Tomás leva quase três horas para chegar em casa. Durante toda a peregrinação, o garoto surrado não se depara com ninguém. A cidade não é grande, mas mesmo de madrugada é normal encontrar pessoas cambaleando por aí. No entanto, isso não ocorre. Não que elas tenham sumido, mas nenhuma delas se aproxima o suficiente para ser notada.
Já o rapaz, cansado, não vai atrás de ajuda, pois não saberá como justificar seu estado. Sendo assim, é melhor não conversar com estranhos, evitando problemas desnecessários.
O Sol está para nascer quando Tomás entra em casa de fininho. O que foi fácil. A porta não está trancada e ele naturalmente não é uma pessoa barulhenta. Entretanto, a falta de preocupação de seus pais é algo bizarro, no mínimo.
Neste momento Tom não chega a refletir sobre isso, porém, mais tarde com certeza fará. Não há pais no mundo que ignorem a ausência injustificada de seus filhos, o normal é eles estarem por aí procurando-os com os corações cheios de agonia. Ou, pelo menos, aguardando na sala prontos para uma bronca. Em nenhum dos dois apagões isso ocorreu, curioso? Muito. Coincidência? Claro que não.
A primeira coisa que faz ao entrar em seu quarto, que está exatamente como deixou, é ir ao banheiro tomar um banho. Novamente para em frente ao espelho embasbacado com seu estado lastimável.
Dizer que havia tomado uma surra é gentileza, Tom havia sido centrifugado por uma lava roupas maligna por pelo menos três ciclos. Todo o seu corpo está coberto por hematomas, não somente seu braço esquerdo. Além de vários cortes, o mais profundo está em seu braço direito, no entanto esses machucados já estão meio cicatrizados. Como se tivessem sido tratados há alguns dias.
O único destino de suas roupas é o lixo, nenhuma delas está em condições de ser usada novamente. Por algum motivo, enquanto se olha no espelho tentando entender como havia ficado assim, uma sensação que não está sozinho ali surge e o incomoda. Porém, assim que entra embaixo da ducha, isso desaparece da mesma forma súbita que surge. Depois de muito tempo sai do banho se sentindo melhor. Se veste e vai para a cozinha tomar café.
— Oi, filho, de manga comprida hoje? — Fala sua mãe completamente despreocupada ao ver Tom se sentando na mesa.
— Pois é, acordei com um pouco de frio. — Só se fosse frio na espinha, na realidade só queria esconder seus vários machucados. Agora um pouco mais calmo, começa a estranhar a calmaria de sua família com toda a situação.
— Não tá se sentindo quente? Pode ser febre, deixa eu ver. — Se aproxima do filho e põe sua mão na testa dele. — Não tá quente.
— Ai, mãe, não tô com febre, só acordei com frio. — Reclama afastando a mão, mas só depois dela já ter confirmado sua temperatura.
— Talvez, pode ser que esteja ficando gripado, se cuida hoje. — Ele concorda com a cabeça um pouco relutante. — O que deu ontem e hoje, pra você madrugar? — Volta a preparar o café; ainda é muito cedo e não fez tudo que precisa.
— Não dormi direito, nada demais. — Em sua defesa a parte de não dormir direito é pura verdade, Tom não havia dormido nos últimos dois dias, não que ele lembrasse pelo menos. Desmaiar conta como sono?
— Tudo culpa dessa Mandy, que menina boba. — Debocha um pouco do filho, mas um deboche ainda com sincera preocupação.
— Aff mãe, não. Nada a ver. — Ele não tem paciência para aturar seus amigos com esse tipo de brincadeira, mas de sua mãe é pior ainda. — Só não dormi bem.
— Então, você pode achar que não tem relação, mas ele — Aponta pro peito do filho. — não pensa assim. — Tom rola os olhos para cima, aquilo já é demais. Levanta da mesa, pega uma fruta na cesta e segue para a saída, porém antes de deixar a cozinha questiona.
