Tom é puxado por Mandy para trás de uma das árvores no grande pátio da escola. Ela parece um pouco desconfortável, mas ele nem nota.
— Oi, Mandy, o que foi? — Tomás pergunta cheio de preocupações enquanto foca nos olhos azuis de sua namorada. Seu perfume, mesmo sutil, o faz querer abraçá-la para sentir melhor a fragrância cítrica e fria, assim como o calor do seu corpo.
— Olha T, acho que tá na hora da gente terminar. — Tom fica de boca aberta devido à surpresa, não esperava por isso. Para o garoto tudo ia bem, tirando o fato de não poder vê-la aos fins de semana.
— Mas, mas por quê? — Sua voz é confusa, representando com exatidão o quão atordoado ficou com o rompimento repentino.
— Então T. — T é como Mandy costuma chamar Tomás. Preguiçosa até para pronunciar os nomes das pessoas. Em suas palavras seria “econômica”. — Você é bem legal, mas eu não quero nada sério. Foi bom ficar contigo, mas só isso mesmo. Cinco meses já é muito tempo. Quero ficar um pouco sozinha, sabe?
Tom não faz ideia do que ela está falando. Em sua mente só há a palavra “terminar” reverberando. Não é como se Tom amasse Mandy, nem nada assim. O garoto só gosta muito dela, afinal sua ex é linda.
Pensando bem, também não importa muito prestar atenção ao que ela diz, pois nada é bem verdade. Algumas vezes um dia ordinário, ou uma situação ridícula como essa, pode se transformar em algo incrível. Isso pode acontecer pelo simples acaso, ou pelo destino. O importante é saber que nunca se sabe quando isso vai acontecer.
No momento em que Tom acordou nessa manhã ensolarada, para mais um dia de escola, não imaginava que sua vida iria mudar completamente dali para frente. O término de seu curto namoro pode ter sido o estopim para os eventos futuros, ou não. O importante é saber que a partir desse momento tudo mudou.
Veja bem, Tom, ou Tomás, nunca foi um garoto de chamar atenção. Seu visual comum, olhos castanhos, pele clara e cabelos curtos nunca foram motivos de destaque. Um “pelo menos não é feio” é o que passava na mente das pessoas com relação à sua aparência.
Mesmo na escola seus méritos estudantis só o levavam o suficiente para passar de ano com tranquilidade, não precisava estudar, mas também nunca foi o melhor em nada. Tomás é em todos os sentidos medíocre, nunca além, nunca menos, sempre na média de tudo. E durante muito tempo isso não o incomodou de forma alguma.
— Tudo bem, T? — Que pergunta mais tola…
— Tudo, tudo sim. Só me pegou de surpresa. Não esperava por isso. — Responde triste sem conseguir olhá-la nos olhos.
— É, eu sei, mas tudo bem né? — Mandy faz uma pequena pausa. — Não vai ficar chateado nem nada vai? — Agora ela se preocupa com os sentimentos do garoto.
— Não se preocupa comigo, Mandy, tá tudo certo. — O sinal toca ao fundo, hora de ir para aula. — O sinal... A gente se vê então?
— Sim... pela escola, tchau T. — Ela se vira sem esperar a resposta e volta para seu grupo de amigos que já estão entrando no prédio.
Depois de um fim de semana longe da namorada, tudo o que queria era passar um dia com a garota. Agora sair de casa para isso? Não, não, ninguém merece. Mandy, a ex, é dona de lindos olhos azuis, um cabelo muito preto e liso que, quase sempre, está amarrado em uma trança. Seu rosto poderia facilmente pertencer a alguma boneca de cerâmica ultra realista, extremamente linda e apavorante.
Até hoje Tom, e praticamente todos da escola, não entendem como ele, um cara normal, conseguiu ficar com a garota mais perfeita de todo o colegial. No entanto, isso já não tem mais importância. Mesmo assim, não consegue refletir sobre o tempo que passaram juntos.
Por algum motivo a garota não queria que seus pais soubessem do seu relacionamento com Tomás. Por esta razão, os dois só namoraram durante as aulas. Tom sempre se irrita quando lembra desse detalhe. Antes pensava que era melhor isso do que ficar sem ela. Agora chutado só fica a irritação.
Preciso deixar claro que Mandy não é uma menina qualquer. A garota é como as líderes de torcida nos filmes, a popular, ou seja, o centro das atenções da escola. A única diferença entre a ex, e todos os exemplos do cinema, é que Mandy é praticamente alérgica a qualquer tipo de esforço físico. Participar da torcida era algo simplesmente impossível para uma garota tão preguiçosa.
