Rafa dá um tapa em seu ombro; quer que ele se apresse. Diferente do amigo, o ruivo está muito empolgado por essa investigação. Tom pega sua mochila e sai da sala, Suzy já está esperando no corredor logo perto da saída da escola. A jovem asiática para de cultivar sua fazendinha virtual assim que nota os garotos e se junta a eles em direção ao desconhecido beco. Direção essa que eles nem imaginam qual seja.
Os três caminham como se estivessem indo para a casa de Tomás. A conversa não foge muito do normal, discutem coisas da escola e da pane elétrica que houve mais cedo. Tom não comenta nada sobre a estranha visão que teve durante o evento, nenhum dos outros dois experienciaram algo similar. Para eles tudo não havia passado de algum curto na antiga rede elétrica do prédio.
Até aquele momento, nada de diferente no caminho que seguem. A primeira rua que investigam não é a certa. Até tentam ir por outro trajeto, mas acabam sempre voltando ao caminho certo. Tanto que em momento algum foi necessário olhar o GPS, algo que Rafa quer fazer praticamente a todo instante.
Desanimado com o aparente fracasso, Tom olha para baixo, para o asfalto preto passando por seus pés. Percebe que um de seus cadarços está praticamente desamarrado. Imediatamente se irrita com o tênis. Não é possível que só o pé direito desamarra assim.
Realmente isso é algo curioso, afinal os pares são praticamente iguais, os dois feitos no mesmo local com os mesmos materiais, talvez até no mesmo instante, como irmãos. Mas isso não faz diferença, sempre tem um que desamarra o tempo todo, não importando o quão apertado se faz o laço.
— Pera um pouco, que tenho que amarrar meu tênis aqui. — Tom se coloca de joelhos e começa a arrumar seu calçado.
— Mano, não te ensinaram a dar um nó direito não? Quando você era pequeno. — Provoca Rafa.
— Rá-rá. — Responde com uma falsa incomodação.
— É por isso que eu sempre uso sapatilha, não tem cadarço. — Fala Suzy atrapalhando Tom com seu calçado. — Tá vendo? Não desamarra. — Coloca seu pé sobre o tênis do garoto e o empurra um pouco.
— Para! Que coisa vocês. — Ele se levanta e quando vai começar a caminhar nota algo. — Gente…
— O que? — Rafa está rindo um pouco e já acha que o amigo quer reclamar mais da provocação, porém se enganou.
— Não estamos no mesmo lugar, estamos? — Tom não tem certeza, mas não lembra de nenhuma casa de dois andares na rua que estão, e também não se recorda que há casas realmente grandes no local onde havia encontrado o estranho beco. Suzy começa a olhar ao redor e fala.
— Verdade, esse lugar parece um pouco diferente, não lembro de ter visto essas casas enormes, parecem mansões até. Não sabia que tinha gente com tanto dinheiro morando por aqui. — Eles moram num bairro de gente abastada, porém a única pessoa com grana o suficiente para possuir uma casa tão grande como algumas dessas é a família de Mandy.
— Pois é. — Rafa também não se acha no local, algo o incomoda nessa rua e sem nenhuma razão clara.
A rua se estende até onde conseguem enxergar. Com um asfalto tão preto que parece ter sido pavimentada ontem, porém sem o cheiro nojento dessa atividade. A calçada é ampla e com várias árvores, mas eles nem a usavam, afinal não passou um carro até agora. E nem há carros estacionados.
A maioria das casas possuem muros de cerca viva e portões enormes. Suas belas fachadas não ficam à mostra, nada de tão incomum para casas desse padrão, o incomum é que não fazem parte do bairro como conhecem.
— Rafa, para de ficar com essa cara de pasmo e vê certinho no seu celular, onde a gente tá. — Suzy cutuca o garoto ruivo no ombro para ele voltar à realidade. Rapidamente, sem nem ao menos reclamar do tapa, tira o celular do bolso e começa a mexer.