— Ontem a noite, o que teve de janta? O que vocês ficaram fazendo em casa?
— Você não se lembra do que comeu ontem? Tem certeza que está tudo bem contigo? — Tom se esforça para esconder a incredulidade em seu rosto, para sua mãe ele não tinha ficado fora a noite toda. Mas agora não é a hora certa de se preocupar com isso, se ela não notou, melhor.
— Vou mais cedo hoje, beijos. — E segue para fora de casa, sua mãe só consegue dizer um “se cuida” antes dele por os pés para fora de casa.
Falta ainda uma hora, mais ou menos, para o pessoal começar a sair de suas casas e seguir em direção ao colégio. Felizmente o prédio já deve estar aberto e poderá relaxar no pátio antes do início das aulas. No entanto, está preocupado com seus amigos, e se eles não aparecerem na aula de hoje?
É verdade que Tom voltou do que havia acontecido, porém não tem como ter certeza que o mesmo ocorreu com Suzy e Rafa. O fato de sua mãe não ter notado nada o deixa aliviado. Não é tolo pensar que o mesmo aconteça com os pais dos dois.
Tom torce para que eles estejam bem, só precisa aguardar mais algum tempo para ter certeza disso. Ou ele pode pegar seu celular, que trouxe hoje, e ligar para a dupla, porém essa ideia não surge em sua mente apática ao aparelho móvel.
Outra preocupação sua, após enfiar na cabeça que seus amigos estão salvos, é sua mochila. Não tem como estudar sem ela, e não há explicação de como a perdeu. Yoda nunca comeria tanto.
Aos poucos a movimentação na escola vai aumentando, os professores vão chegando animados, a maioria, assim como os outros funcionários. O zelador é o único que já estava desde a chegada de Tom, limpando a entrada do prédio principal.
Os alunos vão dando vida ao local pouco a pouco. Suzy chega na escola um pouco mais cedo do que o normal. Está pálida. Seu rosto, que era sempre corado e alegre, foi roubado pelos acontecimentos de ontem, e agora está completamente apagado. Ao ver Tom sentado no pátio, um pouco de cor volta aos seus lábios, ela corre até ele sem tirar os olhos do rapaz.
— Tom! Nossa que bom que tu tá bem. Que merda foi aquela? — Sua voz sai tremida, uma mistura de pavor e alívio. Só não sabe dizer em qual proporção.
— Como que eu vou saber? — Responde contente por ela estar ali inteira, possivelmente não deve ter acontecido nada demais com o Rafa, pensa.
— Eu nem consegui dormir direito: aquela rua bizarra, depois aquele estrondo e você agindo todo estranho. — A garota fala se movendo de um lado para o outro e colocando as mãos na cabeça, sem perceber que Tom não entende nada. Obviamente a parte da rua está ciente, mas um estrondo? E agindo estranho? Tinha mais informações ali do que deveria.
— Como assim? Eu só lembro de estar com vocês até ter sentado naquele sofá. Não ouvi nenhum barulho não. Muito menos agir estranho, tava que nem vocês. — Suzy olha para o amigo também confusa. No momento que vai começar a falar, Tom é atingido na barriga por sua mochila que veio voando passando por trás dela.
— Ai! — Reclama quase caindo da onde está sentado. Claro que só a mochila não é o suficiente para machucá-lo, porém ainda está todo ferido. Talvez o impacto da dor fosse maior se Tomás não tivesse notado Rafa se aproximando. Assim como Suzy, ele não parece normal, está abalado, mas tenta manter um sorriso no rosto.
— Mano que loucura ontem! O que foi aquilo tudo? — Rafa senta ao lado de Tom e o cumprimenta com um soquinho no braço. Antes de Tomás poder falar qualquer coisa, Suzy o interrompe.
— Então, ele tá dizendo que não lembra do que aconteceu depois do barulho que ouvimos naquela casa. — Sukimoto olha torto para Tom. — Obviamente não anda bem da cabeça, culpa daquela se achona. — Aproveita para criticar Mandy, mas somente pelo fato de ter visto a ex do amigo chegar na escola, se não isso nem teria passado pela sua cabeça.
