O silêncio havia se instaurado por toda Hindi junto à lua cheia. Callan estava sentado onde, momentos antes, Oliver era aprisionado. Seu rosto estava voltado para os escombros de sua antiga casa, o olhar desfocado.
— Não se preocupe — disse uma voz se aproximando. Uzur Heka. — Você não está sozinho, pequeno Heka.
Uzur parou a dois passos de distância do garoto, os olhos cinzas pareciam brilhar junto a noite. Ele não olhava para os escombros, ele olhava para a prisão onde Oliver estava.
— Isso machuca, não? — Uzur se sentou ao lado dele. — Eu senti essa dor quando vi minha mãe Nyx morrer.
O olhar de Callan se desprendeu da antiga mansão, se voltando para Uzur.
— E… e como você superou essa dor? — Sua mão apertou a capa, buscando conforto.
— Eu não superei, apenas redirecionei para o que realmente importava: a sobrevivência da família Heka.
Callan olhou para frente. Seu coração estava destruído. Toda vez que fechava os olhos, ele via sua mãe morta, e quando abria via seu pai preso. O silêncio daquela noite foi interrompido por um rugido em sua mente.
O zumbido do éter ecoava sem sentido, mas isso era diferente, seu peito estava queimando. A mão de Uzur estava aberta, por um momento, um pensamento que não lhe pertencia, ordenou que ele a agarrasse, mas o frio em seu núcleo o tomou.
Uzur olhou para o garoto, um sorriso convencido, como se já soubesse o resultado dessa conversa, aguardou a pequena mão vindo de encontro a dele. Mas então a noite clareou, por um instante os olhos verdes do garoto brilhavam em um verde esmeralda.
O santo se levantou e se afastou, pela primeira vez, Callan viu o temor em alguém ao olhar para ele. A magia de Uzur havia se ativado, os olhos do garoto eram antigos. O legado de Lyra ainda estava vivo, e isso seria um problema, mas também a solução que seu mestre tanto precisava.
Callan não disse nada, mas no tempo que o brilho durou, ele recebeu uma clareza que lhe pertencia. Quando a luz desapareceu, Callan se levantou, seu corpo se virou a carruagem na praça, onde pode ver os olhos da garota eletrica.
— Boa noite…
Uzur não o deixou terminar. Ele deu as costas e saiu, a capa negra ondulando como fumaça. Callan ficou sozinho no banco, o peito dele doía, mas o rugido havia se calado.
O frio da noite parecia morder sua pele. Não havia para onde ir. Sem casa, sem pais. Foi quando um toque quente pousou em seu ombro.
— Callan, venha comigo. — Não era a voz de seda e veneno de Uzur. Era doce, maternal. Um eco de Lyra. Rosa Vidran estava ali.
Seus olhos não tinham o cinza da morte, mas o azul de um céu limpo. Callan, sem opções e com o núcleo frio pulsando exaustão, deixou-se guiar até a carruagem.
Ao entrar, o cheiro de cinzas foi substituído por lavanda e ozônio. Mas a tensão lá dentro era palpável. Glas Vidran estava sentada no banco oposto, roendo a unha do polegar. A cada mordida, uma pequena faísca azul estalava. Quando viu Callan se encolher no canto, ela não bufou de desprezo. Ela soltou um gemido de frustração pura.
Rosa ignorou a ansiedade elétrica da filha e se ajoelhou na frente de Callan, ficando na altura dele.
— Uzur fez a oferta dele. Agora faço a minha — disse Rosa, segurando as mãos geladas do garoto. — Em nome da família Vidran, eu gostaria que ficasse sob minha tutela.
Glas bateu o pé. As lanternas mágicas da carruagem piscaram violentamente. A garota não parecia a herdeira arrogante da floresta. Parecia uma criança apavorada.
— Pense bem! — A voz de Glas tremeu. — Ele é o alvo principal de Uzur! Você sabe o que aconteceu com a Mártir Vidran no passado! Você quer trazer essa maldição para nossa casa? Quer que o Tio Declan tenha que limpar nosso sangue do chão?
