O dia nascia com lentidão sobre Toledo. À medida que a carruagem se aproximava do castelo negro, a atmosfera mudava. O zumbido no ar ficava mais presente, a sensação de estar sendo observado era crescente, quase uma coceira na pele.
Torres pontiagudas erguiam-se como lanças contra o céu, pedras infundidas de mana brilhavam em cores pulsantes. Quando a carruagem parou no pátio interno, uma jovem mulher aguardava sozinha, braços cruzados, bloqueando a passagem.
— Que encontro maravilhoso — disse ela, com uma voz cortante como ferro frio.
Oliver desceu, o rosto impassível.
— Viemos falar com Zeth.
Callan pulou atrás do pai, curioso, mas sentiu o ar pesar. A mulher o observou com olhos gelados, emoldurados por um rosto belo, porém severo. Vestia um vestido negro com placas de armadura fundidas ao próprio tecido, e seus olhos azul-safira lembravam os de Oliver, mas sem qualquer calor.
— Esse é o pequeno bastardo, então?
Lyra avançou um passo, com as mãos fechadas sob o manto, faíscas roxas dançando entre seus dedos.
— Quem você pensa que é para falar do meu filho assim?
A mulher fez uma reverência zombeteira, girando o pulso. O som de metal rangendo ecoou pelo pátio.
— Sou Áurea Heka, Maga dos Metais. E, infelizmente… sua prima por casamento. — O chão do pátio tremeu. As grades de ferro ao redor começaram a se contorcer como serpentes vivas, apontando para a família. — Qual é a sua oferta para entrar no castelo, exilado?
Oliver nem piscou. Ele ajeitou a luva na mão direita.
— Minha oferta é simples: ou nos leva até Zeth, ou entramos por conta própria.
A ameaça pairou no ar. Áurea estreitou os olhos, o orgulho ferido pela indiferença dele.
— Arrogante. Vamos ver se esse sangue diluído serve para algo. Ferrum Acies!
O chão explodiu. Três lanças de metal negro brotaram do solo em direção ao peito de Oliver, rápidas como um bote de cobra. Callan gritou, mas o grito morreu na garganta.
Não houve som de impacto. Não houve sangue.
Num piscar de olhos, rápido demais para Callan acompanhar, Oliver não estava mais onde as lanças perfuraram o ar vazio. Oliver estava atrás de Áurea.
O silêncio caiu sobre o pátio. Áurea estava paralisada, os olhos arregalados, o suor frio escorrendo pela têmpora. Encostada suavemente em sua jugular, uma lâmina feita de pura luz dourada zumbia. Não havia calor, apenas um brilho concentrado e letal.
— Sem conjuração… — sussurrou Áurea, a voz trêmula. — Você…
— Se eu fosse um inimigo, sua cabeça já estaria no chão. — disse Oliver, a voz calma, sussurrada no ouvido dela.
A lâmina de luz se desfez em partículas douradas. Oliver deu dois tapinhas no ombro dela, e caminhou em direção à porta principal sem olhar para trás.
Callan olhou para as lanças de metal retorcidas no chão, e depois para as costas do pai. Pela primeira vez, ele entendeu que a gentileza de Oliver era uma escolha, não uma fraqueza.
Dentro do castelo, a opulência era opressora, mas não era decorativa. Era funcional. O Castelo Heka não era apenas uma fortaleza; era uma fábrica de elite.
Áurea caminhava à frente, os passos metálicos ecoando no granito. Ela não escolheu o caminho mais curto. Propositalmente, guiou-os através de um corredor ladeado por paredes de vidro reforçado.
Do outro lado do vidro, Callan viu. Salas amplas como arenas. Crianças da idade dele não brincavam. Elas estavam em posição de combate. Um garoto de cabelos ruivos conjurava uma chama na palma da mão, o suor escorrendo pela testa em concentração absoluta. Uma menina levitava blocos de pedra, seus olhos brilhando em azul-royal intenso.
Callan parou. Sua mão foi instintivamente ao peito, onde seus próprios canais de mana eram inúteis. A inveja e a admiração lutavam dentro de seus olhos verdes.
— O pequeno bastardo não consegue fazer nem uma faísca, não é? — A voz de Áurea pingava veneno. — Normalmente, o sangue de Caellun rejeita a mistura. Você é um erro genético.
Lyra apertou o ombro de Callan, puxando-o para longe do vidro, protegendo-o da visão e das palavras. Oliver permaneceu em silêncio, mas o ar ao redor dele esfriou, fazendo Áurea retomar a caminhada apressadamente.
Eles chegaram a um jardim interno, onde um portão reforçado com runas ancestrais pulsava em azul-safira. Áurea estalou os dedos. As runas giraram, e o metal gemeu, abrindo passagem para a torre de Zeth.
