Tom sente um calor intenso em seu rosto. Tenta abrir seus olhos, mas ao primeiro movimento sente seu corpo inteiro latejar de dor. Com certeza um caminhão havia passado por cima dele, depois voltando de ré somente para garantir.
Após achar um jeito de se mover sem doer muito começa a se levantar. Esfrega seus olhos para limpar a visão ofuscada pelo sol da manhã. Está em seu quarto, sentado em sua cama. Tomás ainda está vestindo seu uniforme escolar, de tênis e até mochila.
Confuso, se levanta, deixa a mochila no chão e começa a caminhar em direção ao banheiro de seu quarto. Seus passos são pesados e arrastados, cada um mais difícil que o outro. Para em frente ao espelho, vê seu reflexo e balbucia um “Meu deus…” de tamanho espanto.
Seu cabelo está extremamente bagunçado. Algumas folhas estão grudadas nos fios com o que parece ser barro seco. Mais folhas, galhos, terra e outras coisas coloridas, que não sabe dizer o que são, tornam o seu uniforme lastimável. É como se tivesse rolado num barranco e terminado fazendo um strike em latas de tinta. Isso explicaria a sujeira peculiar e a dor em seu corpo.
Nada faz sentido. É muito cedo, mal passa das seis e ele já está de pé, vestido e todo sujo. Imagina que ao entrar no beco, a última coisa que lembra, tenha rolado por uma ladeira. Já as gosmas coloridas, não consegue pensar em uma explicação, talvez tenha participado do Nickelodeon Kids’ Choice Awards.
Tenta com mais força se lembrar do que havia acontecido, porém só recorda do estranho beco entre as duas casas. Tudo além disso é um branco sem explicação. Fica olhando seu estado deplorável refletido no espelho antes de começar a se despir para um banho. Não há condições de ir em qualquer lugar desse jeito. Enquanto joga suas roupas no cesto, só consegue pensar que sua mãe irá matá-lo por fazê-la lavar toda aquela sujeira, e com razão.
Sai do chuveiro sentindo-se muito melhor. Não está cansado, pelo contrário, parece que dormiu um dia inteiro. O que talvez realmente tenha acontecido. Veste suas roupas para a aula e vai até a cozinha tomar seu café da manhã. Demorou tanto no banho, que já deve estar tudo pronto na mesa.
— Acordado já, filho? — Fala sua mãe ao vê-lo entrar na cozinha. — Eu nem vi que horas você chegou em casa ontem, fez o que depois da aula? — Pergunta despreocupada, Tom nunca havia dado motivos para ela se estressar, talvez por isso a tranquilidade.
— Eu cheguei em casa cedo, mãe, mas tava muito cansado e fiquei dormindo no quarto. — Mente de forma convincente, é melhor assim do que falar que não faz ideia do que aconteceu. Com certeza iria achar que estava se drogando. E considerando o estado que acordou, quem duvidaria?
— Nossa! E o que você fez que te deixou assim? — Fica curiosa.
— Não fiz nada, mas eu e a Mandy terminamos e sei lá, tô meio assim… — Isso é verdade. Quando sua mãe abre a boca para falar, o filho já interrompe. — Mas não quero conversar sobre isso, então nem começa. — Fecha os lábios e o olha com aquela cara de mãe preocupada que todos nós reconhecemos. Depois volta aos seus afazeres da manhã.
Quando Tomás termina de tomar seu suco e comer um pão, seu pai entra na cozinha acompanhado de Yoda, o cão da família. Sem falar nada ele bagunça o cabelo de Tom com um sorriso, e pega uma xícara de café com leite. Isso é normal, seu pai não conversa muito, ainda mais pela manhã. Tom já está acostumado, tanto que não arruma seu cabelo, simplesmente pega sua mochila e se dirige para a escola.
Sai de casa mais um dia sem ver sua irmã. Agora que ela tem seu próprio carro, a garota não liga de dormir um pouco mais. Sem falar que já não estuda no mesmo colégio que o irmão.
Durante o caminho até a escola Tomás fica pensando no estranho beco e o que havia acontecido no dia anterior. Nem por um momento a imagem de Mandy passa por sua cabeça. Não é que não sente saudades da ex, mas algo muito estranho havia acontecido. A curiosidade se transforma em determinação, precisa voltar lá após a aula. Só há um problema: como se perdeu durante o caminho, como irá encontrar aquele beco? O garoto está tão absorvido por seus pensamentos que não percebe que Rafa já está ao seu lado. Falador como sempre, o ruivo logo é notado.
— ...daí quando cheguei em casa já tava tudo meio bagunçado. — Tom não entende nada. Só notou o amigo agora e não faz ideia do que ele tá falando.
