A carruagem, antes um refúgio de luxo, agora vibrava com uma tensão invisível.
— O que foi isso? — Glas sussurrou, esfregando o peito.
A pressão no ar havia desaparecido, deixando um vácuo enjoativo que fazia seus ouvidos zumbirem. Callan olhou para a igreja. O rugido em sua mente estava inquieto, farejando sangue. A porta se abriu com um solavanco. Rosa Vidran entrou, o vestido de seda amassado, os olhos varrendo a praça com pavor.
— Mãe? — Glas se levantou.
— Luque não chegou na reunião... — Rosa murmurou, trancando a porta com mãos trêmulas. — E essa oscilação na mana... foi forte demais. Algo aconteceu.
Ela se virou para dar uma ordem, mas uma bota de metal impediu que a porta se fechasse. O som de aço contra madeira foi o gongo do funeral. A porta foi escancarada.
— Senhora Vidran — a voz de Carlo era fria, sem a humanidade que ele mostrara nos jantares com Oliver. — Saia com as mãos para cima. Ordem do Mestre Heka.
Rosa travou. Em um movimento instintivo de leoa, ela empurrou Glas e Callan para o fundo da cabine e se colocou na frente.
— Carlo? O que significa isso? Onde está meu marido?
— O Senhor Vidran está... indisposto. — Carlo fez um sinal. Doze lanças cercaram o veículo. — Saia. Agora.
O medo nos olhos de Rosa deu lugar à fúria nobre.
— Você ousa ameaçar a família Vidran?
Rosa ergueu as mãos. O ar ficou denso e rosado. Do chão de pedra, pontas afiadas de Quartzo Rosa brotaram, belas e letais, prontas para empalar o esquadrão.
— Afastem-se! — gritou ela.
Carlo não piscou. Ele apenas fez um gesto sutil. Uma sombra caiu do teto da carruagem. Um soldado saltou atrás de Rosa, golpeando sua nuca. Antes que ela caísse, ele fechou algo em seu pescoço.
Um colar de metal negro, grosso e fosco. O efeito foi imediato. Os cristais de quartzo, sólidos e mortais, desfizeram-se em poeira brilhante que o vento levou. Rosa caiu de joelhos, as mãos arranhando o metal. Ela engasgou, os olhos arregalados. Não era apenas fraqueza. Era amputação. A mana, que fluía nela como sangue, foi estancada. O mundo ficou cinza e silencioso.
— MÃE! — Glas gritou.
A garota agiu por instinto. Eletricidade estalou em seus dedos, faíscas azuis furiosas. Mas Carlo foi rápido. Ele invadiu a cabine, agarrou o pulso fino de Glas e, com um clique seco, prendeu a segunda coleira nela.
— Ahhhg! — Glas tombou para trás, batendo a cabeça no banco.
As faíscas morreram. Glas levou as mãos ao pescoço, hiperventilando. Ela olhava para os lados, mas seus olhos cobalto estavam vidrados. Para um prodígio sensorial como ela, o corte da mana era como ficar cega e surda ao mesmo tempo. A vertigem a fez vomitar bile no tapete luxuoso.
Callan recuou para o canto, a mão suada apertando a pedra de Key no bolso. Carlo olhou para ele. O olhar do comandante era um poço vazio.
— O garoto vem sem correntes — Carlo ordenou, limpando a poeira de cristal do ombro. — Uzur o quer inteiro. Levem-nos.
A cela improvisada nos porões da igreja não cheirava apenas a mofo. Cheirava a algo químico, como cobre queimado. Callan e Glas foram jogados em um cubículo úmido. Ao lado, separados por grades de ferro, estavam os adultos. Glas se arrastou até o canto mais escuro. A herdeira Vidran, sempre tão polida, estava desmoronando.
— É tudo... escuro... — ela soluçava, as unhas arranhando a pele do pescoço ao redor da coleira, deixando marcas vermelhas. — Não sinto a estática. Não sinto a luz. É como se tivessem arrancado meus olhos.
Callan segurou os pulsos da garota antes que ela se ferisse mais. Ele queria dizer que ficaria tudo bem, mas a parede ao lado contava outra história.
Na cela adjacente, o cenário era um pesadelo. Oliver estava acorrentado à parede pelos pulsos. Ele não estava em pé com orgulho; seu corpo pendia frouxo, sustentado apenas pelo ferro. Mas seus olhos, fundos e febris, estavam fixos na figura caída no centro da cela. Um corpo que tremia violentamente.
— Luque! — Rosa rastejou até o marido, a náusea da sua própria coleira fazendo-a cambalear.
Luque gemia, os olhos virando nas órbitas, o corpo curvado em posição fetal.
— Oliver... — Rosa olhou para o Lorde Heka, desesperada. — O que fizeram com ele? Por que ele está tão quente?
Oliver ergueu a cabeça com esforço.
— Uzur não apenas bloqueou... ele colapsou os canais de mana de Luque. — A voz de Oliver era lixa e sangue. — A rede que transporta a magia foi pulverizada.
