O som do despertador acorda Tom. Ele está em seu quarto. O sol já entra pelas frestas da cortina e bate em seu rosto. Apavorado olha para o seu corpo, tudo parece normal. Vai até o espelho do banheiro com pressa e observa seu reflexo. O velho Tom, o mesmo de sempre, e só com dois braços, incrível. Aquilo não foi um sonho, não tinha como ser. Lembra de tudo, dos detalhes, dos cheiros e gostos. Será que realmente foi para outro mundo?
Já vestido e pronto para a escola, desce para o café. Como sempre, sua mãe está preparando tudo na cozinha, mas a mesa já está posta, com o cheiro doce do bolo recém-feito recepcionando o garoto.
Tom senta em seu lugar habitual e pega uma fatia do bolo. Sua mãe se vira para cumprimentá-lo, mas não o faz, fica pensando de boca aberta antes de dizer qualquer coisa. Seu filho está mudado. No entanto, discernir o que passa essa impressão é difícil.
— Tom bom dia. Você penteou o cabelo diferente hoje? — Não, não é isso.
— Bom dia mãe. Não mudei nada, tudo como sempre. Da onde que vou perder tempo arrumando o cabelo de outro jeito, ele não fica. — Começa a comer.
Ela nunca encontrará resposta, mas o filho está mesmo diferente. Uma mudança impossível de ser vista, ou deduzida, afinal hoje Tom está abençoado.
— Mãe. — Começa a falar. O mago havia dito algo estranho sobre ele só estar vivo por sua causa, e que seus pais tinham a resposta.
— Sim filho?
— Quando eu era pequeno, ou coisa assim, eu quase morri? — Ela olha para ele confusa,
— Claro que não, dá onde você tirou essa bobagem.
— Não sei, tive um sonho estranho e fiquei curioso. — O que é verdade.
— Mas claro que não filho, a gente sempre cuidou muito bem de você, afinal você foi nosso milagre, nunca que eu ia deixar algo acontecer contigo.
— Como assim? — Tom sente que há algo além.
— Acho que nunca comentei, mas depois de ter a Tiana, achava que não conseguiria engravidar novamente. Tive algo chamado síndrome de Ash…Asherman. Então foi um verdadeiro milagre você estar aqui.
— Vocês nunca tinham dito nada disso não… — Seu pai entra na cozinha e, após bagunçar o cabelo de Tom, abraça sua esposa e senta para o café.
Logo que termina de comer, o garoto pega suas coisas e sai em direção a escola. Algumas de suas dúvidas foram respondidas, porém muita coisa ainda está envolta numa névoa grossa.
Tomás não sabe o que está lhe caçando ou o porquê. Imagina que deve ter relação ao mago parasitado em sua cabeça. Também não sabe a relação dos lugares misteriosos com o seu gêmeo malvado. O estranho beco, a mansão e a sala secreta no shopping, qual a ligação entre eles? Espera que, com o tempo, isso seja respondido. O importante é tentar arrancar mais informações de sua própria mente.
Rafa se junta a ele no caminho para a escola, o ruivo nota o efeito da benção no amigo, mas prefere não comentar nada. Não é do feitio dos garotos ficarem falando da aparência uns dos outros. A menos, é claro, que seja para ridicularizá-los na zoação.
Tom também acha melhor não comentar nada até estarem com Suzy, assim não terá que ficar se repetindo. Algo que não gosta nem um pouco.
Rapidamente chegam ao colégio, que já está movimentado, com os alunos entrando em preparação à aula que logo começará.
Mandy está no seu canto de sempre, ouvindo as conversas de seus seguidores e sendo bajulada como deve ser. Quando o ex, Tom (só para lembrar), chega, ela tenta evitar olhá-lo, mas há algo no rapaz que a atrai. Não consegue nem disfarçar. Tomás parece brilhar, não fisicamente.
Sem pensar duas vezes, a garota deixa para trás seus colegas e caminha até Tom e Rafa que já estão subindo as escadas da entrada do colégio.
— Tom! — O chama, já um pouco sem fôlego. Correr, ou andar rápido, não é seu forte.
— Mandy, bom dia. Tudo bem? — Pergunta um pouco preocupado. Tinha suas dúvidas se ela falaria com ele novamente tão cedo.
— Bom dia. — Respira fundo para recuperar o fôlego. — Tudo bem sim. Só queria dizer que se você tiver com algum problema, pode contar comigo. Nós ainda somos amigos, não somos? — Seu sorriso é um misto de fingimento de autoconfiança e vergonha.