— Tá certo… — Tenta não parecer confuso, há quanto tempo ele estava ali? Isso realmente não importa. — Rafa cara, aconteceu algo muito bizarro ontem.
— Se você falar de algo relacionado a Mandy te dou um soco. — Adverte o amigo, mal tem noção que a garota já não está mais em cogitação nos pensamentos de Tom.
— Não cara, não tem nada a ver com ela. Ontem quando eu tava indo pra casa aconteceu alguma coisa. — Sente dificuldade de se expressar sem parecer burro. É complicado explicar o evento, pois nem ele tem noção do ocorrido.
— Como assim? O que deu? — Pergunta curioso.
—Não sei bem, acho que eu devo ter caído em algum lugar, ou batido a cabeça, sei lá. — Rafa começa a mexer na cabeça de Tom de um jeito muito chato e bagunçando todo o seu cabelo à procura de algum machucado. Depois de ser empurrado por Tom, o ruivo começa a falar.
— Mano você tá falando besteira, não tem nada na sua cabeça, o que aconteceu?
— Não sei cara. Eu tava indo pra casa. Depois disso, só lembro de ter acordado hoje cedo. Todo sujo de barro e folhas, como se tivesse rolado num barranco ou caído em algum lugar.
— Sério? — Pergunta cético, é algo muito difícil de se acreditar mesmo.
— Sério cara. — Começa a duvidar de si mesmo.
— Tem foto? Sabe que só com provas acredito numa asneira dessa. — Questiona em tom de gozação.
— Aff cara, não tenho foto, você acha que ia pensar nisso na hora. — Dá um pequeno empurrão no amigo que começa a rir. — Mas é sério, não sei o que aconteceu.
— Bem, seja o que for a gente dá uma olhada depois da aula. Não é difícil voltar até o último lugar que você lembra.
— Aí que tá… — Fala de cabeça baixa. — Eu meio que me perdi ontem, não sei exatamente onde é o último lugar que lembro.
— Meu, como assim? — Pergunta realmente surpreso. — A gente mora num bairro minúsculo, como tu se perde aqui? Tipo, não tem como!
— Sei lá, tava andando olhando pra baixo, como vou saber!?
— Que burro! Mas a gente acha, não tem como ser uma ou duas ruas perto do caminho que você normalmente faz. — Rafa realmente não entende o que está acontecendo, mas imagina que tudo é culpa da Mandy. A ex deve ter estragado demais a cabeça do Tomás.
— É, imagino que você esteja certo.
— Tava com seu telefone ontem? — Tom nunca foi muito adepto do celular, então era algo normal sair de casa sem levar o aparelho.
— Pior que não. — Suspira desanimado.
— Ah mano, você é um tapado mesmo! Se tivesse com ele era só ver no mapa por onde tinha andado. — Bufa frustrado.
— Não tinha pensado nisso…
— Claro que não, parece que tem alergia ao celular.
Os dois chegam na escola no mesmo horário de sempre. Tudo parece normal, como se nada de extraordinário tivesse acontecido ontem. Mandy está rodeada por seus seguidores na fonte próxima da entrada. Outros alunos entram e saem do prédio enquanto o sinal não tocava. Vários carros circulam pelo estacionamento, como todos os dias, tudo normal.
Tom segue com Rafa para a sala, eles cumprimentam alguns colegas pelo caminho. Em nenhum momento o garoto sequer olhou para sua ex namorada. O que deixa Rafa extremamente orgulhoso. Mas o ruivo não sabe que o motivo disso é que Tom só pensa naquele estranho beco e no que havia acontecido.
Assim que sentam em suas carteiras o sinal toca e logo a aula de ciências começa. Sem demoras, todos os alunos estão em seus lugares e a professora entra na sala. Tom acha incrível que logo cedo seu avental já esteja sujo de giz.
A aula começa com a chamada, a voz monótona da professora quase coloca toda a turma em um estado de letargia. Tomás não está prestando muita atenção à professora, sua mente vaga em busca de lembranças do dia anterior, novamente sem sucesso.
Seu olhar passa por seus colegas enquanto levanta o braço para confirmar sua presença, e termina olhando para as janelas que dão para a entrada da escola e a rua do lado de fora. Alguns carros deixando alunos atrasados, os desocupados fazendo cooper e o zelador fazendo a jardinagem, tudo como sempre.
Distraído quase não vê algo mais longe, no limiar de sua visão. Parece que há um gato andando no meio da rua, sem se preocupar com nada em volta. Mas ele está longe e pela distância não deveria nem sequer enxergar o bichano. Tom força a vista em busca de detalhes, com certeza é algum tipo de felino, mas deve ser enorme, afinal está muito longe e mesmo assim pode vê-lo com certa clareza.
