“Execução…” A palavra tinha gosto de cinzas na garganta de Callan. Ele podia escutar palmas. Não eram muitas, mas eram suficientes. A população que seu pai protegeu por uma década, a vila que sua mãe o ensinou a amar, estava aplaudindo a queda deles. O medo havia transformado vizinhos em covardes.
O corpo de Callan formigava. Não era apenas adrenalina; era algo arcaico. Ele sentia a mana querendo rasgar sua pele, mas havia um bloqueio. Algo dentro dele, além da luz, aninhado ao lado de seu coração. Era frio, escuro e faminto. Seus olhos, o verde-esmeralda legado por Lyra, vacilaram. O ódio bombeava mana suja em seu sangue. A íris oscilou para um Azul-Safira violento, a cor dos Heka, a cor da guerra. Ele queria gritar. Queria que todos morressem.
— Callan. — A voz não era um rugido. Era uma âncora.
Callan foi puxado do escuro. Seu olhar estabilizou no verde novamente ao sentir o calor da mão pesada em seu ombro. Ele olhou para o lado. Oliver não olhava para a multidão ou para a guilhotina. Ele olhava apenas para o filho. Havia sangue seco na testa do Lorde, e seus ombros estavam deslocados, mas o sorriso era gentil.
— Feliz aniversário de nove anos, Callan.
O mundo parou. No meio do inferno, Oliver lembrou da data. Callan tentou se agarrar ao pai, um soluço rasgando o peito, mas foi brutalmente afastado por Carlo.
— Levantem a cabeça! — gritou um soldado, batendo com o cabo da lança nas costas de um velho na plateia. — Testemunhem a justiça do Santo!
O som de aço não veio dos guardas de Uzur. Veio da multidão. Um homem de cabelos grisalhos e armadura surrada avançou. Marius, o veterano que servira Oliver desde a Grande Guerra.
— O que pensa que está fazendo, Marius? — Carlo perguntou, a mão indo para a espada, os olhos mortos sem entender a desobediência. Marius não tremeu.
— Estou lutando pelo que acredito. Estou lutando por Hindi.
— Essa sua traição vai custar sua vida — avisou Carlo, a voz mecânica.
— Traição? — Marius riu, e foi um som triste. — Existe traição maior que a sua, Comandante?
Carlo fechou o rosto. Com um gesto, doze soldados cercaram o veterano.
— Eu não prestei juramento para ver meu Lorde ser abatido como gado! — Marius rosnou, apontando a lâmina para os ex-colegas. — Quem aqui ainda tem honra?! Quem aqui ainda lembra quem os salvou da fome no inverno pós-guerra?!
Houve hesitação. Olhos se cruzaram. E então, dez espadas se ergueram na multidão. Dez homens leais contra o exército de um Santo. O som de ferro contra ferro explodiu. Gritos de dor substituíram os aplausos.
No palanque, Uzur assistia com tédio, ajeitando as luvas. Matias tremia ao seu lado. Oliver, acorrentado ao poste central, viu o sangue de seus velhos amigos manchar o chão de pedra.
— Eles estão morrendo por nós... — Rosa chorou, a coleira de supressão pulsando em seu pescoço.
— Não — Oliver corrigiu, a voz dura. Seus olhos não estavam na luta, mas no homem ao seu lado. — Eles estão comprando segundos.
Luque Vidran estava de joelhos. Ele não parecia mais humano. Sua pele brilhava em um vermelho vivo, translúcido, revelando os ossos escuros por baixo. Veias de luz pulsavam em seu pescoço como serpentes tentando escapar. Ele era um vulcão biológico em contagem regressiva.
— Oliver... — Luque sussurrou. Sangue fervido escorria de seu nariz e evaporava antes de tocar o chão.
Uzur, irritado com o barulho da rebelião, ergueu a mão. A umidade do ar se condensou instantaneamente, formando uma lâmina de água pressurizada, uma guilhotina líquida, pairando sobre o pescoço de Oliver.
— Acabem com isso — ordenou Uzur.
Luque levantou a cabeça. Seus olhos não tinham mais íris ou pupilas. Eram dois faróis de luz branca pura. Ele abriu a boca, e o som que saiu não foi uma voz, mas o chiado de uma estrela morrendo.
— LIBERAR.
Uzur parou. Ele sentiu a pressão atmosférica cair a zero em um raio de cem metros.
— O quê...?
O corpo de Luque Vidran cedeu. A pele se rompeu. Não houve fogo. Não houve calor. Houve apenas força pura. Uma onda de choque de mana bruta, branca e silenciosa, explodiu a partir do centro da praça. O som chegou depois, que estourou as janelas de todas as casas da vila. A guilhotina de água de Uzur se desfez em névoa. Os soldados mais próximos foram arremessados como bonecos de pano, suas armaduras amassadas pela pressão cinética. Poeira, pedra e caos engoliram a praça de Hindi.
Glas foi jogada para trás, rolando na terra violentamente. Seus ouvidos zumbiam com um apito agudo. Ela tossiu, tentando se orientar na nuvem branca que tinha gosto de ozônio e do sacrifício de seu pai.
