O vento uivava do lado de fora, chicoteando as árvores como um aviso. Lyra e Callan dormiam, exaustos pelo terror do dia anterior, mas Oliver permanecia em pé diante da janela. Seus olhos estavam vidrados na estrada escura, vigiando o nada, esperando que a silhueta de Uzur ou a água de Matias surgissem na neblina.
O brilho da lua iluminou sua face, revelando as linhas novas de preocupação que haviam surgido em horas. Ele olhou para as mãos trêmulas e as fechou em punhos. Ele precisava preparar Callan. A inocência havia morrido com Lucien; agora, restava a sobrevivência.
— Mãe… — sussurrou ele para a lua fria. — Até quando o sangue daquele homem vai nos envenenar?
A manhã chegou cinzenta. O sol parecia ter medo de sair das nuvens. A rotina de Callan começou cedo, mas diferente. Oliver anunciou uma "aula especial". Não houve café da manhã demorado, nem brincadeiras.
Eles desceram ao centro de Hindi. A vila parecia a mesma, mas o ar estava diferente. Oliver parou para conversar com um grupo de comerciantes sobre as taxas da estação. Callan observou o pai. A voz de Oliver era calma, cortês, e os comerciantes riam de suas piadas. Mas Callan, agora treinado pelo medo, viu o que ninguém mais via. Os comerciantes riam alto demais, olhando furtivamente para a igreja onde o novo Padre residia. E Oliver… Oliver sorria, mas sua mão esquerda nunca saía de perto da bainha da espada. A mana ao redor dele não fluía suavemente; ela crepitava, estalando como madeira seca prestes a pegar fogo. Ele não estava conversando. Ele estava avaliando ameaças.
As cobranças foram apenas o aquecimento. Oliver guiou o menino para a saída da vila, onde as árvores se fechavam.
— Agora, a verdadeira aula começa. Vamos para a floresta.
Enquanto caminhavam, Callan se adiantou, seus olhos de criança buscando distrações na severidade da floresta. Ele encontrou um formigueiro. Era uma cidadela de terra vermelha, pulsando com milhares de operárias.
Callan sorrateiramente se aproximou. Ele estendeu a mão direita e fechou os olhos, buscando a sensação que Zeth havia deixado em seu peito. Ele não sabia palavras. Ele só sabia querer. O calor saiu de seu coração, percorrendo os canais recém-abertos como água fervendo em canos novos. O fluxo encontrou seus dedos. Um sorriso travesso se formou no rosto dele.
Um feixe de luz desordenado, crepitando como estática, saiu de sua palma. Atingiu o formigueiro não como uma lanterna, mas como um maçarico descontrolado. As formigas entraram em pânico, suas trilhas de feromônios queimadas pela radiação. Callan riu, sentindo o poder vibrar em seu braço, e olhou para trás, esperando um elogio.
Mas Oliver não sorria. Seus olhos safira estavam fixos não no formigueiro, mas no pulso de Callan. Para Oliver, aquela cena doía. Não pela crueldade infantil com as formigas, mas porque ele via o que Callan não via: as veias do braço do garoto estavam pulsando, dilatadas e arroxeadas, lutando para conter a pressão da mana bruta.
Oliver se aproximou rápido, segurando o pulso do filho com firmeza, interrompendo o fluxo.
— Pare, Callan. — A voz dele não era de raiva, era de medo contido.
Os olhos do garoto se encheram de incerteza.
— Eu fiz errado? O Tio Zeth fez assim... Você faz assim...
Oliver suspirou, ajoelhando-se para ficar na altura do filho. Ele massageou o pulso de Callan, dissipando o excesso de calor.
— Nós fazemos assim porque nossos canais são estradas antigas e pavimentadas, Callan. Os seus... são trilhas de terra recém-abertas. Eles ainda são frágeis. — Oliver tocou o peito do menino, onde a cicatriz da cirurgia ainda estava fresca sob a roupa. — Quando você usa a magia em silêncio, você obriga seu corpo a fazer todo o trabalho de dar forma à energia. É como tentar segurar água com as mãos nuas. Você desperdiça força e machuca seus canais.
Callan olhou para as formigas queimadas, envergonhado.
— Então como eu faço?
— Você usa a Palavra. — Oliver ergueu a própria mão. Uma pequena esfera de luz se formou, perfeita e estável. — A palavra serve como um molde. Ela diz à mana qual forma tomar antes dela sair do seu corpo, tirando a pressão das suas veias.
Ele desfez a luz e olhou nos olhos verdes do filho.
— Nas próximas vezes, não empurre. Concentre-se, visualize o brilho e dê a ordem. Diga: Lux.
Callan abriu a boca para tentar, mas Oliver de repente ficou rígido. A mão do Lorde foi para a bainha. Não houve som de passos. Não houve galhos quebrados. Mas o instinto de guerra de Oliver, afiado pela paranoia dos últimos dias, gritou. Alguém estava perto. Perto demais.