— Sério?! — Rafa parece genuinamente surpreso. — Muito estranho isso, tá certo que não aconteceu muita coisa, mas você tem muito que explicar. — Os dois ficam encarando Tomás por alguns segundos. Ele sim está extremamente curioso para saber o que havia se passado, mas os dois não abrem o bico.
— Eu não sei o que aconteceu lá, mas vou dizer o que deu comigo depois que a gente se separou. — Ambos acenam com a cabeça.
Tom explica tudo que havia visto desde que sentou no sofá prateado. O que já foi um ponto de contestação, pois para seus amigos o sofá era um sofá normal de couro preto, muito diferente do que tinha visto. Deixando isso de lado, Tomás explica que viajou pelo espaço até encontrar um estranho palácio dourado, e que no momento que iria começar a explorá-lo ele se viu preso na sala secreta do antigo shopping.
Rafa e Suzy acompanham a explicação concentrados. Caso tivessem ouvido o relato há alguns dias teriam rido da cara do amigo, mas agora as coisas estão um pouco diferentes.
— Muito estranho isso, deve ter sido alguma alucinação. Não tem como ter ido pro espaço e não ter morrido, sei lá. — Rafa tenta por lógica no fantástico, algo que dificilmente dá certo.
— Eu não sei. — Retruca Tom. — Mas agora quero é saber de vocês. O que aconteceu? — Se apoia melhor no banco para ouvir os amigos. Não importa muito em que posição senta, seu corpo dói muito.
— Então… — Começa Suzy. — Logo depois que você sentou naquele sofá, tu parece que ficou meio zumbi, sei lá. Olhando pro vazio agarrando os braços com força, sabe? — Gesticula para imitar o garoto, e muito bem por sinal. Com certeza é uma ótima jogadora de Imagem e Ação.
— Pois é. — Fala Rafa. — Eu até te dei uma sacudida e nada. Mas logo depois começamos a ouvir alguma coisa no quintal da casa, querendo entrar. — Fica mais sério.
— É… Não consegui ver o que era, mas rugia tipo um leão, não sei. Só sei que ele ia detonar a casa toda. — Suzy ainda está meio temerosa com o ocorrido. Se lembrar da situação não é confortável, mas por algum motivo aquilo passa a impressão de ser um sonho. É isso! Só pode ser algum tipo de sonho coletivo.
— E depois? — Pergunta Tom, sem saber como eles saíram daquela situação.
— Era isso que eu queria te perguntar seu tapado, e depois? — Reclama Rafa. — Tenho certeza que a coisa entrou na casa, mas você levantou do sofá, jogou a mochila na minha cara, e depois já estava em casa de noite. Tipo vushxx! — Gesticula tentando fazer como se tivesse sendo teletransportado por um buraco de minhoca.
— Sim, eu vi a mesma coisa. — Diz Suzy. — Assim que a porta da casa caiu você jogou a mochila nele e no mesmo segundo eu tava em casa como se nada tivesse acontecido. Meus pais nem questionaram o que eu tinha feito.
— Verdade. — Concorda Rafa. — Meu pai é meio cabreiro com esse negócio de chegar tarde sem avisar, e ele nem comentou.
— Os meus também não falaram nada. Não acho que seja coincidência. — Antes que consigam terminar a discussão, o sinal para o início das aulas toca e os três combinam de se encontrarem ali no intervalo para continuarem os planejamentos.
Durante todo tempo que os três estão conversando, não percebem que são observados. Dessa vez não é por nenhuma força misteriosa, e sim Mandy, que os mantém sob seu campo de visão entre os vários seguidores que lhe atazanam pela manhã.
Por algum motivo absurdo eles pensam que tem alguma chance com ela, afinal Tom, que não era nada, havia conseguido. Claro que ela sabe disso, não é de agora que vários garotos, e garotas também, a bajulam pensando que podem ter alguma chance, ou ter algum benefício. No entanto, Mandy não dá bola, pelo contrário, são burros de carga e os utilizam sem pena.
