O sol nascia, ele não trouxe calor, apenas luz para iluminar o cemitério que Hindi se tornara. A névoa negra que envolvia Callan finalmente se assentou dentro dele. Callan abriu os olhos. Não havia telhados. Não havia Hindi. Havia apenas destruição.
Seus olhos vagaram pela cratera até encontrarem o centro de tudo. Ali estava Oliver. Ele não se movia. Seus braços seguravam o corpo de Lyra.
Callan tentou gritar, mas a garganta estava seca. Ele se arrastou até o pai.
— Pai…
Oliver virou o rosto lentamente. Seus olhos, antes safiras vivas, estavam foscos, focados em um ponto que não existia. O Juiz não estava lá. Havia apenas um homem destruído.
Callan abraçou o pescoço do pai. A pele de Oliver estava fervendo.
— Pai… a mamãe…
Oliver tentou falar. Sua boca se abriu, mas apenas um chiado saiu. Ele tentou levantar a mão para tocar as costas de Callan, mas seus dedos tremiam incontrolavelmente. Ele não tinha forças para segurar o próprio filho. Eles ficaram ali, abraçados sobre as cinzas de Lyra. O homem que venceu a guerra, mas perdeu a vida.
Foi então que o silêncio foi quebrado. O som de rodas esmagando escombros. Oliver tentou se levantar. Seu instinto gritou perigo. Ele tentou invocar sua espada, mas ela não veio. Suas pernas falharam e ele caiu de volta nos joelhos, tossindo sangue dourado. Ele havia perdido para Aryehd. E agora, estava vulnerável a qualquer coisa que viesse.
Três carruagens negras, impecáveis, surgiram na borda da cratera. Não tinham fuligem, não tinham arranhões. Eram a imagem da ordem no meio do caos. Na porta da carruagem principal, brilhava o brasão que Callan vira no livro proibido: Duas espadas cruzadas sob uma estrela de oito pontas.
Oliver tentou se levantar quando as portas das carruagens se abriram, mas suas pernas não responderam. Da carruagem principal, desceu um homem alto e robusto. Ele não tinha a aura arrogante dos nobres de Castedus. Tinha cabelos pretos, pele curtida de sol e olhos castanhos. Usava um terno militar impecável, mas carregava a espada com a praticidade de quem já lutou em trincheiras, não em torneios. Logo atrás, desceu uma mulher. Ela era o oposto: pele pálida, luvas de seda e olhos Azul Cobalto. A nobreza corria em seu sangue. Rosa Vidran.
Luque Vidran caminhou até Oliver. Ele não sacou a espada. Ele ignorou os guardas de Hindi que tentavam bloquear o caminho. Ele parou diante do Lorde Heka e, para surpresa de todos, fez uma reverência respeitosa.
— Lorde Oliver — a voz de Luque era grave e calma. — Eu sou Luque Vidran. E de forma alguma esperávamos ver isso… o que aconteceu aqui?
Oliver tentou falar. Ele queria defender sua cidade, mas seu corpo era uma gaiola quebrada.
— Aryehd…— Oliver sussurrou, cada palavra um esforço agônico. — Eles atacaram.
Luque olhou para o espaço vazio nos braços de Oliver, onde o corpo de Lyra estivera momentos antes de ser levado pelos médicos.
— Castedus não deixará isso impune, eu garanto isso. — disse Luque, suavemente.
Rosa Vidran, que mantinha a postura rígida de uma dama, levou a mão à boca. O choque em seus olhos azuis foi genuíno.
— Lyra... — ela sussurrou, a máscara de nobreza caindo por um segundo.
Luque estendeu a mão. Não para um aperto formal, mas para ajudar Oliver a se levantar. Oliver olhou para aquela mão. Ele não tinha escolha. Ele aceitou a ajuda.
Callan, observando tudo atrás dos escombros de uma parede caída, sentiu o pânico subir. Seu pai, o homem mais forte do mundo, estava sendo carregado como um inválido. Estranhos de preto estavam tomando sua casa. Sua mãe estava morta. O instinto de sobrevivência, misturado com o trauma, gritou: Fuja. Hindi não era mais um lar. Era um cemitério. Callan virou as costas para a cena patética de seu pai e correu em direção à única coisa que parecia viva: a floresta.
