Não houve glória no resgate. Apenas luz e pânico. Quando os Canes Lucis encontraram Callan, ele não sentiu alívio. O brilho intenso das bestas de mana o fez cobrir o rosto, lembrando do clarão descontrolado de seu próprio Lux. Ele se encolheu, esperando que a luz o queimasse.
Passos desesperados rasgaram a mata.
— Callan!
A voz de Lyra quebrou o transe. Antes que ele pudesse responder, ela atravessou a barreira dos cães e o envolveu. O cheiro de lavanda dela brigou com o cheiro de carne podre que impregnava as roupas do menino. Oliver chegou logo depois, pálido, com a espada em punho.
— Ele está ferido? — A voz do Lorde tremia.
O caminho de volta foi um borrão silencioso. Callan foi carregado no colo, mas sua mente ainda estava na clareira. Enquanto olhava por cima do ombro da mãe, entre as árvores, ele viu uma silhueta alta, vestida de preto. Uzur. O Santo sorriu e acenou. Callan piscou, e a figura sumiu.
Em casa, o banho quente não tirou o frio de seus ossos. Sentado na cama, Callan esfregava a ponta da bota esquerda com um pano.
— Já está limpo, filho — disse Lyra suavemente, entrando no quarto.
— Não está — sussurrou Callan, esfregando com força. Ele ainda via o sangue preto do lobo. Ele ainda sentia o peso da Spacthel em sua mente.
Após o banho, Lyra ficou ao lado dele até adormecer. Infelizmente a noite para ela estava apenas começando. Oliver queria conversar sobre Carlo, mas longe do quarto de Callan para que ele não escutasse.
Os pais conversavam no andar de baixo, vozes abafadas pela madeira. Mas no quarto, Callan acordou. Não foi um barulho. Foi um silêncio repentino. O zumbido dos insetos lá fora parou. Debaixo da cama, dentro da bolsa, algo pulsava. Um som rítmico, como um segundo coração, sincronizado com o sangue nas veias de Callan.
Ele se levantou, hipnotizado. Ao tocar na bolsa, o couro estava morno. Ele tirou o livro. Não havia faíscas. Havia apenas uma pressão no ar, uma densidade que fazia os pelos de seu braço se arrepiarem. Uma voz ressoou, não no quarto, mas direto no osso de seu crânio. Grave, antiga. “Callan…”
Ele abriu a capa. A luz não explodiu; ela escorreu das páginas como líquido prateado, iluminando o quarto com sombras distorcidas. No teto, o reflexo formou um símbolo colossal: Duas espadas cruzadas sob uma estrela de oito pontas.
Callan tocou o papel. O livro vibrou. Dessa vez, a voz mudou. Era feminina, sussurrada, cheia de urgência: “Descubra a verdade, Minha Serena.”
Callan prendeu a respiração. Ele virou a página. "Bestiário de Ardenya. Ass: Cynthia Vidran."
Ele virou a página para o sumário. O desenho que apareceu fez sua mente girar. Não era um mapa de reinos e fronteiras. Era um mapa vertical. Três ilhas colossais flutuando acima de um oceano de nuvens. Eredar: Filhos da Alma. Aureden: Filhos da Mana. Éden: Filhos da Criação. E lá embaixo, pequena e esquecida, uma esfera azul rotulada: Ardenya.
De repente, o livro foi arrancado de suas mãos. O vínculo quebrou. A luz se apagou. Callan engasgou, como se tivesse sido puxado de volta para a superfície após quase se afogar. Lyra estava parada diante dele. Ela não estava brava. Ela estava pálida. Os selos em seus braços, geralmente invisíveis, brilhavam em um violeta febril sob a pele, reagindo à proximidade do grimório.
— Onde... onde você conseguiu isso? — A voz dela falhou.
Callan tentou se explicar, gaguejando. Lyra olhou para o livro em suas mãos. Seus olhos varreram a capa, e ela o abriu involuntariamente, como se o objeto a chamasse também. Ela viu a assinatura.