Rosa endureceu o olhar. A nobreza gentil deu lugar à matriarca.
— O Marechal Declan entenderá, Glas. Nós não abandonamos o filho de uma amiga. — Rosa olhou para Callan, e seus olhos brilharam com água. — Isso é maior que política, filha. É sobre humanidade. Se perdermos isso, somos piores que a Árvore Morta.
Callan olhou para as duas. Ambas estavam certas. Mas o Leão em sua mente estava quieto.
— Eu... eu aceito — sussurrou Callan. — Não quero causar problemas... mas não tenho para onde ir.
Rosa sorriu. Foi um sorriso nostálgico, como se visse outra pessoa no rosto dele.
— Ótimo. Luque e eu cuidaremos de tudo. Falando nele...
A porta da carruagem se abriu, deixando o ar frio entrar. Luque Vidran entrou. Ele trocou um olhar pesado com a esposa.
— Rosa, eles exigiram sua presença na reunião administrativa. Não aceitaram apenas a minha palavra. Uzur está pressionando os conselheiros para declarar a Lei Marcial.
— O quê? — Rosa suspirou, a paz desaparecendo de seu rosto. Ela se levantou, ajeitando o vestido. — Tudo bem. Glas, a partir de agora, você é a guardiã. Fiquem dentro da carruagem. Não saiam por nada.
— Mas mãe... — começou Glas.
— É uma ordem, Herdeira — cortou Rosa, firme.
— Certo... — Glas cruzou os braços, a eletricidade zumbindo baixo em sua pele.
Luque suspirou, sua mão indo instintivamente para a cintura em busca de conforto, mas encontrando apenas o cinto de couro.
— Maldição. Na pressa, deixei minha espada na sacristia da igreja quando fui falar com o Matias.
Ele olhou para a esposa, tentando disfarçar o nervosismo com um sorriso torto.
— Rosa, vá na frente para ganhar tempo. Vou passar na igreja. Um soldado sem espada é apenas um homem de terno, e hoje preciso ser um soldado.
Rosa soltou uma risada leve, balançando a cabeça. Aquele era o Luque que ela amava: o plebeu tentando ser nobre, sempre tropeçando nos protocolos, mas sempre corajoso. Ela se aproximou e lhe deu um beijo rápido nos lábios.
— Não demore, querido. Sem você, aqueles conselheiros me devoram viva.
Luque piscou para ela e saiu, fechando a porta. O som da tranca girando ecoou como um tiro. Rosa saiu em direção à prefeitura, e Luque marchou em direção à igreja, onde a escuridão o aguardava.
Dentro da carruagem, restou apenas o silêncio pesado e o zumbido estático de Glas preenchia o silêncio pesado da carruagem.
— Você não tem noção, tem? — sussurrou ela, checando a janela. — Uzur destruiu a maior maga da minha família no passado. E agora minha mãe quer colocar você, o alvo dele, no meu quarto de hóspedes.
— Eu não pedi por isso — murmurou Callan.
— Eu sei. Por isso é trágico. Ter olhos verdes aqui é uma sentença de morte.
Callan desviou o olhar para o vidro. Uma sombra se desprendeu da roda. Key Aychuor. O Andarilho fez sinal de silêncio e estendeu a mão pela fresta.
— Fique. — A voz dele era vento. — Se precisar sumir... quebre.
Ele depositou uma pedra fria e sem cor na mão de Callan. Por um milissegundo, o núcleo dela pulsou em verde.
— Por que...? — Callan começou.
Glas girou no banco.
— Falando sozinho?
Callan escondeu a pedra no bolso. Key já havia sumido. Sem rastro, sem mana.
— Nada. Só pensando.
Glas estreitou os olhos, faíscas azuis dançando nos dedos, desconfiada.
— Você é estranho, Heka.