Dentro da terceira carruagem, olhos atentos observavam. Uma garota de cabelos escuros e curtos, vestida com um uniforme que parecia caro demais para uma criança, brincava com uma moeda entre os dedos. A moeda girava, impulsionada por pequenos arcos de eletricidade estática. Ela viu o garoto correndo. Viu a mana instável dele, uma mistura caótica de Luz e algo mais escuro.
— Mãe? — A voz da garota era entediada, cortando o ar tenso.
Rosa olhou para a carruagem.
— Sim, Herdeira Glas? — O tom de Rosa mudou. Não era autoridade materna; era deferência.
Glas apontou um dedo enluvado para a linha das árvores.
— O pequeno Heka está fugindo.
Rosa, ainda abalada pela notícia de Lyra, olhou para a filha.
— Traga-o de volta, Glas. Sem machucar. Ele tem o sangue dela.
Glas suspirou, guardando a moeda no bolso.
— "Sem machucar" é tão vago…
Ela abriu a porta e desceu. Ela olhou para a floresta densa. O garoto já tinha sumido, mas o rastro de mana que ele deixava era tão óbvio para ela quanto uma estrada pavimentada.
— Heka… — Glas murmurou, um sorriso de predador curvando seus lábios. — Vamos ver se você vale o nome que carrega.
A floresta girava. O som de galhos quebrando sob seus pés não era apenas ruído; era acusação. “Se eu tivesse ficado… Se eu não tivesse aberto o livro… Se eu fosse forte…” A imagem de Lyra com o peito perfurado estava carimbada na retina de Callan. Não importava o quanto ele corresse, a morte dela corria junto, de mãos dadas com ele.
O chão sob suas botas cedeu. Não foi um tropeço. Foi a terra engolindo-o. Callan caiu em uma escuridão súbita. O ar assobiou em seus ouvidos. O impacto não veio de baixo, mas do pescoço. Sua capa verde prendeu-se em uma raiz exposta na parede do buraco. O tecido resistente tornou-se uma forca.
O corpo de Callan bateu contra a parede de terra, mas seu pescoço ficou preso. Ele tentou gritar, mas a traqueia estava esmagada. Suas mãos arranharam o tecido, as pernas chutando o vazio desesperadamente.
Sua visão, antes focada no medo, começou a pontilhar de preto. O pânico deu lugar a um frio absoluto. Os braços caíram inertes ao lado do corpo.
Então, o preto mudou. Não havia dor. Não havia chão. Havia apenas um silêncio infinito e confortável. Nesse vazio, três orbes surgiram, orbitando o nada onde Callan existia. Uma esfera de Luz Branca, instável e quente. Uma esfera de Trevas Violetas, densa e fria. E uma terceira esfera, Verde Esmeralda, pulsando com uma vida antiga que ele não compreendia.
Elas giravam em harmonia, esperando. Então, uma vibração profunda, que não era som, mas vontade pura, estremeceu o vazio. “AINDA NÃO.” O Leão rugiu. Não na floresta, mas na alma.
O ar invadiu os pulmões de Callan como facas de gelo. Seus olhos se abriram. Ele não estava pendurado. Estava deitado na grama, na superfície. Ele tossiu violentamente, segurando o pescoço dolorido, o corpo tremendo com o choque da quase morte. As lágrimas escorriam sem controle. Ele estava vivo, mas sentia que uma parte dele havia ficado naquele buraco.
Callan se arrastou até a borda da armadilha. Lá embaixo, na escuridão de onde ele fora puxado, não havia apenas raízes. Havia corpos. Dezenas deles. Mercenários da Árvore Morta, perfurados por estacas de madeira ou esmagados por raízes. A floresta os havia devorado.
— Eu avisei para ficar longe — disse uma voz rouca, vinda de cima.