Rosa cobriu a boca, sufocando um grito. Sem canais, um mago era um aleijado. Mas então, Luque arquejou. Uma tosse seca saiu de sua garganta, acompanhada de fumaça. Ele levou a mão ao peito.
Oliver estava certo sobre os canais, mas errado sobre o vazio. Não havia silêncio dentro de Luque. Havia pressão. O núcleo de mana de Luque continuava batendo, bombeando energia furiosamente. Mas sem canais para escoar, a mana estava se acumulando, enchendo seu corpo.
— Oliver... — Rosa notou algo, horrorizada. — Por que você... por que você não está usando uma coleira? Eu e Glas estamos neutralizadas, mas você...
Oliver olhou para os próprios pulsos, presos apenas por algemas de ferro comum. Ele riu, um som quebrado e sem humor.
— E precisava? — Oliver encostou a testa na parede fria. — Olhe para mim, Rosa. Meus canais já estão fritos desde ontem. Meu corpo é uma ruína. Uzur sabe disso.
— Ele quer que você use magia — Rosa entendeu, o medo gelando sua espinha.
— Ele quer que eu tente. — Oliver fechou os olhos. — Uzur não quer me prender; ele quer me assistir cometer suicídio tentando salvar vocês. É o espetáculo final dele.
Um gemido rouco, quase animal, veio de Luque. Ele estava tentando se levantar. Sua pele, antes pálida, estava ficando de um vermelho vivo. Veias pulsavam na testa e no pescoço, brilhando com uma luz interna perigosa.
— Ele cometeu... um erro... — Luque sussurrou. A voz dele sibilava, como vapor escapando.
— Luque? — Rosa tentou tocar o rosto dele, mas recuou instintivamente. A pele dele estava fervendo.
— Meus canais se foram... mas a fornalha continua queimando... — Luque olhou para a esposa. Havia dor insuportável em seus olhos, mas também um sorriso maníaco. — A família Vidran tem histórico com mana bruta, Rosa. Lembra da Mártir?
Os olhos de Rosa se arregalaram em reconhecimento e terror.
— Não... Manipulação de Mana Bruta? Luque, isso é suicídio. Sem canais para filtrar, seu corpo vai...
— Explodir — completou Luque. — Como uma estrela colapsando.
O silêncio caiu sobre a cela, quebrado apenas pela respiração chiada de Oliver. Luque não seria uma distração física. Ele estava se transformando, segundo a segundo, em uma bomba humana de energia instável.
— Uzur acha que sou um cachorro sem dentes — Luque arfou, segurando o peito onde o brilho vermelho começava a vazar pelos poros da camisa. — Ele vai me chamar para a execução. E quando eu chegar perto dele... eu vou liberar tudo.
— Você vai morrer... — Rosa chorou, abraçando-o mesmo com o calor queimando sua pele.
— Eu já estou morto, meu amor. A pressão vai me cozinhar em minutos de qualquer jeito. — Ele beijou a testa dela. Cheirava a queimado. — Deixe-me abrir o caminho.
Oliver cerrou os punhos nas correntes. Ele odiava isso. Odiava ser o inútil que precisava do sacrifício de outro pai.
— Quando acontecer... haverá caos. — Oliver disse, a voz firme apesar da fraqueza. — É a única chance. Rosa, pegue as crianças e corra.
— E você?
— Eu vou comprar tempo. Mesmo que custe o resto do que eu tenho.
A porta do corredor se abriu com um rangido metálico que ecoou como o gongo final. Passos pesados. Carlo apareceu na luz fraca. O comandante não olhou para Oliver, focando no vazio.
— Hora da sentença. — A voz de Carlo era robótica. — O Mestre Heka os aguarda.
Os guardas abriram a cela com violência. Oliver foi arrancado da parede, seus ombros estalando, mas ele não grunhiu. Ele manteve a cabeça erguida enquanto era empurrado para o corredor. Ao passar por Carlo, Oliver travou os pés no chão. A proximidade era sufocante. Oliver ignorou as lanças em suas costas e encarou o homem que jantara em sua mesa por uma década. O homem a quem confiara a vida de sua família.
— Valeu a pena, irmão?
A pergunta saiu baixa, mas carregada de uma decepção que pesava mais que a execução iminente. O efeito foi sísmico. A mão de Carlo no cabo da espada tremeu violentamente. O olho esquerdo teve um tique nervoso, e uma única lágrima solitária traiu a máscara de apatia, lutando contra o comando absoluto de Uzur. O homem real gritava por trás da carne. Mas a corrente mental apertou. O olhar ficou opaco novamente.
— A... ande... — Carlo engasgou, a voz saindo como vidro moído.
Eles foram empurrados para a luz crua do dia. Callan olhou para o pai. Oliver estava quebrado, mas seus olhos azuis ardiam com uma promessa silenciosa. Ainda não acabou. Lá fora, Uzur os esperava em seu trono de cinzas.