A aula começa, Tomás tenta não desviar o olhar do animal. Eventualmente se vira para frente, pega seu caderno e penal e começa a escutar com desânimo o conteúdo passado pela professora. Quando finalmente volta a olhar para rua não há sinal nenhum do felino.
Nada mais de extraordinário acontece nas primeiras aulas e rapidamente o sinal toca para o intervalo. Instantaneamente a sala se esvazia. Tom e Rafa saem juntos conversando de como farão a busca pelo estranho beco, eles olham o mapa da região pelo celular do ruivo analisando o melhor caminho para a investigação.
No corredor Mandy passa pelos garotos com mais pompa do que de costume, um número maior de pessoas a seguem. Talvez pelo fato da garota estar muito mais produzida. Hoje veio maquiada, algo que raramente fazia. Afinal, perder tempo na frente do espelho dá muito trabalho e a preguiça extrema dela a impede de fazer esse tipo de esforço. Mas hoje um batom rosa escuro destaca os lábios perfeitos, criando um contraste hipnótico com sua pele alva.
Mesmo com tanta beleza, nenhum dos dois acaba prestando atenção na diva que passa. Rafa mesmo nunca ligou para Mandy. Mas Tom, se estivesse em um dia normal, talvez corresse para um canto lamentar o término do namoro. No entanto, hoje isso não ocorre, e ele continua conversando com o amigo como se a ex nunca tivesse entrado em sua vida.
Ninguém nota, mas Mandy fica furiosa com o descaso do seu ex ficante. Como ele pode ousar em não olhar para alguém tão linda? Justo Tomás que antes fazia absolutamente tudo que mandava. Bem, esse não foi o exato pensamento dela. Gostaria de dizer que sim, mas a realidade, mesmo próxima ao descrito, não foi tão dramática.
Rafa compra rapidamente alguns salgados e dois refris na lanchonete enquanto Tom fica sentado em um dos bancos olhando para o celular do amigo. Suzy, ao ver os garotos, dá alguma desculpa para seus colegas e vai se juntar a eles.
— O que vocês tão aprontando? — Pergunta encarando os dois, Rafa com a boca cheia de comida acaba não falando nada sobrando para Tom responder a amiga.
— Por que você acha que a gente tá aprontando algo? — Tenta disfarçar, coisa que não faz muito bem quando não é sua mãe.
— Ah Tom, eu te conheço, você nunca usa o celular, pra nada, e agora tá aí colado nele desde que saiu da sala. — Tom faz uma cara de espanto. Ela reparou nisso há quanto tempo?
— Como você sabe que eu saí da sala olhando o celular? Por acaso tá me seguindo? — Rafa dá uma risada tola entre os goles do refri.
— Claro que não. — Responde com desdém. — Ouvi que você ignorou a Miss porque estava olhando algo no celular, daí dei risada. — Sorri. — Agora fala, o que vocês tão aprontando.
— É Tom, fala logo, quem sabe ela não nos ajuda. — Rafa só quer mesmo é incomodar o amigo, sabe que isso o deixa meio sem jeito.
— Ajudar no que? — Já conseguiram deixar Sukimoto curiosa.
— Ontem quando estava voltando pra casa eu acabei me perdendo… — É interrompido pela amiga.
— Se perdendo por aqui? Não tem como. — Debocha com um sorriso maldoso, realmente em uma situação normal não há como se perder por ali.
— Eu disse a mesma coisa. — Completa Rafa.
— Deixa eu terminar. — Interrompe, um pouco irritado. — Não foi só o fato de eu me perder, eu conheço a região e sei que isso pode parecer estranho, mas eu estava em um lugar diferente. Sério eu nunca passei, ou vi aquela rua. Tenho certeza que não andei o suficiente pra estar em outro bairro.
— Tá? Tudo isso, toda essa fascinação por uma rua que você não conhecia? — Suzy fica confusa, não faz sentido. Tudo que o amigo diz parece pura bobagem, talvez o término do namoro realmente o tenha abalado. — Você tem certeza que está bem?
— Para com isso, eu tô normal, mas não foi só isso, não foi só uma rua que eu não conhecia.
— Então o que foi? — Coloca as mãos na cintura e se inclina para frente, para encará-lo.
— Bem, quando eu notei que não sabia onde tava, olhei em volta e vi um beco muito estranho…
— Um Beco? Aqui? — O bairro onde moram é completamente residencial, com casas grandes e bem cuidadas, quintais vistosos e vizinhos que competem para ver quem tem a grama mais verde. Um beco realmente não é algo que você vê pela região.
— É, um beco, sei que parece estranho e é, porque é estranho mesmo. Quando eu fui entrar no beco pra ver o que tinha eu apaguei.
