A notícia da chegada da família real não ficou apenas em Hindi. Logo se espalhou pela vizinhança. De Hirje, um pequeno vilarejo, dezenas de famílias vieram a pé. Até os soldados, que patrulhavam a fronteira com o Império inimigo, Aryehd, retornaram. Mas apesar da alegria, Oliver batia os dedos ritmicamente contra a mesa.
— Meus homens reportaram movimentações estranhas na floresta, Vossa Majestade.
Dante se sentou em uma poltrona e olhou para Oliver, seus olhos fitavam cada expressão do Lorde, ignorando completamente sua preocupação.
— Engraçado… você se parece muito com Oberon, bem mais que seu irmão.
Oliver franziu o cenho. Olhou de relance por uma janela. Mas, antes que pudesse falar, a voz do rei ficou mais afiada.
— Seu pai morreu há oito anos. — girou uma taça vazia. — Por que não foi ao enterro?
O coração de Oliver apertou. Cerrou os punhos discretamente atrás das costas.
— Aquele homem nunca foi meu pai.
O rei arqueou uma sobrancelha, levemente divertido.
— Palavras duras, Heka. Afinal, foi graças a ele que carrega esse sobrenome e esses olhos safira. Além disso, ele fora um grande homem de nosso reino.
— Oberon Heka, grande homem? — Oliver soltou uma risada irônica.
Por um segundo, o sorriso do rei foi quase sádico.
— Sim… sim. Um grande homem… pelo menos para mim.
Oliver segurou suas palavras. Enquanto o Rei se divertia.
— E sua mãe? Ainda vive?
Oliver demorou. Uma pausa longa. Controlou a expressão, disfarçando qualquer sinal de hesitação.
— Faleceu. — olhando nos olhos do rei de volta. — No início da guerra. Na invasão fracassada na capital de Aryehd.
O rei apertou os olhos, desconfiado.
— Engraçado…. não me lembro de registros de mortes civis naquela operação.
Oliver sorriu de canto, seco.
— Poucos se importariam com a morte dela em um império inimigo.
O silêncio ficou mais pesado. Por um instante, só o som distante dos martelos preenchia a sala. Os olhos do rei pareciam procurar algo pela casa.
— Mas não se preocupe, eu irei relatar os avistamentos. Seja lá o que Aryehd está fazendo… a Organização da paz vai ficar sabendo.
O rei fez uma pausa, olhando fixamente pela janela. Continuando seu monólogo.
— Esse ano, o novo líder do Reino de Valerion quer discursar. O povo Valeriano não superou a derrota na guerra, dizem que vivem em uma era de vergonha. — O rei soltou uma risada seca — Imagino que tipo de baboseira aquele homem planeja.
A conversa havia acabado ali, com gosto agridoce. Oliver seguiu seu cronograma, enquanto o rei discursou a população, sua ordem era que fizessem um festival em glória da sua presença. Lyra e Lucien eram os responsáveis por organizar, mas enquanto Lucien cuidava das refeições, Lyra tinha que lidar com olhares.
Após terminarem, duas mesas foram montadas. Uma mesa longa, comunitária, onde soldados e aldeãos se misturavam. E, ao lado, separada, a mesa real, polida, enfeitada com tapeçarias, flores frescas e talheres de prata.
A família Castel se acomodou, enquanto a população ainda se arrumava. No meio da multidão estava Callan, ele andava em direção aos seus pais quando uma voz cortou os ares.
— Quero que ele esteja aqui. Ao meu lado. — Era Amy, ela estava sorrindo enquanto sua mão balançava em direção a mesa.
Os olhos de Callan procuravam por seus pais, buscando um auxílio. À sua frente estava a princesa sorrindo. O zumbido se intensificou, fazendo-o colocar as mãos no ouvido.
Lyra se aproximou, suas mãos empurraram gentilmente Callan em direção a Amy.
Na mesa real, faisões dourados, carnes regadas a mel e especiarias exóticas. Mas apesar de estar na mesa real, a ele foi servido um prato simples, era uma carne assada acompanhada de batata e cenoura. Enquanto todos comiam, Callan tentava ignorar os olhos de Amy vidrados em seu prato.
