de lanterna se direciona aos olhos de Michael, queimando suas retinas e fazendo o despertar ser mais rápido.
Michael: “Isso queima, droga!”
Parecia um pouco irritado com essa maneira abrupta de o acordá-lo.
Custer: “Por que saiu da base, responda, soldado!”
Era o capitão Armstrong Custer, um dos únicos homens que havia visto centenas de soldados morrerem durante um ataque terrível dos anjos.
Michael: “So-Soldado? Mas eu!-”
Custer acerta um tapa feroz no rosto de Michael. Aquele homem de grande porte, intimidava qualquer um, principalmente fardado como estava no momento.
Michael: “Ugh! Certo, certo!... Eu conto.”
O tapa ainda estava marcado no rosto de Michael, que ardia sem parar.
Custer: “Abre o bico de uma vez!”
Michael: “Eu fui ver o mar! É isso...”
Custer se impressiona com a resposta, normalmente as pessoas sairiam por motivos mais obscuros, como suicídio, contrabando ou caça ilegal.
Custer: “Mar?...”
Michael desvia o olhar agora um pouco mais tenso, lembrando da morte de seu amigo.
Michael: “É... isso...”
Havia uma dor a mais em sua resposta sutil.
O capitão do provável único exército daquele continente já perdido, fica boquiaberto ao juntar os fatos.
Custer: “E mesmo assim, voltou inteiro após andar por ai durante a noite?”
Michael: “É... Eu sim...”
Responde com um sorriso amarelo. Já Custer, muda sua expressão logo em seguida, entendendo algo a mais.
Custer: “Havia mais alguém com você?”
A pergunta pega Michael de surpresa, que apenas fecha os olhos, quase se derretendo em lágrimas que tentava conter.
Custer: “Entendo... Me perdoe por isso, garoto.”
Michael: “Perdoar pelo o que?”
No mesmo momento, ele é surpreendido por um golpe que o nocauteia na hora, assim explicando o porquê do pedido de perdão.
Custer: “Alguém, desamarre o garoto e prenda ele na sela 12, acho que segurança padrão é mais que o necessário para esse pirralho, certo?
Soldado: “Sim, Senhor!”
Um dos soldados mais experientes se põe à frente, disposto a seguir a ordem de seu capitão. Desamarra Michael com o mínimo de cuidado necessário, apenas para fazer o suficiente, sem decepcionar.
Custer: “Muito bem como sempre, agora ande, tire-o daqui!”
O soldado então pega Michael no colo e segue rumo em direção às celas. Ao chegar lá, joga Michael em uma cela vazia, sem mais nem menos, fazendo o garoto rolar no chão feito lixo. Em seguida o acorda, jogando água em seu rosto.
Soldado: “Não é hora de ficar dormindo.”
Ele diz com um sorriso de deboche, acompanhado de tapinhas na cara de Michael. O frio da água o desperta na hora, mas sua reação tampouco parecia a de alguém que tinha acabado de acordar de forma repentina. O chão frio congelava as costas de Michael, sentia como se pusesse gelo em suas costas durante um dia de verão. O garoto pisca diversas vezes e se depara com o soldado que acabava de o acordar, fardado com o uniforme clássico do exército americano, cabelos igualmente louros como o de Michael, olhos azuis e uma estatura alta, chegava a ser intimidadora, se fosse pra chutar, diria que o Soldado era um jovem adulto, que teria por volta de seus 22 anos.
Michael: “Ahh...”
Ficou admirando o rosto do soldado que parecia um galã de novela, não havia visto alguém tão bem cuidado desde que todo o inferno do mundo havia começado.
Soldado: “Minha beleza o hipnotizou?”
Ele diz ainda com o mesmo tom de deboche, porém mais divertido.
Michael: “É que, você se parece com um personagem de uma série...”
Soldado: “Que seja, deveria se preocupar com sua situação atual.”
Michael se sentia tonto e com uma dor infernal que não parava nunca.
Michael: “O que mais me preocupa, é o fato de que vou enlouquecer logo, logo se minha cabeça continuar assim...”
Soldado: “Ha! Levar duas coronhadas e um soco do Capitão Custer não é nada fácil!”
Michael: “Você diz como se fosse divertido...”
Soldado: “Mas é! Sério carinha, você vai sentir falta da sensação algum dia.”
Michael: “Huh... é, com toda certeza...”
