Nos dias que se seguiram à partida da comitiva real, Lyra se ocupava na mansão. Sua mente tentava focar nas marcas da passagem da família real, mas o aviso da Rainha Luna estava preso em sua mente.
O jeito que o Rei e a Rainha a olhavam não era direcionado aos seus selos, era para seus olhos, pela primeira vez em sua vida. Lyra sentiu incerteza sobre essa cor.
Quando, enfim, o sol começou a tingir o horizonte de dourado, as vozes infantis voltaram a encher o interior da igreja. As aulas estavam de volta.
Seus colegas prestavam atenção na aula de Lucien, enquanto Callan ficava de lado, ainda preso no primeiro exercício. Seus olhos estavam presos na pulseira. Como ele conseguia manter a pulseira mas não conseguia fazer um orbe?
Seus pulmões se encheram de ar. Para ele, só existia sua mão e a mana do seu corpo. Ele podia senti-la. Seus canais começaram a brilhar, percorridos por uma energia contínua, quase dourada.
Por um momento, parecia que daria certo. Ele tentou respirar, manter a concentração, mas não veio. A mana o impedia de respirar. Então o orbe se desfez.
Callan puxou o ar desesperado, seus canais de mana ardiam, era como se a mana fosse impedida de agir.
A aula seguia, sem opções, Callan começou a prestar atenção, mas nada o interessava. Lucien explicava sobre a trindade da criação, Yigel, Uriel e Aethel. Naquele momento, até mesmo o zumbido em seu ouvido parecia mais interessante.
O sino da igreja começava a tocar. Indicava o fim daquela aula. Lyra entrou procurando por seu filho, mas Lucien a chamou discretamente para o lado.
— Lyra… — a voz dele era baixa, grave — Callan não conseguiu. Nem mesmo formar o orbe.
O tom dele era firme, mas não acusatório.
— Você acha que levar ele a um mago seria… o caminho certo? — Lyra perguntou temerosa.
Lucien ajeitou os óculos, olhando para Callan.
— É a única opção. Só um mago de alta classe pode entender o que está acontecendo.
— Obrigada, padre… Eu vou falar com Oliver. Vamos decidir o que fazer.
Ele assentiu, colocando uma mão no ombro dela.
— Que Yigel os proteja... e Uriel guie esse caminho.
Quando se virou, viu Callan esperando. O pequeno não dizia nada. Apenas olhava fixamente para o chão, segurando a ponta da capa verde como se nela houvesse segurança. Lyra segurou sua mão.
— Filho... hoje você vai me ajudar a lavar roupa no riacho, tudo bem? — sorriu, tentando soar leve, mas seu coração apertava.
Callan, com um sorriso fraco, apenas concordou.
A trilha que levava ao riacho era conhecida, cercada por arbustos baixos. Quando chegaram ao riacho, já havia algumas mulheres com seus filhos, batendo roupas, conversando, algumas até rindo. Mas ao verem Lyra, optaram por se afastar.
Callan largou o cesto de roupa e se sentou sobre uma pedra. Sua visão havia grudado em sua mãe. A água escorria pelos braços dela, onde uma vermelhidão surgia onde as marcas começavam.
— Mamãe... — sua voz quebrou o silêncio — para que servem seus selos?
Lyra não se assustou. Apenas sorriu, sem parar de esfregar uma camisa.
— Para limitar minha magia, amor.
“Limitar” Sua testa se franziu. Era uma palavra tão inofensiva que parecia carregar muito peso. Ele pensou em perguntar algo, mas deixou com que sua mãe continuasse.
— Esses selos… são como correntes. Eles me impedem de usar toda a minha magia.
— Mas eu já vi você usar, mamãe… a senhora nasceu com esses selos?
Ela sorriu, com uma pontinha de dor na expressão. Sua mão tocou em seu antebraço, as memórias da dor intensa e de um passado que ela lutava para esquecer.
— Quanto mais eu uso magia, mais os selos queimam minha pele. — Ela apertou a roupa contra si — Esses selos foram colocados em mim… há muito tempo por uma boa mulher, mas o Reino Santo os profanou. Hoje eles são apenas correntes que me lembram do meu passado.
O silêncio que se seguiu era pesado. Até o som do rio parecia ter ficado mais baixo. Callan engoliu em seco. O peito doía de um jeito estranho, uma dor apertada, que subia até a garganta.