— Você… quer provar? — Perguntou constrangido.
— Sim! — Respondeu com um tom animado.
A princesa pegou a colher do prato de Callan. “Mmmh!” Um som fofo, espontâneo e absolutamente encantado escapou de Amy.
Com o fim do almoço, a movimentação se voltou para a praça central, era iniciado os preparativos de uma grande festa. Amy observava maravilhada.
— Callan. — ela puxou seu braço. — Que tipo de festa é essa?
— Não sei, é a primeira vez que vejo também!
A tão esperada festa, enfim, tomava vida. Lanternas mágicas, penduradas em cordas que iam de poste a poste, piscavam suavemente, como estrelas caídas só para aquela noite. Tambores ecoavam, acompanhados de flautas e alaúdes, criando uma melodia viva, dançante, que preenchia cada canto, cada sorriso, cada passo apressado das crianças correndo entre as tendas.
No centro, a grande fogueira ainda aguardava ser acesa, empilhada como uma promessa de luz e calor. Enquanto o festival desenrolava, aos pés da estatua estava o Rei Dante e a Rainha Luna.
Amy e Callan brincavam à sombra da estátua, naquele momento, pareciam existir apenas eles dois, um pequeno mundo à parte. Amy girava as mãos no ar, e pequenos cristais de gelo flutuavam, capturando a luz das lanternas, refletindo-a em mil tons de azul e prata.
— Agora… observa! — disse ela, com um sorriso determinado e empolgado. — Eu treinei muito essa magia desde que cheguei!
Ela juntou as mãos, concentrou-se, e pequenas partículas de gelo começaram a girar como poeira encantada. Com movimentos delicados dos dedos, moldou-os em duas pulseiras. Eram finas, translúcidas, cravejadas de pequenos cristais que brilhavam como diamantes sob o luar.
— Mas… não vai derreter?
Amy cruzou os braços, fingindo estar ofendida, o nariz empinado.
— Hmph! Por isso que demorei tanto! Esse gelo não derrete. — Ela entregou a pulseira para ele, orgulhosa. — Eu fiquei pensando na flor que você me deu, enquanto tiver mana, ele nunca vai derreter.
Os olhos de Callan brilharam. Então deslizou a pulseira no próprio pulso, e, com um sorriso cheio de energia, segurou a outra pulseira e, com todo cuidado, colocou-a no braço de Amy. Amy olhou para a pulseira, depois para ele.
— Sobre ontem… — perguntou Callan apontando para os próprios olhos — Quem meus olhos lembram?
Amy desviou o olhar.
— Meu papai disse para eu não falar sobre isso… ele disse que é algo importante, me desculpa…
Callan olhou para ela, e então sorriu, puxando a mão dela. E assim, de mãos dadas, correram novamente para junto das outras crianças.
A luz da lua começava a iluminar suas pulseiras, refletindo um brilho frio, azul, que parecia dizer silenciosamente: "Enquanto houver mana, este laço não se quebrará."
Callan e Amy correram até um pequeno bosque dentro dos limites da vila, um lugar onde a luz da lua atravessava as folhas, criando um mosaico de sombras e brilhos na grama. Sem dizer nada, Callan parou, sentou-se em uma pedra e começou a desamarrar os sapatos. Amy o observava, confusa, as mãos segurando as dobras do vestido.
— O que…o que você tá fazendo, Heka? — Perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Callan soltou uma gargalhada, jogando a cabeça para trás.
— Tirando os sapatos. Você nunca fez isso? — Respondeu, já colocando os pés na grama úmida.
Amy apertou os próprios pés, desconfortável, e depois de uns segundos de hesitação, abaixou-se, desatou as fitas e tirou, pé por pé. Quando colocou os pés na grama, seu corpo deu um pequeno sobressalto.
Os dois seguiram caminhando pelo bosque. Callan ia à frente, curioso como sempre. Amy o seguia, segurando o vestido para não tropeçar, seus pés descalços agora já acostumados à sensação fresca da grama e da terra.
