O som das rodas de madeira trepidando pelo caminho de terra e pedras ecoava pela estrada. A carruagem seguia seu curso para Hindi, mas dentro dela uma batalha acontecia.
Desde a restituição dos canais de mana, o corpo de Callan não deu tréguas. O calor queimava sob a pele, dores fantasmas por todo corpo como se as agulhas de Zeth ainda o penetrassem.
Era de noite, Oliver vigiava o pequeno acampamento, enquanto Lyra dormia na tenda abraçada com Callan. O garoto estava suando, os olhos inquietos, e ao fundo, cada vez mais perto, um rugido soava.
Foram quatro semanas de viagem, até chegarem aos antigos portões de Hindi.
— As muralhas… desapareceram. — disse Lyra confusa com a visão.
A paisagem já não era a mesma. As muralhas haviam sido derrubadas, novas casas erguiam-se por todos os lados. O olhar dos novos moradores grudou na carruagem estranha.
— É um prazer tê-lo de volta, milorde. — Com um sorriso acolhedor, Carlo apareceu acompanhado de outros três homens. — Desde a visita da família real, a vila atraiu muitos olhares. Mas graças ao Padre Lucien estamos conseguindo manter a ordem.
Oliver assentiu, a preocupação por um momento fugiu de sua mente.
— Obrigado por cuidar de Hindi em minha ausência, Carlo. Ainda hoje irei retomar minhas funções como lorde.
Carlo se despediu animado com o retorno de seu amigo. Oliver se animou, um sorriso surgindo em seu rosto. Sem pensar, ele mudou de planos, ele iria se apresentar aos novos moradores, enquanto Lyra poderia ir para casa.
O caminho até a mansão era a mesma estrada acolhedora onde Callan aprendera a andar, mas algo havia mudado. Callan podia notar mães afastando crianças, desviando os olhares.
Lyra permanecia caminhando de cabeça erguida. Ela apertou o passo, puxando Callan para dentro da mansão e fechando a porta pesada de madeira atrás de si. O som da tranca girando silenciou os sussurros de "Bruxa" e "Selada", mas o silêncio da casa parecia ainda mais pesado. A noite caiu, trazendo sonhos inquietos.
Quando a luz invadiu o quarto novamente, o peso da noite anterior parecia ter evaporado. O sol levantava como um titã, iluminando a cama onde Callan dormia. O quarto já se encontrava vazio. Callan não esperou o café da manhã. Suas botas batiam contra a terra batida da vila enquanto ele corria em direção à única torre que importava: a igreja.
Padre Lucien cambaleava pela igreja, apoiado numa bengala simples, envolto por um xale de lã que tremia a cada acesso de tosse, ainda assim, o sorriso insistia em seu rosto cansado. Ele estendeu o braço até a cabeça do garoto.
— Callan, hoje será o dia em que você se tornará um mago.
Não havia outros alunos, Lucien havia reservado um horário especial ao seu aluno, para que ele tentasse sem a interferência dos olhares de colegas.
Callan ergueu a mão direita, os dedos trêmulos, e fechou os olhos.
Ele buscou a sensação que Zeth havia deixado. E a encontrou. Não era mais um filete bloqueado; era uma represa aberta. A mana brotou. Primeiro, seu coração disparou, bombeando poder junto com o sangue. A energia correu por seus braços, queimando de uma forma prazerosa e aterrorizante. Ela obedeceu a uma única vontade: Criar um Orbe.
Um zumbido agudo preencheu seus ouvidos. Primeiro, o som da tosse do Padre Lucien ficou abafado, como se ele estivesse embaixo d'água. Depois, o cheiro de cera velha e madeira da igreja foi substituído por um aroma de ozônio e orvalho fresco.
A luz em sua mão explodiu. Através das pálpebras fechadas, Callan viu o clarão branco se tornar tão intenso que doía. Ele sentiu o chão sob suas botas mudar. A dureza da madeira cedeu, tornando-se macia, orgânica. O ar frio da igreja tornou-se uma brisa morna.
Callan abriu os olhos, esperando ver as paredes de pedra. Mas as paredes haviam sido apagadas.
Não havia teto. Não havia Lucien. Diante dele, estendia-se um prado infinito, onde a grama não era verde, mas prateada, balançando sem vento. O céu acima cintilava em uma tempestade silenciosa de violeta e azul profundo.
— Onde...?
