Naquela noite Hindi parecia ter entrado em luto. Não se ouvia sons vindo das casas e até mesmo o ar parecia respeitar o momento de dor. Callan finalmente havia adormecido, após passar o restante do dia chorando.
A casa estava silenciosa, mas no quarto de Callan, o garoto lutava contra a própria memória.
Seu sonho projetava uma sala de aula perfeita. O cheiro de giz e madeira antiga o acalmava. Lucien estava lá, sorrindo, desenhando runas no quadro.
Mas havia algo errado no canto da sala. Empoleirado sobre uma estante alta, havia um pássaro que não deveria existir. Callan nunca vira aquela espécie. Era branco, mas suas penas pareciam sujas, desgrenhadas. No topo da cabeça, uma crista de penas arrepiadas formava uma coroa caótica e quebrada. Sua cauda era longa demais, pendendo como um pêndulo negro e branco. O animal não piou. Ele inclinou a cabeça num ângulo antinatural. Seus olhos não eram de ave. Eram olhos humanos, velhos e críticos. Eles não piscavam. Eles registravam.
Callan sentiu um frio no estômago. Aquele pássaro não fazia parte da sua memória. Era um invasor. O pássaro abriu o bico escuro, como se fosse recitar uma sentença, mas nenhum som saiu. O chão da sala de aula tremeu.
A sombra atrás de Callan cresceu, engolindo a luz do sol do sonho. Um bafo quente, com cheiro de savana e sangue, soprou na nuca do menino. O pássaro branco eriçou as penas, reconhecendo o perigo. Ele tentou levantar voo.
Tarde demais. Uma mandíbula dourada e colossal fechou-se sobre o invasor. Croc. Não houve sangue, nem penas voando. O pássaro simplesmente deixou de existir, transformado em cinzas de luz antes mesmo de ser engolido. O Leão não rugiu. Ele apenas mastigou o espião, seus olhos dourados fixos no vazio, como um rei que extermina um inseto em seu trono.
Callan acordou num sobressalto, o peito subindo e descendo violentamente. Não havia pássaro. Não havia Leão. Apenas a chuva batendo na janela. Mas a sensação de ter sido visto permaneceu, como uma sujeira na pele que a água não podia lavar.
Na manhã seguinte, a batida na porta da mansão Heka não trouxe notícias de Carlo. Trouxe o destino.
Ao abrir a porta, Oliver deparou-se com uma figura alta, vestida de preto imaculado, e ao seu lado, um menino que não aparentava ter mais de vinte anos.
— Uzur... — O nome saiu como um rosnado da garganta de Oliver.
Uzur Heka sorriu. Não havia calor naquele gesto.
— Irmão. Vim apresentar o novo pastor do seu rebanho.
Ele empurrou levemente o jovem para frente. O rapaz tinha a pele pálida, cabelos cortados com precisão militar e uma batina perfeitamente engomada.
— É um prazer, Lorde Oliver — disse o rapaz. Sua voz era suave, polida, sem qualquer aresta. Ele se curvou numa reverência técnica. — Sou o Padre Matias. Matias Vatin.
Atrás de Oliver, o som de vidro quebrando ecoou. Lyra olhava para o jovem padre com horror. Vatin. O sobrenome dado aos órfãos criados pela Igreja em Arcalis. O sobrenome dela. Ela olhou para o rosto de Matias. O sorriso dele era simétrico demais. Seus olhos piscavam no ritmo certo. Ele era a imagem perfeita da obediência. Ele era o que Lyra teria se tornado se não tivesse fugido. Um espelho quebrado de sua própria alma.
— Vatin...? — sussurrou ela.
Uzur observou a reação dela com o prazer de um colecionador que encontra uma peça rara.
— Achei adequado — disse o Santo, entrando na sala sem ser convidado. Ele passou a mão pelo ombro de Matias, como quem limpa um móvel caro. — Matias foi criado na mesma capital que você, Lyra. Mas, diferente de certas ovelhas que se perderam, ele aprendeu a amar o pastor.
Matias virou-se para Lyra e sorriu. Um sorriso vazio, de boneca.
— É uma honra servir uma… irmã de criação, Senhora Lyra.
Lyra sentiu o estômago revirar. Aquilo não era um cumprimento. Era uma zombaria.
Callan, escondido no topo da escada, observava tudo. Ele viu como o tal Matias não olhava nos olhos de ninguém, agindo como uma marionete cujas cordas eram puxadas pelo silêncio. Então, os olhos prateados de Uzur subiram a escadaria e perfuraram a sombra onde Callan se escondia.
— Desça, sobrinho. — A voz de Uzur era veludo sobre lâminas. — Vamos conversar sobre o futuro.
Uzur caminhou até o centro da sala.
— Um ramo da Família Vidran irá assumir a administração de Hindi — anunciou ele, com a leveza de quem comenta sobre o clima.
Oliver deu um passo à frente, a mão indo instintivamente para o cabo da espada que não estava lá. Vidran. A segunda família de Castedus.
— Isso é uma declaração de guerra? — perguntou Oliver, a voz rouca.
— Não. É uma medida de segurança. — Uzur ignorou o irmão e focou no menino que descia os degraus hesitante.
