17 de Julho de 2036 – 5 Horas da manhã.
O tempo parecia passar mais devagar para Michael. – “Você vai ser obrigado a partir em missões mais perigosas...” Há! Isso é insano demais pra mim...–
Ele não parava quieto, mesmo com as luzes apagadas, mesmo que sua mente e seu corpo estivessem exaustos, era como se ele simplesmente não conseguisse descansar.
Dever.
A dor psicológica e física era algo que ele não deveria estar enfrentando sendo tão jovem e, mesmo assim, enfrentava.
Michael: “Mas que inferno...”
Dever.
Ele se levanta rápido e corre até o interruptor pra ligar a luz, estava desesperado.
Dever.
Ao olhar para o seu braço enfaixado, a única coisa que ele queria fazer era arrancar tudo aquilo, sentir a ardência de sua ferida, a dor da culpa, juntar tudo e cuspir fora de uma vez.
– Não faça isso... Não faça isso, não faça! –
Michael: “Não!”
O silêncio domina o quarto dele, o silêncio que havia em todo o lugar, em todo o mundo.
O silêncio de morte e de medo.
Ele tem uma divida agora, uma divida que nem ao menos era de fato culpa dele, mas, infelizmente era o único a poder salvar o mundo.
Michael: “...”
Arrancar cada centímetro de sua pele era sua vontade, e por causa disso o seu suor escorria muito mais que o comum.
Aquela... Aquela ansiedade... Uma droga, estava dopado de tudo que era sentimento.
O Ácido estomacal dele subia de uma vez.
O ar...
Estava...
. . .
05:02 da Manhã.
Michael: “Ah...”
Ele engole tudo aquilo que poderia sair antes que fosse tarde.
Respira fundo.
. . .
Ele desaba, cai de joelhos no chão, sua mente desistindo ali mesmo.
Michael: “Mãe... Pai... Onde vocês estão?...”
Seu corpo se encolhe em posição fetal, o que restava ali era o vazio, tudo. Sua visão estava escurecendo e seu subconsciente estava rabiscado de desespero.
Michael: “Eu preciso de vocês...”
Ele tenta suprimir sua dor, tenta não chorar, mas, a resistência não era o bastante – nunca foi – apesar de tudo.
05:07 da Manhã.
Agora levante... Isso, sem pressa...
. . .
Uau!... Você está indo muito bem, querido.
. . .
Não importa quantas vezes cair, sempre estive e sempre estarei do seu...
. . .
05:11 da Manhã.
Michael, mesmo fraquejando ao caminhar, segue em direção ao quarto de Alvin, ele queria uma resposta, queria entender melhor o que estava acontecendo, saber se realmente as palavras que ouviu eram verdadeiras.
E ele fraquejou, caindo com o corpo por cima de seu braço queimado.
Michael: “Argh!”
A possibilidade de poder ter contato com seu único amigo era como ter liberdade, por isso continuava.
Michael: “Alvin!”
. . .
E ninguém responde.
Michael: “Me responde...”
Ao se levantar, Michael cambaleia até a parede, se apoiando nela pra não cair de novo, mas, mesmo assim, era inútil.
Correu.
Michael: “Me espera! Alvin, me espera!”
Enquanto corria seu corpo ia de um lado ao outro daquele corredor, batendo incansavelmente nas paredes.
Elas pareciam cada vez menores, a mente do Michael cada vez mais ∆
Michael: “Onde você está?! DROGA!”
Ele da um soco na parede, fazendo seu punho sangrar e manchar as bandagens.
As paredes o esmagaram, e...
. . .
05:17 da Manhã
De frente ao quarto de Alvin, a escuridão do corredor fazia seu corpo tremer.
Ele abre a porta daquele quarto que emanava o silêncio como um todo.
E se passam dois, quatro, oito minutos, mas não consegue entrar.
05:57 da Manhã.
05:58 da Manhã.
05:59...
06:00.
Ele entra em um passo, porém, de olhos fechados.
Se aprofunda mais dentro daquele cômodo, e é engolido mais ainda pelo silêncio deixado por um morto.
. . .
Uma foto, dois amigos.
Michael: “Me... espere...”
-- Por favor...
Dois irmãos.
. . .
07:20 da Manhã.
Custer: “Isso é hora de chegar?”
Custer olha para baixo, onde estava Michael, de frente a uma porta.
Michael ignora Custer, sem o encarar, nem resmungar, só estava ali.
Custer só conseguia suspirar diante dessa situação, sabia o que havia feito, mas o que poderia mudar?
Custer: “Está aberta, entre.”
O garoto abre a porta com uma fraqueza disfarçada de sutileza, nervosismo que cobria sua dor.