Michael olhava para o Soldado com um desprezo a parte, parecia que estava dialogando com um cara louco agora, então ele se senta, fazendo com que consequentemente o Soldado se afastasse um pouco mais, dando espaço pro garoto.
Michael: “Mas enfim, qual é o seu nome?”
Soldado: “Me chamo John, John Miller.”
Michael: “John Miller? Com toda certeza, é um nome de Soldado.”
John: “Minha mãe sempre dizia o mesmo sobre meu nome, e olhe só, sou provavelmente um dos únicos vivos na terra!”
Essa empolgação de John, deixava Michael apenas mais confuso sobre quem era de fato o homem no qual ele estava conversando no momento.
Michael: “Você bateu a cabeça?...”
John: “Eu admito que talvez eu seja otimista demais, mas não vai pensando que eu não consigo tomar decisões racionais por causa disso!”
. . .
Michael: “Que?”
Isso quebra totalmente as expectativas dele, “Ele é uma criança por acaso?” era a pergunta que mais percorria em sua mente naquele momento.
John então se aproxima mais de Michael e se ajoelha na frente do mesmo, fazendo ambos ficarem frente a frente.
Michael: “Algum problema?...”
John parece hesitar na hora que vai falar, então suspira longamente, soltando todo o ar necessário e fala de uma vez.
John: “Carinha, eu vi você falando com o Capitão, você perdeu alguém importante lá fora, certo?”
Um choque emocional percorre dos pés a cabeça de Michael, fazendo ele se arrepiar e abaixar a cabeça, com aquela frustração e culpa voltando com esse mesmo gatilho. John agora afirma consigo mesmo que era de fato isso, então leva a sua mão até o cabelo de Michael e começa a acariciá-lo.
John: “Olha bem, carinha, não era pra eu fazer isso, mas vou te visitar assim que possível, seja aqui ou na sua casa... afinal, digamos que eu sou do tipo empático, e não gosto de ver as pessoas sofrendo por ai e já que posso te ajudar, não vou deixar de lado, ok? Fica tranquilo.”
Michael ainda de cabeça baixa, ouve tudo, as palavras entrando em sua mente como balas, mas balas de conforto, então se rende as lágrimas, finalmente chorando após enfrentar uma dor tão forte.
John: “Ó, eu vou ter que sair, ok? mas em seguida eu to voltando.”
John diz enquanto se levanta e se afasta aos poucos de Michael, que já estava parando de chorar.
Michael: “Snif, snif... certo...”
Michael abaixa a cabeça, se sentindo derrotado após deixar seus sentimentos escaparem. John então sai da cela e tranca ela.
John: “No máximo em 3 horas!”
O jovem vai embora, deixando Michael sozinho. Michael engatinha até o canto da cela, se esforçando mais do que normalmente precisaria por conta do cansaço acumulado. Ele se escora na parede, se ajeita, senta em posição fetal e esconde o rosto entre as pernas.
Michael: “Tsk!...”
O silêncio domina o ambiente, deixando tudo mais vazio. aquela solidão era calma demais, mas, ao mesmo tempo, deixava Michael ansioso. O garoto fecha os olhos e dorme com facilidade, mesmo depois de ser nocauteado duas vezes em um curto período de tempo, ainda sentia um sono absurdo, pelo fato de seu descanso ter sido uma tortura dentro de sua própria consciência.
Michael: “Ahhhh...”
O sono o golpeia cada vez mais forte e em poucos segundos, seu corpo cai pro lado, já adormecido.
. . .
???: “Acorda carinha, anda logo.”
Uma voz que podia ser escutada de longe chamava por Michael, mas o garoto nem conseguia diferenciar aquilo de um sonho, era como se tentasse ouvir alguém falando com ele de fora da piscina, enquanto o mesmo estaria submerso.
???: “Eu vou jogar água de novo se não levantar!”
Aos poucos, a mesma voz parecia mais perto.
???: “Última chance!”
No susto, michael se levanta com tudo, batendo a cabeça no queixo de John, que estava chamando por Michael há alguns minutos.
John: “Aii! o que foi isso?”
John pergunta com a mão no queixo, exatamente onde havia sido atingido.
Michael: “Uhh... Que... que sono, Ahhh!”
Suas primeiras palavras após despertar seguem junto de um bocejo preguiçoso que faria qualquer sentir sono só de ouvir.
John: “Vai me responder ou ficar ai bocejando que nem um idiota, hein?!”