Ninguém desvendou como Mandy conseguiu a proeza de ser tão popular sem participar das atividades que normalmente a fariam popular. Mas uma coisa é certa, sua beleza única e a fortuna quase incalculável dos seus pais não tem nenhuma relação com isso.
Tomás fica pensando no seu dia, buscando nas ações que realizou até encontrar Mandy, um motivo para o término. Uma grande bobagem, é claro, mas ele não está batendo bem nesse instante.
— Mano... ouvi tudo, que merda heim. — Rafael sai do outro lado da árvore com o seu bom humor constante.
Tomás e Rafael são amigos desde sempre. Todos os anos estudaram juntos na mesma classe e sempre moraram perto um do outro. No entanto, ao contrário de Tom, Rafa é um jovem que chama muito a atenção por onde passa. Sua pele branca e seus cabelos extremamente vermelhos fazem desse ruivo um imã para os olhares. Não se pode dizer que é um garoto bonito, mas sim muito chamativo. Além dessa aparência peculiar há também uma personalidade altamente carismática.
— É... Rafa, não esperava por isso. Tudo que tava querendo hoje era ficar com ela. — De cabeça baixa os dois começam a caminhar para dentro da escola. — Agora nem sei o que vou fazer. — Chuta uma pedra inocente.
— Eu te digo o que você vai fazer. Tu vai pra aula e vai se distrair e esquecer aquela vagaba! Ninguém devia te tratar assim, ela se acha a toda! A garrafinha de água gelada do Saara! — Rafa realmente não gosta de Mandy, esse sentimento já existia há muito tempo, antes mesmo dos dois ficarem juntos.
O ruivo nunca teve um motivo bom para não gostar da garota. Simplesmente não aprovava suas atitudes e com o tempo isso foi criando uma hostilidade silenciosa entre os dois. A maioria das hostilidades no mundo também não possuem uma real razão de ser, elas simplesmente existem sem nenhuma explicação lógica.
Tom entra de cabeça baixa na sala de aula. Sem falar nada, senta no seu lugar habitual no fundo da sala. Rafa o segue sem parar de tagarelar como tudo agora vai ser mais divertido, pois eles vão poder voltar a sair durante a semana, comer porcarias no shopping e ir ao cinema quando der na telha.
Sem demoras o professor de matemática entra na sala, um homem baixinho e muito gordo, sua barba mal feita e sua roupa desarrumada sugerem que teve uma noite muito ruim, ou muito boa.
A aula passa sem nada de extraordinário. E com o decorrer do dia, Tom vai digerindo a ideia de não ficar mais com Mandy. Eles não estavam juntos há tanto tempo para marcá-lo de maneira significativa. Entretanto, isso não significa que não ficou muito chateado.
Rafael passa boa parte das primeiras aulas dizendo que o futuro será melhor. Quer ajudar o amigo, mas tudo que fez foi jogá-lo mais fundo no poço.
Depois da entediante aula de história a turma é liberada para o intervalo, a sala fica rapidamente vazia. Tom, desanimado, acaba ficando para trás e termina saindo da sala por último.
Assim que dá seu primeiro passo para fora vê, no fim do corredor, Mandy e sua legião de seguidores. Sua reação naquele instante é voltar correndo para a carteira, mas isso seria absurdo, e ridículo diga-se de passagem. Reunindo o que lhe resta de ânimo, Tomás segue em frente, rumo ao pátio, onde provavelmente comprará um refrigerante ou dois, talvez três e assim poderá ter uma overdose de açúcar.
Ao passar pelas salas do último ano, Suzy, uma amiga de sua irmã, vem lhe abraçar e saber como está.
— Tom! Coitado… Já estou sabendo de tudo, como você tá? — Pergunta com um sorriso tímido. Seus olhos escuros e bem puxados mostram uma verdadeira preocupação com o amigo, algo que só alguém que já havia terminado vários relacionamentos curtos de adolescentes podia entender. Mesmo que a maioria desses relacionamentos tenha sido literários.
— Sabe, estou bem. Eu acho. — Fala ao sair do abraço. Sempre que ela aparecia em sua casa para conversar com sua irmã, Tomás se metia no assunto. Gosta de Suzy, sempre foi uma boa amiga, mesmo que pouco presente.
— Que bom, tenho certeza que vai ser melhor assim. Ela não era uma garota muito legal mesmo. Onde já se viu tanto nariz empinado. Tomara que bata no teto. — Solta uma risadinha safada, de quem fala o que não pode.
