Era de manhã. O sol tentava romper as nuvens cinzentas, lançando uma luz pálida sobre a mesa da cozinha. Callan estava sentado, balançando as pernas, quando batidas firmes ecoaram da porta.
Lyra se levantou para atender. Ao abrir era Carlo, ele abriu um sorriso amarelo. Sua mão direita estava dentro do casaco, apertando uma carta com receio.
— Bom dia, Carlo. — Lyra sorriu, mas notou a tensão. — Aconteceu algo?
Carlo engoliu em seco. Dentro de seu casaco havia uma carta, o selo de lua crescente mostrava a autenticidade, era de Luna Castel, e destinada a Lyra. Ele sabia que precisava entregar, mas seu corpo não lhe obedecia.
Sua boca se abriu, mas a voz cessou. Sua mana se contraiu, como se uma mão acariciasse seu corpo por dentro, ele não estava sozinho ali.
— Eu… vim chamar Oliver. — mentiu, soltando a carta dentro do casaco. — Trago novidades da capital.
Oliver apareceu logo atrás, despedindo-se com um beijo demorado em Lyra e um abraço apertado em Callan. Os dois homens saíram. Mas, ao dobrarem a esquina, Carlo parou.
— Oliver. — Sua voz soou com pesar. — Meu amigo, siga em frente, eu tenho pendências a resolver.
Oliver assentiu e seguiu para a floresta. As mãos do comandante apertaram o cabo da espada até os dedos ficarem brancos. “Adeus… meu amigo.” Ele se virou para trás, mas a vila não estava mais lá. O som dos pássaros cessou. O vento parou. O mundo ao seu redor havia sido substituído por um silêncio branco e infinito.
— Curioso… — Uma voz sussurrou. Não vinha de trás dele; a voz vibrava no próprio ar, como se o ambiente falasse. — A Rainha Luna te trouxe problemas, Comandante?
Uma silhueta surgiu à sua frente, condensando-se do nada. As roupas negras imaculadas, a postura de quem detém a verdade absoluta.
— Uzur Heka… — Carlo sacou sua espada, mas o peso da arma parecia ter triplicado. Suas mãos tremiam. — O que você faz aqui?
Uzur não respondeu. Ele apenas caminhou. A cada passo, o "chão" daquela dimensão ondulava como água. Seus olhos, antes cinzas, agora brilhavam em um azul elétrico e artificial.
— O Rei Dante precisa de sua lealdade, Comandante.
O Santo parou diante dele e ergueu a mão. Carlo tentou atacar, mas seus músculos travaram. Ele era uma estátua em seu próprio corpo. Uzur tocou a testa dele. Não foi mana que saiu dele, era algo gélido, corruptivo.
Não houve dor. Houve algo pior: o silêncio. Os olhos de Carlo se arregalaram e as pupilas dilataram até engolir a íris. A tensão em seu rosto relaxou de forma antinatural, como cordas sendo cortadas. A espada caiu de sua mão, tinindo no chão inexistente.
— Esqueça o que leu — ordenou Uzur, a voz ecoando dentro do crânio de Carlo. — E me dê o que você esconde.
Carlo piscou, o olhar agora vazio, desprovido de qualquer conflito. Ele enfiou a mão no casaco, retirou a carta com o selo da Lua Crescente e a estendeu.
— Sim... Lorde Heka.
Oliver seguiu a patrulha diária, estranhando a falta repentina de Carlo, mas o Lorde acreditou se tratar de cansaço pelo tempo cuidando sozinho da vila. Quando o sol ganhava tons alaranjados, o som da porta principal da mansão rangeu.
Callan apareceu na porta abraçando a cintura de seu pai. Mas Oliver não abraçou de volta.
— Aconteceu alguma coisa, papai? — perguntou Callan se afastando.
— Eu passei pela igreja… — Oliver olhou para Lyra, buscando força. — O Padre Lucien não está bem… Quer ir comigo?
Não houve muita conversa, Lyra ficou em casa para terminar o jantar, enquanto Oliver e Callan seguiram para visitar Lucien. A igreja estava apagada, sua porta principal trancada por selos mágicos.
Antes que Callan pudesse bater na porta, Oliver o guiou para a entrada dos fundos, onde ficavam os aposentos do padre.