A poeira da explosão de Luque ainda cobria o sol quando uma sombra se moveu dentro da cratera. Oliver Heka estava de pé. A onda de choque havia estraçalhado as correntes comuns, mas também havia terminado de fritar seus canais de mana. Ele era um frasco vazio. Um soldado correu em sua direção, lança em riste.
— Morra, traidor!
Oliver não invocou luz. Ele não precisava. Ele girou o corpo, desviando da ponta da lança, e enterrou o punho nu na garganta do soldado. O som de cartilagem quebrando foi seco. O homem caiu. Oliver pegou a espada do soldado morto.
No meio do caos, Rosa Vidran rastejava. A explosão a jogara contra uma parede. Seu braço esquerdo estava quebrado, pendurado em um ângulo estranho, mas seus olhos buscavam apenas uma coisa.
— Glas...
A garota estava caída, atordoada pela onda de choque, tossindo poeira. A coleira em seu pescoço ainda zumbia, mantendo-a cega para a magia. Rosa chegou até ela.
— Mãe... o papai... — Glas chorou, olhando para a cratera fumegante onde Luque desaparecera.
— Eu sei. — Rosa não chorou. Não havia tempo.
Suas mãos agarram a coleira de Glas. O metal negro rejeitava magia, mas não rejeitava força bruta. Rosa usou uma pedra afiada dos escombros. Ela bateu na fechadura da coleira. Uma, duas, três vezes. O metal cortou seus dedos, misturando o sangue Vidran com a poeira, mas ela continuou batendo até que a trava cedeu com um estalo. A coleira caiu. Glas arfou, a mana voltando aos seus pulmões como oxigênio puro. Faíscas elétricas dançaram em seus cabelos, mas Rosa segurou o rosto da filha antes que ela pudesse atacar.
Rosa se virou para Callan, que ajudava Glas a se levantar.
— Escute-me, Callan! — Ela enfiou a mão no espartilho rasgado e puxou uma adaga de metal escuro, com o brasão Vidran no cabo. — Pegue. — Ela forçou a arma na mão do garoto.
— Tia Rosa, eu não...
— É um pedido de mãe! — Rosa gritou, os olhos ferozes. — Proteja a Glas. Prometa para mim! Ela é tudo o que restou do Luque. Não deixe a luz dela apagar.
Callan sentiu o peso frio do metal e o peso quente do sangue de Rosa em suas mãos.
— Eu prometo. Eu juro.
Um chicote de água cortou o ar, estourando o chão a centímetros deles. Matias surgira das sombras.
— VÃO! — Rosa empurrou os dois com o braço bom. — CORRAM!
Callan agarrou a mão de Glas. A garota gritava pela mãe, mas Callan a arrastou. Eles correram em direção à linha das árvores, virando as costas para o inferno.
No centro da praça, Oliver havia derrubado cinco homens, mas a exaustão cobrou seu preço. Uzur Heka caminhou até ele, protegido por uma cúpula de água que nem a poeira ousava tocar. Ele não tinha um arranhão.
— Você é persistente, meio-irmão. — Uzur suspirou.
Oliver tentou erguer a espada, mas Uzur foi mais rápido. O Santo avançou num borrão. Não houve magia. Apenas a força física aprimorada de um monstro. A mão enluvada de Uzur perfurou a armadura derretida de Oliver. E continuou. Houve um som úmido, terrível. A mão de Uzur atravessou o peito de Oliver e saiu pelas costas.
O tempo parou. Oliver engasgou, sangue borbulhando em seus lábios. Ele olhou para baixo, vendo o braço do irmão enterrado em seu coração. Uzur aproximou o rosto do ouvido de Oliver.
— Isso lhe traz lembranças, filho de Callista? — Uzur sussurrou, girando a mão dentro da ferida. Oliver tremeu, a vida esvaindo-se rapidamente. A dor era absoluta, mas a mente estava clara.
— Você... — Oliver cuspiu sangue no rosto imaculado do irmão. — Você é igual a Oberon. Você mataria a própria mãe... mataria Nyx... por poder.
Uzur não recuou. Ele retirou a mão bruscamente, deixando o corpo de Oliver cair de joelhos.
— Eu mataria seja quem for para alcançar o que desejo. — Uzur limpou o sangue da luva. — Essa é a diferença entre nós, Oliver. Eu não tenho amarras.
Ao longe, na orla da floresta, Callan parou. Ele olhou para trás. Ele viu seu pai de joelhos, com um buraco no peito. Oliver não olhava para Uzur. Com suas últimas forças, ele girou a cabeça. Seus olhos azuis, agora perdendo o brilho, encontraram os olhos verdes do filho através da distância e da fumaça. Não havia medo naquele olhar. Havia apenas um comando silencioso, passado de pai para filho. “Sobreviva. Eu te amo.”
O corpo de Oliver Heka tombou para frente. O Lorde de Hindi estava morto.
Uzur olhou para a floresta, onde as figuras das crianças desapareciam nas sombras.
— Carlo. O Comandante apareceu ao lado dele, limpando o sangue de Marius de sua lâmina. O rosto de Carlo ainda era uma máscara vazia.