— Claro Mandy. — Responde surpreso. — Obrigado. Se eu precisar de ajuda pode deixar que eu falo. — Aquilo não é normal, alguma coisa está errada com ela. Tom só acha isso, já Rafa tem certeza.
— Certo, a gente se vê na aula. — Se vira e volta para seu grupinho, torcendo para não ter ficado vermelha. O que foi isso? Nem ela sabe.
Mandy pega sua mochila sob os olhares pasmos de seus seguidores. Num dia normal isso teria sido realmente o acontecimento do ano, mas hoje todos conseguem entender a reação da rainha da escola. Tom emana uma aura distinta, inexplicável.
Mesmo assim, Mandy fica se maldizendo por muito tempo. Não quer mais se envolver com ele. Afinal, não esqueceu da cena bizarra que viu dentro do shopping, porém nunca havia sido impulsiva assim anteriormente, agindo sem pensar desse jeito. E agora não tem mais volta. Se o ex a procurar por qualquer motivo, irá ajudá-lo, pois sua palavra não é descartável para ser ignorada.
Tom e Rafa só se olham engraçado, não esperavam algo assim de Mandy. Logo que entram no pátio interno já deparam com Suzy. Com os três reunidos começa a discussão sobre os próximos passos.
— Bom dia pessoal. Tom, que bom que você tá com uma cara melhor. Ontem parecia que tu tinha virado o parafuso. — Suzy comenta enquanto senta em um dos bancos do pátio central. Ela também nota algo distinto no amigo. Seu rosto inclusive fica corado, mas não o suficiente para que os dois tapados notem.
— Sim, muita coisa aconteceu, e preciso falar com vocês. — Tom também senta em um dos bancos.
— Como assim muita coisa aconteceu? De ontem pra hoje não tem como muita coisa acontecer não. — Rafa incrédulo.
— Vou tentar resumir tudo antes da aula começar…
Tomás tenta explicar da melhor maneira tudo que ocorreu em seu sonho, desde o mago até sua exploração por Bush’Kar. Se os dois não tivessem passado pelas bizarrices dos últimos dias, o garoto teria sido jogado num asilo.
Ambos acompanham a narrativa com atenção, tentando ligar as novas informações aos eventos passados.
O sinal toca um pouco antes de Tom terminar seu relato. Eles terão que discutir no intervalo. Suzy se despede e segue sozinha para sua sala, enquanto os dois vão em direção à pista de atletismo. Hoje a primeira aula é educação física.
Após uma rápida chamada e um aquecimento, o professor coloca a turma para correr ao redor da quadra até o término da aula. Esse é o primeiro treino dos alunos para uma pequena maratona beneficente que ocorrerá daqui a algumas semanas.
A maioria deles só caminha, mas Rafa, sempre empolgado, tenta convencer Tomás a gastar mais energia.
— Bora Tom, vamos ver até onde a gente aguenta.
— Sério isso? Depois vou ter que tomar banho no vestiário, um saco.
— Deixa de frescura, você precisa melhorar seu físico, vai que vamos precisar sair correndo de algum bicho bizarro ou coisa assim. — O ruivo tem um bom ponto, pois se ambos estiverem fugindo, Tom será devorado primeiro. Não que Tom seja sedentário, mas Rafa é muito mais atlético.
— Ah, tá bom, vamos. — Reclama, mas concorda enquanto começa a acelerar o passo.
A aula segue e os dois garotos ficam conversando durante o treino. Tomás entra em mais detalhes sobre o outro mundo, e em como a cidade parece viva.
Sem perceber, Tom consegue acompanhar o ritmo de Rafa. Somente quando o amigo o elogia que cai a ficha.
Depois de tomar o banho que não queria, o rapaz fica parado em frente ao armário escolar olhando suas pernas. Deveria estar cansado, mas não está. Nesse tempo nota um brilho sutil em seu braço. Não consegue focar na fonte, sempre sumindo, mas a sensação que tem é que jogaram purpurina dourada nele.
Ao questionar Rafa sobre isso, o amigo afirma não ter nada em seus braços. Provavelmente é a luz refletida em alguma parte que não foi bem seca. Mas não é isso. De alguma forma a bênção de Kar o seguiu do outro mundo.
Durante as aulas seguintes, Tom consegue acompanhar o conteúdo e chegar nas respostas dos problemas com mais facilidade. Seu cérebro está ligado no modo performance de atuação, e quem mudou essa chave foi Kar.
A euforia que sentiu quando foi abençoado, agora parece um sonho, não sente nenhuma emoção com relação à divindade, porém se continuar a ter esse desempenho isso até pode mudar. Pelo menos, é o que pensa enquanto responde as questões de matemática.