O Santo agachou-se, ficando na altura de Callan. Ele estendeu a mão pálida e arrumou a gola da camisa do garoto. Callan prendeu a respiração. Os dedos de Uzur roçaram seu pescoço. O toque queimava de tão frio.
— Me diga seu nome completo, sobrinho — sussurrou Uzur, alto o suficiente para Lyra ouvir.
— Callan… Callan Heka — respondeu o menino, tentando se encolher dentro da própria roupa.
Um sorriso imperceptível curvou os lábios de Uzur.
— Heka, é? Vejo que Oliver escolheu condenar sua vida, Pequeno Heka. — A mão de Uzur desceu para o ombro de Callan. O gesto imitava o carinho de Lucien, mas sem calor, apenas posse. — Preciso que venha comigo.
Os olhos de Lyra se arregalaram. As runas em seus braços começaram a brilhar sob as mangas, mas Oliver se pôs na frente dela e do filho.
— Você não vai levar meu filho, Uzur.
— Cada membro da família Heka tem o seu destino. E o destino de Callan já foi definido. — As palavras saíam como veneno doce. — Oliver Heka… o Exilado. Mas e você, Callan? Quando vai crescer e se tornar uma lenda?
Uzur inclinou-se mais perto, invadindo o espaço pessoal do garoto. O zumbido do ambiente aumentou, isolando o som para que apenas Callan ouvisse a próxima frase.
— Sua mãe te ama, Callan. Mas ela ama sua fraqueza. Enquanto você for fraco, você é dela. Eu não quero sua gratidão. Eu quero que você seja forte o suficiente para não precisar de ninguém. Nem mesmo dela.
— CHEGA DISSO, UZUR! — Oliver empurrou Uzur violentamente para longe do filho. Lyra puxou Callan para seus braços, rosnando como uma loba encurralada.
Imediatamente, a atmosfera mudou. Ao lado da porta, Matias Vatin parou de sorrir. A água na bacia onde Lyra lavava os vegetais obedeceu. O líquido se ergueu da tigela em silêncio absoluto, flutuando no ar e se distorcendo até formar dezenas de agulhas de água pressurizada, todas apontadas para a jugular de Oliver.
Mas Uzur levantou a mão, entediado.
— Não precisa disso, Padre Matias.
A água caiu de volta na bacia com um splash inofensivo. Matias voltou à sua postura de boneco, as mãos cruzadas.
Uzur ajeitou a batina, onde Oliver o havia tocado, limpando uma sujeira imaginária.
— Eles escolheram. Todos podemos escolher, não é? Mas as escolhas têm consequências. — Seus olhos cinzentos começaram a brilhar num azul elétrico.
As sombras da sala se alongaram em direção a ele. As cores dos móveis desbotaram. Uzur não estava apenas usando magia; ele estava drenando a mana do ambiente, tornando o ar pesado e difícil de respirar.
— Quando você escolheu fugir de Toledo, eu deixei. Quando escolheu brincar de mercenário, eu deixei. Quando se ajoelhou à Ordem da Lança, eu deixei. — Ele olhou para Lyra com um nojo profundo. — Quando escolheu fugir com a Vatin, eu permiti. Você escolheu ser fraco, usado, como sua pobre mãe. Mas essa sua escolha eu não aceitarei.
Oliver não recuou. Ele respirou fundo e libertou sua herança. Não houve som de metal. Houve apenas a pureza da Luz. O ar ao redor de Oliver distorceu pelo calor súbito. Partículas de Lux se condensaram, formando não agulhas, mas espadas de luz sólida, brilhando com uma intensidade que repeliu as sombras vorazes de Uzur.
Oliver abriu os olhos. Eles não eram apenas azuis. Eram duas pedras de safira incandescente. O símbolo máximo da linhagem Heka. A drenagem de mana parou. A luz de Oliver criou um santuário impenetrável, forçando a escuridão de Uzur a recuar.
Uzur travou. A máscara do Santo rachou. Ele encarou aqueles olhos. Por um breve instante, o homem mais poderoso do mundo parecia uma criança faminta olhando para um banquete que não podia tocar. “Ali estava,” pensou Uzur, o ódio contorcendo seu estômago. “A prova viva da injustiça genética. Os puros olhos safira desperdiçados no rosto de um inseto.”
— Que desperdício de sangue... — murmurou Uzur, a voz gélida.
Ele virou as costas, caminhou até a porta aberta. A chuva lá fora parava de cair por onde ele passava, as gotas desviando de sua presença sagrada. Matias o seguiu, passando por Oliver sem fazer som, caminhando em direção à igreja que agora era seu domínio.
— Isso não é um adeus, Filho de Callista — disse Uzur, sem olhar para trás.
Oliver desfez a magia. As lanças de luz se dissiparam em poeira dourada, mas o brilho safira em seus olhos permaneceu, queimando na penumbra.
— Vá embora, Filho de Nyx.
Uzur riu. Um som seco, curto. A névoa da tarde o envolveu e ele desapareceu na estrada cinzenta, deixando para trás um padre na igreja, uma mãe aterrorizada e uma vila condenada.