Tiana encontra os três quando eles começam a ficar entediados. O grupo já tinha decidido que não adianta esconder a situação dela, então o jeito é contar tudo quando a baixinha tocar no assunto. Mesmo assim, isso é difícil. A situação toda é muito surreal, até eles duvidam do que aconteceu.
A irmã de Tomás para seu carro, um modelo hatch qualquer meio antigo, na mesma vaga que utilizava quando estudava ali. Ao invés de esperar seu irmão e os outros entrarem no carro, ela decide ir até eles. Olhando de longe, não, até de perto também, Tiana parece mais aluna da escola do que os três. Afinal ela é muito pequena, nem chega no ombro de Tom. Além de parecer muito nova, mesmo com 22 anos; é difícil dar mais que uns treze ou catorze.
— Oi pessoal, preparados para uma tarde cheia de emoções? — Diz sorrindo enquanto faz movimentos de loucos de direção.
— Oi Tiana. — Suzy avança e abraça a amiga. — Que saudades.
— Pois é, você não apareceu mais, eu tenho a desculpa de estar ocupada com a faculdade.
— Não é como se eu não tivesse fazendo nada também. — Ri.
Tom e Rafa cumprimentam Tiana com um sorriso. Mesmo morando juntos faz alguns dias que eles não se veem. A chegada dela o deixa meio tenso, está preocupado como reagirá ao ouvir o que estão prestes a despejar nela.
— Então Tom, por que você quer ir lá nesse shopping velho? Preciso de uma boa justificativa, ou então não vai rolar. Não quero levar esporro da mãe depois.
Tomás começa a contar tudo, desde quando entrou o estranho beco, a mansão vazia e todas as alucinações que teve até aquele momento. É possível ver na cara da irmã que não acredita em nada daquilo. Mesmo as confirmações de Suzy e Rafa não parecem fazer efeito em sua expressão. Tudo que pensa é em que drogas eles estão usando.
Claro que isso não é sério, não consegue imaginar os três usando qualquer coisa do tipo, mas não tem como ser verdade. Deve ser alguma brincadeira que estão tramando.
Quando Tom chega aos eventos do shopping que a irmã entende o motivo deles quererem voltar lá.
— Não tem como eu acreditar nisso, vocês sabem o quão ridícula é essa baboseira que me contaram? — Cruza os braços e bufa.
— Pode acreditar, eu sei. — Retruca Tom. — Mas olha isso. — O garoto levanta sua camiseta e mostra os vários hematomas espalhados pelo corpo, sem falar no corte em seu braço. — Eu não ia brincar com uma coisa dessas, tô todo quebrado mesmo!
— Meu deus… — Tiana fica sem palavras, realmente o estado do irmão é lastimável, se alguém tivesse feito isso com ele, um bullying ou algo assim, ele não inventaria uma história dessas. Mesmo que não seja verdade, Tom acredita ser.
— Eu te entendo Ti. — Suzy coloca a mão no ombro da amiga. — Nem eu consigo acreditar, e estava lá. Então, bora? Vamos ver o que dá de descobrir disso tudo.
Tiana só acena com a cabeça e todos entram no carro. Durante o caminho os três contam para a chofer todos os detalhes que deixaram passar anteriormente. Quando finalmente chegam ao estacionamento do antigo shopping, a irmã de Tom já está a par de tudo.
Não é possível entrar com o carro no local, há alguns bloqueios instalados pelos proprietários do imóvel que impedem a utilização do estacionamento. Então o carro fica em um local próximo e eles seguem a pé até onde Tom imagina ser a localização da porta secreta.
Enquanto o grupo atravessa o estacionamento, Tomás olha em volta. O lugar está exatamente como na madrugada, mas essa não é a sensação que tem. Mais cedo o clima ali era muito sombrio, e não só por causa da noite.
O choque de ter acordado ali misteriosamente, deixou cravado nele uma experiência muito diferente da que está tendo agora, andando pelas vagas vazias com sua irmã e seus amigos.
Sem rodeios chegam ao local onde a porta deve estar. Só olhando não tem nada ali além de uma grande parede. Tom lembra que a porta fica entre duas marcas da construção que são decorativas, mas não consegue lembrar qual. Então todos começam a empurrar as paredes do shopping até que Rafa nota algo.
— Achei! — Grita feliz. — Mas ela não abre quando eu empurro. — É possível ver que a parede avançava alguns milímetros quando é feito pressão. O contorno da porta fica evidente contra as decorações da parede, que parecem existir somente para ocultar essa entrada.
— Eu lembro que ela abriu pra fora, não sei se vamos conseguir entrar empurrando. — Ao ouvir a resposta de Tom, Rafa começa a tentar encaixar seus dedos na fresta, para tentar abri-la para fora, mas sem sucesso.
— Eu sei como vamos abrir isso! — Diz Tiana animada. Aquilo tudo pode ser uma grande bobagem, mas já não importa, está se divertindo. — Rafa, corre lá no meu carro e pega no porta malas um pé de cabra. — Joga a chave para o ruivo.