Ele se levantou, caminhou até ela e, sem dizer mais nada, a abraçou. Apertado. Forte. Como se aquele abraço pudesse protegê-la do mundo inteiro.
— Eu te amo, mamãe. — Sussurrou.
Lyra, que já aprendera a segurar a dor de muitas coisas, não segurou esse sorriso. Soltou a roupa e apertou Callan contra si.
— E eu amo você, meu bebê. — disse, beijando seus cabelos.
Ao fim da tarde, Lyra foi a primeira a começar o caminho para casa, logo em seguida Callan a seguiu. As janelas estavam abertas, deixando a brisa entrar, e lá dentro o som metálico de uma lâmina sendo polida quebrava o silêncio suave da tarde.
Quando empurrou a porta, Callan avistou Oliver sentado na sala, afiando e polindo sua espada. Ele parecia tenso. A luz dourada do entardecer refletia na lâmina, fazendo-a brilhar como se tivesse vida própria.
Ao redor, pedaços de couro, óleo e panos estavam espalhados, em meio ao cheiro forte de ferro e óleo queimado. Oliver ergueu o rosto, abrindo um sorriso amarelo.
— Posso saber onde vocês se meteram, hein? — perguntou, cruzando os braços, mas o tom era leve, tentando esconder a tensão.
— Eu e a mamãe fomos lavar roupa no rio! — respondeu, rindo, como se fosse uma aventura épica.
Oliver sorriu, fechou os olhos por um segundo e passou a mão no cabelo bagunçado do garoto.
— Bom garoto. — disse, beijando sua testa com carinho. — Ajudando sua mãe como um verdadeiro homem de Hindi.
Ele então apertou de leve os ombros de Callan, os olhos do menino se prenderam aos seus, e com um sorriso apontou para a escada.
— Agora, vai tomar banho, você tá com cheiro de rio e de mato, como um verdadeiro aventureiro.
Callan balançou a cabeça e saiu correndo, deixando pedaços de risadas pela escada. Lyra cruzou os braços, encostada no batente da porta, observando a cena com um sorriso que aos poucos se desfazia.
Seus olhos, antes cheios de ternura, agora carregavam a preocupação que ela tentou esconder de Callan o dia inteiro.
— O Padre comentou com você… não é? — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro.
Seus braços se cruzaram, apertando o próprio corpo. Ele não disse nada de imediato. Abaixou a cabeça, passando a mão pela lâmina, pensativo.
— Eu sei. — respondeu, por fim. — E você sabe também que se trata de algo que nem eu nem você podemos ignorar.
O silêncio entre eles ficou pesado, denso, quase palpável. Lyra respirou fundo.
— Pensei… — ela começou, hesitante — em irmos até o Reino Santo. Mas é uma viagem longa demais. Levaríamos meses e, sinceramente, não sei se voltaria…
Oliver caminhou até um mapa que estava posto na parede. Havia diversas cidades, mas nenhuma ajudaria seu filho. Sua mão se moveu pelo mapa, parando na cidade capital de Castedus: Toledo.
— Eu tenho um primo. — sua voz falhou — Ele pode nos ajudar…
A conversa foi quebrada pelo som de passos leves na escada. Callan descia, já vestido, secando os cabelos com uma toalha. Ele parou no meio da escada.
— Mamãe…? Papai…? — chamou, com a voz baixinha.
— Filho. — começou Oliver — A gente vai fazer uma viagem. Uma aventura, na verdade.
Os olhos de Callan brilharam, misto de surpresa e empolgação.
A decisão estava tomada. Hindi ficaria aos cuidados de Carlo, o comandante de Oliver, e naquela mesma noite, a estrada seria novamente o palco onde o destino dessa família se desenharia.
A carruagem balançava suavemente, rangendo a cada pedra, a cada sulco da estrada. Dentro da carruagem, Callan observava pela pequena janela, apoiando o queixo nas mãos.
Diante deles, abria-se um campo ondulado, salpicado por montes baixos, pedras e árvores esparsas. Não havia sinais de Hindi, sua visão focava à frente, fixa em seu futuro. Ele sentiu o corpo formigar, seu ouvido zumbia. Não era imaginação. Uma fera rugia.