— Daqui eu não passo. O Grande Mago decidirá o destino de vocês. — Ela cruzou os braços, a armadura do vestido tinindo.
Oliver assentiu e passou pelo portão. Callan, porém, parou.
Ele olhou para a mulher que o humilhara. mas em vez de raiva, ele viu alguém que, assim como ele, buscava aprovação. Com uma inocência que desarmava qualquer defesa mágica, ele estendeu a mão e tocou a luva fria dela.
— Obrigado por nos guiar... titia Áurea.
A maga travou. O "Titia" atingiu-a como um soco físico.
Por um instante, o cinismo vacilou em seu rosto perfeito. O metal das lanças dos guardas próximos tremeu, reagindo à turbulência emocional dela. Ela olhou para a mão pequena e quente sobre a sua luva de aço.
Ela puxou a mão bruscamente, como se o toque a queimasse.
— De nada… — A voz falhou, perdendo o corte metálico por um segundo, antes de ela recuperar a postura rígida. — Pequeno bastardo. Agora vá. Suma da minha frente.
Ao cruzarem o portão, a realidade pareceu distorcer. O corredor não era apenas uma passagem; era uma galeria de julgamento. O teto sumia na escuridão, e das paredes, molduras de ouro maciço sustentavam os fantasmas da Casa Heka.
Callan sentia os olhos das pinturas seguirem seus passos. Eram olhares pesados, arrogantes. Ele diminuiu o passo, hipnotizado por um quadro imenso logo no início.
Um homem de armadura antiga, segurando um cajado que parecia feito de luz estelar. Mas não foi a arma que parou Callan. Foram os olhos. Um era azul-safira, como o de Oliver. O outro era uma mistura de tons de azul.
— Papai, quem é...
Oliver não parou. Ele agarrou o ombro de Callan com uma urgência repentina, quase dolorosa.
— Não olhe para eles, Callan — ordenou Oliver, a voz tensa, puxando o menino para longe das outras pinturas que se estendiam pela escuridão do corredor. — Não olhe para Caellun. Não olhe para nenhum deles. Eles não são sua família.
Lyra estremeceu, seus selos ardendo sob o manto, e apressou o passo, colocando-se entre o filho e as pinturas restantes.
Callan foi quase arrastado para frente. Quando finalmente chegaram à porta dupla de obsidiana no fim do corredor, o ar mudou. As portas se abriram sozinhas, revelando o coração do poder Heka.
A sala de Zeth era circular, feita de mármore negro polido como espelho. Dez pedestais flutuavam ao redor, sustentando grimórios antigos, e a mana ali era tão espessa e quente que respirar parecia engolir cinzas.
— Sejam bem-vindos — uma voz grave preencheu o salão, vibrando no peito de Callan.
Das sombras entre as estantes de grimórios, surgiu um homem. Cabelos negros como breu, desgrenhados, e olhos de um azul safira que, por um instante, brilharam com algo que parecia saudade.
— Eu sou Zeth Heka, o Grande Mago desta família — disse ele, parando diante de Oliver. A temperatura da sala subiu dez graus. — O que você veio fazer aqui, Oliver? Por que diabos você voltou?
Oliver não recuou, embora o suor já escorresse por sua têmpora.
— É sobre meu filho. Callan.
Zeth ergueu uma sobrancelha, o olhar fuzilando o menino encolhido atrás da mãe.
— Callan... Heka? — Ele cuspiu o sobrenome. — O sobrenome é um legado de sangue, Oliver! Um juramento aos deuses! Você acha que pode dá-lo a uma criança que cheira a medo e fraqueza? Está nos confundindo com os Vidran, que distribuem títulos por piedade?
— É o direito de sangue dele — rebateu Oliver, a voz firme. — Só peço que o examine.
Zeth soltou uma risada seca, um som que parecia vidro quebrando.
— Não. Saiam da minha sala. Saiam de Toledo. Voltem para o buraco de onde saíram e finjam que nunca pisaram aqui.
— Zeth, por favor, ouça…
O Mago bateu a mão contra a parede de obsidiana. Não foi um feitiço; foi um espasmo de fúria. Uma explosão de mana sacudiu a torre. O chão de mármore rachou e pilares de magma espectral ergueram-se como serpentes furiosas, iluminando a sala com um brilho laranja infernal. O calor era físico, sufocante. Callan gritou, tapando o rosto.
— Eu não vou limpar a sujeira que Oberon deixou de novo! — trovejou Zeth, as lágrimas de raiva evaporando antes de tocarem sua face devido ao calor. — Eu te dei a liberdade, Oliver! Eu escolhi você! E você cospe no meu sacrifício trazendo essa criança para o alcance Dele?
Callan se encolheu atrás de Lyra, mas Oliver deu um passo à frente. Ele atravessou a onda de calor, ignorando as bordas de sua capa começando a chamuscar.