— Porque eu? E porque tem um pé de cabra no teu porta malas? — Pergunta confuso.
— Você é o mais rápido da gente, e eu estou dizendo pra ir oras. — Cruza os braços.
— Meu, que abusada, mas beleza, já volto. — Sai correndo em direção ao carro. — Tom olha para a irmã também curioso, há zero motivos para ela andar com um pé de cabra em seu carro.
— Então, qualé do pé de cabra? — O irmão pergunta levantando os braços.
— Sei lá, tá no carro desde que eu ganhei. O carro é usado lembra? — Justifica.
— Sim, mas nunca pensou em tirar não?
—Ah rá! Se eu tivesse tirado, a gente não tinha como usar agora. — Sorri empinando o nariz.
— Não vem justificar sua preguiça com isso. Mas sim, demos sorte de você ter comprado o carro de um arrombador. — Tiana só faz uma língua para o garoto.
Logo em seguida Rafa volta com o pé de cabra em mãos, ele não é muito grande e talvez fosse mesmo possível abrir a porta com a ferramenta.
Sem fôlego, o ruivo entrega a peça de metal ao amigo que começa a tentar abrir a porta. Suzy e Tiana ficam um pouco afastadas conversando sobre qualquer coisa enquanto olham achando a maior graça o garoto desajeitado tentando arrombar uma passagem secreta.
Tom demora tanto para obter sucesso que Tiana pôde contar praticamente tudo sobre suas aulas na faculdade e listar os garotos que acha interessantes, que não são muitos.
A porta abre em silêncio. É possível ver algumas caixas bloqueando a entrada, mas nada além. Mesmo com a luz do final da tarde entrando no local, ele ainda é muito escuro. Tomás pega seu celular para utilizá-lo como lanterna, os outros rapidamente o acompanham e sem demoras entram na sala secreta.
O local está muito empoeirado, é velho e úmido, tanto que Suzy começa a espirrar. Ficando meio perto da entrada.
No interior há alguns móveis típicos de arquivos. Alguns bem enferrujados, prateleiras também de metal e várias caixas estão por todos os lados. O papelão já murcho e escuro, dá umidade deixa o ambiente com um cheiro de mofo. Não é fedido, mas muito desconfortável.
A sala não é grande, mas as lanternas dos celulares não conseguem iluminar bem o local inteiro. Tom vai até onde lembra ter acordado, bem no centro. Ainda é possível ver a marca que seu corpo deixou no chão, como um boneco de giz numa cena de crime de desenho, mas feita pela falta de poeira.
Os quatro se juntam ao redor da marca no chão, tomados por um desconforto terrível ficam ali parados olhando quietos. Isso por alguns segundos, talvez minutos, difícil dizer. Suzy começa a espirrar, no meio dos atchins joga a luz de sua lanterna em todos os cantos próximos. Por pura sorte inclina sua cabeça para cima, querendo segurar mais um espirro, e o que encontra é bem estranho. Logo acima do local onde está a marca do corpo de Tom, há uma frase escrita, “Vc ta sendo kçado”.
— Você está sendo caçado? — Sukimoto lê em voz alta.
— O que? — Tiana olha para amiga que aponta para o teto.
Ao ver o texto, o coração de Tom pula uma batida. Não é tanto o sentido da frase em si, e sim a caligrafia. O garoto tem certeza que é a sua letra.
Mesmo em meio a surpresa, duas coisas vêm em sua mente, primeiro como, e segundo com o que. O local não tem um pé direito alto e seria possível, com os móveis da sala, se apoiar e escrever ali, porém o chão sem marcas deixa bem claro que isso não aconteceu. E com o que escreveu? Não estava com sua mochila, nem com qualquer coisa que desse de ser utilizada, talvez algum item da própria sala? Se esse for o caso, ainda deve estar por ali.
— É sua letra, não é Tom? — Rafa já conhece bem o amigo para saber disso, Tomás só confirma com a cabeça.
— E o que quer dizer com sendo caçado? Será que o bicho, coisa, sei lá, que tentou entrar na mansão está atrás da gente? — Na mansão Suzy sentiu mesmo como uma presa sendo encurralada, então pensar que alguma coisa está atrás deles não é algo impossível de imaginar.
— Seu chute é tão bom quanto qualquer outro. — Rafa segue até um dos arquivos e começa a empurrá-lo para próximo do texto, o objeto é mais pesado do que parece.
— Gente, tem muita coisa que não dá de entender aqui. — Fala Tiana enquanto olha Rafa subir no móvel para alcançar o texto no teto.
— Sério? — Ironiza Suzy.
— Sério sua tola. — Ri. — Tirando toda essa bobagem sobrenatural que vocês estão falando, olhem essa sala, ela está aqui. — Aponta para o chão. — De verdade. E por qual motivo? Por que um shopping velho desses teria uma sala secreta?
