— Eu não vou pra escola! — gritou Callan, disparando pela sala como uma flecha.
— Vai sim, mocinho! Crianças que não estudam ficam burras! — Lyra corria atrás dele, tropeçando em almofadas.
Lyra cerrou os olhos. Suas mãos brilharam e, num instante, uma corda feita de energia roxa se materializou, prendendo o pequeno pela cintura.
— Não é justo! — resmungou Callan, mas um sorriso de quem adorou a brincadeira escapava no canto dos lábios.
Lyra o puxou suavemente, sentando-o na cadeira.
— Agora, fique quietinho. Vamos te deixar bem apresentável.
Ela pegou uma capa verde, cuidadosamente costurada, e colocou sobre seus ombros.
— Olhe só, meu filho é o mais bonito de todo reino!
Callan encolheu-se, corando até as orelhas. Ela apenas riu e, se abaixando, o puxou para um abraço apertado. Levou-o até a porta, segurando sua mão pequena na dela, e juntos seguiram pela estrada de pedras até a igreja.
Logo adiante, a estátua do fundador do reino, Caellun Castel, se erguia no centro da praça. A igreja surgiu à frente. Alta, imponente, com suas paredes de pedra clara e os vitrais refletindo o sol. Callan parou na entrada. Um frio subiu pelo estômago. O peito apertou. As mãos suaram. E, sem perceber, se agarrou às pernas de Lyra.
— O que foi, meu amor? — perguntou ela, se abaixando, segurando o rostinho dele com as mãos quentes.
— Eu… eu tô com medo, mamãe… — Os olhos se encheram de lágrimas.
Ele afundou o rosto no colo dela, apertando-a como se o mundo pudesse sumir naquele abraço. Lyra o segurou. Passou a mão devagar pelos cabelos castanhos do filho.
— Eu sempre vou estar com você. Mesmo quando estivermos longe, eu vou estar aqui. — Ela levou a mão ao coração dele, pressionando levemente. — Está vendo essa capa que eu te dei?
— Sim… ela é muito bonita, mamãe. — Callan olhou para ela, passando a mão pelo tecido.
— Foi a mamãe quem fez. Costurei cada ponto, pensando em você. E enquanto você usar essa capa, eu sempre estarei com você. Sempre.
Ele olhou para a porta da igreja. Ele apertou a capa, como se ela fosse uma armadura, sua perna se moveu, até ele atravessar a porta.
O primeiro dia de aula nas igrejas de Castedus era marcado pela introdução ao mundo mágico. Callan estava sentado na primeira fileira. Seus olhos estavam fixos na porta, esperando a entrada do Padre.
O som de madeira rangendo preencheu a sala. As crianças se calaram. Foi quando ele entrou. Um senhor de idade avançada, óculos velhos no rosto, uma roupa preta: Lucien Valdric Vatin.
— A mana flui do coração para os canais de mana. Nosso trabalho é senti-la e entender o que ela quer dizer. E hoje vocês vão aprender isso.
As primeiras esferas começaram a surgir pela sala. Uma garota fez seu orbe piscar em tons de marrom, revelando afinidade com a Terra. Outra criança ao fundo viu seu orbe se encher de água dentro da esfera.
Esse era o dia mais esperado da vida de Callan, ele seria um mago de luz como seu pai? Ou um mago de trevas como sua mãe? Ele estendeu sua mão e se concentrou.
Seus olhos estavam apertados, as mãos tremiam ligeiramente, o suor começava a se formar na testa. Apertava os punhos, abria, respirava fundo, mas nenhuma luz. Nenhum orbe. Apenas o vazio.
Enquanto as crianças comemoravam, Callan permanecia em silêncio encarando sua mão. Não havia orbe, apenas um zumbido constante em seu ouvido.
Ele podia sentir o calor da mana em seu peito, mas não entendia porque ela estava o rejeitando. Sua mão se escondeu dentro da capa. Aos poucos o calor o abandonava, dando lugar ao frio e ao zumbido em seus ouvidos.
Ao lado, o Padre Lucien cruzava os braços, os olhos preocupados “Isso é estranho…” murmurou, quase para si.