— Foi você, não foi? — disse Oliver, a voz baixa, cortando o rugido do magma. — Eu fui até a casa dela, Zeth. A casa da minha mãe.
Zeth paralisou. A serpente de lava mais próxima estacou no ar, tremendo.
— Não havia pó — continuou Oliver, dando mais um passo. — Por vinte anos, alguém manteve o quarto dela intacto. Alguém cuidou das lembranças de Callista quando nem eu pude.
— E se fui eu? — A voz de Zeth tremeu, perdendo a força trovejante. — O que isso importa?
— Importa porque, agora, você está tentando me expulsar exatamente como tentou nos salvar no dia da morte de Nyx.
O nome "Nyx" atingiu Zeth como uma lâmina. Ele cambaleou para trás. A fúria em seus olhos vacilou. A lava ao redor não desapareceu; ela morreu. O brilho laranja se apagou instantaneamente, transformando o magma em pilares de rocha cinza e fria, que desmoronaram em poeira no chão.
O Grande Mago, o terror de Toledo, cobriu o rosto com as mãos sujas de fuligem.
— Eu deixei ele sozinho naquele quarto... — Zeth sussurrou, a voz quebrada, falando com fantasmas que só ele via. — Ele estava caído ao lado do corpo de Nyx… e eu corri para salvar você. Eu criei o monstro que governa essa família hoje para que você pudesse viver em paz.
Zeth abaixou as mãos. Seus olhos estavam vermelhos, exaustos.
— E você traz um filho para cá. Você não entende, Oliver? O Santo vai saber.
Lyra, que até então mantinha uma postura defensiva com magia negra pronta nas pontas dos dedos, relaxou as mãos. Ela entendeu. Não era ódio. Era pânico.
— Graças a Yigel ele não herdou esses olhos… — Zeth olhou para Callan, agora com esperança. — Venha aqui, garoto. Antes que eu me arrependa. Eu vou ver o que tem dentro de você.
A subida foi silenciosa, quebrada apenas pelo som das botas no mármore. A escadaria em espiral levava ao ponto mais alto de Toledo, o Pináculo, onde o ar era rarefeito e o vento uivava como almas perdidas.
— Perdoe-me pelo descontrole lá embaixo — disse Zeth, sem olhar para trás. Sua voz estava rouca. — O sangue da nossa família carrega um peso que às vezes… transborda.
— Todos os Heka são assim? — perguntou Callan, ofegante, sentindo a pressão da mana aumentar a cada degrau.
— Apenas os que sentem demais.
Ao chegarem ao topo, as portas duplas se abriram para uma câmara circular banhada em luz azul estelar. Não havia paredes; apenas colunas de vidro que permitiam ver o reino inteiro. No centro, um círculo rúnico pulsava.
— Está pronto para descobrir o que você é, Callan?
O menino hesitou. O medo do fracasso, as palavras venenosas de Áurea, tudo pesava. Ele olhou para Oliver, que assentiu silenciosamente. Ele lembrou do abraço da mãe e do nome do guerreiro que carregava. Ele entrou no círculo.
Crack.
As runas no chão se acenderam com o som de osso partindo. Uma barreira isolou o som do vento. Zeth desapareceu de sua vista, e Callan se viu flutuando em um escuro absoluto.
Do lado de fora, Zeth observava com precisão cirúrgica. Seus olhos brilhavam, dissecando a estrutura mágica do menino. O que ele viu o fez prender a respiração.
Zeth ergueu as mãos. Ele não usou luz suave. Ele invocou filetes de magma, finos como agulhas de costura, brilhando em um laranja intenso.
— Isso vai ser invasivo — avisou ele, a voz clínica.
Ele inseriu as agulhas na barreira. Elas atravessaram o peito de Callan sem deixar marcas na pele, mergulhando direto através das costelas, passando pelo pulmão, até encontrarem o órgão vital. Lá estava ele. O coração de carne bombeava sangue ritmicamente, mas Zeth não estava interessado na carne.
Sua visão mágica focou dentro do ventrículo esquerdo. Ali, aninhado na dimensão sobreposta, girava o Coração Mágico.
Era uma visão que poucos magos tinham permissão de ver. Uma esfera de pura energia, pulsando em sincronia com a vida do garoto. A camada externa era ofuscante. Uma carapaça de luz branca e dourada, girando furiosamente como uma tempestade estelar. A herança de Oliver, pensou Zeth. Forte. Dominante.
— Os canais estão entupidos porque a luz externa é densa demais... — murmurou Zeth, manipulando as agulhas de magma para cauterizar os excessos e abrir fluxo.
Ele trabalhou com precisão, afastando a camada branca para chegar ao centro do núcleo e estabilizar a fonte. Foi quando ele viu.