Antes que ele pudesse terminar a pergunta, um Leão imenso se ergueu. Seu pelo era como o sol, os olhos como brasa, os dentes de metal reluzente.
Aquela visão fez as pernas do garoto falharem, um gosto amargo surgiu em sua garganta. A mana em seu corpo pareceu morrer. A luz que vinha do leão era tão forte que machucava seus olhos.
O Leão inclinou a cabeça, soltando um poderoso rugido que abalou todo aquele mundo, mas o som que ressoou dentro da mente do menino era humano, antiga, mas gentil, como a de Lucien.
“Não temas, pequeno Heka.”
Callan tentou falar, mas as palavras morreram em sua boca.
“Este é o Limiar do que há de ser.”
Aquela frase ressoou pela mente de Callan. A fera ergueu‑se, majestosa, e bradou outro rugido, mais poderoso que o anterior, que sacudiu o céu e a terra. O campo se dissolveu em partículas de ouro, e a visão implodiu num clarão.
Aquilo não era Lux, não era mana, a energia daquele ser era superior a qualquer coisa que Callan conhecia.
Quando abriu os olhos, ele estava de volta à igreja. O orbe em sua mão brilhava, Lucien batia palmas comemorando a vitoria. Mas Callan não, o gosto amargo permaneceu em sua boca por alguns instantes, ele queria falar, mas não conseguia.
Minutos se passaram, até que som de passos ecoaram pela igreja vazia. Lyra, que recebeu um sinal de Lucien, parou o que fazia. Ela atravessou o templo em instantes, apertando Callan com toda sua força.
Lucien assistia à cena com ternura. Os olhos cansados brilhavam. Sua mão se moveu para dentro da batina, onde um livro estava guardado. “Cynthia… no fim, o livro voltou para ela.”
Mas sua mão congelou, seus instintos gritavam para ele não se mover. Lyra notou a mudança repentina do padre, mas Lucien foi mais esperto. Ele pigarrou, coçando a nuca.
— Lyra… você será a primeira a saber, mas eu irei me aposentar.
Lyra, com os olhos atentos, notou a mudança no ar, ela assentiu.
— Você já fez tanto por todos nós, Lucien. Cuide-se. Hindi sempre será grata por você, e eu principalmente.
Lucien não disse mais nada. Ele observava Lyra se afastando aos poucos. “Aquela sensação…” Ele deu um passo em direção à porta.
Mas o passo nunca tocou o chão.
O som dos pássaros lá fora cessou. O vento parou. Lucien piscou. Quando abriu os olhos, ele não estava mais na porta da igreja. As paredes de pedra haviam sumido. O teto havia desaparecido. Ao redor dele, havia apenas um branco infinito. O chão era como água parada, refletindo um céu sem sol.
— Quem… onde estou? — A voz de Lucien não ecoou. O som morreu assim que saiu de seus lábios.
— Você está no meu jardim, Lucien.
A voz veio de toda parte. De cima, de baixo, de dentro da própria cabeça do padre. Lucien girou. A dez metros de distância, sentado em um trono que parecia feito de água, estava Uzur Heka. O Santo. Ele não emanava mana. Ele era a mana daquele lugar. Seus olhos brilhavam em um azul artificial.
— Uzur... — Lucien caiu de joelhos. A pressão atmosférica ali era esmagadora. — O que o senhor faz aqui?
Uzur levantou um dedo. O cenário mudou instantaneamente. O trono sumiu. Agora Uzur estava a centímetros do rosto de Lucien, embora não tivesse movido um músculo.
— O Rei Dante me enviou. — Uzur inalou profundamente, e o espaço branco tremeu. — Mas vejo que cheguei tarde. O cheiro dela... o cheiro de Cynthia Vidran está em você.
Lucien tentou recuar, mas suas pernas não obedeciam. Naquela dimensão, seu corpo só se movia se Uzur permitisse.
— Matias Vatin virá substituí-lo — decretou Uzur. O mundo branco começou a rachar, como vidro quebrando, e a realidade da igreja começou a vazar pelas fendas. — Aproveite seus últimos dias, Padre. E reze para que eu não precise voltar.
O mundo girou. Lucien vomitou no chão de madeira da igreja. O som dos pássaros voltou de repente, alto demais, ferindo seus ouvidos. Ele estava sozinho. A porta da igreja estava fechada. Uzur nunca "esteve" ali fisicamente.