— Não tá ligando… Estranho, eu não torrei a bateria. — Fala enquanto aperta o botão do aparelho sem resposta. — Usa o seu Suzy, aqui tá feio o negócio.
— Tá, deixa eu pegar ele aqui. — A garota tira o celular do bolso e rapidamente faz uma careta de espanto. — Sério isso? Não liga! Eu tenho certeza que estava com bateria! Tava jogando enquanto esperava vocês saírem da sala.
Sukimoto tenta várias e várias vezes fazer o pequeno aparelho funcionar. Quando percebe que Tom só está parado olhando para ela mexer no celular, se irrita e começa a esbravejar com o avoado garoto.
— Sério Tom? Você ainda não pensou em testar o seu celular? — Rapidamente o garoto coloca sua mochila no chão e se abaixa para pegar o aparelho. Naquele momento nem lembra que não está com ele ali, de tão enfático que foi o comando da amiga.
— Só um pouco… — Procura sem sucesso. — Não tô com ele aqui.
— Não pode ser coincidência… — Suzy olha em volta, já mais calma. — Tom, você não se lembra dessa rua? Não foi o lugar por onde passou ontem?
— Tenho certeza que esse não é o lugar, ia lembrar dessas mansões, mas concordo, tem algo muito estranho aqui. — Rafa também guarda seu celular e fala.
— Gente, só nos resta seguir em frente.
Os três se olham e não falam absolutamente nada por alguns segundos. Não sentem medo, somente uma curiosidade que supera tudo que já haviam sentido. Tom olha para trás, a rua segue até onde sua vista alcança. Árvores balançam suavemente ao serem tocadas pela brisa e os raios de sol driblam de maneira quase preguiçosa as folhas verdes. Tudo é normal demais para ser verdade.
Não há mais nada no lugar, sem barulho de outras pessoas, carros, cachorros e passarinhos, somente eles. Volta a olhar para seus amigos; Suzy está muito apreensiva. A curiosidade a consome, mas a cada momento sua preocupação aumenta. Já Rafa parece o oposto, está empolgado e louco de vontade de desvendar esse mistério.
Sem falar nada começa a andar, os dois o seguem e por um bom tempo nada é dito. Só caminham e observam atentamente ao redor. Minutos depois voltam a conversar como de costume, porém o assunto agora é sobre o que está havendo.
— Só tem uma explicação, mano: a gente tá em outra dimensão, só pode. — Começa Rafa em um tom sério, Suzy só faz cara de “não fala bobagem” o que eventualmente ela expressa.
— Aff não fala bobagem. Não é como se a gente estivesse no episódio Escala em uma Cidade Silenciosa (Além da Imaginação 1964). Só entramos num bairro diferente. Pegamos alguma rua errada lá atrás. — Ela parecia ter certeza do que dizia, mas só parecia.
— Cidade o quê? — Rafa não entende do que ela está falando.
— Não acho que estamos em outro bairro, porque pelo tempo que a gente já está caminhando e a direção que a gente tá indo já teríamos cruzado com a rua da biblioteca.
A biblioteca pública é enorme e serve como ponto de referência para todos na cidade. Não só pelo fato dela ficar bem em seu centro, e possuir uma grande praça em sua frente, mas também pela rua onde ela se localiza. Uma avenida que cruzava praticamente toda a cidade de leste a oeste.
— Nem toda rua cruza a principal. Algumas são meio que inclinadas. Essa deve ser uma delas. — Fala Rafa tentando explicar o que diz com as mãos.
— Inclinadas? Meu deus! Vai aprender a falar, parece que tá no primário. — Suzy caçoa do colega como se estivesse brava. — Como você sabe a direção de qualquer jeito, nem mapa a gente tem mais.
— Mas você pega no meu pé, heim! — Reclama cruzando os braços de forma cômica. — Eu sei, pois tive que aprender quando era escoteiro. Só usar o Sol como bússola.