A morena de olhos gélidos não admite para si que está irritada com a falta de tristeza de Tomás pelo término do relacionamento. Fere seu orgulho não vê-lo sofrer, afinal ela não é boa o bastante para arrasá-lo não tê-la mais junto? E quanto mais pensa nisso, mais brava fica. E quem sofre com essa frustração são seus seguidores, que recebem cada vez mais tarefas impossíveis de serem realizadas.
Quando o sinal toca, Mandy deseja que eles a carregassem até a sala de aula, como uma princesa do oriente. Mas até a rainha da escola tem limites, e noção do ridículo que isso seria. Sem falar que sem uma estrutura própria para tanto, um deles ia acabar aproveitando a situação para apalpar sua bunda, o que é inaceitável! Então, com toda a preguiça condensada em seu corpo, vai se arrastando até a sala, ouvindo elogios vazios, mas que a preenchem um pouco pelo menos.
As aulas seguem como sempre. Durante os dois primeiros períodos Mandy fica na mesma sala de Tom e Rafa. Claro que oficialmente ela nem se lembrava disso, mas já vinha pensando que essa é a oportunidade perfeita para fazer seu ex finalmente se dar conta do que havia perdido. Simplesmente a melhor coisa que podia ter ocorrido nos seus dias de escola.
Claro que nenhum plano foi elaborado, isso seria pedir demais, só a simples existência dela perto de Tom deveria ser o bastante. Em uma situação normal, talvez sim. Quer dizer, totalmente sim. Veja bem, Mandy, apesar de toda a preguiça, é realmente uma garota exuberante, sem comparações com as outras da escola.
Não há ciência no mundo que justifique uma mulher tão preguiçosa ter um corpo que seja digno de academia sem nenhum ferro sendo puxado. Porém essa é a realidade, Mandy que já havia entrado na puberdade há algum tempo é estonteante, e sabe disso, o que a deixa mais irritada ainda, pois Tom parece não perceber.
Estrategicamente hoje Mandy senta em uma carteira que dá a vista perfeita dela para o ex, esse é o máximo de esforço que faz para que o garoto finalmente lamente o término dos dois. Infelizmente para ela Tomás está com a cabeça longe, literalmente no espaço.
Durante as aulas Tom fica revisitando todas as suas memórias em buscas de pistas sobre o que havia ocorrido. Segundo ele, a visão do palácio dourado foi realmente uma alucinação. No momento que sentou naquele sofá algum tipo de transe deve ter começado. Essa é a única possibilidade, pois seu corpo agiu sozinho como os amigos falaram.
De alguma forma tinha lutado contra a coisa, nada mais justifica seus machucados. Se não fosse isso, teria acordado novamente só todo doído como da primeira vez que apagou. Tom também imagina que a criatura que o atacou foi a mesma que pensou ter visto um pouco antes de pular a cerca viva. Sua única pista e a opção mais óbvia.
O intervalo está quase chegando, faltam somente alguns minutos para os três se encontrarem no pátio. Tom está exausto, seu corpo finalmente tomou consciência dos eventos e custa a funcionar pela falta de uma boa noite de sono e uma alimentação balanceada.
Quando o sinal bate a turma rapidamente sai da sala, mesmo cansado Tomás segue Rafael com a mesma energia do amigo. Suzy já está na mesa esperando os dois.
— Então, o que vamos fazer depois da aula? — Pergunta a garota ao ver a dupla se aproximando. Nenhum deles faz questão de falar baixo ou tentar esconder o assunto. O tema da conversa é tão absurdo que pode passar facilmente por um jogo de RPG ou uma brincadeira idiota qualquer.
— Só tenho uma ideia, voltar até o shopping e dar uma explorada naquela sala. — Tom sabe que fora isso ele não pode fazer nada. Sempre que algo ocorreu eles não tiveram nenhuma participação na ação, só sofreram as consequências.