— Verdade… Responde sem graça, Tom não pensa isso de Mandy. Mas talvez mude agora, com certeza deve mudar.
— Olha, uma hora vamos ver uns filmes bobos juntos para você se animar. Faz tempo que não vejo sua irmã, ia ser bom ir na sua casa um fim de semana.
— Ia ser divertido sim. Têm mesmo alguns filmes antigos que ainda não separei tempo para ver. — Suzy, ou Sukimoto Zyhara é apaixonada por filmes B de ficção científica. Tom achava os filmes engraçados e gostava de ver, mas não é fanático como a amiga.
— Ótimo! Mais tarde vou tentar falar com sua irmã. Mas agora tenho que ir. A gente se fala. — Se aproxima e o beija no rosto. Tomás não percebe, mas fica um pouco vermelho. Ela não tinha esse hábito.
— Tchau Suzy.
O pátio da escola fica em seu centro. O prédio com as salas e laboratórios em volta como um grande U. Todos dentro do edifício podem ver a movimentação na parte de fora, isso, é claro, se estiverem no lado voltado ao pátio.
Alguns dos locais que possuem essa vista privilegiada: a diretoria, a coordenadoria e é claro a monitoria. Convenientemente a maioria das salas de aula ficam voltadas para o lado de fora da escola, onde tudo que se pode ver é o trânsito e alguns pedestres que quase sempre passam fazendo cooper. Quem consegue arrumar tempo para correr em uma segunda de manhã? Essas pessoas deveriam estar trabalhando.
Voltando ao pátio, várias mesas de concreto estão espalhadas pela grande área verde, assim como alguns quiosques e quadras de esportes. Rafa já está em uma das filas para comprar seu lanche. Tom segue até ele e lhe entrega o dinheiro para um refrigerante e um pacote de batatas chips. Depois de alguns minutos os dois se juntam em uma das mesas para comer.
— Que deu que demorou? — Pergunta Rafael curioso.
— Encontrei com a Suzy no corredor. Até ela já sabe o que aconteceu. — É impossível não imaginar que uma notícia extraordinária como essa, pelo menos para os alunos, não se espalhe como piolhos na pré-escola.
— Hmm, mas e aí, o que vamos fazer hoje? — O amigo já tem mil planos na cabeça, Tom por outro lado não tem nada na sua.
— Hoje? Não, não... Hoje vou direto pra casa descansar. Amanhã a gente faz alguma coisa. Beleza? — Toma um grande gole do refrigerante, em seguida coloca um punhado de chips na boca, deixando suas bochechas infladas. Essa atitude poderia ser cômica se não fosse inspirada pela dor de cotovelo.
— Ok, vou deixar passar por hoje. Mas amanhã não tem jeito, nós vamos fazer alguma coisa. — Fala com convicção.
Não muito tempo depois o sinal toca e os alunos começam a se movimentar de volta para as classes. Tom não percebe, e tem que ser literalmente puxado pelo amigo para voltar à sala.
Os dois entram quase atrasados na aula de artes, onde a professora Rute é a lei. Normalmente a aula de artes plásticas é o lugar perfeito para relaxar e se divertir um pouco. Entretanto Rute, uma mulher de quase setenta anos à beira da aposentadoria, decidiu fazer de seus últimos anos lecionando um verdadeiro inferno para seus alunos. Na medida em que uma professora de artes pode fazer.
Você pode ficar imaginando o que a professora realmente faz, porém é algo indescritível. E como todo o mal e crueldade é particular a cada aluno.
Rute começa a fazer a chamada enquanto os dois amigos ainda se ajeitam em frente de seus cavaletes, a aula será pintura em tela.
Tom sente um frio na barriga assim que acaba de se arrumar. Não havia se dado conta que hoje, justo hoje, teria uma aula com Mandy. Ela, assim como ele e Rafael, escolheram fazer artes plásticas ao invés de artes cênicas.
Na época da escolha das matérias, a caquética professora e ditadora Rute, pareceu muito melhor que o professor Vargas e suas filosofias de seja a árvore, grite seus sentimentos ou qualquer outra coisa que aquele pseudo intelectual tenta passar para seus alunos.
Tom sempre foi um pouco cruel em seus pensamentos com o professor de teatro, a verdade é que ele possui várias graduações em artes cênicas e já participou de algumas peças importantes. No entanto, chifrar três diretores em menos de um ano não fez nenhum bem à sua carreira, ensinar foi o que lhe restou.