Agora que o ruivo para para observar o astro percebe que sua posição no céu não bate com o horário. Já havia passado das quatro horas, porém o astro está perto da posição de meio-dia.
— Gente, se fosse só o caso de estarmos em um bairro desconhecido eu tava tranquilo, mas tem algo muito estranho aqui. Sério, nós estamos andando há um quê? Vinte minutos?
Suzy concorda com a cabeça, Rafa imagina que deve fazer um pouco mais de tempo. Nenhum deles anda com relógios, e sem seus celulares não têm noção alguma do tempo.
— Então vinte minutos, meia-hora que seja. Não passou um carro nessa bendita rua, não ouvi um cachorro latir. E é impossível que todas essas mansões não tenha um chihuahua. — Tom nunca gostou de chihuahuas.
— Eu não tinha pensado nos cachorros. — Nada que Rafa fala parece ser sério.
— Sabe o que a gente faz, vamos olhar uma dessas casas de perto, cansei já de ficar no meio da rua. — Suzy mal termina de falar e já sai a sopetão em direção a uma das casas. Os dois garotos mal têm tempo de acompanhá-la.
A casa é enorme como as outras, mas pouco se vê devido a cerca viva que chega perto dos dois metros de altura. O portão da casa é de ferro e muito pesado. Estranhamente não parece ter um motor para abri-lo por controle remoto. Suzy tenta forçá-lo, mas está trancado.
Nenhum deles quer se arriscar a subir pelo portão. Além de ser mais alto que a cerca viva, também possui lanças que parecem machucar de verdade. O trio se esforça para olhar tudo que conseguem pelas barras do portão, mas nada se destaca. É uma casa absolutamente normal, impecavelmente normal.
Suzy não consegue ficar ali parada olhando, está irritada com o lugar e com a falta de algo acontecendo. Isso era para ser uma caça ao tesouro boba e rápida, afinal, antes dessa tarde, a história de Tomás, não fazia sentido algum.
A garota então puxa Rafa para perto dela e o faz dar um “pézinho” para que tente subir o muro. O garoto obviamente reclama, mas como sendo o esportista do grupo é o que tem mais força para impulsioná-la. E Suzy é com certeza a mais leve.
Sem muitas dificuldades a garota consegue passar pela cerca e entrar no quintal da casa. Quando seus pés tocam a grama verde é que se dá conta que não pensou bem em como voltará. Mas com certeza deve haver algo que lhe ajude a retornar.
Tom fica observando o malabarismo dos amigos com atenção. Afinal, um movimento errado e os dois podem se machucar. No entanto, quando Suzy é impulsionada para o outro lado da cerca, algo no canto de sua visão o distrai da façanha. Há algo mais a frente no meio da rua.
Tomás rapidamente se vira para a estrada tentando identificar o que é, porém o local continua tão deserto quanto antes. Uma sensação de déjà-vu se espalha dos pés à cabeça. Ele deveria saber o que é, afinal não foi a primeira vez que isso ocorreu, mas sua cabeça não está clara o suficiente para se lembrar. É estranho pensar que acontecimentos anormais podem ser esquecidos, e até parecerem corriqueiros quando algo mais absurdo toma toda sua atenção.
Suzy começa a observar o local após limpar suas mãos. O quintal do lugar é grande, parece muito maior de dentro. Estranhamente diferente de quando olhou pelo portão. A casa fica no centro, com grandes janelas em seus três andares. A porta é grande, toda ornamentada, e parece pesada demais para ser usada diariamente.
Tom ainda está um pouco inseguro, mas agora não pode desgrudar os olhos de Suzy, não quer que nada aconteça com a amiga. Afinal, além de estranhas visões, ele nunca havia invadido uma casa, muito menos uma mansão. Que com certeza teria um cachorro enorme pronto para arrancar uma perna, ou algum ninja engravatado louco para dar alguns golpes no invasor desavisado.