Por baixo da tempestade dourada de Lux, não havia vazio. No centro exato do coração branco, havia uma esfera menor. Sólida. Quieta. Uma bola de um violeta tão profundo que parecia devorar a luz ao redor.
Zeth franziu a testa. O que é isso? Uma mutação? A curiosidade venceu a prudência. Ele aproximou uma de suas agulhas de magma para tocar aquela esfera roxa, tentando entender sua composição.
No instante em que o calor do magma tocou o violeta, o núcleo reagiu. Não houve som. A esfera roxa pulsou uma única vez, expandindo-se como uma pupila dilatada.
A intuição de Zeth gritou, mas foi tarde demais. A esfera não queimou; ela anulou. A agulha de magma simplesmente deixou de existir. Uma onda de choque invisível, fria e absoluta, explodiu de dentro do peito do garoto.
Zeth foi arremessado para trás como uma boneca de pano. Suas costas colidiram violentamente contra a parede de vidro da torre. Os grimórios voaram dos pedestais.
O Grande Mago caiu de joelhos, ofegante, o coração disparado. Ele olhou para suas próprias mãos. As pontas dos dedos, que controlavam o magma, estavam dormentes, pálidas, como se a vida tivesse sido sugada dali.
O círculo se desfez. Callan caiu sentado, tossindo, agarrando o peito, sem entender o que havia acontecido.
Zeth levantou o rosto, pálido, se Ele, o Santo, soubesse que aquela esfera roxa existia... Callan não sairia desta torre vivo. E nem Zeth, por ter permitido.
O Grande Mago fechou os punhos, forçando o magma a voltar, escondendo o tremor nas mãos. Ele compôs o rosto em uma máscara de indiferença.
Duas horas depois, o som de passos pesados ecoou na escadaria. Zeth desceu os degraus de mármore com Callan adormecido em seus braços. Ele parecia mais velho do que quando subira.
Lyra correu ao encontro deles, o alívio lavando a tensão de seu rosto pálido.
— Ele está bem — garantiu Zeth, entregando o menino aos braços da mãe com um cuidado excessivo. — Apenas exausto. Seus canais foram... corrigidos. Mas escutem bem: nada de feitiços ou esforço mágico até ele se recuperar totalmente.
Oliver abraçou o primo. Um abraço rápido, rígido, mas carregado de significados não ditos. O agradecimento de um homem que sabia o risco que o outro correra.
— Obrigado, Zeth.
— Traga-o de volta quando ele fizer quatorze anos — instruiu Zeth, a voz baixa e séria. — Eu quero treiná-lo. O potencial dele… é perigoso se não for guiado. Muito perigoso.
A família partiu, deixando o castelo sob um silêncio pesado. Áurea os acompanhou até a saída, surpreendentemente calada. Ela observou Callan dormindo no colo de Lyra, e por um momento, a máscara de ferro caiu.
— Boa sorte... pequeno Heka — murmurou ela, antes de virar as costas e desaparecer nas sombras do pátio.
No alto da Torre do Pináculo, Zeth observava a carruagem se tornar um ponto minúsculo na estrada, sentindo o vento frio secar o suor gelado de sua testa. Ele ainda tentava processar o abismo roxo que vira dentro do garoto.
Então, o vento parou. Não gradualmente. O ar simplesmente morreu. Uma mão pousou em seu ombro. Não tinha peso, mas a frieza atravessou as vestes de Zeth e congelou sua medula.
— Há quanto tempo… irmão Oliver…
A voz era áspera, seca como poeira e ossos triturados. Zeth virou-se lentamente, o coração batendo na garganta.
Uzur Heka. O Santo. Suas vestes sacerdotais escuras estavam imaculadas. Seus cabelos flutuavam como uma auréola fantasmagórica ao redor da cabeça, mas seus olhos... seus olhos eram prateados, sem pupila, abismos de fanatismo. Ele não olhava para Zeth; seus olhos cegos pareciam focados na carruagem distante, quilômetros além da visão humana.
— Os pecados de Callista não se apagaram — murmurou Uzur, um sorriso triste e cruel curvando seus lábios. — Você vai pagar por ter fugido, Oliver.
Zeth não conseguiu responder. O medo travou sua língua. Uzur apertou o ombro dele. Dedos como garras de aço.
— Você o tocou, não é, Zeth? O menino. Sabe me dizer se ele herdou mais alguma coisa de Lyra... além dos olhos verdes?
Zeth permaneceu em silêncio, lutando para manter a respiração estável, lutando para não deixar o terror transparecer.
Uzur soltou o ombro dele.
— Guarde para si o que viu. Por enquanto. — A figura do Santo começou a se desfazer em corvos de fumaça branca. — O tempo dele está chegando ao fim. E o seu silêncio será julgado.