— Mestre. — A caçada começou — disse Uzur, olhando para o fogo que consumia a vila. —Eu quero aquelas crianças mortas. E queime o corpo do meu irmão junto com o lixo.
Callan sentiu o coração falhar uma batida. Ele morreu. Meu pai morreu.
“EU QUERO AQUELAS CRIANÇAS MORTAS!” O grito de Uzur se misturava ao rugido do fogo que devorava Hindi. O cheiro não era apenas de madeira queimada; era de carne. O cheiro do massacre. Longe, na praça, os aplausos dos soldados ecoavam como escárnio. Seu pai caído com o peito perfurado. Sua mãe morta. Luque transformado em vapor. Rosa capturada. O mundo de Callan Heka havia acabado em uma tarde.
— Vamos... — Glas puxou sua mão. Eles correram.
A floresta, antes um lugar de brincadeiras, agora era um labirinto de sombras e raízes que tentavam derrubá-los. Callan sentia os pulmões queimarem como se tivesse engolido brasas. Glas corria ao seu lado, tropeçando, cega pela falta de mana e pelo trauma. Eles não eram herdeiros ou prodígios. Eram apenas duas crianças fugindo do bicho-papão.
O sol morreu no horizonte, e a escuridão reinou. Mesmo sem luz, Callan sentia. Aqueles olhos cinzas não precisavam ver para caçar. A pressão da mana de Uzur vinha atrás deles como uma maré subindo, pesada, sufocante, inevitável. De repente, Glas parou. Ela se dobrou, arfando, o som do ar entrando em seus pulmões era um chiado agônico.
— Glas, não pare... — Callan tentou puxá-la, mas suas pernas tremeram. Sua barriga doeu. Não era cansaço. Era como se uma mão invisível estivesse apertando suas entranhas. A pressão. Ele estava perto.
— Ali... — Glas apontou com o dedo trêmulo. Uma fenda na rocha. Uma caverna pequena, escondida por raízes.
— Vamos! — Glas sorriu, uma esperança frágil e suja de fuligem iluminando seu rosto.
Ela puxou o braço de Callan, mas ele não se moveu. Ele estava chumbado ao chão. O verde de seus olhos vacilou, drenado por uma força invasora, dando lugar a um azul opaco, sem vida. A mana de seu tio invadia seus canais como veneno de cobra, paralisando-o de dentro para fora.
— Pequeno Heka…
A voz não veio de trás. Veio de todos os lados, trazida pelo vento frio. Das sombras da entrada da caverna, a escuridão se condensou. Uzur Heka surgiu. Ele estava impecável. Nem uma mancha de fuligem na roupa negra, nem um fio de cabelo branco fora do lugar. A única imperfeição era um corte fino na bochecha.
O Santo deu dois passos à frente. Callan tentou gritar, tentou correr, tentou sacar a adaga de Rosa. Mas seu corpo era uma marionete com as cordas cortadas.
— Esses olhos… — Uzur murmurou, observando o azul opaco dominar o verde. — O sangue chama o sangue. Você não pode fugir do que é, sobrinho.
Glas, tremendo de pavor, soltou a mão de Callan. Ela sabia que não tinha chance, mas a promessa de sua mãe ecoava em sua mente. Não deixe a luz apagar. Num ato de desafio patético e corajoso, ela estendeu a mão.
— Fique... longe!
Sua mana estava esgotada. Não houve raios. Apenas um pequeno fragmento de espelho se formou e voou em direção ao rosto do Santo. O vidro cortou a pele pálida da testa de Uzur. Um fio de sangue escorreu. Uzur não piscou. Ele nem sequer limpou o sangue. Ele olhou para a menina com uma realização doentia.
— Corajosa. Inútil, mas corajosa.
Uzur levantou a mão. A água da umidade da floresta obedeceu, girando ao redor dele, formando duas lâminas líquidas e afiadas.
— Aqua Sparths.
Callan viu a morte. Ele fechou os olhos, e sua mão, num espasmo de medo, apertou o objeto no bolso. A pedra fria.
“Se precisar sumir... quebre.” A pedra respondeu. Não com calor, mas com vibração. O bolso de Callan brilhou em um verde intenso, cegante, antigo. A cor da floresta profunda.
Callan esmagou a pedra. O mundo não explodiu. O mundo foi rasgado. O verde da pedra se expandiu, colidindo com o azul da água de Uzur. Houve um som de vácuo, como o universo inspirando fôlego. A realidade dobrou sobre si mesma. As lâminas de água atingiram o vazio onde as crianças estavam um milissegundo antes. Uma onda de choque de mana e magia espacial explodiu, derrubando árvores e dissipando a água.
Quando a poeira baixou, Uzur estava sozinho na clareira. A caverna estava vazia. O Santo de Arcalis tocou o corte na testa, onde o espelho de Glas o acertara. Ele olhou para o espaço vazio, e pela primeira vez, seu rosto se contorceu em fúria genuína. Ele rugiu, um som gutural que fez os pássaros da floresta levantarem voo em pânico. Eles haviam escapado. Mas a caçada estava longe de terminar.