Ali está Mandy, sentada no canto oposto da sala com alguns de seus seguidores nas cadeiras mais próximas. Hoje em particular eles parecem mais felizes que o normal. Talvez tenham se animado pelo término do pequeno caso entre os dois. Afinal nenhum deles aprovava sua rainha estar saindo com o medíocre Tomás.
O garoto evita olhá-la, porém a tentação é mais forte. Mandy é extremamente linda e Tom não consegue ignorar como sua pele de porcelana o deixa. No entanto, o contrário não é recíproco, sua ex não olha nenhuma vez para ele durante a aula toda.
Rute escolhe um pequeno grupo de alunos específicos para atormentar desta vez. Eles com certeza nunca mais vão se esquecer de fazer a lição de casa de novo. Sendo assim, Rafa acredita ter liberdade o suficiente para não calar a boca em volta de Tom.
— Meu, que saco isso aqui. Eu não sei ficar pintando essas coisas não. Muito chato. — Rafa deixa de lado o pincel e se vira para o amigo. — Não lembrava que a gente ia estudar com a miss hoje, não podia ter escolhido um dia pior.
— Deixa ela na dela, tá tudo bem... — Revira os olhos enquanto trabalha na sua lição.
— Você parece um tapado falando assim, tem mais que esculachar agora. — Solta uma silenciosa risadinha macabra. — Aproveita mano, ela não presta mesmo.
— Cara, tu só vai ganhar o direito de ter uma opinião sobre isso quando me aparecer com uma namorada e for chutado também. — Rebate carrancudo.
— Eu tenho uma namorada, você que não conhece. — Responde emburrado. E é verdade, Rafa realmente tinha uma namorada, daquelas que moram no Canadá.
— É mesmo? Imaginária não conta. — Ri pela primeira vez na aula.
— Um dia você vai conhecer ela, pode esperar. — Isso provavelmente nunca irá acontecer.
— Vou mesmo. — Continua sorrindo. Tirar sarro do amigo sempre foi algo que lhe fez bem. Nenhuma dessas besteiras pode abalar essa amizade. Nesse momento, é claro.
— E esse castelo que você está pintando? — Olha para a tela de Tom como se já soubesse o que ia encontrar.
— O que tem ele?
— Eu não te entendo, você não gosta muito de fantasia e RPG, isso é mais a cara da sua irmã. Mas sempre que pode tá aí desenhando uns castelos. Tem que ter um motivo.
— Sei lá. Acho que é algo que eu fazia muito quando era pequeno, e acabei pegando o jeito de desenhar ok uns castelos. — Realmente Tom consegue fazer desenhos de construções e castelos bem. Tem facilidade para compreender as linhas de fuga, o que deixa suas ilustrações acima do normal para a idade.
— Bem, se não desenhasse um que presta depois de fazer tantos, você mereceria um soco. — Ri.
— Verdade. — Ri mais um pouco. — Sabe, quando era pequeno sonhava direto com castelos. Eu via muito Caverna do Dragão. Acho que é a única explicação.
— Eu nem presto atenção no que sonho, nem lembro deles também.
A aula termina e rapidamente todos começam a se arrumar para voltar para casa. Os corredores da escola viram uma bagunça, com crianças correndo por todos os lados, e todos os outros tentando desviar delas.
Rafa e Tom se despedem um do outro logo nas escadarias da entrada. Rafael ficará ali esperando sua mãe lhe buscar, já Tom, como sempre, irá voltar para casa a pé.
Os dois moram perto um do outro e Rafa tranquilamente podia ir com ele, porém sua mãe volta de carro na mesma hora, então é muito melhor voltar com ela.
De cabeça meio baixa Tomás começa a caminhar, desanimado. Após alguns minutos o número de pessoas que também volta para casa a pé diminui. Logo Tom está andando sozinho.
Uma quadra fica para trás quando o garoto finalmente percebe que não está na sua rota habitual. Com calma olha em volta. Não faz ideia de onde se encontra. Preocupado dá mais alguns passos até que vê algo no mínimo curioso. Logo à sua direita, entre duas casas muito bonitas e bem cuidadas, há um estranho e desproporcional beco.
A construção estreita dá a impressão de ser muito mais comprida do que deveria. Além disso, no final dele parece haver algum tipo de neon que brilha intensamente. O que é estranho considerando que faz sol e não deveria ser possível notar a luz do neon.
Tom se aproxima um pouco da entrada do beco para descobrir exatamente o que está escrito no neon. Ele entra.