— A gente está chamando essa sala de secreta por causa da porta, mas podia ser um arquivo normal. Não é incomum alguns lugares esconderem saídas e entradas do público em geral. — Rafa passa o dedo pela frase no teto, não dá para saber bem com o que foi escrito, está seco e é meio marrom.
— Não sei, não me convenceu. E com o que foi escrito isso aí? Tom não tinha dito que estava sem nada, não tinha como ter feito isso.
— Parece sangue pela cor, ele fica marrom quando seco. Mas com certeza não foi escrito com o dedo nem nada assim. Não sei. — Rafa desce do móvel, ele, que é mais alto que Tom, mal conseguiu tocar no teto, seu amigo não teria condições de escrever aquilo.
— Acho que não deve ter mais nada por aqui. Não sei vocês, mas por hoje quero só voltar pra casa e descansar. — Tom está visivelmente tenso, como nunca havia ficado antes.
— Certo, vamos voltar então, eu deixo vocês em casa.
…
Mandy está parada dentro de seu carro, que foi posicionado do lado oposto à entrada do estacionamento do antigo shopping. Tendo uma vista quase perfeita de onde seus colegas de classe estão. Ela ainda não sabe bem o que foi fazer ali. Quer dizer, sabe muito bem, veio espiá-los. Trouxe até uma câmera fotográfica profissional para poder utilizar o seu zoom.
A verdadeira dúvida é o motivo que a fez ter todo esse trabalho. Seu motorista, que não ficou feliz com essa movimentação. Quando achou que ia ser liberado após levar Mandy para casa, descobriu que teria que ficar de tocaia com a garota, hora extra pelo menos.
A ex de Tom chega um pouco depois de Rafa ter pego o pé de cabra. Inclusive vê o ruivo correndo com a ferramenta de volta para o estacionamento. Essa cena já é o bastante para despertar sua curiosidade, afinal não é algo normal. Eles com certeza, vão arrombar alguma coisa.
Com o zoom da câmera consegue ver, mais ou menos, o que o grupo está fazendo, e não faz nenhum sentido. Tom usa o pé de cabra em uma parede, uma parede sem nada. Então a porta secreta começa a se mexer revelando uma passagem. Mandy fica de queixo caído em puro espanto. Automaticamente seu dedo começa a tirar várias e várias fotos. Não sabe ainda o que vai fazer com elas, mas serão úteis.
O grupo fica dentro do local talvez por meia-hora, durante esse tempo Mandy manda algumas das fotos para April, porém a prima não as visualiza. Ela normalmente faz as lições quando chega em casa, deve ser isso.
O grupo finalmente sai do estacionamento, todos parecem preocupados. Sem muita conversa entram no pequeno carro de Tiana e vão embora. Mandy está se coçando para pular do carro e ir até o local que estavam para ver o que tinham feito. Então logo que o grupo sai de vista, ela começa sua investida.
— Vamos, Ricardo! — Fala ao sair do carro, mal olha para os lados ao atravessar a rua. O local não é movimentado, mas mesmo assim é importante.
— O que? Seu pai só me paga pra dirigir. — Mal tira os olhos do celular, via nas redes sociais algumas belas vistas.
— Sim, e se der alguma coisa comigo você acha que vai sobrar pra quem? — Precisa gritar, afinal já está dentro do estacionamento.
— Droga! — Ricardo não precisa pensar duas vezes, sai do carro rapidamente e vai acompanhar sua passageira mimada.
Mandy chega até a parede e não vê nada de estranho, parece só uma parede, porém ao observar de perto dá para ver que a construção está um pouco para fora. Por sorte, Tom e seus amigos não haviam fechado a porta direito. Ela nem precisa de um pé de cabra para entrar no local.
Não há nada de diferente na sala, está do mesmo jeito que o grupo deixou. Assim como eles, Mandy utiliza seu celular para olhar em volta. Nada ali justifica a incursão de Tom, a maioria das caixas estão vazias, assim como os arquivos.
Ricardo, ao passar pelo móvel que foi utilizado por Rafa para verificar a escrita, comenta com a garota que alguém subiu ali, e quase imediatamente ambos olham para o teto, descobrindo a frase que havia chocado tanto Tom.
— Pra que vir até aqui pra pichar o teto? Ainda escreve tudo errado. — Questiona Ricardo enquanto começa a ir para a saída.
— Não sei. — Mandy bate algumas fotos e depois segue seu motorista de volta para o carro.
A garota sabe que eles não tinham pichado a sala, primeiro que nenhum deles havia entrado ali com mochilas, tudo tinha ficado no carro. Então só se tirassem da bunda uma lata de tinta. Segundo que ela conhece o grupo, sabe que não fariam isso. No entanto, a letra no teto é de Tom. Já tinha copiado várias tarefas dele durante o namoro, não tem como confundir.
“Você está sendo caçado” o que isso podia ser? e para quem? Se Tomás escreveu, quem deveria ser o destinatário? E por que ali, dentre todos os lugares?
Uma coisa Mandy sabe, foi bom ter terminado com ele, pois não quer se meter em qualquer coisa que esteja acontecendo ali.