O som rítmico das rodas rangendo sobre a terra era a única constante nas últimas semanas. Para Callan, a viagem parecia interminável, uma linha contínua de estradas e vento. Mas, quando a monotonia ameaçava dominar seus pensamentos, os contornos de algo grandioso surgiram no horizonte.
Torres, cúpulas douradas e muralhas que pareciam ter sido erguidas pelos próprios deuses. O coração do reino se revelava. Toledo.
Uma fila gigantesca serpenteava até os portões principais. Dezenas de carruagens e comerciantes aguardavam sob o sol, num caos de gritos e negociações. Callan bufou, encolhido na janela. “Vamos ficar aqui o dia todo…”
Antes que ele terminasse a frase, a carruagem guinou, saindo da fila e cortando caminho pela terra batida. Gritos de protesto explodiram atrás deles. Pedras foram arremessadas, mas Oliver sussurrou “Lux Firmamenti”, erguendo uma cúpula translúcida que protegeu o veículo.
Quando pararam diante dos portões colossais, um jovem soldado bloqueou o caminho, lança em riste.
— ALTO LÁ! — Sua voz de trovão arrancou risos da fila de espera. — Está querendo arrumar problemas?
Oliver não discutiu. Apenas estendeu a mão para fora da janela, segurando um pequeno brasão de prata: dois feitiços cruzados sob uma aliança de safira.
Ele o jogou casualmente para o soldado. Ao pegar o objeto, o rosto do jovem perdeu toda a cor. A lança tremeu em sua mão.
Antes que o silêncio se prolongasse, o Comandante do posto aproximou-se, irritado com a demora.
Lyra, de dentro da carruagem, reconheceu imediatamente aqueles olhos azul-cobalto. Aquele homem era da segunda casa de Castedus: Vidran.
O Comandante tomou o brasão da mão do soldado. Por um segundo, apenas olhou. Então, como se atingido por um raio, endireitou a postura, batendo a mão direita no peito em uma continência perfeita.
— Peço perdão por meu soldado. Da próxima vez irei pedir para ele conferir os olhos.
O comandante virou de costas. Seus olhos encararam os portões. Callan sentiu o zumbido em seu ouvido aumentar, a mana do local parecia estar sendo moldada em volta daquele homem.
— Portões, obedeçam minha vontade: Abram.
Callan prendeu a respiração. Não houve som de correntes ou esforço humano. As portas gigantescas começaram a se mover sozinhas. Toda energia moldada em volta se moveu obedecendo às palavras do Comandante.
Não era magia comum, era algo que Callan nunca havia presenciado. Enquanto a carruagem passava pelo portão, Callan soltou a respiração, se inclinando para trás tentando enxergar aquele homem mais uma vez.
— Isso é a Auctoritas, filho. — explicou Lyra, acariciando os cabelos do menino. — Um poder que nasce em poucas pessoas.
Toledo era viva, vibrante e imensa. Os olhos de Callan percorriam as ruas de pedra, as bandeiras e as construções em desnível, até pousarem no centro da cidade. Lá, erguiam-se três castelos.
O maior, com torres douradas, pertencia inconfundivelmente à família real. Mas ladeando a fortaleza principal, havia outros dois castelos menores, um era claro como quartzo enquanto o outro escuro como carvão.
Ainda fascinado, Callan sentiu a carruagem desacelerar diante de uma residência robusta de pedra clara, próxima ao castelo negro.
— Onde estamos? — perguntou ele.
— Na antiga casa da sua avó… — disse, olhando para a construção com um misto de saudade e dor. — Essa casa é tudo o que restou dela.
Ao entrarem, o cheiro de flores e musgo invadiu o ambiente. Para surpresa de Lyra, tudo estava impecável. Sem pó, sem abandono.
— Pelo menos cuidaram disso. — murmurou Oliver, a voz carregada de uma gratidão relutante.
A noite caiu sobre Toledo, transformando o barulho da cidade em sussurros. A lareira crepitava, lançando sombras dançantes pelas paredes. Após o jantar, Callan foi para o quarto, exausto, mas o sono demorou a vir.
Ouviu passos no corredor. A porta se abriu devagar e Oliver entrou, sentando-se na beira da cama. O olhar do pai vagava pelo quarto, absorvendo memórias que Callan não podia ver.
— Ainda acordado? — perguntou Oliver, com um sorriso suave.
— Sim, papai.
Oliver suspirou, passando a mão pelos lençóis.
— Quando eu tinha a sua idade, deitava nessa cama e esperava sua avó me contar histórias. Cresci aqui até os seis anos, antes de… partirmos.