De repente, o zumbido elétrico dela morreu. Um vácuo absoluto sugou o ar da carruagem. Glas engasgou, levando a mão ao peito como se estivesse se afogando. Os olhos cobalto perderam o brilho, apagados pelo terror puro. Ela olhou para a Igreja. O mundo lá fora parecia ter ficado branco.
Logo após se despedir de sua amada, Luque Vidran foi em direção à igreja, se movendo pelas sombras. Ele não confiava em Uzur, muito menos em Matias. A chegada dos mercenários de Aryehd, a morte de Lyra... tudo cheirava a uma conspiração.
Luque Vidran moveu-se pelas sombras da nave central. Ele não buscava apenas sua espada; buscava respostas. O silêncio da igreja era errado. Pesado. Vozes ecoaram do altar.
— ...limites, Uzur! — A voz de Matias tremia. — Mercenários de Aryehd? Se o Rei Dante descobre...
— Dante é um rei, Matias. Ele não se importa com como a paz é mantida, apenas que ela seja mantida. — A voz de Uzur era calma, cirúrgica. — Lyra está morta. O garoto está vulnerável. E agora, precisamos de um culpado para a destruição de Hindi. Quem melhor que a família que chegou logo após o massacre?
O sangue de Luque gelou. Bodes expiatórios. Glas... Rosa... Ele recuou. O couro de sua bota rangeu no piso de pedra.
O silêncio no altar foi absoluto.
— Entre, Senhor Vidran — disse Uzur, sem se virar. — É falta de educação ouvir atrás das pilastras.
Luque tentou correr, mas a porta da igreja não estava mais lá. O mundo girou. O cheiro de incenso sumiu, substituído por um odor de ozônio puro. As paredes, os bancos, o teto... tudo desapareceu. Luque não estava na igreja. Ele flutuava em um vazio branco, infinito e silencioso. A pressão no ar era tão forte que seus tímpanos estalaram.
— Onde… onde estamos? — Luque engasgou. O ar parecia sólido.
— Sinta-se honrado — a voz de Uzur vinha de todos os lados. — Você está na minha Dimensão de Mana. Aqui, a realidade obedece apenas a mim.
Uzur surgiu da brancura. Ele não andava; ele apenas ocorria.
— Você ouviu demais, Luque.
Movido pelo pânico de proteger sua filha, Luque sacou uma adaga escondida e avançou.
— Fique longe delas!
A lâmina tocou o pescoço de Uzur e... evaporou. Não houve calor. Aço virou gás. Quando a mão de Luque tocou a pele de Uzur, foi como tocar a superfície do sol.
— ARGH! — Luque recuou, segurando a mão em carne viva. A mana de Uzur era tão densa que rejeitava a matéria física.
— Patético — Uzur olhou para ele com tédio. — Eu poderia te oferecer uma escolha, mas sei que você escolheria a honra. Plebeus e seu orgulho…
Uzur estalou os dedos. Não foi um ataque. Foi uma sobrecarga de informação e mana diretamente no córtex cerebral de Luque. Luque viu o fim de sua casa. Viu Glas escravizada. Viu Rosa morta. A mente dele não suportou a verdade absoluta daquele domínio. Os olhos de Luque viraram para trás. O mundo branco se desfez.
Eles estavam de volta à igreja. Luque caiu no chão de pedra, desmaiado. Matias recuou, aterrorizado.
Uzur ajeitou as luvas, impecável.
— Comandante Carlo.
Das sombras do confessionário, Carlo saiu. Seus olhos estavam opacos, sem vida.
— Mestre.
— O Senhor Vidran foi pego trabalhando junto a Aryehd — ditou Uzur, olhando para o corpo no chão. — Prenda-o. E depois...
Uzur olhou através das paredes, na direção exata da carruagem.
— Vá fazer uma visita à Senhora Vidran. Traga-me o garoto Heka. E se a garota elétrica interferir… apague a luz dela.
Carlo assentiu, arrastando Luque pelos pés.
— Como desejar.
Uzur sorriu para o altar vazio. O tabuleiro estava limpo.