Ele fecha a porta atrás de si e se direciona até a escadaria que dava acesso ao segundo andar, onde estava Custer.
Michael: “Por quê?...”
Um sussurro. Um sussurro era o suficiente para o fazer desmoronar ali, com sorte, conseguindo se apoiar no corrimão da escadaria.
Michael: “Não posso...”
Degrau por degrau.
Michael: “...Falhar.”
. . .
07:26 da Manhã.
Custer: “Finalmente, quase fui atrás de você. Venha, filho. Quero te mostrar uma coisa.”
Michael fica surpreso com a recepção leve de Custer, seu corpo havia travado, estava preparado para enfrentar o temido Capitão Armstrong, mas, esqueceu-se que naquela situação, era apenas Custer.
Ele se aproxima com curiosidade, querendo saber o que era, mesmo com que já tivesse uma especulação.
Custer: “Filho, fiz isso para você.”
Custer entrega para Michael uma corrente com uma pequena plaquinha no meio, onde estava escrito: “Michael Lane”.
Michael: “Uh... ah...”
Ele só conseguia encarar a corrente, seu peito apertava. – Culpa – O que sentiria.
Negar Custer, temer Custer, odiar Custer. Tudo isso, gerava culpa.
Então Michael, num ato inesperado, amarra em seu braço enfaixado. Tudo isso, ignorando a dor.
Custer: “Michael! o que diabos é isso?”
Custer diz, se aproximando do garoto.
Michael faz a única coisa que sabia fazer de forma consciente, ele foge.
Custer: “Mas que saco...”
. . .
08:07 da Manhã.
Dava voltas dentro da base, observando as pessoas pela primeira vez em sua vida.
Crianças famintas, pessoas doentes. Apenas as pessoas importantes tinham direito ao mínimo, o mundo de fato estava um caos.
Michael: “...”
Ele não consegue entender.
Michael: “...”
Ele não consegue...
08:08:08:08:08:08
. . .
π
∆
Ω
08:09
RESPIRE!
Michael: “Huuuuff... Arf! arf! arf...”
Uma mão estranha tocava em seu ombro, era uma mão de um homem.
Homem: “Por favor... me aju-”
O desespero tomou conta de Michael
Desesperado.
Quebrado.
Maníaco.
Psicótico.
Assassino...
Ele acerta o homem com um soco feroz, que o nocauteia no mesmo instante.
Michael: “Me deixa em paz...”
Michael se ajoelha em cima do corpo do homem, prendendo para não deixá-lo escapar.
Michael: “ME DEIXA EM PAZ!!!”
O garoto desfere toda sua raiva acertando a face do mesmo múltiplas vezes.
Não parava.
08:10.
Não parava.
08:11.
Não...
08:12.
Michael: “MORRE!”
Ele junta as duas mãos e finalmente finaliza o pobre homem que apenas queria ajuda.
Michael: “Arf... Arf...”
. . .
Michael: “Me ajude...”
Seu consciente o trai, desmaiando ali mesmo.
. . .
Que horas são?...
???: “Ele... Ele não pode ter feito isso de verdade...”
Uma voz abafada veio de fundo, trêmula, ansiando por uma resposta.
Michael: “...”
A luz invadia suas retinas aos poucos enquanto recobrava a consciência.
???: “Quer saber? Saia da minha sala! Eu... preciso pensar...”
Era uma voz familiar.
Michael: “Uh...”
O dono daquela se senta em uma cadeira do outro lado da sala, ou pelo menos era o que Michael interpretava.
???: “MERDA!”
Os olhos do garoto se abrem totalmente com o susto, seu corpo se levantando de uma só vez, fazendo-o ficar sentado na cama onde estava até então.
Michael olha direto para o homem, que o encarava de volta, o olhar dele era diferente de antes, eram como lanças que o espetavam sem parar.
Michael: “C... Custer?...”
. . .
Custer: “Calado, Michael.”
Michael: “Me escuta, por favor!”
Custer: “Eu disse para calar a boca!”
Ele ordena, batendo na mesa com força.
Michael: “ME RESPONDE!!!”
. . .
Custer fica incrédulo com a atitude negativa de Michael chegando a pôr a mão em sua arma que estava no coldre.
Michael: “Por que eu to aqui?...”
Custer fica surpreso com a pergunta, esperava tudo, menos dúvidas.
Custer: “Eu te respondo se me der a sua resposta primeiro, Michael. O que você estava fazendo antes de apagar?”
Ele mantém sua atenção ao Michael, ainda com a mão perto do Coldre, raspando os dedos na própria arma.
Michael: “Eu apaguei?... Como?”