— Sparths Lux! — Oliver não sussurrou; ele comandou. Diferente da aula gentil, desta vez a luz explodiu de suas costas não como uma esfera, mas como espadas de luz, girando ao redor dele e de Callan, iluminando cada sombra da floresta com uma violência defensiva.
Uma figura saiu de trás de um carvalho, a apenas cinco metros de distância. Mãos levantadas. Rosto descoberto. Sorriso plácido. Era apenas Carlo.
Oliver soltou o ar preso em seu peito, mas não desfez as espadas de luz imediatamente. Seus olhos se estreitaram. Carlo era um bom soldado, mas não era um assassino furtivo. Ele jamais deveria ter conseguido chegar a cinco metros de um Heka sem ser notado.
— Vejo que está sempre atento, Lorde — disse Carlo. Sua voz era calma.
Oliver desativou o feitiço lentamente, a luz se recolhendo.
— Você caminha silencioso demais para o seu próprio bem, Carlo.
O comandante deu de ombros.
— A floresta está úmida. O musgo abafa o som.
Mentira. Oliver sabia que era mentira. Ele virou-se para Callan e apontou para uma clareira mais afastada, onde a escuridão das copas era mais densa.
— Callan, vá até aquela árvore caída. Quero que pratique o que eu disse. Tente iluminar o tronco usando a palavra Lux. Não volte até conseguir uma luz estável.
Callan assentiu, sentindo a tensão no ar, e correu para longe. Oliver esperou o filho estar fora de alcance auditivo e voltou-se para o amigo. Ou para o que restava dele. Carlo evitava contato visual direto. Seus olhos varriam a floresta, mas suas mãos tremiam levemente ao lado do corpo. Havia algo errado. O cheiro de ozônio de Uzur parecia emanar dos poros do comandante.
— Carlo, Uzur conversou com você?
— Claro que não. — Ele soltou uma risada amarga, mas o som não alcançou seus olhos. — Alguém como o Santo Uzur nunca daria atenção a um plebeu como eu.
Oliver manteve o passo, mas seus músculos estavam tensos. O instinto gritava, mas ele precisava de uma confirmação. Algo que apenas o verdadeiro Carlo saberia ou sentiria.
— E como foi a semana na vila? — perguntou Oliver, casualmente. — Conseguiu adiantar os relatórios da fronteira?
— Ah, não tive tempo para a papelada. — Carlo coçou a nuca, um gesto que parecia ensaiado. — Os fazendeiros precisavam de ajuda nos estábulos. Passei os últimos dias carregando esterco para a plantação.
Oliver parou. Ele olhou para os olhos de Carlo. Ele estava normal, nenhuma cara de nojo, ou uma piada sobre seu estômago fraco. Carlo odiava o cheiro de esterco.
— Três dias nos estábulos? — Oliver forçou um sorriso, testando a água. — Deve ter sido um inferno. Você sempre disse que preferia lutar com um urso a limpar uma baia.
Carlo piscou. O sorriso em seu rosto não vacilou.
— Odiar? Claro que não. — A resposta saiu leve, automática. — Sempre gostei do trabalho honesto da terra.
O estômago de Oliver revirou. Carlo sempre foi esforçado, mas ele se tornou Comandante para fugir da fazenda da família. Sua boca não disse nada. Ele não acusou. Apenas estreitou os olhos, havia algo que o estava irritando desde o início da conversa.
— Entendo... — murmurou Oliver, a luz safira crepitando sutilmente na íris.— Carlo, olhe nos meus olhos.
O comandante obedeceu, ainda sorrindo aquele sorriso plástico. Um silêncio pesado caiu entre eles. Oliver viu o vazio por trás das pupilas do amigo.
AHHHHHHH!
O grito de Callan rasgou a floresta, quebrando o confronto silencioso. Oliver girou nos calcanhares, o horror de perder o filho superando o horror de ter perdido o amigo. Ele não estava no campo de visão. A mana dele havia sumido.
— Canes Lucis!
A luz explodiu, não como uma lanterna, mas como bestas famintas. Três formas quadrúpedes, feitas de puro brilho dourado e músculos de mana, emergiram do solo, rosnando sem som.
— Achem ele! — ordenou Oliver.
Os cães dispararam mata adentro. Oliver correu atrás deles, mas antes de sumir nas árvores, olhou uma última vez para trás. Carlo permanecia parado na trilha.
— Vamos, Carlo! Precisamos achar meu filho!
Momentos antes, enquanto Oliver travava seu duelo silencioso com Carlo, a atenção de Callan foi roubada. Uma fada solitária voava baixo por entre as raízes expostas. Callan sempre fora fascinado por elas. O brilho dourado pulsava em um ritmo hipnótico, deixando um rastro de pólen que cheirava a mel e flores silvestres.
