Callan corria, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. Atrás dele, no horizonte norte, uma coluna de fumaça titânica perfurava as nuvens. O céu sangrava um vermelho doentio. Oliver estava lá. Ou estava. A lógica fria sussurrava na mente do menino: Ninguém sobrevive àquilo.
O sino de Hindi tocou. Um som quebrado, estridente. Quando Callan rompeu a linha das árvores, o ar fugiu de seus pulmões. Não havia mais vila. Havia apenas o inferno. A Árvore Morta estava lá. Mercenários com armaduras de ossos e ferrugem rasgavam a vila como cães famintos.
Callan tentou correr para sua casa, mas um vulto bloqueou seu caminho. Um mercenário ergueu um martelo sujo.
— Olha só, um filhote...
Antes que o golpe descesse, uma mão enluvada em tecido branco segurou o cabo do martelo.
— O que eu disse sobre a disciplina? — A voz do Padre Matias era gelo seco.
Matias soltou o martelo e olhou para Callan com a frieza de um contador avaliando um ativo.
— Venha, Callan. A igreja é neutra. Você estará seguro lá até... a poeira baixar.
— Não! — gritou Callan, vendo Matias não como um salvador, mas como o carcereiro de Uzur.
Antes que Matias pudesse reagir, uma explosão de Trevas varreu a praça. Não eram sombras tímidas. Era uma massa física, pesada e violenta, que jogou três mercenários contra as paredes como bonecos de pano. Na varanda da mansão Heka, Lyra estava de pé. Seus braços, livres das mangas rasgadas, brilhavam com runas violetas que queimavam sua pele.
— MÃE! — Callan correu, desviando de Matias.
Lyra viu o filho. O medo cruzou seus olhos.
— Scutum Tenebris! — Uma cúpula de escuridão sólida envolveu Callan. Ele estava seguro, mas preso.
Foi então que as palmas ecoaram. O mar de soldados se abriu. Um homem usando um elmo de crânio de lobo caminhou até a frente. Dake. Ele girou uma lança negra nas mãos e sorriu ao ver Lyra.
— Foram anos procurando... — Dake balançou a cabeça. — E é justamente aqui, criando galinhas, que eu te encontro?
— Quem é você? Do que está falando? — Lyra franziu a testa, a respiração pesada.
— Ah, a ironia. Você nem sabe o que é, não é? — Dake se preparou para atacar.
Lyra não esperou. Seus olhos esmeralda brilharam.
— Columnae Noctis!
Do chão, um pilar maciço de matéria escura ergueu-se instantaneamente sob os pés de Dake. O som de ossos quebrando foi audível. O corpo de Dake foi esmagado, transformado em uma pasta disforme no chão. Callan arregalou os olhos. Ela venceu.
Mas Lyra não relaxou. Ela olhou para a "pasta" no chão. O corpo de Dake se dissolveu em fumaça negra. Não era sangue. Era Sombra.
— Magia das Sombras... — sussurrou Lyra
Uma ondulação surgiu na sombra projetada pela própria Lyra. Dake emergiu das costas dela, silencioso como um pesadelo.
— MÃE! — Callan esmurrou a parede de sua prisão.
— O Império agradece a devolução — zombou ele, preparando o golpe final em uma Lyra distraída.
Foi então que o som veio. Não um trovão divino, mas um impacto surdo e pesado. Um borrão de luz safira colidiu contra Dake, arremessando o assassino contra a parede de uma casa em chamas.
Oliver havia chegado. Mas não era o Lorde imponente que Callan conhecia. A armadura de Oliver estava derretida no lado esquerdo. Seu rosto estava coberto de fuligem e sangue seco. Ele respirava com dificuldade, um chiado úmido vindo de seu peito, resultado da explosão à queima-roupa em Hirje. Ele mal conseguia ficar em pé.
— Oliver... — Lyra sussurrou, o alívio lavando seu rosto.
— Eu... estou aqui... — Oliver ergueu a espada, mas sua mão tremia. A luz safira em seus olhos oscilava, fraca como uma vela ao vento.
Dake levantou-se dos escombros, limpando a poeira do ombro. Ele olhou para Oliver e sorriu.
— O grande Lorde Heka. — Dake riu. — Você parece um cão que foi chutado, Oliver. O bombardeio em Hirje não foi o suficiente?
Oliver rosnou e avançou.
— Lux!
Ele tentou disparar um feixe de luz, mas a magia falhou, saindo apenas como faíscas inofensivas. Seus canais de mana estavam sobrecarregados pela defesa anterior. Ele foi para o combate físico. Oliver e Lyra lutaram juntos. Luz enfraquecida e Trevas instáveis. Eles dançavam entre os mercenários, protegendo um ao outro. Callan assistia, o coração na boca. Eles vão conseguir. O papai e a mamãe são invencíveis.
Mas Dake era um observador cruel. Ele viu. Ele viu que Oliver estava lento. Viu que a perna esquerda do Lorde falhava a cada passo.