Rapidamente essas preocupações são deixadas de lado, quando por fim nota o quão bonita é a garota naquela situação de transgressão. Um adolescente ainda é um adolescente não importando a situação. Tom foca sua visão na calça apertada e colada no corpo relativamente magro, porém com curvas em lugares que ele aprova.
Seus pensamentos não vagam muito tempo pela beleza da “japa” irritada, pois logo ela não está mais em seu campo de visão, indo para trás da casa. Ele com certeza não gosta dela, afinal ainda sente algo por Mandy, ou melhor, sente muito por Mandy. Isso é somente a atração física falando mais alto que seu bom senso.
Rafa não quer ficar ali parado também e começa a subir pela cerca viva do jeito que dá, praticamente afundando nas folhas e se arranhando todo. Tom não quer nem um pouco fazer isso, mas ficar ali sozinho não é opção. Mesmo com tudo em volta parecendo um deserto, ou melhor, uma vitrine. Ele não se sente seguro.
Sem muita vontade começa a seguir o amigo pelo meio da cerca, e se arranhando tanto quanto ele. Não muito tempo depois estão dentro do quintal, sem cachorros ou ninjas atrás deles. Rafa já desaparece no quintal, Tom consegue ouvi-lo, mas não sabe dizer direito a direção.
Dá alguns passos e se aproxima da casa, tudo parecia perfeito demais, limpo demais, não fazia sentido. Já está em frente a grande porta. Suzy havia tentado abri-la anteriormente, mas sem sucesso. Não há motivo algum para tentar, já sabe o resultado. Mesmo assim sua mão é quase que puxada até a maçaneta, que, a princípio, não se mexe, mas logo depois destranca com um grande estrondo.
O som parece muito mais alto do que realmente foi. O barulho amplificado pelo silêncio que reina nesse estranho bairro. Suzy e Rafa voltam correndo até a frente da casa. Eles obviamente não esperavam nada mais daquele lugar.
Nenhum dos três percebe que eles estão sendo observados.
— Como você conseguiu abrir? — Fala a garota sem fôlego. Ela havia tentado com muita força girar aquela maçaneta e nada, e Tom não é nem um pouco forte, se fosse o Rafa até entenderia, mas não ele.
— Não sei, só girei e depois parece que destravou. — Abre mais a porta. — Acho que você deve ter girado para o lado errado, sei lá. — As palavras são quase como um insulto para Suzy, como se ele a tivesse chamado de burra ou algo pior.
— Como assim lado errado? Não tem como abrir uma porta pro lado errado. — Irritada.
— Gente! — Interfere Rafa. — Parem com isso, vamos entrar logo e ver o que tem aí dentro.
A porta fica escancarada por alguns segundos, Rafa é o primeiro a passar por Tom e entrar na residência, ele por sua vez não demora muito e o segue, Suzy em seguida. A casa é tão estranha por dentro quanto por fora. A mesma característica de vitrine se mantém, porta retratos sem fotos, vasos sem flores, tudo ali não está completo. As mesas e cadeiras estão posicionadas de uma forma que é mais fácil de se enxergar de fora, e não pela sua utilidade no ambiente.
Os três sobem a escada que fica logo após a primeira sala. O segundo andar é ainda mais estranho que o primeiro, não há nenhuma divisão de quartos, salas ou banheiros. O andar é um único cômodo praticamente vazio. Em todo o lugar há somente uma poltrona prata virada no chão num ângulo estranho e a escada que sobe para o terceiro piso.
— Bem, se alguém não achava antes, eu acho agora. Gente, vamos embora, esse lugar aqui é muito filme de terror. Daqui a pouco o céu começa a se quebrar e uns seres transdimensionais começam a comer tudo à nossa volta. — Normalmente Rafa não falaria essas coisas, mas Tom o influenciou a gostar de filmes que ele não teria acesso se não fosse pela amizade.