O jovem pergunta com um exagero a mais no tom, fazendo parecer que estivesse irritado, assim conseguindo a atenção de Michael, que olha em questão de milésimos para John.
Michael: “Me desculpa, Senhor!”
Michael leva sua cabeça até o chão instintivamente, parecendo um japonês, mas, o movimento rápido e instintivo faz ele bater a cabeça com tudo no chão, fazendo um barulho alto. O silêncio é o que vem em seguida, John ficou com uma cara confusa e Michael com rosto vermelho como um tomate, os dois se encaram, ficam mais um tempo sem dizer nada até que o silêncio é quebrado por Custer, que estava do lado de fora observando tudo.
Custer: “O que diabos os dois estão aprontando, hein?”
Sua voz autoritária fazia Michael se sentir como um rato que estava sendo caçado por um leão. John sorri e se levanta, indo em direção ao Custer.
John: “Capitão, acredita em mim, ele precisa entrar, dá uma chance, vai!”
Custer: “Você não me disse até agora o porquê.”
John olha para o garoto que agora estava sentado no chão da cela, observando os dois com um olhar tranquilo, porém perdido.
John: “Ele voltou sozinho, perdeu amigo, lembra? Independente de ter sido um animal selvagem ou um Anjo, ele conseguiu chegar aqui vivo.”
John diz olhando no fundo dos olhos de Custer, sua maneira rápida de falar exalava uma confiança a mais por parte dele, o que fazia com que Custer sempre confiasse no Jovem.
Custer: “Certo, certo... Mas se ele já quebrou o pior regra uma vez ou até mais, o que impede de fazer de novo, ou melhor, contar para aqueles que não sabem?”
Custer rebate John a qualquer custo, queria testar se seu melhor soldado seria também alguém que soubesse tomar decisões mais delicadas como essa. John se aproxima de forma perigosa, ficando a centímetros de Custer.
John: “Eu luto contra você se for pra recrutar o garoto, afinal, se deixarmos ele de lado e ele errar novamente... a culpa vai ser minha.”
Custer: “Hm... Ha... Haha!”
John dá alguns passos para trás, confuso com uma risada repentina vindo de seu capitão.
Custer: “Você é mesmo um maluco, é por isso que confio em você pra arriscar sua vida como um soldado... Certo, faça o que bem entender com o garoto.”
John: “Viu só, carinha? eu consegui-”
Custer: “...Mas....”
Custer interrompe John no momento que o mesmo havia se virado para Michael.
Custer: “Eu vou mandar vocês dois para uma missão amanhã, como punição.”
Michael e John ficam igualmente surpresos com essa decisão de Custer. Michael estava suando frio, seu medo de morrer voltando aos poucos, já John, se aproximou do garoto e o ajudou a levantar.
John: “Fica tranquilo carinha, eu sei como não chamar a atenção de um Anjo... e sobre os animais selvagens, eu consigo lidar com alguns.”
Michael trava um pouco, mas já não era mais hora de recuar, tinha que lidar com isso.
Michael: “Certo!... eu vou tentar dar o meu melhor também...”
John: “É isso ai!”
Custer que observava enquanto os dois se organizavam, um sorriso de orgulho se formando em seu rosto.
Custer: “Dispensados, podem ir para suas casas.”
Um tempo se passa, John oferece roupas novas para Michael que estava apenas com uma bermuda, deixando o garoto se vestir de forma mais decente com uma camiseta preta básica e uma calça de moletom cinza sem bolso. A lua brilhava mais que o comum, ambos do lado de fora agora teriam que ir para suas casas, mas...
John: “Carinha, vou te acompanhar, certo?”
Michael: “Ah... Certo.”
Michael apenas aceita a oferta de ser acompanhado e em seguida desvia o olhar, ficando em silêncio. John fica entre respeitar o silêncio ou tentar ao menos estabelecer uma relação melhor com Michael.
John: “Eu sei que não é algo bom pra se perguntar, mas seu amigo... ele-”
Michael: “Foi um Anjo.”
John para de caminhar e arregala os olhos com a resposta.
John: “Você... viu então?”
Michael também para de caminhar e se vira para John, ficando um pouco preocupado com sua expressão.
Michael: “Vi.”
John: “...”
Os dois se encaram por um momento, o brisa da noite era a única coisa agradável naquele momento.
John: “Como você sobreviveu?”
. . .
-- Acho que eu o matei.