Callan olhou para cima. Empoleirado em um galho, balançando as pernas curtas, estava Key Aychuor. O Andarilho não parecia um herói. Parecia cansado.
— O-obrigado… — a voz de Callan era um chiado. — Você… me salvou.
Key desceu do galho com um salto leve. Ele olhou para o pescoço marcado do garoto e depois para o buraco cheio de cadáveres.
— Eu limpei o lixo, como prometi. — Key tirou uma pedra azulada da bolsa e a jogou no buraco. Ao tocar o fundo, a terra tremeu e a boca do poço se fechou, selando os mortos para sempre. — A floresta está cheia de dentes, filhote. E hoje, ela quase engoliu você.
Key se aproximou. Ele viu o tremor incontrolável nas mãos de Callan. A dor do menino era tão palpável que fazia as orelhas do Andarilho baixarem. Por um momento, a postura ranzinza de Key quebrou. Ele suspirou e colocou a mão grande e áspera na cabeça de Callan.
— Respire — disse Key, num tom estranhamente gentil. — A morte cuspiu você de volta. Faça valer a pena.
De repente, as orelhas de Key giraram. Ele se endireitou, o olhar ficando afiado. O ar ao redor deles ficou estático. Os pelos do braço de Callan se arrepiaram. Cheiro de ozônio e espelhos.
— Vidran — Key cuspiu o nome. — Eles são rápidos.
O Andarilho recolheu a mão.
— Não posso ser visto aqui… nos veremos de novo.
Key tirou uma pedra verde da bolsa e a jogou no chão. O vento girou, e Key Aychuor desapareceu nas folhas, deixando Callan sozinho novamente, trêmulo, enquanto passos elétricos se aproximavam.
O silêncio da floresta era pesado, quebrado apenas pela respiração irregular de Callan. De repente, a bolsa em seu ombro vibrou. O Livro Proibido parecia reagir a algo próximo. Antes que Callan pudesse entender, o mundo ao seu redor se fechou.
— Carcere Speculorum.
Não houve aviso. Paredes surgiram do nada, não de pedra ou madeira, mas de luz sólida e reflexiva. Callan estava preso em um cubo perfeito de espelhos. O pânico, ainda fresco de sua quase morte no buraco, tomou conta. Ele gritou e socou o reflexo à sua frente.
A dor explodiu em seu rosto. O espelho não quebrou; ele refletiu a energia cinética. A força do soco de Callan voltou multiplicada contra seu próprio nariz, jogando-o para trás.
Do lado de fora, passos calmos e ritmados amassavam a grama.
— Tsc. Fofo… mas bruto e sem técnica. — Uma voz feminina, carregada de tédio, ecoou por todos os lados. Um estalo de dedos cortou o ar. A prisão de espelhos se estilhaçou em milhares de fragmentos de luz que desapareceram antes de tocar o chão.
Diante de Callan, parada com uma postura impecável, estava ela. Ela parecia ter uns três anos a mais que ele, mas a aura que emanava era de um veterano. Usava um uniforme militar sob medida, azul-noite com detalhes pretos, limpo demais para uma zona de guerra. Seus cabelos eram negros como asa de corvo, cortados em um chanel preciso, mas eram os olhos que prendiam Callan. Azul Cobalto. Elétricos, intensos e frios. Eram olhos que viam através dele.
— Prazer — disse ela, sem estender a mão. — Sou a Herdeira da casa Vidran, Glas Vidran.
Callan encolheu-se contra o tronco de uma árvore, limpando o sangue do nariz. Ele nunca tinha visto magia assim. Espelhos que batem de volta?
— Eu… me chamo Callan… Callan Heka.
Glas ergueu uma sobrancelha, analisando-o de cima a baixo como quem avalia um cavalo manco.
— Um Heka? Com esses olhos? — Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele. — Um Heka sem a Safira nos olhos é como um cavaleiro sem espada. Uma falha genética, suponho.
Callan baixou a cabeça, a vergonha queimando suas orelhas. Glas ignorou a reação. Ela olhou ao redor, os olhos brilhando levemente enquanto escaneava a mana residual.