— Sim. — Começa Rafa pensando em como podem chegar lá rapidamente. — Mas não quero ir a pé. Além de ser muito longe, vai que ficamos presos de novo no meio daquelas casas. — É uma possibilidade, afinal não fazem ideia de como aquilo ocorreu, então nada impede que ocorra novamente.
— Também não quero ir a pé não, ia ser péssimo e demorado. — Bufa Suzy, hoje veio para a escola com um pequeno salto, não dará nem um pouco certo caminhar muito tempo com aquilo.
— Acho que posso pedir pra minha irmã. Talvez ela ajude, mas vai saber. Sem dar um motivo pra gente ir até um lugar abandonado ela pode achar estranho. — Tom tem um bom relacionamento com sua irmã mais velha, isso quando os dois se veem. Mesmo com ela constantemente pegando no seu pé, o garoto não sente hostilidade nenhuma nas brincadeiras da irmã.
— Ah, eu ia gostar de ver a Tizinha. — Fala Suzy com um sorriso no rosto.
— Ela te mata se ouvir isso. Sabe como fica brava com essas coisas.
Tiana, ou Tizinha, como Suzy havia chamado, é muito pequena, tão pequena que a possibilidade dela ser um anão não foi descartada por Tom durante todos esses anos. Diferente do garoto, ela não é nada medíocre, suas notas sempre foram altas, é muito habilidosa em quase tudo que perdia tempo para aprender, sem falar, em sua aparência, que é inversamente proporcional ao seu tamanho.
— Manda uma mensagem pra ela então, se não der certo a gente vê o que faz depois. — Conclui Rafa enquanto se afasta para ir comprar comida.
A vantagem de quase nunca se usar um celular, é que quando você manda uma mensagem para alguém, pode acreditar que aquela pessoa vai achar que é importante. E é justamente isso que pensa Tiana ao receber aquele estranho pedido do irmão. Levar os três num lugar abandonado? Se Tom não fosse tão tapado ela poderia imaginar alguma safadeza com a japa, porém sabe que não é algo tão banal assim.
Tiana sempre foi muito curiosa. E é essa curiosidade que fez suas notas serem tão altas, pois descobrir como as coisas funcionam é o que impulsiona seus estudos. Então ficar interessada na vida patética de seu irmão faz parte de sua personalidade.
Tom fica aliviado por alguns segundos ao ver que sua irmã irá ajudá-los. No entanto, essa empolgação dura pouco, pois Tiana só fará isso se puder participar também do que eles estão aprontando.
Durante todo o intervalo Mandy fez questão de não ficar na área principal do pátio escolar. É lá que Tom e seus amigos discutem qualquer coisa. O motivo dela ficar próxima das quadras esportivas é observar os garotos. Isso é óbvio, nem deveria me dar ao trabalho de explicar.
Essa foi sua justificativa ao sentar em uma mesa ampla que dá visão para uma das quadras poliesportivas do colégio. Vários dos seguidores da garota vão se juntar à ela para passarem o tempo do intervalo próximos de sua rainha. No entanto, logo que April se junta ao grupo, todos imediatamente se levantam dando uma desculpa qualquer e vão fazer outras coisas, deixando Mandy sozinha com a recém chegada.
April é uma menina doce, muito simpática, estudiosa e introvertida. Quase não conversa durante as aulas, seu foco são os estudos. Ela acredita que tem dificuldades para aprender as matérias, então sem muita dedicação não conseguirá acompanhar a classe. Talvez isso fosse verdade há alguns anos, agora já não é nada além de hábito.
Algo importante a ser dito é que Mandy e April são primas. Desde sempre se conhecem e nutrem uma profunda amizade, mesmo que um pouco peculiar. Com toda certeza April é uma das pessoas que Mandy mais respeita, talvez a única fora seus pais e familiares próximos. Porém, durante a escola, elas praticamente não se falam, não pessoalmente pelo menos. As duas passam o dia todo trocando mensagens, acho que essa é a única coisa na qual Mandy não faz corpo mole.