— Cynthia… — O nome saiu como um gemido de dor.
Lyra fechou o livro com um estalo violento. Ela olhou para Callan, e pela primeira vez, o menino viu medo real nos olhos da mãe.
— Mãe…? O que é Éden? Quem é Cynthia?
— Nunca mais repita esse nome. — Lyra jogou o livro na bolsa e a fechou, empurrando-a para o fundo do armário.
Ela se virou para Callan, segurando os ombros do filho com força excessiva. Lyra quase gritou, mas logo cobriu a boca, percebendo o descontrole. Lyra abraçou Callan. Não foi um abraço quente; ela tremia.
— Vá dormir, Callan. Por favor. Esqueça esse livro…
Callan deitou-se, mas não fechou os olhos. Ele viu a mãe sair do quarto levando a bolsa. Ele sabia que ela não iria destruir o livro.
Naquela noite, Callan não dormiu. Ele ficou olhando para o teto escuro, onde minutos antes, uma estrela de oito pontas havia lhe mostrado que o mundo era uma mentira.
E então, ao amanhecer, o sino da guerra tocou.
— Um pedido de socorro... — disse Oliver, entre um fôlego e outro. — Castedus está sob ataque! Aryehd rompeu o tratado.
Aquelas palavras ecoaram nos ouvidos de Lyra. O peso que se instalou na sala foi como se uma bigorna fosse colocada em suas costas. Sem mais palavras, Oliver se aproximou e abraçou Lyra com força, um abraço de quem guarda o cheiro de alguém na memória antes de partir para o inferno. Lyra, com o coração apertado, observou-o desaparecer pela porta, correndo para organizar as defesas. Segundos depois, ela também saiu para assumir seu posto como a Lady de Hindi.
A casa ficou em silêncio. Mas do lado de fora, o som dos soldados marchando para além de Hindi tomava conta do mundo. Callan viu pela janela filhos abraçando seus pais, esposas beijando seus maridos, uma despedida coletiva banhada em medo.
Seus olhos, no entanto, desviaram para a floresta escura. Ela estava lá, imóvel, intacta. “Foi ele...” pensou Callan, a imagem do Andarilho de orelhas grandes vindo à mente. Aquele ser que usava um poder que não era mana.
A culpa pesou em seu estômago como chumbo derretido. Ele achou o livro ontem. Ele abriu o livro hoje. E agora, a guerra começou. “Eu trouxe isso”, pensou ele, as mãos tremendo.” O livro é um ímã. Se ele ficar aqui, a mamãe vai morrer. O papai vai morrer.”
Callan olhou para a mesa. A bolsa de couro onde Lyra escondera o Bestiário de Ardenya estava entreaberta. O couro envelhecido parecia chamá-lo, pulsando naquele ritmo proibido. Sua mente fervilhava. Ele precisava agir. Oliver estava marchando para a morte, e Callan não ficaria sentado esperando o destino bater à porta. Ele precisava de respostas. E só havia uma pessoa na floresta que parecia saber mais do que os adultos de Hindi. O Andarilho.
Seus dedos soltaram a cortina. Ele caminhou até a mesa com uma determinação que não pertencia a uma criança de oito anos. Pegou o livro proibido e o enfiou em sua pequena bolsa de viagem, junto com um cantil e o resto do pão do café da manhã. Vestiu sua capa verde.
O coração batia descompassado, sincronizado com a marcha distante dos soldados. Callan respirou fundo, olhou uma última vez para a segurança do lar que estava abandonando, e se moveu para a janela dos fundos.
— Eu vou consertar isso, pai — sussurrou para o quarto vazio.
Ele abriu a janela e pulou para a grama úmida. Enquanto Hindi se preparava para a guerra contra o Império Real de Aryehd, o pequeno Heka corria em direção à escuridão da floresta, buscando o único monstro que talvez pudesse explicar por que o mundo estava acabando.