— Em qualquer outro dia eu acharia isso muita bobagem, mas esse lugar é realmente estranho. — Fala Suzy olhando pelas janelas do local.
Caso fosse Tomás nessa observação a história seria outra, mas Suzy não viu nada de mais bizarro lá fora. Tom não tem motivo algum para discordar, mas sente algo diferente, principalmente ao olhar aquela poltrona, totalmente fora de sintonia com a casa.
— Vamos voltar gente… — Continua Sukimoto.
— Não. — Os dois olham para Tom, surpresos. — Quer dizer, não agora, quero me sentar antes. — Ele não sabe o motivo, mas precisa sentar naquela poltrona.
— Como assim mano? É só um estofado velho. — Tom não o vê como velho. — Mas se você quer eu coloco no lugar. — Quando Rafa começa a ir em direção, Tom o impede.
— Não precisa mexer, vou sentar assim mesmo.
— Tipo todo torto? — Pergunta confuso.
— Exatamente…
Tom fica parado em frente ao sofá prateado por alguns instantes antes de se sentar. Algo ali está muito errado, ou muito certo. As pontas dos seus dedos formigam como se tivesse dormido por horas em cima dos seus braços. Quanto mais se aproxima do couro do móvel, pior fica.
Por fim o garoto se ajeita e senta no sofá, que responde ao seu corpo com um barulho insuportável, que somente sofás de baixa qualidade conseguem fazer. Quase como um grito de agonia de suas molas que não suportam mais nenhum peso.
O que acontece agora ocorre por muito tempo, e ao mesmo tempo não leva nem um segundo. No instante que Tom senta no sofá tudo a sua volta desaparece. Não está mais naquela mansão estranha, e sim flutuando no espaço infinito. Seus amigos não estão mais lá, não há nada além do cosmos.
Por ser algo tão absurdo e surpreendente que Tomás não é tomado pelo desespero. Afinal parece mais um filme. Está sentado, respirando e tudo. Tirando o espaço sideral em sua volta, não há nada de incomum ali.
Após alguns segundos começa a procurar algo, qualquer coisa que lhe dê uma indicação de onde está. Mesmo no meio do espaço, se ele ver a Terra ou a Lua dá para imaginar alguma coisa, porém não há nada, ou pelo menos nada que possa ver.
Tomás não tem certeza, mas parece que o sofá está se movendo pelo espaço. É somente uma intuição. Sem nenhum ponto de referência, ou uma brisa sequer, não há como saber, porém acha que sim, e ele está certo. Tom deveria confiar muito mais em suas intuições do que dá valor, se algo nesse garoto não é medíocre é a capacidade do “universo” em ajudá-lo.
Não demora muito para essa sensação de movimento se confirmar, o sofá realmente está em movimento. A inusitada nave espacial vai em direção a uma estrutura peculiar no meio do espaço cósmico. Muito longe, mas se aproximando rapidamente, há um palácio digno dos filmes de fantasia — enorme. A construção possui uma estrutura dourada, com torres, jardins e cúpulas magníficas, um castelo.
Tom não é nenhum arquiteto, mas pode facilmente identificar se uma construção possui influência europeia, árabe ou oriental. A proximidade com o castelo não ajuda sua dedução. Seu estilo lembra algo que você vê descrito nas mil e uma noites ou Aladim, porém distorcido, contorcido e anormal. Nada ali parece macabro ou bizarro, mas é um castelo construído de um jeito diferente, sem levar em consideração as leis da física.
O sofá prateado diminui sua velocidade e começa a descer nos jardins que levam até a entrada do palácio. A estrutura toda realmente flutua no espaço como se toda a terra na qual havia sido construída fosse removida do seu local de origem e levada para fora do planeta.
Quando o móvel finalmente pousa, Tom fica apreensivo. Será que deve se levantar e entrar no palácio? Já que está ali, então agora não tem mais volta. Suas mãos se apoiam nos braços do sofá e ele se impulsiona para frente. No instante que seu corpo perde todo o contato com o couro prateado do móvel Tomás apaga.