— Tudo bem April? Precisa de alguma coisa? — Olha surpresa para a prima. Sua franja cobre um pouco seus óculos redondos, o que dificulta enxergar seus olhos pequenos.
— Não, não, só queria falar contigo. — Senta ao lado da prima.
— Mas a gente se fala o dia todo. — Diz sorrindo passando a mão nos cabelos cacheados de April. Seus dedos ficam presos em alguns nós, o que tinha certeza que aconteceria, mesmo assim sempre faz isso para provocar a outra.
— Para! — Afasta a mão de Mandy evitando que puxe algum fio. — É que tem coisas que prefiro falar te olhando, é mais engraçado.
— Como assim? — Pergunta curiosa.
— Qual é o seu problema com o Tom, achei que era passado já. Nem sei como durou tanto.
— Você tá louca, já foi, não tenho problema nenhum com ele. — Diz com desdém.
— Ah é? — Ironiza. — Eu reparei em você de manhã puteada com ele. Sem falar ontem também. — Apesar delas não se falarem muito no colégio, April é bem perceptiva, mesmo no seu canto.
— Eu heim, não faço ideia do que tu tá falando. — Sem perceber fica um pouco vermelha. — O T já deu o que tinha que dar, foi bom pegar um qualquer pra saber como é, colocar os parâmetros em suas posições.
— Sim? Isso é o que você diz, mas não é o que parece. Pode falar, o que deu pra ti tá toda irritada com o garoto? — April conhece demais as faces de Mandy para ser enganada assim, não que o que ela tinha dito não tivesse sido verdade em algum momento.
— Aff, você é pior que minha mãe, não deixa passar nada. — A prima sorri, seu sorriso é largo, talvez o maior da escola, e olha que sua boca é até meio pequena. — Quer saber mesmo?
— Claro que sim, foi pra isso que vim até aqui.
— Me irrita que ele não tenha ficado triste. — Fala um pouco desanimada. — Sabe?
— Ah, então foi isso. — Agora é April que parece um pouco desapontada com a resposta, espera mais, talvez alguma intriga interessante.
— É bobagem, eu sei. Mas sei lá, irrita. — Bufa olhando para o céu azul sem nuvens. — Acho que ver ele triste me faria sentir melhor. Não pelo fato dele estar triste. — Começa a se desculpar rapidamente ao perceber que o que disse podia ser entendido de uma forma que não é sua intenção. — Mas seria bom saber que eu faço falta, sabe?
— Pois é, como alguém pode viver e ser feliz depois de ter te perdido. — Ironiza enquanto a abraça. Mandy rapidamente tenta dar um tapa na cabeça da prima, mas ela já acostumada com isso aprendeu há muito tempo como se esquivar.
— Tola. — Sorri. — Mas é ruim, tipo ele parecia contente com tudo, será que era só fachada?
— Te entendo, mas não fica pensando nisso. Como se você não tivesse sido a melhor, por que você é. Ele só deve ser bom em seguir em frente ou esquecer as coisas.
— Talvez…
April segura o braço de Mandy e a puxa para ela se levantar. As duas seguem em direção a cafeteria, afinal sem os seguidores por perto para trazer comida, Mandy ficará com fome. De braços dados e despreocupadas caminham pelo pátio, já havia passado algum tempo desde o início do intervalo, então a cafeteria já deve estar bem vazia.
Ao se aproximarem do pátio central, a primeira pessoa que as duas enxergam é Tomás. Ele está olhando praticamente deprimido para seu celular. Ambas sabem o quão incomum é o garoto utilizando o aparelho. Então podemos considerar normal ambas seguirem o Tom com os olhos.
O ex de Mandy volta até seu grupo e informa que a irmã os levará até o antigo shopping ao sul da cidade. April não sabia que Tom tinha uma irmã, e isso foi o que mais chamou sua atenção naquela conversa, já Mandy sabe da existência de Tiana, então o que achou estranho foi saber que os três vão até aquele antigo prédio caindo aos pedaços.