Uma batida forte na porta interrompeu tudo. As crianças se assustaram. Lucien olhou assustado, mas para sua surpresa era Lyra. Ela respirava como se tivesse corrido uma maratona.
— Padre Lucien… — sua voz era urgente. — Cancela a aula, precisamos de sua presença na praça principal, urgente!
— O que houve? — Lucien franziu o cenho.
Callan observava sua mãe. Ela não usava a roupa de antes; agora ela tinha um agasalho azul que cobria seus braços, ela parecia assustada.
— A comitiva real de Castedus… eles estão nos portões da vila!
O silêncio explodiu na sala. O olhar de Lucien se prendeu aos selos negros no braço de Lyra, os dois se olharam, eles entendiam a gravidade da situação.
Lyra pegou Callan pela mão. Ela saiu disparada, seu passo era apressado. A vila estava em polvorosa. Moradores se alinhavam nas calçadas, espiando pelas janelas, puxando crianças para perto, cochichando uns com os outros.
O comandante de Oliver, Carlo, organizava a multidão. Os portões de Hindi já estavam escancarados, e bem diante deles, com a mão apoiada no cabo da espada, estava Oliver.
Vestia sua armadura reluzente, polida, mas ainda marcada pelos anos de batalha. Ao seu lado, Lyra havia acabado de chegar. E, segurando a mão da mãe, estava Callan, que observava tudo com aquele misto de curiosidade e ansiedade que só uma criança poderia ter.
O som dos tambores reais ressoou pela estrada, ecoando contra as muralhas de Hindi. O som fazia a poeira vibrar, os pássaros voarem, e os moradores se encolherem para as laterais, assistindo com olhares curiosos, uns fascinados, outros desconfiados.
A porta da carruagem central se abriu com um rangido elegante e, de dentro, desceu um homem alto, porte ereto, seus olhos brilharam em Azul-Royal. Seus cabelos eram grisalhos nas laterais, embora ainda sustentasse o preto nas raízes, e sobre sua cabeça repousava a coroa, simples, mas carregada de peso. Era o Rei Dante Castel.
Ao lado dele, uma mulher de beleza sóbria. Vestido fino, branco e dourado, uma coroa mais delicada repousando sobre o coque impecável, os olhos de mesma cor que o rei. Era a Rainha Luna Castel.
E, entre eles, uma menina de cabelo castanho longo, de olhos ligeiramente tímidos, talvez com a mesma idade de Callan. Era a Princesa Amy Castel.
Oliver deu um passo à frente. A mão pousou sobre o peito em saudação formal. Sua voz, educada, mas firme:
— Sejam bem-vindos a Hindi, Vossa Majestade. Sou Oliver Heka, Lorde desta vila.
O rei não respondeu de imediato. Seus olhos passearam por Oliver de cima a baixo, como quem avalia uma peça que não corresponde à encomenda. Quando falou, sua voz era fria, calculada.
— Você… não se parece nem um pouco com seu irmão.
O coração de Callan disparou. Ele olhou discretamente para Oliver, viu seu pai apertar o punho atrás das costas. Oliver manteve a expressão neutra.
O Rei arqueou uma sobrancelha, satisfeito com a reação de Oliver. Por um segundo, o ar pareceu mais pesado. Oliver respirou, cruzou os braços e segurou a própria língua. Ele não poderia perder o controle.
— E o que traz Vossa Majestade até Hindi, se posso perguntar?
O rei não escondeu um sorriso enviesado, meio zombeteiro, seu olhar se prendeu em Lyra, seus selos e seus olhos verdes. Ele soltou uma leve risada.
— Estamos de passagem. Há uma reunião entre as principais nações, mas confesso que queria, pessoalmente, ver como andava este antigo pedaço esquecido.
Lyra, ao lado de Oliver, ouviu os murmúrios que se espalhavam entre os nobres, criados e membros da corte. Olhares escorriam sobre ela, subindo e descendo, pousando com nojo nos selos escuros que ainda marcavam suas mãos. “A mulher das sombras…”
Um desconforto silencioso pairava na praça. Ao fim daquela manhã Oliver, Lyra e Callan se acomodaram na casa ao lado da mansão do lorde, temporariamente cedida à família real.