Callan olhou para o pai e para o comandante. Ambos estavam sérios, o ar ao redor deles pesado e cinza. A fada, em contraste, era uma promessa de cor. Sem pensar, movido por um instinto infantil de buscar a beleza, Callan seguiu o rastro luminoso para dentro da mata fechada.
Sua presença atraía atenções silenciosas. O som da discussão de Oliver ficou para trás, substituído pelo farfalhar das folhas e o zumbido do éter. Callan inflou o peito, sentindo-se um aventureiro.
— Eu sou um explorador! — sussurrou para o musgo.
Um rosnado gorgolejante respondeu. O sorriso morreu. Um cheiro insuportável de carne podre e doce de leite azedo atingiu suas narinas. Ao se virar, viu saindo das sombras de uma raiz alta um par de olhos amarelados.
Era um lobo. Mas sua postura estava errada. Ele não se movia com a fluidez de um predador. Ele tinha espasmos rígidos, as patas batendo no chão com força desnecessária, como um boneco de madeira com as cordas emaranhadas. A mandíbula pendia frouxa, revelando dentes podres, mas o verdadeiro horror estava acima dos olhos. No topo da cabeça do lobo, cravada no crânio através da pele, estava a "fada".
De perto, a ilusão se desfez. O brilho não era magia; era uma secreção oleosa e bioluminescente. Suas asas não batiam; tremiam em espasmos nervosos. E de seu abdômen inchado, ferrões longos pulsavam, enterrados profundamente no cérebro exposto do animal. Uma Spacthel. Callan engoliu em seco. Ele tinha caído na armadilha.
As antenas da criatura parasita tremeram, e o lobo obedeceu instantaneamente, avançando um passo trôpego. Callan precisava reagir. O medo travava suas pernas, mas a lição de Oliver gritou em sua mente.
— Lux!
Não foi um feitiço controlado. Foi um disparo de pânico. A luz explodiu de seu peito, desordenada e quente, cegando momentaneamente os olhos amarelos do lobo. O recuo da magia jogou Callan para trás. Ele não esperou. Correu.
Ele corria sem rumo, tropeçando em raízes, o coração batendo na garganta. O som de patas pesadas e o zumbido de inseto vinham logo atrás. Callan bateu as costas contra um carvalho enorme. Beco sem saída. Ele deslizou até o chão, encurralado.
O Lobo-Spacthel surgiu dos arbustos, baba negra escorrendo da boca. A Spacthel no topo da cabeça brilhou em vermelho-sangue, pronta para abandonar o hospedeiro morto e pular para o novo: o menino. O lobo saltou. As garras podres a centímetros do rosto de Callan. O garoto fechou os olhos e gritou.
Uma voz rouca, vinda de cima, pronunciou uma única palavra.
— Velde.
Callan sentiu algo estranho. Não foi o calor da Mana. Foi um arrepio que percorreu seus ossos, como se a própria vida ao redor tivesse ficado mais densa.
Ele abriu um olho. O lobo parou no ar. Uma linha verde, pulsante e viva. Aquilo não era luz. Não era vento.
A linha desceu. O corpo maciço do lobo se dividiu em dois. A Spacthel foi partida ao meio antes mesmo de perceber que estava morta. As metades caíram, uma para cada lado de Callan, com um baque úmido. A energia verde não se dissipou como fumaça; ela recolheu-se de volta para a adaga do estranho.
De um galho alto, a figura saltou. Aterrissou sem fazer som algum. Era baixo, mais alto que Callan, tinha a postura de um veterano. Vestia roupas de couro surrado, cheias de bolsos, e uma capa que se misturava às folhas. Seus cabelos eram castanhos com mechas grisalhas, mas o que prendeu o olhar de Callan foram as orelhas: grandes e redondas.
— Criança estúpida — resmungou a criatura. A voz era rouca, com um sotaque antigo. — Quase virou adubo de Spacthel.
Callan tentou falar, mas a voz não saiu. Ele olhou para o lobo cortado e depois para o estranho.
— Vo... você... usou magia?
O ser de orelhas grandes revirou os olhos castanhos.
— Magia? — Ele cuspiu a palavra como se fosse um insulto. — Magia é coisa de quem precisa pedir emprestado o poder do mundo. O que eu uso é meu.
O ser caminhou até a carcaça. Ele tirou do bolso uma pequena pedra verde, coberta de runas brilhantes.
— Escute bem, filhote — disse ele, encarando Callan com severidade. — Você não viu nada.
Ele jogou a pedra no cadáver. Uma luz verde, fria e espiralada, engoliu o lobo e a fada morta. O vento rugiu em um vórtice rápido. Quando Callan piscou, protegendo os olhos da poeira, o vento cessou. O lobo sumiu. O sangue sumiu. E o andarilho sumiu.
Restava apenas Callan, encostado na árvore, sozinho com o silêncio da floresta e a certeza de que havia forças naquele mundo que nem seu pai, nem Uzur, conheciam.