— Como assim? — Incrédula.
— Apaguei, não sei, tudo que lembro depois disso é de acordar no meu quarto hoje cedo. Todo sujo como se tivesse rolado no barro. — Suzy não diz nada por alguns segundos, só faz uma cara de quem não sabe se acredita. Ou talvez se não sabe se entendeu o que ouviu. Depois de um minuto fala.
— Tá e o que vão fazer? — Rafa responde prontamente.
— A gente colocou a rota que ele faz pra voltar pra casa no mapa, parece que tem só três ruas que o burro aqui pode ter desviado. Daí vamos dar uma olhada depois da aula.
O sinal do fim do intervalo bate. Eles nem notam como o tempo passou rápido.
— Me esperem então na saída. Vou com vocês. — Ela se vira e corre até suas amigas que já estão voltando para a sala.
— Eu disse que ela ia ajudar. — O ruivo sorri como se fosse um gênio.
— Nunca duvidei disso, só não sei se é uma boa ideia.
— Por quê?
— Porque eu não sei o que aconteceu ou o que pode acontecer. Vai que é algo ruim. — Responde preocupado, nunca havia sentido esse medo do desconhecido.
— Mano, você só deve ter caído mesmo num barranco, batido a cabeça e não lembra de nada. A gente só tá indo achar o barranco.
Os dois amigos voltam para a sala onde o professor de literatura já está realizando a chamada. Normalmente Tom gosta das aulas de literatura, afinal elas passam rápido e nunca teve problemas com as notas. O professor ensina bem e sabe como deixar seus alunos engajados em sua aula. Os garotos sentam em suas carteiras no fundo da sala e começam a prestar atenção no conteúdo apresentado.
Tudo acontece como sempre, o professor lê trechos e a turma discute sobre, porém no meio da aula algumas luzes da sala começam a piscar de forma frenética. Rafa e Tomás se olham e sorriem. Talvez falte luz na escola e eles serão liberados mais cedo. Pensamento tolo, mas comum nessa idade.
O Professor caminha até o interruptor para desligar as luzes, assim tentando evitar que queimem enquanto a energia não normaliza. Mesmo com os interruptores desligados o pisca-pisca continua e cada vez mais rápido. Toda turma começa a conversar de forma descontrolada, alguns só aproveitam para pôr a conversa em dia. Outros genuinamente assustados e curiosos com o que está acontecendo.
— Turma, turma! — O docente fala alto para que todos ouçam e prestem atenção. — Falem mais baixo enquanto vou ver o que está acontecendo, ou chamar alguém para resolver esse problema. — Sai da sala, incrivelmente o volume das conversas diminuem, mas não param obviamente.
Enquanto as luzes piscam, Tom começa a ver uma imagem estranha se formando no quadro. A cada piscada ela fica mais nítida. O garoto se vira para o amigo, quer saber se ele também enxerga o que se forma na lousa, porém Rafa está conversando com outro colega sobre o treino de futebol do dia seguinte.
Do seu outro lado está uma menina um pouco sem graça, na opinião de Tom. Ela também parece ocupada, conversando com o garoto sentado em sua frente. Com certeza não notou nada de anormal.
Volta sua atenção para o quadro, não há mais nada lá, além do que o professor havia escrito. Tom tenta recordar o que havia visto, mas não consegue fazer sentido dos flashes e linhas que haviam aparecido anteriormente.
Mais alguns minutos se passam até que do mesmo jeito que o evento começou ele termina, a sala fica totalmente apagada e muda. Alguém se levanta e vai até o interruptor. Após o clique as luzes ligam como se nada tivesse acontecido.
Rafa vira para Tom e faz uma careta de desapontamento, afinal eles não saíram mais cedo. Logo em seguida o professor entra na sala com o senhor que cuida da manutenção do prédio, um homem de certa idade já. Porém, seus cabelos são tão brancos que chegam a brilhar. Seu macacão imaculadamente limpo não reflete o trabalho que faz. Tom não sabia o nome do senhor da manutenção e assim sempre o chamou.
Os dois adultos ficam perto da porta olhando as luzes e o interruptor até decidirem que não há nada a ser feito com a turma em sala, talvez fosse necessário olhar a fiação, mas isso não poderá ser feito durante a semana.
A aula continua de forma normal e sem muita demora o dia passa. O sinal toca, liberando os alunos, chega atrasado como sempre. A maioria sai da sala com pressa, mas Tom não compartilha dessa empolgação, uma sensação estranha em seu estômago o prende naquela carteira.
O garoto não faz ideia do que acontecerá em sua busca pelo apagão do dia anterior, imagina que essa volta pela região não dará em nada, porém algo lá no fundo diz que eventos extraordinários o aguardam.