— O elo mais fraco... — murmurou o assassino.
Dake se dissolveu em sombras. Lyra girou, criando uma parede de trevas.
— Oliver! Atrás de você!
Mas Oliver estava tonto pela perda de sangue. Ele virou devagar demais. Dake surgiu das costas de Oliver, a lança negra visando o pescoço exposto do Lorde. Oliver não tinha tempo de bloquear. Ele ia morrer.
— NÃO!
Lyra não pensou. Ela não usou magia. Ela usou o corpo. Ela se jogou na frente do marido.
O som parou o mundo. A lança de Dake não atingiu Oliver. Ela atravessou o peito de Lyra. A ponta negra, brilhando com runas anti-magia, parou a centímetros do rosto de Oliver.
Oliver travou. O sangue da esposa espirrou em sua armadura quebrada. Lyra engasgou, segurando a haste da lança.
— Pegue... o Callan... — ela sussurrou, sangue piche escorrendo pela boca.
Dake sorriu, soltando a lança, deixando Lyra cair nos braços do marido exausto.
— O amor é uma fraqueza tática fascinante — disse o assassino.
Oliver segurou Lyra. Ele olhou para o ferimento. Olhou para Dake. Algo quebrou dentro dele. Não foi um osso. Foi a alma.
— Você... — A voz de Oliver não era humana. Seus olhos, antes oscilantes, explodiram em um brilho branco-azulado cegante..
Oliver estendeu a mão para Dake.
— JUDICIUM.
Não houve feixe de luz. A gravidade ao redor de Dake simplesmente inverteu e colapsou sob pressão de luz sólida. O assassino foi esmagado instantaneamente, transformado em uma mancha no chão antes mesmo de poder gritar.
Mas a vitória era vazia. Oliver caiu de joelhos, a luz se apagando, segurando o corpo inerte de Lyra. Ele tentou curar.
— Lux... Lux... por favor...
Mas as Trevas de Lyra, agora sem controle, rejeitavam a Luz dele. Lyra olhou para a cúpula onde Callan estava preso. Ela sorriu, lágrimas de sangue escorrendo, misturando-se à fuligem no rosto de Oliver.
— Eu te amo... meu pequeno explorador.
A luz nos olhos esmeralda se apagou. A mão dela caiu inerte na lama.
O som foi de vidro se partindo no inverno. A cúpula de sombras ao redor de Callan trincou. Mas, diferentemente de outras magias que se dissipam no ar quando o mago morre, aquela escuridão não se desfez. Ela ficou pesada, densa, como se tivesse ganhado vontade própria.
Do ferimento no peito de Lyra, uma pequena esfera de luz violeta, pulsante e fraca, desprendeu-se. Era o último suspiro de sua mana, a essência do que ela era. A orbe flutuou lentamente, ignorando o caos e o fogo ao redor, e subiu em direção aos fragmentos da cúpula quebrada. Sombra e Luz Violeta se fundiram no ar, transformando-se em uma neblina fria e silenciosa.
Callan, de joelhos, estendeu a mão para a mãe, chorando. A neblina não se dissipou com o vento. Ela girou, como uma galáxia em miniatura, e desceu sobre o menino. Não houve impacto. A névoa o envolveu suavemente, contornando seus ombros, acariciando seu rosto molhado de lágrimas.
Era um toque gélido, mas estranhamente familiar. Era o frio de um porão seguro, de uma noite sem estrelas onde nada pode te encontrar.
A sombra pressionou-se contra o peito de Callan. Ele engasgou, sentindo o ar sair de seus pulmões. Callan caiu para frente, as mãos no peito, suas lágrimas se misturando com a lama.
Oliver ficou estático. O grito que ele queria dar morreu na garganta. Ele olhou para as próprias mãos. Elas tremiam. Elas estavam cobertas com o sangue de Lyra. O sangue que ele jurou proteger.
Dentro de seu peito, o coração mágico começou a bater descompassado. Oliver fechou os olhos. A dor da perda era insuportável. Ele se levantou. Seu corpo protestou. Ossos estalaram, músculos rompidos gritaram. Mas ele forçou.
— O Lorde está ferido! Matem ele! — gritou um mercenário, avançando.
A mana de Oliver explodiu de seu corpo. Não era um fluxo controlado; era uma barragem rompida. Veias douradas saltaram em seu pescoço e braços. A pele de Oliver começou a rachar, incapaz de conter a densidade da Luz. Seus canais de mana estavam fritando.
O mercenário que avançava parou. A gravidade ao redor dele aumentou. A luz sólida pressionou seus ombros. As pernas do homem quebraram. Ele caiu de joelhos, gritando.
A luz ao redor de Oliver tornou-se física. Partículas douradas flutuavam como poeira estelar. O exército recuou. Eles viram. Aquele homem não estava lutando para sobreviver. Ele estava lutando para morrer e levar o mundo junto.