Dentro do quarto, o ar era denso. O cheiro de incenso brigava com o aroma acre de ervas medicinais fervendo no canto. Lucien estava sentado na cama, apoiado em travesseiros altos. Sua pele tinha a cor de pergaminho velho, mas seus olhos ainda queimavam com aquela inteligência gentil.
— Oliver… — A voz dele era um ruído de folhas secas. — Fico feliz que tenham vindo.
— Não se esforce, Padre — pediu Oliver, a preocupação vincando sua testa.
Lucien sorriu, mas o gesto foi interrompido por uma tosse que sacudiu seu corpo frágil. Para Oliver, cada tosse soava como a areia final de uma ampulheta. Percebendo o medo nos olhos arregalados de Callan, Lucien acenou com a mão trêmula, chamando-o.
— Aproxime-se, Pequeno Heka.
Callan obedeceu. Lucien segurou a mão dele. A pele do velho estava fria, mas vibrava, como se houvesse eletricidade estática sob as pontas dos dedos.
— Ontem… — Lucien sussurrou, olhando fundo nos olhos verdes do menino. — Você escutou, não escutou?
Callan assentiu, sentindo um arrepio. Lucien sabia que ele escutava o zumbido.
— Sim… mas como o senhor sabe?
— Isso é o Éter. A Energia da Criação — Lucien apertou levemente a mão do garoto. — Mas em Árcalis chamamos de maldição de Aethel.
“Maldição…” Aquela palavra bateu na mente de Callan como um martelo. O zumbido pareceu aumentar, como um chiado. O garoto segurou a mão do padre. Se isso era de Aethel, o que era o Leão em sua cabeça? A boca de Callan se abriu. A palavra "Leão" se formou em sua língua.
Não houve aviso. Um rugido explodiu dentro de seu crânio, tão alto que sua visão ficou branca. Imediatamente, uma pressão invisível esmagou sua traqueia. Não era tosse; era como se uma mão feita de chumbo tivesse agarrado seu pescoço por dentro. O gosto de ferro e sangue inundou sua boca.
Callan levou as mãos ao pescoço, os olhos virando, o ar negado.
— Callan?! — Oliver avançou, alarmado, começando a dar tapas nas costas do filho. — Ele engasgou! Beba água, filho!
Mas Lucien não se moveu. Seus olhos, acostumados com a fronteira da morte, viram o que Oliver não viu. A benção de Yigel, ela havia mostrado uma energia pesada sobre o peito do menino. Ela havia silenciado a criança.
— Pare, Oliver. — ordenou Lucien, com uma autoridade repentina que congelou o Lorde.
O padre segurou o queixo de Callan, forçando o menino a olhar para ele. O toque de Lucien era firme.
— Callan, nunca fale sobre isso para mais ninguém.— sussurrou Lucien, rápido e baixo, para que apenas Callan ouvisse. — Entendido?
Callan parou de se debater. A energia havia se dissipado de sua garganta, deixando-o puxar o ar em um suspiro desesperado e doloroso.
— Que…? — Callan choramingou, a voz rouca, lágrimas escorrendo.
Lucien olhou para Oliver, que estava confuso com a cena, e depois voltou para Callan. O olhar do padre era grave, cúmplice.
— Guardiões não perdoam quem revela seus segredos. — Lucien tossiu novamente, dessa vez com sangue no lenço. — Esconda isso.
Ele se recostou nos travesseiros, exausto, a luz em seus olhos diminuindo.
— Oliver… leve-o para beber água. E depois… retorne sozinho. Precisamos conversar.
Callan assentiu, ainda sentindo o gosto de ferro na língua. Oliver o levou para beber água na sacristia e, quando o menino se acalmou, deixou-o sentado num banco e retornou ao quarto.
A expressão de Lucien havia mudado. A sombra da morte, antes uma visita discreta, agora estava sentada ao lado dele na cama.
— Oliver… sente-se. — A voz de Lucien não tremia mais; era a calmaria antes do fim. — Precisamos falar sobre o que aconteceu agora.
Oliver puxou uma cadeira, o coração apertado.