— Você sabia que ele tinha uma irmã? — April nota que a prima também havia prestado atenção no que o rapaz tinha dito.
— Sim, eu não cheguei a conhecer, mas sei que é bem pequena. — Respondeu sem ligar muito.
O sinal logo toca e todos começam a voltar para suas salas. Tom terá agora uma das aulas que acha mais inútil, geografia. O garoto nunca sentiu vontade de viajar e conhecer o mundo. Sempre acreditou que tudo que precisa está bem perto. E o que não estiver pode ser facilmente adquirido pela internet.
Talvez num futuro seja mesmo possível viver as mais diversas experiências pela rede, com realidade virtual ou aumentada. No entanto, ainda não estamos lá, e Tom só não percebeu ainda como essa visão é limitante.
Tomás senta ao lado de Rafa como de costume. Ele tenta se ajeitar na carteira da melhor forma possível, mas as várias dores em seu corpo tornam essa tarefa desafiadora. Não tem explicação como pode ter ficado tão machucado. Sua luta deve ter sido contra algum tipo de cobra constritora, que esmagou cada canto de seu corpo antes da derrota. Tom se imagina como vitorioso, afinal ele está ali e a cobra não.
A aula demora um pouco mais que o normal para começar. Tom luta para se manter acordado, algo na cadência da fala da professora deve causar algum tipo de efeito hipnótico nos alunos. O garoto termina de copiar a matéria dada quando finalmente perde a batalha contra a pescaria e adormece por alguns instantes.
É o sinal da troca de turno que o desperta. A professora não se importa muito com o aluno dormindo, é normal alguém capotar em sua classe. Ou talvez não tenha reparado, afinal a carteira de Tomás é uma das últimas.
Rafa dá um tapinha no seu ombro e tira sarro da cochilada. Tom normalmente teria dito algo, afinal o amigo também estava quase dormindo. Porém o cansaço bateu pesado nessa aula.
Quando vai fechar seu caderno para pegar o material da próxima matéria, percebe que sua mão ainda está fixa numa posição de escrita de uma frase inacabada. Despreocupado lê o que havia rabiscado, pois não lembra da matéria que tinha copiado segundos atrás. Entretanto fica sem entender bem. A frase que começa normalmente falando das dificuldades de se medir com precisão a área costeira de uma nação, termina com a afirmação sem pé ou cabeça “te encontrarei nos teus s”. A caligrafia é sua, isso não havia dúvidas. É bem possível que não tenha entendido a letra da professora e, meio sonolento, escreveu essa asneira. Mas isso não faz sentido.
Tomás fica ali, olhando por algum tempo, seu caderno aberto, aquilo é mais uma coisa absurda para se colocar na lista de coisas absurdas que estão acontecendo. Despreocupado, fecha o caderno. Não adianta ficar de neura agora, nada pode ser feito. E como já havia dito, ele se sente exausto. Se tivesse a opção de ir direto para casa, iria, porém investigar esses acontecimentos é mais importante. E com certeza não encontraram nada lá e logo vai estar deitado em sua cama confortável.
O restante das aulas fluem sem nada que mereça ser relatado, Tom não consegue mais prestar atenção no conteúdo. Como se tivesse desligado sua cabeça e na sala ficasse somente um corpo vazio.
O sinal do término do dia escolar bate, isso faz ele dar uma despertada. Junto de Rafa, saem para o pátio do colégio onde se encontraram com Suzy para esperar Tiana chegar. A japa não demora nada e logo sai do prédio.
Passa uns dez minutos até os três ficarem praticamente sozinhos na frente da escola. É incrível a velocidade que os alunos fogem desse lugar. Claro que sempre tem os que dependem das famílias para voltarem pra casa, porém, nesse colégio em particular, isso é raro. A maioria ou mora perto e volta a pé para casa, ou utilizam o transporte escolar.
E os três ficam esperando.