A noite começava a cair, mas o pouco que restava do sol iluminava o caminho. Callan sentia o zumbido em seus ouvidos diminuir aos poucos, até que cessou completamente.
A pressão pareceu diminuir abruptamente, a mana de Amy vazou por um instante, seus olhos brilhando em Azul-Royal.
— Callan… o que foi isso?
O garoto parou imediatamente. Os olhos arregalados. Uma parte considerável da muralha estava quebrada. Com uma rocha no caminho.
Amy recuou, mas Callan deu um passo à frente. Desenhado na rocha havia um leão, sua mão tocou na pedra, os dedos contornando a figura.
Foi quando ele sentiu um ronronar no ar, era como se um animal os estivesse observando. Amy apontou para frente, não havia mais a floresta de faias. Apenas um prado imenso iluminado pelo sol que já devia ter partido.
— Callan, vamos embora. — Amy puxou sua mão.
Sem hesitar, eles dois correram até a praça. O rei e seu pai precisavam saber daquilo. Havia algo acontecendo.
Callan e Amy chegaram na vila quando amanhecia. Eles olhavam em volta e notaram que não só os soldados, mas a população procurava por eles.
— Callan! — gritou Oliver.
Callan olhou para Amy confuso, não fazia mais de uma hora que haviam fugido do festival. Mas Amy parecia tranquila, como se não se lembrasse do que acabara de passar.
Oliver segurou seu filho pelos ombros, ele procurava por feridas, machucados ou qualquer sinal de desgaste, mas não encontrou nada. Antes que ele pudesse falar algo, a rainha e o rei apareceram.
Eles estavam agitados, temerosos que algo pudesse ter acontecido com sua amada filha. Amy se desculpou e disse que eles tinham adormecido na floresta.
Callan não entendia porque Amy estava mentindo, mas ao tentar falar, as palavras morreram em sua boca.
A manhã continuava com aquele gosto amargo, não importava quantas vezes tentasse, ele não conseguia avisar a ninguém o que tinha acontecido.
O dia se aproximava do seu auge, e a corte já estava pronta para partir.
A rainha ajeitou as luvas, caminhou até Lyra e se aproximou com uma expressão bem diferente. Havia nela um misto de empatia e respeito.
— Lyra. — Disse Luna Castel, segurando suas mãos — Desejo a você toda felicidade possível.
Lyra, surpresa, mas sincera, sorriu.
— É de muito bom grado ouvir tais palavras, Vossa Majestade. Uma pena que nossos filhos perderam a hora.
A rainha riu suavemente, seus olhos não desviaram nenhum momento dos dela, ela inclinou-se e sussurrou, baixo, ao ponto de ser quase inaudível. “Tome cuidado…” E afastou-se, como se nada tivesse sido dito. O sorriso se manteve no rosto, mas aquele sussurro cravou-se como uma agulha na mente de Lyra.
Um pouco afastada, bem próxima de Callan. Os dois se encaravam. Seus olhos marejados. Callan apertava os punhos, lutando contra aquele nó na garganta.
— Você tem que me prometer… — disse Amy, a voz embargada — que um dia vai me visitar. Na capital. Você promete?
Ele segurou a respiração, depois assentiu, firme.
— Eu prometo. Quando eu crescer, eu vou até você.
Amy largou as mãos dele e o abraçou, ignorando qualquer protocolo. Callan, no início, ficou surpreso, mas rapidamente a envolveu em seus braços também.
— Espero que você cumpra sua promessa, Callan Heka… — Sussurrou, com a voz falhando.
Ele se afastou um pouco, segurando os ombros dela, e sorriu, um sorriso pequeno, meio triste, meio determinado. Amy sorriu de volta e deu um passo para trás, limpou as lágrimas com as costas das mãos, respirou fundo e correu até a carruagem, onde sua mãe já a aguardava com a porta aberta.
Callan apertou os punhos enquanto observava as carruagens se afastarem. Ela não se lembrava? Afinal de contas, o que havia acontecido naquela floresta?