— O engasgo? Foi apenas…
— Não foi um engasgo. — Lucien cortou, os olhos sérios. — O garoto escuta o que nenhum de nós pode escutar. Seja lá o que tentou silenciá-lo, não foi uma doença. Foi algo antigo. Algo que não gosta de ser descoberto.
Oliver empalideceu.
— Como protejo ele disso?
— Você não protege. Você o ensina a sobreviver. Ele não é Lyra. — Lucien tossiu, e sangue manchou seus lábios. — Meu tempo acabou, meu amigo. E não foi apenas a idade.
Oliver endureceu, a mudança de assunto o pegou desprevenido.
— O que quer dizer?
— Uzur esteve aqui. Ontem.
O nome atingiu Oliver como um soco físico. Seu meio-irmão. O Santo. Aqui, em Hindi.
— Ele… ele te machucou?
— Não com magia direta. Mas a presença dele… é um buraco negro. Ele sugou a mana deste lugar para alimentar sua própria dimensão. — Lucien respirou com dificuldade, o peito chiando. — Depois que ele saiu, minhas forças simplesmente… evaporaram. Ele levou o que restava da minha vida como quem colhe uma flor seca.
Oliver apertou os punhos até as unhas ferirem a palma da mão, os olhos marejados de raiva impotente.
— Aquele maldito... Ele não ousaria usar o Legado contra um padre…
A mão fria de Lucien encontrou o ombro de Oliver. Ele negou com a cabeça.
— Não gaste sua energia com ódio, Oliver. Vingança é um veneno que se bebe esperando que o outro morra. Não sabemos o que ele queria conosco, mas eu sei o que eu quero deixar para trás.
Os olhos de Oliver se abriram em dúvida. Com um esforço doloroso, Lucien se inclinou para o lado da cama, puxando algo de dentro de sua batina dobrada. Um livro.
— Matias Vatin será o novo padre. Ele é um espião de Dante e aluno de Uzur. Hindi não é mais segura. — Lucien estendeu o livro. — Eu preciso que Callan herde isto. Prometa-me.
Oliver segurou o objeto. Era pesado e morno, como se tivesse sangue correndo dentro da capa. O couro era escuro, crespo e retorcido, e emanava uma magia antiga. Oliver abriu o livro. As páginas estavam em branco. Não havia tinta, apenas papel envelhecido.
— Está vazio — disse Oliver, confuso.
— Para você, sim. — sussurrou Lucien. — Este é o Bestiário de Ardenya. Cynthia Vidran deixou comigo antes de… ser assassinada. Não é para a criança que Callan é hoje. É para o homem que ele precisa se tornar. Entregue quando sentir que ele está pronto.
Oliver fechou o livro com reverência. O nome "Cynthia" explicava muita coisa. A Mártir da casa Vidran. E aquele livro era uma sentença de morte se fosse encontrado, mas também uma arma.
— Eu prometo.
— Ótimo. Agora… quero que vocês vão embora. — Lucien recostou-se nos travesseiros, fechando os olhos. — Não quero que me vejam dar o último suspiro. Não é uma visão para uma criança que acabou de despertar.
— Padre… não posso deixá-lo sozinho.
— Eu não estou sozinho. — Lucien sorriu, um sorriso genuíno e fraco. — Conhecer você… e a Senhora Lyra foi minha redenção. A Igreja ensina que o mundo é preto e branco, Luz e Trevas. Vocês me mostraram o cinza. Me mostraram que o amor existe nas fendas da regra. Vocês libertaram minha visão… e eu não me arrependo de nada.
Oliver não conseguiu segurar. Ele se levantou e abraçou o velho amigo. Um abraço que não compartilhava apenas calor, mas o adeus de uma vida inteira.
— Descanse em paz, meu amigo. Obrigado por tudo.
Lucien deu dois tapinhas fracos nas costas do Lorde.
— Vá, Oliver. Viva.
Oliver se separou, limpou o rosto e pegou o livro. Ele caminhou até a porta, onde Callan cochilava no banco. Antes de sair, Oliver olhou para trás uma última vez. Lucien parecia dormir. Com um gesto sutil, Oliver conjurou uma pequena faísca de Lux. A luz dourada flutuou até o candelabro, iluminando o rosto sereno do padre contra a escuridão que chegava.
