“EU QUERO AQUELAS CRIANÇAS MORTAS!”
O cheiro de fumaça e carne queimada invadia suas narinas, enquanto, longe dali, o som de aplausos ecoava. Enquanto as chamas dançavam, a memória de um último olhar, carregado de dor, mas também de uma esperança silenciosa, queimava em sua mente mais forte que o próprio fogo.
Callan precisava sair daquele inferno. À medida que ele e a garota ao seu lado se afastavam da vila, ele sentia seus pulmões queimarem a cada passo. Ela corria sem saber para onde ir, guiada apenas pelo desespero dele. Eram duas crianças fugindo pela sobrevivência, enquanto o sol se punha e a escuridão da floresta começava a reinar.
Mesmo na penumbra, aqueles olhos cinzas se aproximavam. Ele não poderia fraquejar. Não poderia fazer aquele sacrifício ser em vão.
De repente, um puxão o fez parar. A garota travou. Sua respiração era instável, incapaz de formar palavras, apenas o som sibilante do ar entrando e saindo de pulmões exaustos.
Mesmo relutante, Callan parou. Nesse momento, uma dor aguda atingiu sua barriga. Ele sentiu como se algo invisível o estivesse apertando de dentro para fora.
Callan queria correr, mas seus pés pareciam chumbo. Eles ainda não estavam longe o suficiente.
Sua mão roçou em sua bolsa, onde uma adaga repousava, uma promessa feita sob sangue.
— Precisamos ir... — Callan tentou dizer, mas a voz morreu na garganta. Eles tinham sido alcançados.
Sua visão varreu os arredores, procurando uma saída, um milagre. Tudo escureceu, mas a mão da garota apertou a dele com força.
— Vamos logo, antes que ele nos ache.
Mesmo perdida, ela o puxou pela mata fechada até se depararem com uma fenda nas rochas. Uma caverna.
— Vamos entrar!
Ela puxou o braço de Callan para a escuridão da rocha, mas o garoto não se moveu. Ele estava paralisado. O sangue drenou de seu rosto, enquanto os olhos verdes perdiam seu brilho, dando lugar a um azul safira opaco e sem vida.
— Pequeno Heka...
A voz ecoou como uma brisa de inverno vinda da entrada da caverna. O homem surgiu das sombras. Aqueles olhos malditos brilhavam na escuridão, e seus cabelos brancos contrastavam com a noite. Ele estava impecável, exceto por um corte recente na bochecha, a única marca deixada por aquele que ficara para trás.
O homem deu dois passos à frente. Callan continuava imóvel. A mana do perseguidor invadiu seu interior, tomando seus canais como veneno de cobra. Seus joelhos cederam, e ele caiu, seus olhos brilhando em azul contra sua vontade.
O homem franziu o rosto, observando a reação com curiosidade clínica.
— Esses olhos... — murmurou.
A garota, desesperada, tentou levantar o corpo de Callan, mas ele era como uma rocha inabalável. Com as pupilas tremendo de pavor, ela se virou para o homem. Num último ato de desafio, estendeu a mão. Sem raios. Sem trovões. Apenas um fragmento de espelho se materializou em sua mão.
O vidro cortou a pele pálida do homem. Um fio de sangue escorreu, mas ele não esboçou dor. A única expressão em seu rosto era de uma satisfação doentia.
— Finalmente...
A esperança ruiu. Aquele era o fim. Os olhos da garota buscavam uma saída na penumbra, mas tudo o que viram foi um brilho verde pulsando dentro da bolsa de Callan. Uma pedra.
O homem deu mais dois passos para finalizar o serviço. A pedra pulsou. Um brilho esverdeado intenso rompeu da bolsa, reagindo ao terror do garoto.
O perseguidor não se intimidou. Ele estendeu a mão na direção das crianças, e uma energia azul, líquida e letal, começou a se formar.
— Aqua Sparths.
A lâmina de água desceu. A luz verde explodiu. As duas forças colidiram, retorcendo o ar em um vórtice de magia antiga. O verde e o azul dançaram violentamente, iluminando a floresta como se fosse dia.
Um estrondo ensurdecedor sacudiu a terra, e um clarão branco devorou tudo, as sombras, a caverna, as crianças e o monstro. Por um instante, o mundo foi apenas luz e barulho.
Então, tão subitamente quanto começou, o brilho se apagou. A escuridão da floresta voltou a cair, pesada e sufocante. Não houve grito de vitória, nem lamento de derrota. Apenas o silêncio absoluto.