Com as aulas suspensas, Callan não conseguia relaxar, algo em sua mente insistia, ele precisava tentar.
Ele olhava para sua mão, quase como se fosse um estranho para si mesmo. “Por que não funciona?” Mas então percebeu alguns olhares.
Da varanda da mansão, protegida por guardas, Amy Castel observava em silêncio. Vestia um vestido azul celeste, simples, para os padrões da corte. Suas tranças balançavam ao ritmo do vento, junto de duas mechas soltas que emolduravam seu rosto.
Ao seu lado, a cuidadora mantinha a postura rígida, braços cruzados, expressão severa, enquanto dois guardas reais permaneciam atentos, as mãos repousando nos cabos das espadas, imóveis como estátuas. Amy quebrou o silêncio, a voz baixa, quase um pensamento dito alto:
— Posso ir até ele?
A cuidadora arqueou a sobrancelha.
— Vá… mas tome cuidado. — Ela olhou para os soldados, que apenas fizeram um discreto aceno de cabeça.
Amy desceu os degraus, ajeitando o vestido, os passos curtos, quase ensaiados, mas hesitantes. Parecia não saber exatamente como começar ou o que deveria fazer.
O silêncio caiu sobre os dois, quebrado apenas pelo som do vento que balançava as folhas e as madeiras da vila.
— O que você estava fazendo…? — Perguntou Amy, olhando para as mãos dele.
— Tentando… fazer um orbe de energia. — Callan desviou o olhar, desconfortável.
Amy levantou uma das mãos, concentrando-se por um instante.
— Assim? — Perguntou enquanto em sua mão se formava um orbe azul claro.
Outro silêncio, mais constrangedor ainda. Amy não sabia exatamente o que dizer. Callan desviou o olhar, buscando qualquer coisa para quebrar esse silêncio, então, colocando a mão no bolso, tirou uma pequena flor roxa com pontas amarelas.
Amy se abaixou também, olhando com fascínio inesperado. Tocou a folha com a ponta dos dedos.
— É… bonita.
— Minha mãe disse que se alimentar ela com mana, ela nunca murcha. — Callan disse estendendo sua mão.
Amy segurou a folha com delicadeza, quase com reverência. Ela apertou a folha contra o peito, e pela primeira vez, sorriu. Um sorriso pequeno, hesitante, mas sincero.
— Pode ficar. É pra você. — Callan olhou para ela, abriu um sorriso tímido.
— Obrigada… — Respondeu em sussurro.
— De nada. — ele a olhou, curioso — Qual sua afinidade mágica?
Amy ajeitou as mãos no colo, meio tímida, meio orgulhosa.
— Gelo. Papai diz que a água gosta tanto de mim que congela para não me molhar.
Callan piscou, absorvendo cada palavra. Mas o momento fora atrapalhado.
— Princesa Amy Castel! — gritou a cuidadora. — Vamos entrar antes que você fique resfriada!
Amy rolou os olhos, bufando como quem acorda de um sonho bom. Ela se sentou, ajeitando o vestido amassado pela terra.
— Acho que preciso ir…— disse, relutante, olhando para Callan, seus olhos azuis royal se encontraram com o verde Esmeralda de Callan. Ela riu levemente. — Seus olhos! Eles lembram as pinturas que vi!
A cuidadora gritou novamente por Amy. Ela hesitou por um instante, seu olhar indo em direção a cuidadora. Mas então... sorriu. Um sorriso tímido, sincero.
Callan estendeu a mão. Amy olhou, como se aquilo fosse um gesto raro, incomum, e estendeu a dela também, com cuidado, entrelaçando os dedos pequenos nos dele, se levantando.
Aos poucos, ela soltou a mão dele. Indo de encontro com sua cuidadora. Callan ficou observando enquanto a princesa se afastava.
O zumbido permanecia em seu ouvido, mas sem entender exatamente o motivo, ele se animou em pensar em brincar com Amy na manhã seguinte.