…
Uma dor esmagadora o acorda, está tudo escuro em sua volta, o ar é gelado e um pouco úmido. Seu braço esquerdo doía demais. Com dificuldades, Tom tenta se pôr de pé para entender o que está acontecendo e onde se encontra. Claramente não voltou para casa, mas algo semelhante com o evento do beco ocorreu novamente. É sorte sair de uma situação terrível vivo? Ou será que é azar ter entrado nessa situação em primeiro lugar?
Mesmo muito cansado, e com dor em partes do seu corpo que deveriam levar pelo menos sessenta anos para começar a doer, Tom dá alguns passos. Agora que seus olhos estão mais acostumados com a escuridão percebe que está em algum tipo de cômodo. Há algumas caixas de papelão em um canto, umas estantes e gabinetes de arquivos em outros.
O garoto não percebe, mas o local é velho, o metal dos móveis já está marrom de ferrugem, tudo ali não é usado há pelo menos uns dez anos, senão mais. O mais importante é a porta que se esconde atrás das caixas de papelão. O que deixaria Tom curioso, se ele não estivesse completamente destruído. O local não parece ter outra saída, e as caixas estão escondendo a porta, quem fez isso não saiu da sala então? É isso que deveria pensar se tivesse em condições para tanto.
Com seus braços sem forças e machucados, Tomás derruba as caixas que tapam a porta. A maioria delas parece vazia. Não há uma maçaneta para abri-la, um simples empurrão do exausto garoto é o suficiente para que ela comece a se mexer.
Uma luz fraca escorre pela fresta que se expande, é a lua cheia que ilumina o céu noturno sem nenhuma nuvem para contestá-la. Ao atravessar a porta percebe que se encontra em algum tipo de estacionamento vazio. O único carro a vista é um carrinho de supermercado virado de lado com duas de suas rodas faltando.
Tom olha em volta, não foi fácil, mas consegue reconhecer onde foi parar. É a carcaça de um antigo shopping center já abandonado perto da saída sul da cidade. Sua estrutura interna já foi completamente desmantelada, sobrando somente o prédio em si.
O garoto olha para trás, para a sala onde misteriosamente estava até alguns minutos. Ela continua lá, uma prova física que não é louco, nem usuário de drogas. Porém a porta não é comum, por dentro parece normal, mas por fora não tem distinção nenhuma da parede decrépita do shopping. Literalmente uma passagem secreta.
Tom não se conforma com aquilo, em sua cabeça nada mais é absurdo o bastante para ser incrédulo. Mesmo assim não quer fechar aquela porta, imaginando que ao fazer isso a sala sumirá do mesmo jeito que apareceu. Entretanto, não é isso que ocorre. Mesmo fechando várias vezes, ela volta a abrir. Isso o deixa extremamente feliz. Talvez a primeira vez que se sente tão bem desde que Mandy terminou com ele. Até a dor em seu corpo parece diminuir.
Agora um pouco mais calmo, e com a luz da Lua possibilitando, Tom olha para seu corpo. Não é à toa que sente dor por todos os lados. Seu braço esquerdo está roxo, como se tivesse sofrido algum impacto, enquanto o direito obviamente exibe cortes que já estão cicatrizando. Suas calças não caíram por milagre, nem alguns mendigos usariam algo tão surrado.
Sem falar que não sabe onde está sua mochila, e isso é um problema. É nela que guarda seu dinheiro.
Começa a se preocupar com seus amigos, eles obviamente não estão por ali, o local está silencioso demais, mas não de um jeito anormal como na rua que estava andando há algum tempo. É um silêncio natural, dá de sentir no ar.
Sem poder fazer nada além de caminhar, começa a mexer suas pernas com dificuldade, não será uma caminhada fácil, afinal não sabe bem como voltar para casa.