O som da marcha dos soldados ecoava pela floresta. Oliver marchava em direção a Hirje, ao seu lado Carlo observava o horizonte.
Hirje estava em pedaços, não havia sobrado nada do pequeno vilarejo. Oliver engoliu seco, ordenou seus homens procurarem por sobreviventes, foi quando o ar ficou amargo.
Tudo ficou vermelho, então o cheiro de enxofre se expandiu. Os olhos de Oliver se arregalaram.
—Firmamentum lucis!
A luz irradiou em forma de cúpula para os soldados próximos, mas era tarde demais. Uma explosão consumiu tudo.
Uma coluna de fumaça titânica se expandiu para as nuvens, o branco e azul sendo pintados de um vermelho antinatural. Callan que corria pela floresta olhou para o céu, vendo entre a copa das árvores a fumaça da destruição.
Seu peito se apertou, aquilo era culpa dele, e ele iria resolver. Então seu ouvido zumbiu, não como as outras vezes, era intenso, tão forte que parecia o rugido do Leão.
Ele não podia parar, ele precisava encontrar o Andarilho. Uma clareira se abriu na floresta, a luz do sol iluminava tudo ao redor, a brisa fresca do ar trouxe alívio ao corpo cansado, mas então a visão.
Diante de Callan, o chão simplesmente terminava. Não era uma vala, nem uma cratera. Era um abismo.
Suas pernas cessaram a corrida antes que fosse tarde demais. O Zumbido em seu ouvido parecia gritar ao ver aquela entrada, ele sentia como se aquilo não fosse seu mundo, quase como um portal.
— Se você tivesse continuado — disse uma voz misteriosa, mas familiar. — a queda seria longa.
O garoto se virou assustado. Encostado em uma rocha estava ele, o Andarilho. Ele ainda vestia as mesmas roupas. O nariz engraçado e as orelhas redondas se destacavam, mas agora Callan podia enxergar com mais clareza. Definitivamente não era humano.
— Quanto tempo você pretende ficar me encarando, pequeno humano?
Callan balançou a cabeça, ele não poderia perder o foco.
— Eu preciso de sua ajuda! — gritou o menino, apertando sua bolsa contra si. — O Império está invadindo Hindi e meu papai está nos protegendo.
O andarilho olhou o garoto de cima para baixo, o desespero nos olhos e a insegurança na voz eram armadilhas que ele bem conhecia.
— Pequeno humano… eu sinto muito, mas não posso me envolver nas suas guerras.
As palavras foram como pedras jogadas ao mar, elas afundaram a esperança de Callan. Ele apertou a bolsa, sentindo o livro escondido.
— Por favor! Você é forte, eu vi! Você me salvou! Por favor, salva o meu papai!
— As coisas não são tão fáceis como você pensa… — O andarilho se afastou da rocha. — Eu não te salvei, apenas me livrei de uma praga.
— Mentira! — gritou Callan. — É tudo culpa minha! Aryehd está atrás de mim, atrás do que eu carrego.
Um riso de zombaria surgiu no rosto do Andarilho, mas antes que pudesse caçoá-lo pela prepotência, a risada morreu em sua garganta quando o garoto ergueu um livro. “O Bestiário…” Pensou o Andarilho.
Callan sorriu, ele notou como a expressão daquele homem havia mudado. Ele ergueu o livro.
— É tudo culpa desse livro. Aryehd atacou depois que eu comecei ler. — Os olhos se encheram de lágrimas. — Eu quero me livrar dele.
Callan ameaçou lançá-lo pela escuridão do abismo, para o Andarilho, foi como um pedaço sendo retirado dele.
— Não faça isso! — Em segundos o Andarilho atravessou a distância e agarrou o livro com as duas mãos. — Você não faz ideia do que carrega! Não posso deixar você jogar o legado dela dessa forma.
— Então me ajude! Por favor! — implorou Callan.
As mãos calejadas do Andarilho passaram pelo livro, um misto de nostalgia e culpa tomou conta dele. Esse livro pertencia a um fragmento do seu passado, pertencia aquela mulher, e agora estava nas mãos desse garoto.
— Não é tão fácil assim… Não posso simplesmente me revelar.
Callan abaixou a visão, ela se distorcia pelas lágrimas que se formavam. Seu pai estava em uma guerra, e alguém que poderia salvar se recusava.
— Qual o sentido de ser forte e não proteger?!
Aquelas palavras foram quase uma ofensa ao Andarilho, ele apertou o livro. Um misto de memórias vindo a sua mente.
— Não vá por esse caminho. — A voz soou fria, afiada como uma adaga. — Você não conhece nem a sombra do que eu vivi.
O Andarilho entregou o livro nas mãos do garoto, virando-se de costas, o silêncio era a única coisa que restava para Callan. O silencio e esse maldito bestiario. Ele sentiu o gosto amargo em sua boca crescer, o zumbido então se calou.
Foram segundos de puro silêncio, mas então grunhidos. Dezenas de aves voavam para dentro do precipício, elas estavam fugindo, se escondendo.
— O que…
O som de trombetas ecoou, junto aos de tambores e uma marcha. O Andarilho paralisou, ele olhou para o garoto, o peito se apertou. Ele não poderia abandoná-lo dessa forma.
— Pequeno humano, me escute. — O Andarilho caminhou até ele. — Eu protegerei a floresta, se tudo der errado, grite por mim.
— Qual… qual é seu nome?
— Key Aychuor. Agora vá! Antes que seja tarde demais!
O som voltou a ecoar. Callan levou as mãos aos ouvidos, junto ao som da guerra, o rugido do Leão ecoava como uma sentença. À sua frente o Andarilho havia desaparecido, deixando apenas um brilho verde e estilhaços de pedra no chão.
As trombetas tocavam por toda floresta. Callan corria em meio a galhos e raízes tentando se encontrar. Ele olhava para os lados e tudo parecia igual, não importava em qual direção ele olhasse, eram sempre as mesmas árvores.
Ele cambaleou até uma colina, sua barriga se embrulhou até chegar no momento crítico. O gosto amargo subiu por sua garganta, até sair por sua boca. Ele estava vomitando.
Após vomitar, o barulho finalmente havia cessado. Ele se ergueu, finalmente enxergando o caminho de volta. O sol iluminava a estrada, e um sorriso surgiu em seu rosto.
Do horizonte, a praga se revelou. Primeiro os estandartes: um tecido cinza, rasgado, ostentando uma Árvore Morta com raízes de osso. Depois, os soldados. Não eram as linhas douradas e disciplinadas de Oliver. Era uma horda. Armaduras enferrujadas rangiam. Homens com pinturas de guerra cobrindo o rosto uivavam, batendo espadas denteadas contra escudos roubados. Eles não vinham do Norte, onde Oliver lutava. Eles vinham do Leste.