No fundo, Tomás não tem tanta certeza disso. O quanto dessa súbita clareza é realmente a bênção da divindade atuando, ou o conhecimento do seu inquilino feiticeiro, que começa a permear sua mente. Indiferente da resposta, está aproveitando.
Então essa é a sensação de ser realmente bom em alguma coisa.
A última aula antes do intervalo é de física, e o professor entra na sala pontualmente, assim que o sinal termina de tocar. Nesse dia específico o docente não quer ter muito trabalho. Sua cabeça está presa em um livro que anda lendo. Então decide usar a aula para corrigir as atividades, assim em casa poderá ler com calma.
Sem demora a atividade começa a ser exposta no quadro, são várias questões que culminam na clássica pergunta sobre trens saindo de cidades distintas, onde e quando vão se encontrar. O professor espera que a última questão deixe os alunos ocupados até o sinal tocar novamente. Descobrir o horário do cruzamento deve ser fácil; o complicado será o local. Na realidade não espera que nenhum dos alunos chegue na resposta certa.
Após escrever todas as questões no quadro ele senta em sua mesa e começa a corrigir as atividades pendentes.
Todos ficam quietos realizando as atividades. Tom já havia estudado essa matéria, e com muito custo aprendeu as fórmulas, tudo na base da decoreba. Enquanto realiza os cálculos necessários passa a compreender o motivo das contas serem construídas e elaboradas daquele jeito. Tudo está mais claro.
O garoto já tinha o conhecimento, só não havia notado. Sem demora começa a fazer a última questão.
“Um trem parte de Nova York às 12h00, viajando a 100 km/h em direção a Filadélfia. Ao mesmo tempo, outro trem parte de Filadélfia às 13:00, viajando a 120 km/h em direção a Nova York. A distância entre Nova York e Filadélfia é de 150 km. A que horas os trens se encontram e em qual local?”
Tom fica olhando para questão por um tempo, seu pensamento é como a pergunta é ridícula. Não pela complexidade, mas pelo problema em si. Parece que o professor viu algum filme antigo de escola e resolveu fazer o mesmo. Cálculos com precisão enfadonha. A empolgação de saber realizar os problemas sumiu, agora só são chatos como sempre.
Depois de achar a resposta do horário que os trens se cruzam, 13h13, o garoto abre um mapa em sua agenda escolar para tentar localizar o local. Considerando somente a distância percorrida, chega na resposta, Princeton, Nova Jersey, que provavelmente está certo. E se não estiver também que se dane.
Tomás é o único que parece ter terminado. Rafa está fazendo as questões num bom ritmo, e ao perceber o garoto olhando em volta, acha que o amigo só está vadiando.
Para evitar chamar muita atenção Tom fica quieto na sua cadeira. Começa a rever, em sua mente, as ruas de Bush’Kar e Trat. Como tudo tinha sido surreal e divertido. Lembra de como lhe foi ensinado o encanto e a sensação da energia mágica formigando no corpo.
Será mesmo que é possível fazer feitiços de verdade?
De olhos fechados, o garoto começa a imaginar uma linha saindo de sua mão, passando pela sala, correndo sob a porta, indo pelo corredor, e seguindo pelas escadas até o segundo andar quando finalmente entra na sala de Suzy. Assim que visualiza a amiga, sente-se mesmo conectado à ela, além de ter seu corpo tomado por uma pressão avassaladora.
A energia mágica à sua volta não o toca sutilmente, ela exerce a força de um oceano inteiro sobre seus ossos, e dói demais. Rapidamente Tom pensa em algo para concluir o encanto, o que vem em mente é sua amiga lhe dando um refrigerante. E com isso volta ao normal. A pressão externa some, porém seu corpo inteiro arde de dor, principalmente a mão da linha imaginária, que apresenta alguns cortes nas pontas dos dedos.
O sinal para o final da aula toca, todos deixam com o professor as questões respondidas e seguem para o intervalo. A folha de Tom está com algumas gotas de sangue, pois não conseguiu estancar os cortes em tempo.
— Tudo bem, Tom? — Pergunta o professor apontando para as manchas vermelhas.
— Tudo sim, só foi um corte no papel, mas já tá fechando.
— Certo, mas se precisar vai pra enfermaria, não fica andando assim por aí.
— Pode deixar.
Os amigos saem da sala e seguem para o pátio onde ficaram no início do dia, quando inesperadamente Tomás é empurrado por trás e quase cai no chão.
— Toma seu refrigerante, idiota! — Suzy está possessa, eles nunca a tinham visto assim.
— Orra! Que que deu? — Rafa dá um passo para trás, não queria que essa fúria sobrasse pra ele.