— Por que você teve que ir embora? — Callan se aproximou, curioso.
— Nem todos os maridos amam suas esposas, filho. E muito menos os filhos. — Oliver tocou o ombro do menino. — Seu avô, Oberon, era esse tipo de homem. Mas sua avó… ela me criou com todo o amor que tinha. Eu queria que você a tivesse conhecido.
— Qual era o nome dela?
Os olhos de Oliver brilharam, focados em um passado distante.
— Callista. O nome dela era Callista.
— É um nome bonito…
— O seu nome também foi um desejo dela, Callan.
O menino piscou, surpreso. Oliver se ajeitou na cama, como se preparasse o filho para um segredo antigo.
— Seu nome é uma história de amor. Antes de ser tomada por Oberon, sua avó amou um rapaz simples, um soldado que servia à Família Heka. Eles se casaram em segredo, mas a guerra veio. A família Heka convocou seus soldados, e o marido de Callista foi para a frente de batalha.
A voz de Oliver falhou por um instante. A dor da mãe ainda ecoava nele.
— Ele não resistiu. Morreu lutando bravamente. O nome dele era Callan.
— Mas... por que ela não te chamou assim?
— Porque Oberon era um homem cruel e ciumento. Ele a obrigou a me dar o nome do pai dele, Oliver. Mas quando você nasceu... — Os olhos dele suavizaram. — Eu queria que você carregasse o nome do homem que ela verdadeiramente amou. Do homem que deveria ter sido meu pai.
Callan sorriu, o peito aquecido pela revelação.
— Então meu nome é de um grande guerreiro.
Oliver abraçou o filho, um abraço apertado, como se tentasse proteger aquela inocência do mundo lá fora.
— Durma bem, garoto. Amanhã mostrarei a cidade a você.
— Boa noite, papai. Te amo.
Oliver saiu, fechando a porta. À medida que a noite avançava, as ruas de Toledo diminuíram os barulhos, a poderosa capital que nunca se calava, agora sussurrava. Mas, naquele quarto, algo parecia estar errado.
Callan começou a se revirar no colchão. O suor frio brotava em sua testa, os punhos cerrados contra os lençóis. Ele não estava mais no quarto.
Ele estava em um lugar onde o sol brilhava em azul e o céu era uma tela de tons marrons, sufocante. Aquele lugar trazia a mesma sensação do dia da floresta com Amy.
Tudo estava destruído. Crateras marcavam a terra, corpos cobriam o chão, e uma risada enlouquecida ecoava pelo vazio.
Uma vibração na cabeça de Callan o fez cair de joelhos, foi quando uma sombra surgiu tampando o sol. Era um Leão que brilhava como o sol. Era o Leão da pedra.
Não havia mana naquele ser, apenas uma energia fria e distante, não havia zumbido, era completamente silencioso. Até o Leão rugir.
Todo aquele mundo tremeu, uma luz poderosa cegou ele por alguns instantes, o cheiro de pólvora e enxofre se espalhou.
No chão, perto da explosão, havia uma lâmina caída. Ela era escura como a noite, com tons de roxo vazando pelo chão.
Ele viu um exército surgir no horizonte. Foi quando dos escombros uma figura se levantou. Seus olhos brilhavam. Ele ergueu a espada e então disse:
— Kherem.
A energia roxa explodiu da lâmina. Todo aquele mundo foi consumido pela energia absoluta. Callan sentiu como se sua alma fosse arrancada de seu corpo.
O frio tomou conta do seu corpo, junto à dureza das pedras o esmagando. Aos poucos ele foi abrindo os olhos, até notar que estava caído no chão.
A porta do quarto se abriu. Oliver e Lyra entraram correndo.
— Eu... eu caí... — Callan soluçava, tremendo, as lágrimas escorrendo sem controle.
Lyra o pegou no colo imediatamente, sentando-se na cama e verificando sua cabeça.
— Callan! Você se machucou?
Oliver ajoelhou-se ao lado deles, a preocupação estampada no rosto.
— Filho? O que aconteceu?
Callan tentava limpar as lágrimas, confuso com o próprio pavor. A imagem do leão e do céu marrom já se dissolvia em uma névoa densa.
— Tive um… pesadelo — sussurrou ele, agarrando-se à mãe.
— O que você sonhou? — perguntou Lyra, segurando o rosto dele com as duas mãos.
Mas o sonho já tinha ido embora, deixando para trás apenas o gosto amargo de um presságio que ele ainda não sabia decifrar.