Custer: “Deixe as perguntas pra depois.”
Michael olha para baixo, pensativo sobre sua situação atual e o que havia acontecido antes dele apagar.
Michael: “...”
O Homem assustado suava frio. – Não me diga que ele não se lembra? Isso é ruim... – Michael, responda...
Michael: “Eu não sei... eu tava caminhando e de repente eu lembro de ter ficado com a visão embaçada por alguns segundos e de sentir uma dor forte nos meus punhos...“
Custer: “Veja com seus próprios olhos o que você fez.”
Ele sinaliza, olhando para os punhos de Michael, que faz com que o garoto acabe sendo guiado pelo olhar de seu Capitão, e finalmente, repara...
Michael: “Isso é...?”
Custer: “Ele morreu. Você o matou.”
Michael se levanta desesperado da cama, mas, acaba prendendo o pé nos cobertores e cai batendo o rosto com força. Mesmo assim, se levanta ao mesmo tempo que se arrastava pelo chão.
Custer: “Fique parado! Se mover um músculo eu atiro em você!”
Michael: “CALA A BOCA! VOCÊ ACHA QUE EU FIZ AQUILO POR QUERER?!”
Custer tira a sua arma do coldre e aponta para Michael
Custer: “Michael, abaixe esse tom.”
Sangue começou a escorrer do nariz do garoto, por conta da queda, mas ele nem se importava.
Michael: “EU NÃO VOU ABAIXAR MERDA NENHUMA ATÉ VOCÊ ME ESCUTAR!!!”
Custer: “Eu mandei abaixar a droga do seu tom de voz!”
O sangue escorreu até seu queixo, se formando uma gota que estava prestes a cair.
Michael: “Quer saber?... Eu to pouco me lascando pra morrer por essa gente.”
Custer da um passo pra trás, sem entender o que Michael queria dizer.
A gota caiu.
Michael: “John e os outros não tem o que eu tenho e mesmo assim estão dispostos a morrer.”
Custer entende, aquilo era culpa dele.
Michael: “Não importa mais... Eu não sei o que aconteceu com aquele homem, mas foi por culpa do meu medo.”
O garoto diz limpando o nariz, impedindo do sangue de escorrer pelo seu rosto novamente.
Michael: “Essa droga de colar ou seja lá o que for... Você ainda me manteve com ela durante o tempo que eu estava inconsciente, e foi por isso que eu percebi...”
Custe: “Filho...”
Custer abaixa a arma e a solta, fazendo-a cair de forma brusca no chão.
Michael: “...Você se importa comigo, você não queria me fazer sofrer, e mesmo com medo, mesmo que eu esteja prestes a desmaiar por causa dessa merda de medo, eu ainda assim vou me entregar como o Senhor me encarregou.”
Custer sorri, mesmo que com lágrimas nos olhos e então, se aproxima do seu Soldado, batendo no peito de Michael com o punho fechado.
Custer: “Você está pronto pra sacrificar tudo que tem... Soldado?”
O garoto sem nem pensar duas vezes afirma, não com sua voz, mas sim, com um abraço, o mesmo abraço que faz Custer entender que teria que ser da pior forma.
. . .
16:59 da Tarde.
. . .
Um horário desconhecido em outro mundo.
Há quanto tempo, se lembra de mim?
John: “Quem é?”
Oh... Claro, como pude me esquecer, não consegue me ver neste momento.
A voz de um Jovem-Adulto arrogante ecoava pela sala um tanto quanto incomum.
Me responda logo, se lembra de mim?
John não conseguia se mover, só conseguia falar.
John: “Eu diria que nunca nos vimos.”
Por acaso você teve amnésia?!
John: “Por que diabos eu teria amnésia? E você deveria fazer mais coisas além de perguntas, isso não é um interrogatório!”
Mesquinho... Seu tolo, humano tolo.
John: “Eu te irritei?”
Você também só sabe fazer perguntas? Provavelmente perguntas inúteis, já que afinal eu faço elas em prol do meu conhecimento infinito.
John: “Ha! Você se ofendeu mesmo com isso, que otário!”
Pare já com isso...
John: “Não aguenta o tranco? Besteira isso ai, hein.”
Pare. Agora.
John: “Você se acha, mas tem um temperamento de uma donzela durante a sua TPM.”
...
John: “Huh?”
A sala em branco começa a apodrecer, junto de seus pés, pernas e tronco.
John: “Aaaah!!! O que diabos é isso?!”
BASTA! HUMANO TOLO!
∆
Tudo volta ao normal.
John acorda às 1:20 da Manhã do dia 18 de Julho de 2036.
John: “Tem algo errado.”