— Desculpa, pelo menos parece que deu certo. — Tom se desculpa com um sorriso sem graça estampado na cara.
— Desculpa você vai ver só, eu quase me mijei de susto! — Dá um chute na perna do garoto enquanto ele se ajeita. — O que tu fez exatamente? — Começa a caminhar para que os dois a acompanhem até os bancos do pátio.
— Eu fiz como no meu sonho, não sabia que ia funcionar. — Senta abrindo a latinha. Sem perceber seu erro um jato de soda atinge seu rosto.
— Bem feito, pra aprender não fazer essas coisas de novo. — Suzy finalmente se acalma. Rafa não fala nada, só gargalha da cara encharcada do amigo.
— Pá… — Começa a se secar. — Não vou reclamar, tô vendo que mereci. — Usa sua camisa para limpar o rosto, infelizmente ele não tem outra sobrando.
— E mereceu mesmo. — Pega o refrigerante do banco e toma um gole enquanto Tom se limpa. — Foi muito estranho.
— Como foi exatamente? — Questiona Rafa.
— Sei lá. Tava olhando a aula normal, depois eu não enxergo absolutamente nada, e na minha mente vem a voz desse idiota gritando pedindo um refrigerante. Saltei da cadeira que nem uma tola acordando de um daqueles sonhos que você tá caindo. Riram pouco da minha cara. — Dá um soquinho no ombro do amigo, um soquinho que doeu.
— Desculpa mesmo, não fazia ideia que seria assim. Quando fiz a primeira vez foi diferente. — Toma um gole do refrigerante, sua mão e seu corpo começam a doer ainda mais.
— Mesmo tendo passado por tudo isso nos últimos dias, é difícil de acreditar. — Rafa queria ter visto com seus olhos as coisas que seu amigo relatou.
— Pois é, mas ainda não descobrimos o que tá atrás de mim, e eu entendo se vocês quiserem deixar isso pra lá. Não quero por ninguém em risco.
— Agora é tarde, estamos nisso com você. — Tranquiliza Suzy.
— Se eu soubesse o motivo, já ajudaria, não dá pra fazer muita coisa sem informação nenhuma.
— O mano lá não disse que vocês iam conversar de novo? Tenta tirar alguma informação dele. Se ele viu tudo que você viu, deve saber o que tá rolando. — Começa a se levantar. — Já volto.
Rafa vai correndo até a cantina do colégio. Agora já não tem tanta gente morrendo de fome, e quase se matando no processo, para comprar o lanche. O treino de corrida havia deixado ambos com muita fome, mas Tom não se deu conta.
— Eu não acho que ele vai dizer alguma coisa, esse “mago” — e faz as aspas com as mãos — parece muito idiota.
— Pelo que você falou não é a primeira vez que ele faz esse tipo de coisa, e eu imagino que um mago deve viver mais tempo que uma pessoa normal, então o cara deve ser velho pra caramba. Gente velha não tem paciência pras mesmas perguntas sempre. — Uma das avós de Suzy já está batendo no centenário, e ela não tem paciência alguma, daí sua opinião.
— Talvez. Mas é tudo muito estranho.
— Não diga. — Debocha.
Enquanto os amigos conversam, April lê um livro em uma das mesas há alguns metros deles. Ela não consegue ouvir o que dizem, e nem está interessada nisso, porém seus olhos recaem sobre Tom a cada virada de página.
Aquele garoto nunca foi interessante para ela. Em defesa dele, quase nenhum garoto é. Porém, hoje, o ex de sua prima tem algo diferente, algo que a fez entender o motivo de Mandy ter ficado com Tomás. April fica tentando descobrir o que é esse “algo” que a fez parar de ler. Essa dúvida paira sobre ela durante o resto do intervalo. Nada nele é diferente do usual.
Quando o sinal finalmente toca é que April percebe. A atitude dele havia mudado. Por algum motivo Tom está mais confiante, ou pelo menos é o que acha. Afinal se ele conseguiu ficar com Mandy, então não podia ser pouca coisa, e deveria se valorizar mais. Essa é sua conclusão: Tomás finalmente havia saído do poço e agora se acha um matador.
Durante o mesmo intervalo, Mandy evita ir para o pátio. Ela sabe que sua reação mais cedo não era dela. Então, para evitar qualquer constrangimento futuro, fica perto das quadras, como costuma fazer.
Seus colegas conversam sobre coisas da escola, mas a garota não presta atenção. Com seu celular, fica mandando mensagens para April, porém a prima não responde. O que não é tão incomum.
Mandy não percebe que alguém, ou melhor, alguma coisa a observa de longe.