Oliver pegou Callan no colo e saiu para a chuva. Naquele dia, nenhuma palavra a mais foi dita. O silêncio era a única prece que restava.
Na manhã seguinte, o sol nasceu sufocado por nuvens de chumbo.
Oliver estava na varanda, afivelando o cinto da espada. Sua mente estava na fronteira, no rastro de Uzur. Ele precisava patrulhar. Ele precisava garantir que o irmão não havia deixado armadilhas. Mas Carlo apareceu no portão. O sorriso do amigo estava lá, mas seus olhos pareciam focados em um ponto vazio atrás de Oliver.
— Vá ficar com sua família, Oliver — insistiu Carlo, pela terceira vez. — Eu cuido das rondas. Você passou semanas fora. Callan precisa do pai, não do Lorde.
Oliver hesitou. Havia algo estranho na postura de Carlo, ele parecia um guerreiro de elite. Mas o argumento era válido. E a culpa de ter trazido o perigo para casa pesava.
— Tem certeza, Carlo?
— Absoluta. Vá para o riacho. — Carlo virou as costas e marchou em direção à floresta, um sorriso amarelo surgindo em seu rosto.
Oliver aceitou. A família seguiu para o riacho. Callan corria na frente, perseguindo sapos na margem lamacenta. Oliver sentou-se na grama ao lado de Lyra. Ela usou sua magia sutilmente, moldando as sombras das árvores em pequenos animais que pulavam para fugir das mãos do filho. Por uma hora, o mundo foi perfeito. As risadas de Callan abafavam o zumbido do Éter. O medo de Uzur parecia distante.
Foi quando o som cortou o ar.
Não foi um grito. Foi o bronze. O sino da igreja tocou. Uma vez. Grave. Pesado. O som viajou pela floresta, espantando os pássaros, e atingiu Oliver no estômago. Callan parou de correr. O sapo de sombra se desfez em fumaça entre seus dedos.
O sino tocou a segunda vez. Lyra levou a mão à boca, seus olhos encontrando os de Oliver. Nenhuma palavra foi necessária. Aquele ritmo lento, espaçado, só tinha um significado em Hindi.
A terceira badalada foi uma sentença.
A tarde caiu trazendo a chuva. O céu chorava uma garoa fina e gelada que transformava a terra do cemitério em lama escura.
A igreja estava cheia, mas o silêncio era absoluto. Os moradores antigos cercavam a cova aberta, segurando chapéus contra o peito. Callan segurava a mão do pai com tanta força que seus dedos estavam brancos. Ele olhava para a caixa de madeira polida no fundo do buraco.
“Ele está ali dentro,” pensava Callan. “Mas está frio e escuro. O Padre odeia o frio. Ele vai tossir logo. Ele vai pedir para sair.” Callan esperou. Esperou a tosse. Esperou o sorriso gentil. Esperou a lição sobre o Éter.
Então, o coveiro ergueu a pá. O primeiro monte de terra molhada caiu sobre a madeira. O som foi abafado, oco, definitivo.
O coração de Callan falhou uma batida. A segunda pá caiu. A terra começou a cobrir o verniz da madeira. Foi naquele instante que a compreensão perfurou o peito do menino, mais dolorosa do que a pata do Leão, mais aguda do que as agulhas de Zeth.
Não era um sono. Era o fim. Nunca mais o cheiro de incenso e ervas. Nunca mais a mão fria e trêmula segurando a sua. Nunca mais a voz rouca chamando-o de "Pequeno Heka".
O ar faltou. A dor subiu pela garganta, um nó que ardia como fogo.
— Não... — O sussurro escapou dos lábios de Callan.
A terra continuou caindo, enterrando o único homem que o entendera. Enterrando sua infância junto com o corpo frágil. As lágrimas transbordaram, quentes, misturando-se à chuva gelada em seu rosto. Callan enterrou o rosto na capa de Oliver e gritou. Um choro quebrado, rouco, de quem descobre pela primeira vez que o tempo é um ladrão que não devolve o que rouba.
Diante da lápide simples de pedra, sob a chuva que lavava o mundo, Callan Heka aprendeu a lição mais cruel de todas: a magia pode criar luz, sombras e barreiras. Mas não existe magia capaz de trazer de volta quem partiu.