— Havia mais alguém aqui? — A voz dela ficou afiada.
Callan negou com a cabeça rápido demais. Key. Ela não pode saber do Key.
— Não… eu estava sozinho. Caí… caí num buraco.
Glas estreitou os olhos. Ela sabia que ele mentia, mas a mentira de uma criança fraca não era sua prioridade. Ela se inclinou mais perto. Callan prendeu a respiração. Ela era bonita, de um jeito assustador e intocável. O cheiro dela invadiu o nariz dele, não era cheiro de floresta, mas de ozônio misturado com um perfume doce de lavanda cara.
— Você fede a morte e terra — disse Glas, torcendo o nariz e se afastando. — E a minha mãe quer você inteiro. Vamos.
Callan tentou recuar, agarrando a alça da bolsa, mas Glas era impaciente. Quando Callan tentou correr, ela não correu atrás. Ela apenas apontou o dedo indicador. Um arco de eletricidade azul saltou da ponta do dedo dela e se conectou ao pulso de Callan, formando uma algema de energia crepitante.
Callan gritou, não de dor, mas de susto. A corrente não queimava, mas paralisava seus músculos se ele tentasse se afastar mais de dois metros dela.
— Magia de Raio… e Espelho? — Callan sussurrou, os olhos arregalados. Nem Oliver, nem Uzur tinham duas afinidades tão distintas.
— Agora ande. Hindi está esperando, e eu odeio deixar minha mãe esperando.
Quando retornaram à cratera de Hindi, Glas não soltou a "coleira" elétrica até estarem diante da carruagem principal. Rosa Vidran estava lá, supervisionando a limpeza dos escombros com um lenço pressionado contra o nariz.
Quando viu a filha arrastando o menino sujo, ela suspirou aliviada. Glas desativou a magia com um estalo. Callan caiu de joelhos, exausto.
— Pacote entregue, mãe. — Glas limpou a luva, como se a mana de Callan fosse contagiosa. — Ele tenta fugir. Tem instintos de coelho.
Rosa sorriu, um sorriso triste, e se aproximou. Ela se abaixou, ignorando a sujeira nas roupas do garoto, e estendeu a mão para tocar o rosto dele. Callan recuou bruscamente, batendo as costas na roda da carruagem. Ele não queria toque. Ele queria seu pai.
Uma descarga elétrica curta, mas dolorosa, atingiu o ombro de Callan. Ele gritou, segurando o braço. Glas estava parada atrás dele, faíscas azuis dançando entre os dedos. Rosa olhou para a filha com reprovação, mas não a impediu.
A mulher voltou-se para Callan. Dessa vez, ela não tentou tocá-lo, apenas o observou com intensidade.
— Você tem os olhos dela… — sussurrou Rosa. — A mesma teimosia no olhar.
— Minha… mãe? — A voz de Callan falhou.
O rosto abatido de Rosa se iluminou com uma nostalgia dolorosa.
— Sim. Lyra e eu… nós dividimos segredos antes de dividirmos caminhos. Ela era a única que entendia o peso de carregar certas… heranças.
Rosa fechou a expressão, a máscara de nobre voltando ao lugar. Ela engoliu o passado e segurou a mão de Callan com firmeza. Dessa vez, ele não recuou, paralisado pelo medo de levar outro choque de Glas.
— Venha, Callan. — A voz de Rosa ficou séria. — Há algo que você precisa ver. Não é bonito, mas é necessário.
Ela começou a guiá-lo em direção ao centro da praça. Callan olhava para os lados, buscando ajuda, mas só via soldados Vidran. E, logo à frente, ele viu o Padre Matias conversando com Luque. Matias viu o garoto e desviou o olhar, envergonhado ou culpado. Mas o que gelou o sangue de Callan não foi o padre. Foi a figura parada ao lado dos escombros da fonte. Cabelos brancos, postura relaxada, olhos cinzas. Uzur Heka.
O Santo estava sorrindo. E ele olhava para o centro da praça, onde seu pai, amordaçado por Carlo, era arrastado para a prisão